2012

Que as famílias cristãs vivam o mesmo amor e alegria da família de Jesus, Maria e José: Bento XVI no domingo da Sagrada Família
 
Neste domingo, festa da Sagrada Família de Nazaré, Bento XVI convidou a rezar por todas as famílias do mundo e por todas as crianças, para que sejam acolhidas como dom de Deus.
Na habitual alocução do meio-dia, da janela do seu apartamento sobre a praça de São Pedro, o Papa evocou o texto do Evangelho proclamado na missa deste domingo, que evoca o episódio da perda e encontro do Menino Jesus no templo de Jerusalém. A Maria e José que lhe pedem explicações, quando o reencontram após três dias de busca ansiosa, Jesus responde que não se devem surpreender, porque aquele é o seu lugar, a sua casa, junto do Pai, que é Deus.

A preocupação de Maria e José por Jesus é a mesma de todos os pais que educam um filho, introduzindo-o na vida e na compreensão da realidade. É portanto um dever rezar hoje especialmente ao Senhor por todas as famílias do mundo…
“Imitando a sagrada Família de Nazaré, que os pais se preocupem seriamente com o crescimento e educação dos filhos, para que maturem como homens responsáveis e cidadãos honestos, sem nunca esquecer que a fé é um dom precioso a alimentar nos próprios filhos também com o exemplo pessoal.
Rezemos também para que cada criança seja acolhida como dom de Deus, apoiado pelo amor do pai e da mãe, para poderem crescer como o Senhor Jesus, em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens”.

A concluir, Bento XVI propôs ainda a todos os esposos cristãos o exemplo de “amor, fidelidade e dedicação” de Maria e José em relação a Jesus.    “Faço votos de que todas as famílias cristãs vivam no presença de Deus como o mesmo amor e a mesma alegria da família de Jesus, Maria e José”.



Homilia do Papa Bento XVI na "Missa Do Galo"

Amados irmãos e irmãs!
A beleza deste Evangelho não cessa de tocar o nosso coração: uma beleza que é esplendor da verdade. Não cessa de nos comover o facto de Deus Se ter feito menino, para que nós pudéssemos amá-Lo, para que ousássemos amá-Lo, e, como menino, Se coloca confiadamente nas nossas mãos. Como se dissesse: Sei que o meu esplendor te assusta, que à vista da minha grandeza procuras impor-te a ti mesmo. Por isso venho a ti como menino, para que Me possas acolher e amar.
Sempre de novo me toca também a palavra do evangelista, dita quase de fugida, segundo a qual não havia lugar para eles na hospedaria. Inevitavelmente se põe a questão de saber como reagiria eu, se Maria e José batessem à minha porta. Haveria lugar para eles? E recordamos então que esta notícia, aparentemente casual, da falta de lugar na hospedaria que obriga a Sagrada Família a ir para o estábulo, foi aprofundada e referida na sua essência pelo evangelista João nestes termos: «Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram» (Jo 1, 11). Deste modo, a grande questão moral sobre o modo como nos comportamos com os prófugos, os refugiados, os imigrantes ganha um sentido ainda mais fundamental: Temos verdadeiramente lugar para Deus, quando Ele tenta entrar em nós? Temos tempo e espaço para Ele? Porventura não é ao próprio Deus que rejeitamos? Isto começa pelo facto de não termos tempo para Ele. Quanto mais rapidamente nos podemos mover, quanto mais eficazes se tornam os meios que nos fazem poupar tempo, tanto menos tempo temos disponível. E Deus? O que diz respeito a Ele nunca parece uma questão urgente. O nosso tempo já está completamente preenchido.
Mas vejamos o caso ainda mais em profundidade. Deus tem verdadeiramente um lugar no nosso pensamento? A metodologia do nosso pensamento está configurada de modo que, no fundo, Ele não deva existir. Mesmo quando parece bater à porta do nosso pensamento, temos de arranjar qualquer raciocínio para O afastar; o pensamento, para ser considerado «sério», deve ser configurado de modo que a «hipótese Deus» se torne supérflua. E também nos nossos sentimentos e vontade não há espaço para Ele. Queremo-nos a nós mesmos, queremos as coisas que se conseguem tocar, a felicidade que se pode experimentar, o sucesso dos nossos projectos pessoais e das nossas intenções. Estamos completamente «cheios» de nós mesmos, de tal modo que não resta qualquer espaço para Deus. E por isso não há espaço sequer para os outros, para as crianças, para os pobres, para os estrangeiros. A partir duma frase simples como esta sobre o lugar inexistente na hospedaria, podemos dar-nos conta da grande necessidade que há desta exortação de São Paulo: «Transformai-vos pela renovação da vossa mente» (Rm 12, 2). Paulo fala da renovação, da abertura do nosso intelecto (nous); fala, em geral, do modo como vemos o mundo e a nós mesmos. A conversão, de que temos necessidade, deve chegar verdadeiramente até às profundezas da nossa relação com a realidade. Peçamos ao Senhor para que nos tornemos vigilantes quanto à sua presença, para que ouçamos como Ele bate, de modo suave mas insistente, à porta do nosso ser e da nossa vontade. Peçamos para que se crie, no nosso íntimo, um espaço para Ele e possamos, deste modo, reconhecê-Lo também naqueles sob cujas vestes vem ter connosco: nas crianças, nos doentes e abandonados, nos marginalizados e pobres deste mundo.

Na narração do Natal, há ainda outro ponto que gostava de reflectir juntamente convosco: o hino de louvor que os anjos entoam depois de anunciar o Salvador recém-nascido: «Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens do seu agrado». Deus é glorioso. Deus é pura luz, esplendor da verdade e do amor. Ele é bom. É o verdadeiro bem, o bem por excelência. Os anjos que O rodeiam transmitem, primeiro, a pura e simples alegria pela percepção da glória de Deus. O seu canto é uma irradiação da alegria que os inunda. Nas suas palavras, sentimos, por assim dizer, algo dos sons melodiosos do céu. No canto, não está subjacente qualquer pergunta sobre a finalidade; há simplesmente o facto de transbordarem da felicidade que deriva da percepção do puro esplendor da verdade e do amor de Deus. Queremos deixar-nos tocar por esta alegria: existe a verdade; existe a pura bondade; existe a luz pura. Deus é bom; Ele é o poder supremo que está acima de todos os poderes. Nesta noite, deveremos simplesmente alegrar-nos por este facto, juntamente com os anjos e os pastores.
E, com a glória de Deus nas alturas, está relacionada a paz na terra entre os homens. Onde não se dá glória a Deus, onde Ele é esquecido ou até mesmo negado, também não há paz. Hoje, porém, há correntes generalizadas de pensamento que afirmam o contrário: as religiões, mormente o monoteísmo, seriam a causa da violência e das guerras no mundo; primeiro seria preciso libertar a humanidade das religiões, para se criar então a paz; o monoteísmo, a fé no único Deus, seria prepotência, causa de intolerância, porque pretenderia, fundamentado na sua própria natureza, impor-se a todos com a pretensão da verdade única. É verdade que, na história, o monoteísmo serviu de pretexto para a intolerância e a violência. É verdade que uma religião pode adoecer e chegar a contrapor-se à sua natureza mais profunda, quando o homem pensa que deve ele mesmo deitar mão à causa de Deus, fazendo assim de Deus uma sua propriedade privada. Contra estas deturpações do sagrado, devemos estar vigilantes.
Se é incontestável algum mau uso da religião na história, não é verdade que o «não» a Deus restabeleceria a paz. Se a luz de Deus se apaga, apaga-se também a dignidade divina do homem. Então, este deixa de ser a imagem de Deus, que devemos honrar em todos e cada um, no fraco, no estrangeiro, no pobre. Então deixamos de ser, todos, irmãos e irmãs, filhos do único Pai que, a partir do Pai, se encontram interligados uns aos outros. Os tipos de violência arrogante que aparecem então com o homem a desprezar e a esmagar o homem, vimo-los, em toda a sua crueldade, no século passado. Só quando a luz de Deus brilha sobre o homem e no homem, só quando cada homem é querido, conhecido e amado por Deus, só então, por mais miserável que seja a sua situação, a sua dignidade é inviolável. Na Noite Santa, o próprio Deus Se fez homem, como anunciara o profeta Isaías: o menino nascido aqui é «Emmanuel – Deus-connosco» (cf. Is 7, 14). E verdadeiramente, no decurso de todos estes séculos, não houve apenas casos de mau uso da religião; mas, da fé no Deus que Se fez homem, nunca cessou de brotar forças de reconciliação e magnanimidade. Na escuridão do pecado e da violência, esta fé fez entrar um raio luminoso de paz e bondade que continua a brilhar.

Assim, Cristo é a nossa paz e anunciou a paz àqueles que estavam longe e àqueles que estavam perto (cf. Ef 2, 14.17). Quanto não deveremos nós suplicar-Lhe nesta hora! Sim, Senhor, anunciai a paz também hoje a nós, tanto aos que estão longe como aos que estão perto. Fazei que também hoje das espadas se forjem foices (cf. Is 2, 4), que, em vez dos armamentos para a guerra, apareçam ajudas para os enfermos. Iluminai a quantos acreditam que devem praticar violência em vosso nome, para que aprendam a compreender o absurdo da violência e a reconhecer o vosso verdadeiro rosto. Ajudai a tornarmo-nos homens «do vosso agrado»: homens segundo a vossa imagem e, por conseguinte, homens de paz.
Logo que os anjos se afastaram, os pastores disseram uns para os outros: Coragem! Vamos até lá, a Belém, e vejamos esta palavra que nos foi mandada (cf. Lc 2, 15). Os pastores puseram-se apressadamente a caminho para Belém – diz-nos o evangelista (cf. 2, 16). Uma curiosidade santa os impelia, desejosos de verem numa manjedoura este menino, de quem o anjo tinha dito que era o Salvador, o Messias, o Senhor. A grande alegria, de que o próprio anjo falara, apoderara-se dos seus corações e dava-lhes asas.
Vamos até lá, a Belém: diz-nos hoje a liturgia da Igreja. Trans-eamus – lê-se na Bíblia latina – «atravessar», ir até lá, ousar o passo que vai mais além, que faz a «travessia», saindo dos nossos hábitos de pensamento e de vida e ultrapassando o mundo meramente material para chegarmos ao essencial, ao além, rumo àquele Deus que, por sua vez, viera ao lado de cá, para nós. Queremos pedir ao Senhor que nos dê a capacidade de ultrapassar os nossos limites, o nosso mundo; que nos ajude a encontrá-Lo, sobretudo no momento em que Ele mesmo, na Santa Eucaristia, Se coloca nas nossas mãos e no nosso coração.
Vamos até lá, a Belém! Ao dizermos estas palavras uns aos outros, como fizeram os pastores, não devemos pensar apenas na grande travessia até junto do Deus vivo, mas também na cidade concreta de Belém, em todos os lugares onde o Senhor viveu, trabalhou e sofreu. Rezemos nesta hora pelas pessoas que actualmente vivem e sofrem lá. Rezemos para que lá haja paz. Rezemos para que Israelitas e Palestinianos possam conduzir a sua vida na paz do único Deus e na liberdade. Peçamos também pelos países vizinhos – o Líbano, a Síria, o Iraque, etc. – para que lá se consolide a paz. Que os cristãos possam conservar a sua casa naqueles países onde teve origem a nossa fé; que cristãos e muçulmanos construam, juntos, os seus países na paz de Deus.
Os pastores apressaram-se… Uma curiosidade santa e uma santa alegria os impelia. No nosso caso, talvez aconteça muito raramente que nos apressemos pelas coisas de Deus. Hoje, Deus não faz parte das realidades urgentes. As coisas de Deus – assim o pensamos e dizemos – podem esperar. E todavia Ele é a realidade mais importante, o Único que, em última análise, é verdadeiramente importante. Por que motivo não deveríamos também nós ser tomados pela curiosidade de ver mais de perto e conhecer o que Deus nos disse? Supliquemos-Lhe para que a curiosidade santa e a santa alegria dos pastores nos toquem nesta hora também a nós e assim vamos com alegria até lá, a Belém, para o Senhor que hoje vem de novo para nós. Amen.

Mensagem do Santo Padre, o Papa Bento XVI -  Urbi et Orbi - Natal 2012

«Veritas de terra orta est! – A verdade germinou da terra» (Sal 85, 12).

Amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro, boas-festas de Natal para todos vós e vossas famílias!

Os meus votos de Natal, neste Ano da Fé, exprimo-os com as palavras seguintes, tiradas de um Salmo: «A verdade germinou da terra». Realmente, no texto do Salmo, a frase está no futuro: «A verdade germinará da terra»: é um anúncio, uma promessa, acompanhada por outras expressões que, juntas, ecoam assim: «O amor e a verdade vão encontrar-se. / Vão beijar-se a justiça e a paz. / A verdade germinará da terra / e a justiça descerá do céu. / O próprio Senhor nos dará os seus bens / e a nossa terra produzirá os seus frutos. / A justiça caminhará diante dele / e a paz, no rasto dos seus pés» (Sal 85, 11-14).

Hoje cumpriu-se esta palavra profética! Em Jesus, nascido da Virgem Maria em Belém, encontram-se realmente o amor e a verdade, beijaram-se a justiça e a paz; a verdade germinou da terra e a justiça desceu do céu. Com feliz concisão, explica Santo Agostinho: «Que é a verdade? O Filho de Deus. Que é a terra? A carne. Interroga-te donde nasceu Cristo, e vê por que a verdade germinou da terra; (...) a verdade nasceu da Virgem Maria» (En. in Ps. 84, 13). E, num sermão do Natal, afirma: «Assim, com esta festa que acontece cada ano, celebramos o dia em que se cumpriu a profecia: “A verdade germinou da terra e a justiça desceu do céu”. A Verdade, que está no seio do Pai, germinou da terra, para estar também no seio de uma mãe. A Verdade que segura o mundo inteiro germinou da terra, para ser segurado pelas mãos de uma mulher. (...) A Verdade, que o céu não consegue conter, germinou da terra, para se reclinar numa manjedoura. Para benefício de quem Se fez assim humilde um Deus tão sublime? Certamente sem nenhum benefício para Ele mesmo, mas com grande proveito para nós, se acreditarmos» (Sermones 185, 1).

«Se acreditarmos…». Que grande poder tem a fé! Deus fez tudo, fez o impossível: fez-Se carne. A sua amorosa omnipotência realizou algo que ultrapassa a compreensão humana: o Infinito tornou-se menino, entrou na humanidade. E, no entanto, este mesmo Deus não pode entrar no meu coração, se não abro eu a porta. Porta fidei! A porta da fé! Poderíamos ficar assustados com a possibilidade desta nossa omnipotência invertida; este poder que o homem tem de se fechar a Deus, pode meter-nos medo. Mas, eis a realidade que afugenta este pensamento tenebroso, a esperança que vence o medo: a verdade germinou! Deus nasceu! «A terra produziu o seu fruto» (Sal 67, 7). Sim! Há uma terra boa, uma terra saudável, livre de todo o egoísmo e entrincheiramento. Há, no mundo, uma terra que Deus preparou para vir habitar no meio de nós; uma morada, para a sua presença no mundo. Esta terra existe; e também hoje, no ano de 2012, desta terra germinou a verdade! Por isso, há esperança no mundo, uma esperança fidedigna, mesmo nos momentos e situações mais difíceis. A verdade germinou, trazendo amor, justiça e paz.

Sim, que a paz germine para o povo da Síria, profundamente ferido e dividido por um conflito que não poupa sequer os inermes, ceifando vítimas inocentes. Uma vez mais faço apelo para que cesse o derramamento de sangue, se facilite o socorro aos prófugos e deslocados e se procure, através do diálogo, uma solução para o conflito.

A paz germine na Terra onde nasceu o Redentor; que Ele dê aos Israelitas e Palestinianos a coragem de por termo a tantos, demasiados, anos de lutas e divisões e empreender, com decisão, o caminho das negociações.

Nos países do norte de África, em profunda transição à procura de um novo futuro – nomeadamente o Egipto, terra amada e abençoada pela infância de Jesus –, que os cidadãos construam, juntos, sociedades baseadas na justiça, no respeito da liberdade e da dignidade de cada pessoa.

A paz germine no vasto continente asiático. Jesus Menino olhe com benevolência para os numerosos povos que habitam naquelas terras e, de modo especial, para quantos crêem n’Ele. Que o Rei da Paz pouse o seu olhar também sobre os novos dirigentes da República Popular da China pela alta tarefa que os aguarda. Espero que, no desempenho da mesma, se valorize o contributo das religiões, no respeito de cada uma delas, de modo que as mesmas possam contribuir para a construção duma sociedade solidária, para beneficio daquele nobre povo e do mundo inteiro.

Que o Natal de Cristo favoreça o retorno da paz ao Mali e da concórdia à Nigéria, onde horrendos atentados terroristas continuam a ceifar vítimas, nomeadamente entre os cristãos. O Redentor proporcione auxílio e conforto aos prófugos do leste da República Democrática do Congo e conceda paz ao Quénia, onde sangrentos atentados se abateram sobre a população civil e os lugares de culto.

Jesus Menino abençoe os inúmeros fiéis que O celebram na América Latina. Faça crescer as suas virtudes humanas e cristãs, sustente quanto se vêem obrigados a emigrar para longe da própria família e da sua terra, revigore os governantes no seu empenho pelo desenvolvimento e na luta contra a criminalidade.

Amados irmãos e irmãs! Amor e verdade, justiça e paz encontraram-se, encarnaram no homem nascido de Maria, em Belém. Aquele homem é o Filho de Deus, é Deus que apareceu na história. O seu nascimento é um rebento de vida nova para toda a humanidade. Possa cada terra tornar-se uma terra boa, que acolhe e faz germinar o amor, a verdade, a justiça e a paz. Bom Natal para todos!

© Copyright 2012 - Libreria Editrice Vaticana



Papa convida a exercer, nestes dias de Natal, uma atitude de acolhimento

A “beleza do acolhimento” foi sublinhada pelo Papa neste domingo, ao meio-dia, na Praça de São Pedro, antes da recitação das Ave-Marias, já em clima de Natal. Comentando o evangelho do dia – a visitação de Maria a sua prima Isabel, Bento XVI observou que “esta cena exprime também a beleza do acolhimento”, recomendando a escuta, o dar espaço, o que – assegurou – comporta a presença de Deus e da alegria que d’Ele vem.
“Este gesto não significa um mero gesto de cortesia, mas representa com grande simplicidade o encontro do Antigo com o Novo Testamento. De facto, as duas mulheres, ambas grávidas, incarnam a espera e o Esperado”.

“A idosa Isabel – explicou o Papa – simboliza Israel que espera o Messias, ao passo que a jovem Maria leva em si o cumprimento dessa expectativa, a bem de toda a humanidade. Nas duas mulheres se encontram e reconhecem antes de mais os frutos do seu seio, João e Cristo”.
Recordando a saudação de Isabel a Maria, o Papa observou que o texto evangélico evoca expressões do Antigo Testamento:
“A expressão bendita tu entre as mulheres é referida no Antigo Testamento a Jael e Judite, duas mulheres guerreiras que intervêm para salvar Israel. Agora é dirigida a Maria, jovenzinha pacífica que está para gerar o Salvador do mundo”.

Do mesmo modo – acrescentou ainda o Papa - o sobressalto de alegria de João alude à dança do rei David quando acompanhou a entrada da Arca da Aliança em Jerusalém. “A Arca, que continha as tábuas da Lei, o maná e o cetro de Arão, era o sinal da presença de Deus no meio do seu povo. João que vai nascer exulta de alegria diante de Maria, Arca da nova Aliança, que leva no seio Jesus, o Filho de Deus feito homem”.

“A cena da Visitação exprime também a beleza do acolhimento: onde há acolhimento recíproco, escuta, o dar espaço ao outro – aí está Deus e a alegria que d’Ele vem.
Imitemos Maria no tempo de Natal, visitando quantos vivem em situações de precariedade, em particular os doentes, os presos, os idosos e as crianças.
E imitemos também Isabel, que acolhe o hóspede como o próprio Deus. Sem O desejarmos, nunca O conheceremos; sem aguardá-Lo, não O encontraremos; sem O procurar, não O encontraremos.”

O Papa concluiu desejando a todos um bom domingo e, desde já, aquela serenidade que permita viver bem as próximas festas de Natal.


DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
À CÚRIA ROMANA NA APRESENTAÇÃO
DE VOTOS NATALÍCIOS

Sala Clementina
Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2012



Senhores Cardeais,
Venerados Irmãos no Episcopado e no Presbiterado,
Queridos irmãos e irmãs!

Com grande alegria, me encontro hoje convosco, amados membros do Colégio Cardinalício, representantes da Cúria Romana e do Governatorado, para este momento tradicional antes do Natal. A cada um de vós dirijo uma cordial saudação, começando pelo Cardeal Angelo Sodano, a quem agradeço as amáveis palavras e os ardentes votos que me exprimiu em nome dele e vosso. O Cardeal Decano recordou-nos uma frase que se repete muitas vezes na liturgia latina destes dias: «Prope este iam Dominus, venite, adoremus! – O Senhor está perto; vinde, adoremos!». Também nós, como uma única família, nos preparamos para adorar, na gruta de Belém, aquele Menino que é Deus em pessoa e tão próximo que Se fez homem como nós. De bom grado retribuo os votos formulados e agradeço de coração a todos, incluindo os Representantes Pontifícios espalhados pelo mundo, pela generosa e qualificada colaboração que cada um presta ao meu ministério.

Encontramo-nos no fim de mais um ano, também este caracterizado – na Igreja e no mundo – por muitas situações atribuladas, por grandes problemas e desafios, mas também por sinais de esperança. Limito-me a mencionar alguns momentos salientes no âmbito da vida da Igreja e do meu ministério petrino. Tivemos – como referiu o Cardeal Decano – em primeiro lugar as viagens realizadas ao México e a Cuba: encontros inesquecíveis com a força da fé, profundamente enraizada nos corações dos homens, e com a alegria pela vida que brota da fé. Recordo que, depois da chegada ao México, na borda do longo troço de estrada que tivemos de percorrer, havia fileiras infindáveis de pessoas que saudavam, acenando com lenços e bandeiras. Recordo que, durante o trajecto para Guanajuato – pitoresca capital do Estado do mesmo nome –, havia jovens devotamente ajoelhados na margem da estrada para receber a bênção do Sucessor de Pedro; recordo como a grande liturgia, nas proximidades da estátua de Cristo-Rei, constituiu um acto que tornou presente a realeza de Cristo: a sua paz, a sua justiça, a sua verdade. E tudo isto, tendo como pano de fundo os problemas dum país que sofre devido a múltiplas formas de violência e a dificuldades resultantes de dependências económicas. Sem dúvida, são problemas que não se podem resolver simplesmente com a religiosidade, mas sê-lo-ão ainda menos sem aquela purificação interior dos corações que provém da força da fé, do encontro com Jesus Cristo. Seguiu-se a experiência de Cuba; também lá nas grandes liturgias, com seus cânticos, orações e silêncios, se tornou perceptível a presença d’Aquele a quem, por muito tempo, se quisera recusar um lugar no país. A busca, naquele país, de uma justa configuração da relação entre vínculos e liberdade, seguramente, não poderá ter êxito sem uma referência àqueles critérios fundamentais que se manifestaram à humanidade no encontro com o Deus de Jesus Cristo.

Como sucessivas etapas deste ano que se encaminha para o fim, gostava de mencionar a grande Festa da Família em Milão, bem como a visita ao Líbano com a entrega da Exortação apostólica pós-sinodal que deverá agora constituir, na vida das Igrejas e da sociedade no Médio Oriente, uma orientação nos difíceis caminhos da unidade e da paz. O último acontecimento importante deste ano, a chegar ao ocaso, foi o Sínodo sobre a Nova Evangelização, que constituiu ao mesmo tempo um início comunitário do Ano da Fé, com que comemorámos a abertura do Concílio Vaticano II, cinquenta anos atrás, para o compreender e assimilar novamente na actual situação em mudança.

Todas estas ocasiões permitiram tocar temas fundamentais do momento presente da nossa história: a família (Milão), o serviço em prol da paz no mundo e o diálogo inter-religioso (Líbano), bem como o anúncio da mensagem de Jesus Cristo, no nosso tempo, àqueles que ainda não O encontraram e a muitos que só O conhecem por fora e, por isso mesmo, não O reconhecem. De todas estas grandes temáticas, quero reflectir um pouco mais detalhadamente sobre o tema da família e sobre a natureza do diálogo, acrescentando ainda uma breve consideração sobre o tema da Nova Evangelização.

A grande alegria, com que se encontraram em Milão famílias vindas de todo o mundo, mostrou que a família, não obstante as múltiplas impressões em contrário, está forte e viva também hoje; mas é incontestável – especialmente no mundo ocidental – a crise que a ameaça até nas suas próprias bases. Impressionou-me que se tenha repetidamente sublinhado, no Sínodo, a importância da família para a transmissão da fé como lugar autêntico onde se transmitem as formas fundamentais de ser pessoa humana. É vivendo-as e sofrendo-as, juntos, que as mesmas se aprendem. Assim se tornou evidente que, na questão da família, não está em jogo meramente uma determinada forma social, mas o próprio homem: está em questão o que é o homem e o que é preciso fazer para ser justamente homem. Os desafios, neste contexto, são complexos. Há, antes de mais nada, a questão da capacidade que o homem tem de se vincular ou então da sua falta de vínculos. Pode o homem vincular-se para toda a vida? Isto está de acordo com a sua natureza? Ou não estará porventura em contraste com a sua liberdade e com a auto-realização em toda a sua amplitude? Será que o ser humano se torna-se ele próprio, permanecendo autónomo e entrando em contacto com o outro apenas através de relações que pode interromper a qualquer momento? Um vínculo por toda a vida está em contraste com a liberdade? Vale a pena também sofrer por um vínculo? A recusa do vínculo humano, que se vai generalizando cada vez mais por causa duma noção errada de liberdade e de auto-realização e ainda devido à fuga da perspectiva duma paciente suportação do sofrimento, significa que o homem permanece fechado em si mesmo e, em última análise, conserva o próprio «eu» para si mesmo, não o supera verdadeiramente. Mas, só no dom de si é que o homem se alcança a si mesmo, e só abrindo-se ao outro, aos outros, aos filhos, à família, só deixando-se plasmar pelo sofrimento é que ele descobre a grandeza de ser pessoa humana. Com a recusa de tal vínculo, desaparecem também as figuras fundamentais da existência humana: o pai, a mãe, o filho; caem dimensões essenciais da experiência de ser pessoa humana.

Num tratado cuidadosamente documentado e profundamente comovente, o rabino-chefe de França, Gilles Bernheim, mostrou que o ataque à forma autêntica da família (constituída por pai, mãe e filho), ao qual nos encontramos hoje expostos – um verdadeiro atentado –, atinge uma dimensão ainda mais profunda. Se antes tínhamos visto como causa da crise da família um mal-entendido acerca da essência da liberdade humana, agora torna-se claro que aqui está em jogo a visão do próprio ser, do que significa realmente ser homem. Ele cita o célebre aforismo de Simone de Beauvoir: «Não se nasce mulher; fazem-na mulher – On ne naît pas femme, on le devient». Nestas palavras, manifesta-se o fundamento daquilo que hoje, sob o vocábulo «gender - género», é apresentado como nova filosofia da sexualidade. De acordo com tal filosofia, o sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e preencher pessoalmente de significado, mas uma função social que cada qual decide autonomamente, enquanto até agora era a sociedade quem a decidia. Salta aos olhos a profunda falsidade desta teoria e da revolução antropológica que lhe está subjacente. O homem contesta o facto de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um facto pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria. De acordo com a narração bíblica da criação, pertence à essência da criatura humana ter sido criada por Deus como homem ou como mulher. Esta dualidade é essencial para o ser humano, como Deus o fez. É precisamente esta dualidade como ponto de partida que é contestada. Deixou de ser válido aquilo que se lê na narração da criação: «Ele os criou homem e mulher» (Gn 1, 27). Isto deixou de ser válido, para valer que não foi Ele que os criou homem e mulher; mas teria sido a sociedade a determiná-lo até agora, ao passo que agora somos nós mesmos a decidir sobre isto. Homem e mulher como realidade da criação, como natureza da pessoa humana, já não existem. O homem contesta a sua própria natureza; agora, é só espírito e vontade. A manipulação da natureza, que hoje deploramos relativamente ao meio ambiente, torna-se aqui a escolha básica do homem a respeito de si mesmo. Agora existe apenas o homem em abstracto, que em seguida escolhe para si, autonomamente, qualquer coisa como sua natureza. Homem e mulher são contestados como exigência, ditada pela criação, de haver formas da pessoa humana que se completam mutuamente. Se, porém, não há a dualidade de homem e mulher como um dado da criação, então deixa de existir também a família como realidade pré-estabelecida pela criação. Mas, em tal caso, também a prole perdeu o lugar que até agora lhe competia, e a dignidade particular que lhe é própria; Bernheim mostra como o filho, de sujeito jurídico que era com direito próprio, passe agora necessariamente a objecto, ao qual se tem direito e que, como objecto de um direito, se pode adquirir. Onde a liberdade do fazer se torna liberdade de fazer-se por si mesmo, chega-se necessariamente a negar o próprio Criador; e, consequentemente, o próprio homem como criatura de Deus, como imagem de Deus, é degradado na essência do seu ser. Na luta pela família, está em jogo o próprio homem. E torna-se evidente que, onde Deus é negado, dissolve-se também a dignidade do homem. Quem defende Deus, defende o homem.

Dito isto, gostava de chegar ao segundo grande tema que, desde Assis até ao Sínodo sobre a Nova Evangelização, permeou todo o ano que chega ao fim: a questão do diálogo e do anúncio. Comecemos pelo diálogo. No nosso tempo, para a Igreja, vejo principalmente três campos de diálogo, onde ela deve estar presente lutando pelo homem e pelo que significa ser pessoa humana: o diálogo com os Estados, o diálogo com a sociedade – aqui está incluído o diálogo com as culturas e com a ciência – e, finalmente, o diálogo com as religiões. Em todos estes diálogos, a Igreja fala a partir da luz que a fé lhe dá. Ao mesmo tempo, porém, ela encarna a memória da humanidade que, desde os primórdios e através dos tempos, é memória das experiências e dos sofrimentos da humanidade, onde a Igreja aprendeu o que significa ser homem, experimentando o seu limite e grandeza, as suas possibilidades e limitações. A cultura do humano, de que ela se faz garante, nasceu e desenvolveu-se a partir do encontro entre a revelação de Deus e a existência humana. A Igreja representa a memória do que é ser homem defronte a uma civilização do esquecimento que já só se conhece a si mesma e só reconhece o próprio critério de medição. Mas, assim como uma pessoa sem memória perdeu a sua identidade, assim também uma humanidade sem memória perderia a própria identidade. Aquilo que foi dado ver à Igreja, no encontro entre revelação e experiência humana, ultrapassa sem dúvida o mero âmbito da razão, mas não constitui um mundo particular que seria desprovido de interesse para o não-crente. Se o homem, com o próprio pensamento entra na reflexão e na compreensão daqueles conhecimentos, estes alargam o horizonte da razão e isto diz respeito também àqueles que não conseguem partilhar a fé da Igreja. No diálogo com o Estado e a sociedade, naturalmente a Igreja não tem soluções prontas para as diversas questões. Mas, unida às outras forças sociais, lutará pelas respostas que melhor correspondam à justa medida do ser humano. Aquilo que ela identificou como valores fundamentais, constitutivos e não negociáveis da existência humana, deve defendê-lo com a máxima clareza. Deve fazer todo o possível por criar uma convicção que possa depois traduzir-se em acção política.

Na situação actual da humanidade, o diálogo das religiões é uma condição necessária para a paz no mundo, constituindo por isso mesmo um dever para os cristãos bem como para as outras crenças religiosas. Este diálogo das religiões possui diversas dimensões. Há-de ser, antes de tudo, simplesmente um diálogo da vida, um diálogo da acção compartilhada. Nele, não se falará dos grandes temas da fé – se Deus é trinitário, ou como se deve entender a inspiração das Escrituras Sagradas, etc. –, mas trata-se dos problemas concretos da convivência e da responsabilidade comum pela sociedade, pelo Estado, pela humanidade. Aqui é preciso aprender a aceitar o outro na sua forma de ser e pensar de modo diverso. Para isso, é necessário fazer da responsabilidade comum pela justiça e a paz o critério basilar do diálogo. Um diálogo, onde se trate de paz e de justiça indo mais além do que é simplesmente pragmático, torna-se por si mesmo uma luta ética sobre a verdade e sobre o ser humano; um diálogo sobre os valores que são pressupostos em tudo. Assim o diálogo, ao princípio meramente prático, torna-se também uma luta pelo justo modo de ser pessoa humana. Embora as escolhas básicas não estejam enquanto tais em discussão, os esforços à volta duma questão concreta tornam-se um percurso no qual ambas as partes podem encontrar purificação e enriquecimento através da escuta do outro. Assim estes esforços podem ter o significado também de passos comuns rumo à única verdade, sem que as escolhas básicas sejam alteradas. Se ambas as partes se movem a partir duma hermenêutica de justiça e de paz, a diferença básica não desaparecerá, mas crescerá uma proximidade mais profunda entre eles.

Hoje em geral, para a essência do diálogo inter-religioso, consideram fundamentais duas regras:

1ª) O diálogo não tem como alvo a conversão, mas a compreensão. Nisto se distingue da evangelização, da missão.

2ª) De acordo com isso, neste diálogo, ambas as partes permanecem deliberadamente na sua identidade própria, que, no diálogo, não põem em questão nem para si mesmo nem para os outros.

Estas regras são justas; mas penso que assim estejam formuladas demasiado superficialmente. Sim, o diálogo não visa a conversão, mas uma melhor compreensão recíproca: isto é correcto. Contudo a busca de conhecimento e compreensão sempre pretende ser também uma aproximação da verdade. Assim, ambas as partes, aproximando-se passo a passo da verdade, avançam e caminham para uma maior partilha, que se funda sobre a unidade da verdade. Quanto a permanecer fiéis à própria identidade, seria demasiado pouco se o cristão, com a sua decisão a favor da própria identidade, interrompesse por assim dizer por vontade própria o caminho para a verdade. Então o seu ser cristão tornar-se-ia algo de arbitrário, uma escolha simplesmente factual. Nesse caso, evidentemente, ele não teria em conta que a religião tem a ver com a verdade. A propósito disto, eu diria que o cristão possui a grande confiança, mais ainda, a certeza basilar de poder tranquilamente fazer-se ao largo no vasto mar da verdade, sem dever temer pela sua identidade de cristão. Sem dúvida, não somos nós que possuímos a verdade, mas é ela que nos possui a nós: Cristo, que é a Verdade, tomou-nos pela mão e, no caminho da nossa busca apaixonada de conhecimento, sabemos que a sua mão nos sustenta firmemente. O facto de sermos interiormente sustentados pela mão de Cristo torna-nos simultaneamente livres e seguros. Livres: se somos sustentados por Ele, podemos, abertamente e sem medo, entrar em qualquer diálogo. Seguros, porque Ele não nos deixa, a não ser que sejamos nós mesmos a desligar-nos d’Ele. Unidos a Ele, estamos na luz da verdade.

Por último, impõe-se ainda uma breve consideração sobre o anúncio, sobre a evangelização, de que, na sequência das propostas dos Padres Sinodais, falará efectiva e amplamente o documento pós-sinodal. Acho que os elementos essenciais do processo de evangelização são visíveis, de forma muito eloquente, na narração de São João sobre a vocação de dois discípulos do Baptista, que se tornam discípulos de Cristo (cf. Jo 1, 35-39). Antes de tudo, há o simples acto do anúncio. João Baptista indica Jesus e diz: «Eis o Cordeiro de Deus!» Pouco depois o evangelista vai narrar um facto parecido; agora é André que diz a Simão, seu irmão: «Encontrámos o Messias!» (1, 41). O primeiro elemento fundamental é o anúncio puro e simples, o kerigma, cuja força deriva da convicção interior do arauto. Na narração dos dois discípulos, temos depois a escuta, o seguir os passos de Jesus; um seguir que não é ainda verdadeiro seguimento, mas antes uma santa curiosidade, um movimento de busca. Na realidade, ambos os discípulos são pessoas à procura; pessoas que, para além do quotidiano, vivem na expectativa de Deus: na expectativa, porque Ele está presente e, portanto, manifestar-Se-á. E a busca, tocada pelo anúncio, torna-se concreta: querem conhecer melhor Aquele que o Baptista designou como o Cordeiro de Deus. Depois vem o terceiro acto que tem início com o facto de Jesus Se voltar para trás, Se voltar para eles e lhes perguntar: «Que pretendeis?» A resposta dos dois é uma nova pergunta que indica a abertura da sua expectativa, a disponibilidade para cumprir novos passos. Perguntam: «Rabi, onde moras?» A resposta de Jesus – «vinde e vereis» – é um convite para O acompanharem e, caminhando com Ele, tornarem-se videntes.

A palavra do anúncio torna-se eficaz quando existe no homem uma dócil disponibilidade para se aproximar de Deus, quando o homem anda interiormente à procura e, deste modo, está a caminho rumo ao Senhor. Então, vendo a solicitude de Jesus sente-se atingido no coração; depois o impacto com o anúncio suscita uma santa curiosidade de conhecer Jesus mais de perto. Este ir com Ele leva ao lugar onde Jesus habita: à comunidade da Igreja, que é o seu Corpo. Significa entrar na comunhão itinerante dos catecúmenos, que é uma comunhão feita de aprofundamento e, ao mesmo tempo, de vida, onde o caminhar com Jesus nos faz tornar videntes.

«Vinde e vereis». Esta palavra dirigida aos dois discípulos à procura, Jesus dirige-a também às pessoas de hoje que estão em busca. No final do ano, queremos pedir ao Senhor para que a Igreja, não obstante as próprias pobrezas, se torne cada vez mais reconhecível como sua morada. Pedimos-Lhe para que, no caminho rumo à sua casa, nos torne, também a nós, sempre mais videntes a fim de podermos afirmar sempre melhor e de modo cada mais convincente: encontrámos Aquele que todo o mundo espera, ou seja, Jesus Cristo, verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro homem. Neste espírito, desejo de coração a todos vós um santo Natal e um feliz Ano Novo. Obrigado!

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TEMPO DE COMPROMISSO PARA OS CRISTÃOS NO MUNDO

Tradução portuguesa do artigo do Papa Bento XVI publicado no Financial Times de 20 de dezembro de 2012.

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 20 de dezembro de 2012 (ZENIT.org) - O prestigioso jornal de economia e política Financial Times publicou na sua edição de hoje um comentário sobre o Natal assinado pelo Papa Bento XVI. Esta não é a primeira vez que o Papa aceita um pedido tão incomum, nascido, neste caso, de uma iniciativa da redação do jornal de Londres.
Como observado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, já no passado, o Papa respondeu a algumas solicitações incomuns, entre as quais o pedido da BBC, bem no tempo do Natal, e alguns meses depois da viagem ao Reino Unido, ou o pedido de entrevista televisiva para o programa A sua immagine da RAI, respondendo a perguntas, por ocasião da Sexta-feira Santa.
Publicamos a seguir a tradução portuguesa do artigo publicado hoje nas páginas do FT.
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Tempo de compromisso no mundo para os cristãos.
"Dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus", foi a resposta de Jesus quando lhe foi perguntado o que pensava sobre o pagamento dos impostos. Aqueles que o interrogavam, obviamente, queriam colocá-lo numa armadilha. Queriam forçá-lo a tomar posição no debate político sobre a dominação romana na terra de Israel. E tinha ainda mais em jogo: se Jesus era realmente o Messias esperado, então certamente ele teria ficado contra os dominadores romanos. Portanto a pergunta estava pensada para desmascará-lo como uma ameaça ao regime ou como um impostor.
A resposta de Jesus leva habilmente a questão para um nível superior, colocando, com finura, em guarda  seja com relação à politização da religião seja com a deificação do poder temporal, como também da incansável busca da riqueza. Os seus ouvintes deviam compreender que o Messias não era César, e que César não era Deus. O reino que Jesus vinha instaurar era de uma dimensão absolutamente superior. Como respondeu a Pôncio Pilatos: “O meu Reino não é deste mundo”.
As narrações de Natal do Novo Testamento tem o objetivo de expressar uma mensagem semelhante. Jesus nasce durante um "censo de todo o mundo", querido por César Augusto, o imperador famoso por ter levado a Pax Romana a todas as terras submetidas ao domínio romano. No entanto, esta criança, que nasceu em um canto obscuro e distante do império, estava prestes a oferecer ao mundo uma paz muito maior, verdadeiramente universal em seu propósito e transcendente de todos os limites de espaço e tempo.
Jesus nos é apresentado como o herdeiro do Rei Davi, mas a libertação que ele trouxe para o seu povo não era a de ter sob vigilância os exércitos inimigos; tratava-se, pelo contrário, de vencer para sempre o pecado e a morte.
O nascimento de Cristo nos desafia a repensar as nossas prioridades, os nossos valores, o nosso mesmo modo de vida. E enquanto o Natal é certamente um momento de grande alegria, é também uma ocasião de profunda reflexão, ou melhor, de um exame de consciência. No final de um ano que significou privações econômicas para muitos, o que podemos aprender da humildade, da pobreza, da simplicidade da cena do presépio?
O Natal pode ser o momento em que aprendemos a ler o Evangelho, a conhecer a Jesus não só como o Menino da manjedoura, mas como aquele em que nós reconhecemos o Deus feito Homem.
É no Evangelho que os cristãos encontram inspiração para a vida cotidiana e para o seu envolvimento nos assuntos do mundo - quer isso aconteça no Parlamento ou na Bolsa. Os cristãos não deveriam fugir do mundo; pelo contrário, deveriam comprometer-se com ele. Mas o seu envolvimento na política e na economia deveria transcender toda forma de ideologia.
Os cristãos combatem a pobreza porque reconhecem a dignidade suprema de todo ser humano, criado à imagem de Deus e destinado à vida eterna. Os cristãos trabalham para uma partilha equitativa dos recursos da terra porque estão convencidos de que, como administradores da criação de Deus, nós temos o dever de cuidar dos mais frágeis e dos mais vulneráveis. Os cristãos se opõem à ganância e à exploração convencidos de que a generosidade e um amor que esquece de si, ensinados e vividos por Jesus de Nazaré, são o caminho que conduz para a plenitude da vida. A fé cristã no destino transcendente de todo ser humano implica a urgência da tarefa de promover a paz e a justiça para todos. Porque tais objetivos são compartilhados por muitos, é possível uma grande e frutuosa colaboração entre os cristãos e os outros. E no entanto, os cristãos dão a César só o que é de César, mas não o que pertence a Deus. Por vezes, ao longo da história, os cristãos não puderam aceder aos pedidos feitos por César. Do culto ao imperador da Roma antiga até os regimes totalitários do século XX, César tentou tomar o lugar de Deus. Quando os cristãos se recusam a se curvar diante dos deuses falsos propostos em nossos tempos não é porque eles têm visões ultrapassadas do mundo . Pelo contrário, isso acontece porque eles são livres das amarras da ideologia e animados por uma visão tão nobre do destino humano, que não podem aceitar compromissos com nada que o possa prejudicar.
Na Itália, muitos presépios são adornados com ruínas das antigas construções romanas no fundo. Isso mostra que o nascimento do menino Jesus marca o fim da velha ordem, o mundo pagão, no qual os pedidos de César pareciam impossíveis de desafiar. Agora há um novo rei, que não confia na força das armas, mas no poder do amor. Ele traz esperança a todos aqueles que, como ele mesmo, vivem à margem da sociedade. Traz esperança para aqueles que são vulneráveis ​ às instáveis sortes de um mundo precário. Da manjedoura, Cristo nos chama a viver como cidadãos do seu reino celestial, um reino que todas as pessoas de boa vontade podem ajudar a construir aqui na terra.


Justiça e amor completam-se: Bento XVI, no Angelus, em que benzeu as imagens do Menino Jesus, segundo a tradição

Ao meio-dia, já regressado ao Vaticano, o Santo Padre, como sempre aos domingos, dirigiu-se da janela dos seus aposentos aos fiéis congregados na praça de São Pedro e aos que o seguiam nos diversos meios de comunicação. Numa breve catequese, Bento XVI evocou o diálogo que no Evangelho deste domingo se estabelece entre João Batista e as pessoas que o escutavam.
Na sua primeira resposta (observou), João manda partilhar a roupa e o alimento, indicando portanto “um critério de justiça, animado pela caridade”. “A justiça pede que se supere o desequilíbrio entre quem tem o supérfluo e quem tem falta do necessário; a caridade leve a estarmos atentos aos outros, indo ao encontro das suas necessidades, em vez de encontrar justificações para defender os próprios interesses”.
“Justiça e caridade não se opõem, mas são ambas necessárias, completando-se reciprocamente”.

“O amor será sempre necessário, mesmo na mais justa das sociedades – advertiu o Papa. E isso porque sempre haverá situações de necessidade material em que é indispensável uma ajuda de amor concreto ao próximo”. É nas obras que há que demonstrar a nossa conversão, que é cumprir a vontade de Deus – concluiu o Papa.
Seguindo um velho costume, encontravam-se neste domingo na praça de São Pedro, muitas famílias romanas, com as crianças, que traziam a imagem do Menino Jesus, a colocar no presépio, para serem abençoadas pelo Papa.
“Caríssimos, ao mesmo tempo que benzo as imagens de Jesus que colocareis nos vossos presépios, abençoo de todo o coração cada um de vós e as vossas famílias e educadores”.
























Centralidade da Eucaristia na vida pessoal e comunitária sublinhada pelo Papa em visita à paróquia romana de São Patrício

Foi num ambiente de alegria e comunhão fraterna que uma paróquia da periferia de Roma acolheu, neste domingo, o Santo Padre, que celebrou a Eucaristia, depois de se ter encontrado com os diversos grupos paroquiais.
Na homilia, o Papa comentou naturalmente as Leituras deste III domingo do Advento, com um convite especial à alegria. Convite contido logo na primeira leitura, do profeta Sofonias: “Alegra-te, filha de Sião… Exulta… com todo o coração”
“O profeta quer dizer-nos que já não há qualquer motivo de desconfiança, de tristeza, qualquer que seja a situação a enfrentar, porque estamos certos da presença do Senhor, que por si só basta a restituir a serenidade e a alegrar os corações”.

A alegria prometida encontra o seu cumprimento em Jesus, que, vindo ao mundo, nos dá a sua alegria. “Jesus traz aos homens a salvação, uma nova relação com Deus que vence o mal e a morte, e comunica a verdadeira alegria por esta presença do Senhor, que vem a iluminar o nosso caminho”.
“Dentro de poucos dias, celebraremos o Natal, a festa da vinda de Deus, que se fez pequenino e nosso irmão para estar connosco e partilhar a nossa condição humana. Devemos alegrar-nos por esta sua proximidade , por esta sua presença”.

Recordando o convite de São Paulo aos cristãos de Filipos (segunda leitura), a expor confiadamente a Deus as necessidades e preocupações, “com orações e súplicas”.
“Já este é um grande motivo de alegria: saber que é sempre possível rezar ao Senhor e que Ele escuta; saber que não rejeita as nossas orações”.

Finalmente, no Evangelho, Bento XVI pôs em relevo as indicações concretas dadas por João Batista como preparação para acolher o Senhor que vem:
“Deus não exige nada de extraordinário, mas (apenas) que cada um viva segundo critérios de solidariedade e de justiça; sem estas não nos podemos preparar bem ao encontro com o Senhor”.


Veritas de terra orta est! Votos de Natal do Papa

15.DEZ.2012 L’Osservatore Romano

Veritas de terra orta est! («A verdade brotará da terra»): são as palavras  - tiradas do Salmo 85, 12 – que Bento XVI escolheu este ano para o bilhete  de bons votos de Natal destinado à Cúria romana, aos funcionários do Vaticano e a todos os fiéis que participarão nos próximos dias nas audiências e celebrações. O Papa escreveu-as à mão e foram impressas pela Tipografia Vaticana num pequeno bilhete, juntamente com a imagem da pintura «A Natividade e a adoração dos pastores» de Leandro Bassano (1557-1622), conservado nos aposentos privados do Palácio Apostólico do Vaticano. Portanto, continua a tradição dos Pontífices – inaugurada em 1963 por Paulo VI – de imprimir pequenas imagens e bilhetes de boas festas de Natal, Páscoa e outras solenidades especiais, com uma frase autógrafa – tirada das Escrituras, dos padres da Igreja ou do leccionário – e uma representação artística de acordo com o tema da celebração litúrgica.



Audiência - Bento XVI
Sala Paulo VI - Vaticano
Quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Queridos irmãos e irmãs,

Na catequese passada falei da Revelação de Deus, como comunicação que Ele faz de Si mesmo e do seu desígnio de benevolência e de amor. Esta Revelação de Deus se insere no tempo e na história dos homens: história que transforma “o lugar no qual podemos constatar o agir de Deus a favor da humanidade. Ele chega até nós naquilo que para nós é mais familiar, e fácil de verificar, porque constitui o nosso contexto cotidiano, sem o qual não seríamos capazes de entender” (João Paulo II, Enc. Fides et ratio, 12).

O Evangelista São Marcos – como ouvimos – relata, em termos claros e sintéticos, os momentos iniciais da pregação de Jesus “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo” (Mc 1, 15). Isso que ilumina e dá sentido pleno à história do mundo e do homem começa a brilhar na gruta de Belém; é o Mistério que logo contemplaremos no Natal: a salvação que se realiza em Jesus Cristo. Em Jesus de Nazaré Deus manifesta a sua face e pede a decisão do homem de reconhecê-Lo e de segui-Lo. O revelar-se na história para entrar em relação de diálogo de amor com o homem, doa um novo sentido a todo o caminho humano. A história não é uma simples sucessão de séculos, de anos, de dias, mas é o tempo de uma presença que doa pleno significado e a abre a uma sólida esperança.

Onde podemos ler as etapas desta Revelação de Deus? A Sagrada Escritura é o lugar privilegiado para descobrir os eventos deste caminho, e gostaria – mais uma vez – de convidar todos, neste Ano da Fé, a tomar mais em mãos a própria Bíblia para lê-la e meditá-la e a prestar mais atenção às Leituras da Missa dominical; tudo isso constitui um alimento precioso para a nossa fé

Lendo o Antigo Testamento podemos ver como as intervenções de Deus na história do povo que foi escolhido e com o qual estabelece aliança não são fatos que passam e caem no esquecimento, mas tornam-se “memória”, constituem juntos a “história da salvação”, mantida vida na consciência do povo de Israel através da celebração dos acontecimentos salvíficos. Assim, no Livro do Êxodo o Senhor diz a Moisés para celebrar o grande momento da libertação da escravidão do Egito, a Páscoa hebraica, com estas palavras: “Este dia será para vós um memorial; o celebrais como festa do Senhor: de geração em geração o celebrais como um rito perene” (12, 14). Para todo o povo de Israel recordar isso que Deus fez torna-se uma espécie de imperativo constante, para que a passagem do tempo seja marcada pela memória viva dos eventos passados, que assim formam, dia a dia, de novo a história e permenecem presentes. No Livro do Deuteronômio, Moisés se dirige ao povo dizendo: “Guarda-te, pois, a ti mesmo: cuida de nunca esquecer o que viste com os teus olhos, e toma cuidado para que isso não saia jamais de teu coração, enquanto viveres; e ensina-o aos teus filhos, e aos filhos de teus filhos” (4, 9).  E assim diz também a nós: “Cuides bem para não esquecer as coisas que Deus fez conosco”. A fé é alimentada pela descoberta e pela memória de Deus sempre fiel, que conduz a história e que constitui o fundamento seguro e estável sobre o qual construir a própria vida. Também o canto do Magnificat, que a Virgem Maria eleva a Deus, é um exemplo altíssimo desta história da salvação, desta memória que faz e tem presente o agir de Deus. Maria exalta o agir misericordioso de Deus no caminho concreto de seu povo, a fidelidade às promessas de aliança feitas a Abraão e à sua descendência; e tudo isso é memória viva da presença divina que nunca falha (cfr Lc 1,46-55).

Para Israel, o Êxodo é o acontecimento histórico central no qual Deus revela a sua ação poderosa. Deus livra os israelitas da escravidão do Egito para que possam retornar à Terra Prometida e adorá-Lo como o único e verdadeiro Senhor. Israel não se coloca a caminho para ser um povo como os outros – para ter também ele uma independência nacional - , mas para servir Deus no culto e na vida, para criar para Deus um lugar onde o homem está em obediência a Ele, onde Deus é presente e adorado no mundo; e, naturalmente, não só para eles, mas para testemunhá-lo em meio aos outros povos. A celebração deste acontecimento é um torná-lo presente e atual, porque a obra de Deus não falha. Ele tem fé em seu desígnio de libertação e continua a persegui-lo, a fim de que o homem possa reconhecer e servir o seu Senhor e responder com fé e amor à sua ação.

Deus também revela a Si próprio não somente no ato primordial da criação, mas entrando na nossa história, na história de um pequeno povo que não era nem o mais numeroso, nem o mais forte. E esta Revelação de Deus, que segue na história, culmina em Jesus Cristo: Deus, o Logos, a Palavra criadora que é a origem do mundo, encarnou-se em Jesus e mostrou a verdadeira face de Deus. Em Jesus se cumpre cada promessa, Nele culmina a história de Deus com a humanidade. Quando lemos a história dos dois discípulos no caminho de Emaús, narrada por São Lucas, vemos como emerge de modo claro que a pessoa de Cristo ilumina o Antigo Testamento, toda a história da salvação e mostra o grande desígnio unitário dos dois Testamentos, mostra a via da sua singularidade. Jesus, de fato, explica aos dois viajantes perdidos e desiludidos ser o cumprimento das promessas: “E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras” (24, 27). O Evangelista relata a exclamação dos dois discípulos depois de terem reconhecido que aquele companheiro de viagem era o Senhor: “Não abrasava em nós o nosso coração enquanto Ele conversava conosco ao longo do caminho, quando nos explicava as Escrituras?” (v. 32).

O Catecismo da Igreja Católica resume as etapas da Revelação divina mostrando sinteticamente o desenvolvimento (cfr nn. 54-64): Deus convidou o homem desde o início a uma íntima comunhão consigo e mesmo quando o homem, pela própria desobediência, perdeu a sua amizade, Deus não o abandonou em poder da morte, mas ofereceu muitas vezes aos homens a sua aliança (cfr Missal Romano, Pregh. Euc. IV). O Catecismo traça o caminho de Deus com o homem a partir da aliança com Noé depois do dilúvio, ao chamado de Abraão a sair de sua terra para torná-lo pai de uma multidão de povos. Deus forma Israel como seu povo, através do acontecimento do Êxodo, a aliança do Sinai e a doação, por meio de Moisés, da Lei para ser reconhecido e servido como o único Deus vivo e verdadeiro. Com os profetas Deus conduz o seu povo na esperança da salvação. Conhecemos – através de Isaías – o “segundo Êxodo”, o retorno do exílio da Babilônia à própria terra, o restabelecimento do povo; ao mesmo tempo, porém, muitos permanecem na dispersão e assim começa a universalidade desta fé.  No final, não se espera mais somente um rei, Davi, um filho de Davi, mas um “Filho do homem”, a salvação de todos os povos. Realizam-se encontros entre as culturas, primeiro com Babilônia e a Síria, depois também com a multidão grega. Assim vemos como o caminho de Deus se alarga, se abre sempre mais para o Mistério de Cristo, o Rei do universo. Em Cristo se realiza finalmente a Revelação na sua plenitude, o desígnio de benevolência de Deus: Ele próprio se faz um de nós.

Eu me concentrei em fazer memória do agir de Deus na história do homem, para mostrar as etapas deste grande desígnio de amor testemunhado no Antigo e no Novo Testamento: um único desígnio de salvação dirigido a toda a humanidade, progressivamente revelado e realizado pelo poder de Deus, onde Deus sempre reage às respostas do homem e encontra novos inícios de aliança quando o homem se perde. Isto é fundamental no caminho de fé. Estamos no tempo litúrgico do Advento que nos prepara para o Santo Natal. Como sabemos todos, o termo “Advento” significa “vinda”, “presença”, e antigamente indicava propriamente a chegada do rei ou do imperador em uma determinada província. Para nós cristãos a palavra indica uma realidade maravilhosa e perturbadora: o próprio Deus cruzou seu Céu e se inclinou sobre o homem; estabeleceu aliança com ele entrando na história de um povo; Ele é o rei que caiu nesta pobre província que é a terra e doou a nós sua visita assumindo a nossa carne, tornando-se homem como nós. O Advento nos convida a traçar o caminho desta presença e nos recorda sempre novamente que Deus não se retirou do mundo, não está ausente, não nos abandonou a nós mesmos, mas vem ao nosso encontro de diversos modos, que devemos aprender a discernir. E também nós com a nossa fé, a nossa esperança e a nossa caridade, somos chamados todos os dias a decifrar e testemunhar esta presença no mundo frequentemente superficial e distraído, e a fazer brilhar na nossa vida a luz que iluminou a gruta de Belém. Obrigado.
(Tradução: Jéssica Marçal, equipe CN Notícias)

Maria, Virgem Do Advento, Ajude-Nos A Acolher O Emanuel – Bento XVI

Neste domingo 9 de Dezembro de 2012, o Papa assomou, ao meio dia, à janela dos seus aposentos, para a habitual oração mariana do Angelus.

Numerosíssimos os fiéis que, não obstante o frio intenso embora com um solzinho invernal, se juntaram ali para o verem e o ouvirem.

Nas palavras que lhes dirigiu antes da reza das Ave-Marias, Bento XVI falou do tempo de Advento que estamos a viver, dizendo que há duas figuras que sobressaem de modo particular neste período: Nossa Senhora e São João Batista.

Todos os quatro evangelhos falam-nos de João, colocando-o no início das atividades de Jesus e apresentando-o como o precursor de Cristo. Em São Lucas há, todavia, uma diferença: ele antecipa a relação entre Jesus e João Batista, colocando-a já na concepção e no nascimento de Jesus.


“Esta abordagem ajuda a compreender que João, enquanto filho de Zacarias e Isabel – ambos de famílias sacerdotais – não é apenas o último dos profetas, mas representa também todo o sacerdócio da Antiga Aliança e, por isso, prepara os homens ao culto espiritual da Nova Aliança, inaugurada por Jesus”.

Além disso, prosseguiu o Papa, o Evangelho de Lucas coloca historicamente a vida de João Batista no décimo quinto ano do Império de Tibério César, no contexto do qual se deu o Grande evento do nascimento de Jesus, o que permite compreender que tudo isto não era um mito, mas sim um fato histórico real.

João Batista define-se a si próprio como “a voz de quem grita no deserto: preparai a via do Senhor, endireitai os vossos caminhos”.

João – frisou o Papa – é, portanto a voz, enquanto que Jesus era o “Verbo”.

A voz passa, o Verbo é eterno.

A nós a tarefa de escutar aquela voz para podermos dar espaço e acolhimento no coração a Jesus, a Palavra que nos salva. Neste tempo de Advento – disse o Papa – preparemo-nos a ver com olhos de fé, na humilde Gruta de Belém, a salvação de Deus.


“Na sociedade dos consumos, em que somos tentados a procurar a alegria nas coisas, São João Batista ensina-nos a viver de maneira essencial, a fim de que o Natal seja vivido não só como uma festa exterior, mas como a festa do Filho de Deus que veio trazer aos homens a paz, a vida e a alegria verdadeira.”

E o Papa concluiu confiando a Maria, Virgem do Advento, a nossa caminhada ao encontro do Senhor que vem, a fim de que estejamos prontos a acolher, no coração e em toda a vida, o Emanuel, Deus conosco.
Radio Vaticano


8 de dezembro - IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA SANTÍSSIMA
Bento XVI na Praça de Espanha: "Maria nos ensina a ouvir a voz de Deus que fala no silêncio"

Roma (RV) - Bento XVI conduziu, na tarde deste sábado, o ato de veneração à Virgem Maria, na Praça de Espanha, em Roma, na Solenidade da Imaculada Conceição.

O Papa manifestou sua alegria de se reunir com os romanos, peregrinos e visitantes aos pés da imagem da Virgem, "que nos une na fé, neste Ano da Fé vivido por toda a Igreja" – destacou o pontífice.

Detendo-se sobre o Evangelho da Anunciação, o Papa frisou que "o encontro entre o mensageiro divino e a Virgem Imaculada passa completamente despercebido: ninguém sabe, ninguém fala sobre isso. É um evento que, se acontecesse em nossa época, não deixaria traços nos jornais e revistas, é um mistério que se realiza em silêncio. O que é realmente grande passa muitas vezes despercebido e o silêncio se revela mais fecundo que a frenética agitação de nossas cidades, mas que - com as devidas proporções – se vivia também nas cidades importantes como a Jerusalém daquela época".

Bento XVI frisou que muitas vezes "a vida frenética torna-nos incapazes de parar e ouvir o silêncio em que o Senhor faz ouvir sua voz discreta. Maria, no dia em que recebeu o anúncio do Anjo, estava aberta para a escuta de Deus. Nela não há obstáculo, não existe nada que a separe de Deus. Este é o significado do seu ser sem pecado original: seu relacionamento com Deus é livre de falha, não há separação, não há sombra de egoísmo, mas uma perfeita harmonia: o seu pequeno coração humano está perfeitamente centralizado no coração de Deus".

"Vir ao centro de Roma, onde se encontra a imagem de Maria, nos recorda primeiramente que a voz de Deus não se reconhece no barulho e na agitação. O seu projeto em nossa vida pessoal e social não pode ser percebido restando na superfície, mas indo a um nível mais profundo, onde as forças que agem não são econômicas ou políticas, mas morais e espirituais. É ali que Maria nos convida a ir e a nos sintonizar com a ação de Deus" – sublinhou ainda Bento XVI.

O Papa recordou que "a salvação do mundo não é obra do ser humano, da ciência, da técnica, da ideologia, mas vem da Graça, que significa Amor em sua pureza e beleza, é Deus como é revelado na história da salvação narrada na Bíblia e realizada em Jesus Cristo".

Maria é chamada a cheia de graça e com esta sua identidade nos recorda a primazia de Deus em nossa vida e na história do mundo, nos lembra que o poder do amor de Deus é mais forte que o mal e preenche as lacunas que o egoísmo provoca na história das pessoas, das famílias, das nações e do mundo.

Maria Imaculada nos fala da verdadeira alegria que se difunde no coração liberto do pecado. "O pecado traz consigo uma tristeza negativa, que induz a se fechar em si mesmo. A Graça traz a verdadeira alegria que não depende da posse de coisas, mas está enraizada no íntimo da pessoa" – disse ainda o Santo Padre.

O Papa concluiu destacando que "neste tempo de Advento, Maria Imaculada nos ensina a ouvir a voz de Deus que fala no silêncio, a acolher a sua Graça que nos liberta do pecado e do egoísmo, para saborear a verdadeira alegria".

Imaculada por graça de Deus, bem-aventurada porque acreditou - Papa neste dia 8 de Dezembro em que lançou um apelo a favor das Filipinas e anunciou a sua ida à Praça de Espanha

Assim introduziu o Santo Padre as suas palavras antes do oração mariana da Angelus com os fiéis congregados na Praça de São Pedro, neste dia 8 de Dezembro, solenidade da Imaculada Conceição.

Em Maria, disse, a palavra de Deus encontra escuta, recepção, resposta, encontra aquele “Sim” que a permite fazer-se carne e vir habitar no meio de nós. Em Maria, a Humanidade, a História se abrem realmente a Deus, acolhem a sua graça, predispõem-se a fazer a sua vontade.

“Maria é expressão genuína da Graça”

Ela representa o novo Israel que o Antigo Testamento descreve com o símbolo de esposa. Expressão retomada por São Paulo na Carta aos efésio, quando fala de matrimónio. Os Padres da Igreja desenvolveram esta imagem de modo que a doutrina da Imaculada – explicou o Papa – surgiu antes em referência à Igreja virgem-mãe e, só depois, em referência a Maria.
A luz que vem da figura de Maria ajuda-nos - prosseguiu Bento XVI – a compreender o verdadeiro sentido do pecado original. Nela vive e age aquela relação com Deus que o pecado quebrara. Nela não há nenhuma oposição entre Deus e o seu ser. Há plena comunhão, plena compreensão.

“Há um sim recíproco, de Deus para ela e dela para Deus.”

Maria é livre do pecado porque é toda de Deus, totalmente virada para Ele. É cheia de Graça, do seu Amor – continuou ainda o Papa que concluiu recordando que a doutrina da Imaculada Conceição de Maria exprime a certeza, à luz da fé, de que as promessas de Deus se realizaram, dando origem ao Fruto bendito de todo o universo, Jesus, o Salvador.

A Imaculada é uma demonstração de que a Graça é capaz de suscitar uma resposta, que a fidelidade de Deus sabe gerar uma fé verdadeira e boa.

Toda a criação, de modo particular, o homem e a mulher, não são frutos de um acaso, mas sim dum projeto de benevolência da razão eterna de Deus que, com a sua potência criadora dá origem ao mundo

Como habitualmente o faz às quartas-feiras, o Papa Bento XVI recebeu em Audiência Geral milhares de peregrinos na Aula Paolo VI. Na sua catequese, centrada desta vez, no projeto do amor de Deus para com a Humanidade, Bento XVI começou por citar o hino de louvor a Deus contida na Carta de São Paulo aos Efésios e que - disse - nos introduz no tempo do Advento, este ano no contexto do Ano da Fé. O Apóstolo – explicou o Papa – eleva a Deus esse hino de louvor porque olha para o seu agir na história da salvação, culminado na encarnação, morte e ressurreição de Jesus. Nós existimos desde o início desde a eternidade na mente de Deus. São Paulo faz-nos compreender que toda a criação, de modo particular, o homem e a mulher, não são frutos de um acaso, mas sim dum projeto de benevolência da razão eterna de Deus que, com a sua potência criadora dá origem ao mundo.

Ouça aqui o essencial da mensagem que o Papa dirigiu aos peregrinos de lingua portuguesa:

Queridos irmãos e irmãs,

O tempo litúrgico do Advento prepara-nos para acolher e aderir ao grande desígnio de benevolência de Deus, que o Natal de seu Filho, feito homem como nós, coloca diante dos nossos olhos. Tal desígnio não ficou oculto no alto dos Céus, mas Deus, na riqueza do seu amor, fala aos homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele, em Cristo por obra do Espírito Santo. Esta comunhão é a realização daquele desejo infinito de plenitude que habita no íntimo do ser humano e o abre para a felicidade eterna. Entretanto, a nossa mente não consegue abarcar completamente este desígnio de benevolência divina, mas pode apenas recebê-lo e acolhê-lo na fé. O ato de fé é a resposta do homem à revelação que Deus Se dignou fazer-lhe, acolhendo na vida o benevolente desígnio que Ele tem para a humanidade e a criação inteira: recapitular tudo em Cristo, reunindo n’Ele o que há no céu e na terra.
* * *
Amados peregrinos de língua portuguesa, cordiais saudações para todos vós, de modo especial para os fiéis cristãos de Goiânia, invocando sobre os vossos passos a graça do encontro com Deus: Jesus Cristo é a Tenda divina no meio de nós. Ide até Ele, vivei na sua graça e tereis a vida eterna. Sobre vós e vossas famílias desça a minha Bênção.

O Amor de Cristo, caminho para a construção duma sociedade humana e pacifica

“Como Deus vos amou, assim também amai-vos uns aos outros”.
Nisto está o segredo de cada vida social plenamente humana e pacífica, assim como também da renovação política e das instituições nacionais e mundiais.

Palavras do Papa aos participantes na Assembleia plenária do Conselho Pontifício Justiça e Paz, recebidos esta manhã em audiência na nala do Consistório do Palácio Apostólico.

A Igreja – disse Bento XVI – não tem a tarefa de sugerir do ponto de vista jurídico e político, a configuração concreta da ordenação internacional, mas oferece a quem tem a responsabilidade dessa ordenação, aqueles princípios de reflexão, critérios de juízo e orientações práticas que podem garantir o tecido antropológico e ético em volta do bem comum.

A tudo isto se chama Doutrina Social da Igreja que é parte integrante da missão evangelizadora da Igreja e que deve ser tomada em consideração especialmente no contexto da Nova Evangelização. Com efeito, os direitos e deveres da pessoa não têm como único e exclusivo fundamento – sublinhou o Papa – a consciência social dos povos, mas dependem primariamente da lei moral natural, inscrita na consciência de cada pessoa e, por conseguinte, em última instância, da verdade sobre o homem e sobre a sociedade.

Embora a sociedade tenha feito muitos progressos na defesa dos direitos humanos, a cultura hodierna permanece caracterizada pelo individualismo utilitarista e um economicismo tecnocrático, tendente a desvalorizar a pessoa – disse o Papa, segundo o qual isto faz com que o ser humano se sinta isolado, mesmo estando inserido numa ampla rede de relações, porque indiferente à relação com Deus que é o fundamento de todas as outras relações.

Se por um lado se continua a proclamar a dignidade da pessoa, por outro há novas ideologias, como a hedonística e egoística dos direitos sexuais e reprodutivos ou a do capitalismo desregrado que vêem o trabalhador e o seu trabalho com bens “menores”. Essas ideologias - continuou Bento XVI – minam também os fundamentos naturais da sociedade, especialmente a família.

Mas para o cristianismo – insistiu – o trabalho é um bem fundamental para o homem, e por isso mesmo o objetivo do acesso ao trabalho para todos é sempre prioritário, também nos períodos de recessão econômica.

Duma nova evangelização do social – disse – pode derivar um novo humanismo e um renovado empenho cultural e projetual que ajuda a destronizar os ídolos modernos, a substituir o individualismo, o consumismo materialista e a tecnocracia, pela cultura da fraternidade e da gratuidade, do amor solidário – concluiu o Santo Padre.
Radio Vaticano

PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO
Advento: "vinda" e "presença" - Papa no Angelus 

Como habitualmente aos domingos, também neste dia 2 de Dezembro, primeiro domingo de Advento, Bento XVI apareceu à janela dos seus aposentos para rezar as Ave Marias juntamente com os numerosos fieis ali reunidos.

Antes da oração, o Papa referiu-se ao novo Ano Litúrgico, segundo o Rito Romano, que inicia com este domingo de Advento, um caminho que é ulteriormente enriquecido com o Ano da Fé, a 50 anos da abertura do Concilio Vaticano II. O Santo Padre explicou que a palavra Advento significa “vinda”, “presença”. No mundo antigo indicava a visita do rei ou do imperador a uma província. Na linguagem cristã refere-se à vinda de Deus, à sua presença no mundo: o mistério que envolve inteiramente o Cosmos e a História, mas que tem dois momentos culminantes: a primeira e a segunda vinda de Cristo. A primeira é a Incarnação, a segunda é o retorno glorioso no fim dos tempos. Estes dois momentos, cronologicamente distantes – disse o Papa - na realidade tocam-se profundamente, porque com a sua morte e ressurreição Jesus já realizou aquela transformação do homem e do cosmos que é a meta final da criação. Mas antes do fim, é necessário que todos os seus inimigos sejam postos debaixo dos seus pés. Este desígnio de salvação de Deus, que está sempre em acto, requer sempre a livre adesão e colaboração do homem:

A isto nos convida hoje a Palavra de Deus, traçando as linhas de conduta a seguir para estar prontos á vinda do Senhor.

No meio das convulsões do mundo ou dos desertos da indiferença ou do materialismo, os cristãos acolham de Deus a salvação e dêem testemunho dela com uma maneira nova de viver, como uma cidade em cima de um monte – exortou o Papa.
A comunidade dos crentes é sinal do amor de Deus, da sua justiça que está já presente na História mas que não foi ainda plenamente realizada, e deve, portanto, ser sempre esperada, invocada, procurada com paciência e coragem – disse o Papa invocando Nossa Senhora e pedindo a cada um de nós para que nos deixemos guiar por Ela, a fim de que o Deus menino que vem não nos encontre fechados e distraídos, mas possa, em cada um de nós, estender um pouco o seu reino de amor, justiça e de paz.
Radio Vaticano



SÍNODO DOS BISPOS: COMO TERMINOU?

ROMA, segunda-feira, 29 de outubro de 2012 (ZENIT.org) - Publicamos a seguir o testemunho de Dom Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília, enviado hoje a ZENIT, sobre a conclusão do Sínodo dos Bispos.
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É difícil resumir a riqueza da experiência vivida e das reflexões propostas na XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. O tema deste Sínodo, de feliz escolha do Papa Bento XVI, pela sua amplitude e complexidade, já dificulta qualquer tentativa de síntese. Por isso, neste terceiro relato, após o término da Assembleia Sinodal, procuro apenas partilhar alguns aspectos da experiência vivida e dos temas abordados, sem a pretensão de um resumo. Dentre tantos outros aspectos, destaco os seguintes:
1. O início e a conclusão do Sínodo com a Eucaristia presidida pelo Papa e concelebrada pelos Padres Sinodais constituem a moldura principal na qual quer se inserir, não apenas a Assembleia Sinodal, mas toda a nova evangelização. A Eucaristia deverá ser sempre ponto de partida e de chegada para a ação evangelizadora. Em diversos momentos, ao se falar dos sujeitos da nova evangelização, foi enfatizada a ação do Espírito Santo e a necessidade da graça, assim como, a santidade dos evangelizadores, destacada por Bento XVI na abertura e na celebração das canonizações ocorrida, a propósito, durante o Sínodo.  
2. A presença assídua do Papa Bento XVI, presidindo a Assembleia Sinodal, foi bastante apreciada por todos, destacando-se a sua sabedoria, simplicidade e paciente atenção aos muitos pronunciamentos.   
3. O Sínodo constitui um precioso instrumento de comunhão eclesial e de colegialidade episcopal, através do diálogo e da convivência fraterna, da reflexão conjunta em plenário e em grupos, da partilha de experiências pastorais, das alegrias e dores da Igreja nos cinco continentes. As cinco línguas oficiais do Sínodo se completavam com muitas outras faladas pelos participantes, representando todas as conferências episcopais  e, portanto, trazendo os diferentes contextos sociais e culturais vividos pela Igreja nos cinco continentes.  Na "Mensagem", os Padres Sinodais se dirigiram a cada continente, valorizando a realidade de cada um. A catolicidade da Igreja foi intensamente manifestada!
4. A comunhão eclesial e a corresponsabilidade pastoral se expressaram também através da participação de presbíteros, diáconos, religiosos(as), leigos e leigas, muitos dos quais puderam falar à Assembleia e outros, colaboraram como peritos. A nova evangelização necessita de todos para acontecer. Por isso, nas proposições aprovadas, destaca-se o papel indispensável das diversas vocações e ministérios na Igreja e a necessidade de formação dos evangelizadores.
5. O tema da nova evangelização não excluiu as dimensões do diálogo ecumênico e inter-religioso; ao contrário, exigiu a  sua consideração atenta e reafirmou a sua necessidade. A abertura ecumênica foi simbolizada, de modo especial, pela presença contínua dos "delegados fraternos", isto é, dos representantes de outras Igrejas cristãs, que tiveram ocasião de dirigir a palavra durante a Assembleia Sinodal e de participar das celebrações, conforme as disposições da Igreja. 
6. A contribuição dos Padres Sinodais da América Latina foi relevante. O Documento de Aparecida foi uma das principais fontes da reflexão oferecida pelos bispos latino-americanos e caribenhos. Temas centrais de Aparecida encontraram acolhida ou confirmação nas proposições e na mensagem do Sínodo: o encontro com Jesus Cristo, a conversão pastoral, a Igreja em estado permanente de missão, a formação, a piedade popular, os pobres, a juventude, o laicato...  A convivência fraterna entre os bispos da América Latina e Caribe foi intensificada pelas celebrações festivas nos Colégios Pio Latino e Mexicano.
7. O Jubileu de abertura do Concílio Vaticano II, os 20 anos do Catecismo da Igreja Católica e o Ano da Fé favoreceram o desenvolvimento do tema geral. A "Mensagem" explicita tal contexto e há proposições dedicadas especialmente ao Concílio e ao Catecismo. Documentos do Vaticano II iluminaram a reflexão de muitos Padres Sinodais, em plenário e nos grupos. Documentos do Magistério pós-conciliar também serviram de fonte, especialmente, pelo seu teor, a Evangelii Nuntiandi, de Paulo VI, a Catechesi Tradendae, de João Paulo II e a recente Verbum Domini.
8. A Palavra de Deus recebeu grande atenção ao longo do Sínodo.  A acolhida recebida pela Verbum Domini, última exortação apostólica pós-sinodal, foi longamente considerada numa das sessões. No início de cada dia, durante a oração da Liturgia das Horas, a Palavra proclamada foi muito bem refletida com a ajuda de alguns Padres Sinodais, sendo no primeiro dia, o próprio Santo Padre quem desenvolveu uma bela reflexão. O texto da Samaritana serviu de inspiração para a Mensagem final. Embora, algumas proposições do Sínodo reflitam mais claramente a dimensão bíblica, a centralidade da Palavra de Deus na nova evangelização exige atenção sempre maior.
9. Os temas abordados foram muitos, conforme se pode comprovar pelo grande número de proposições aprovadas e pela longa Mensagem conclusiva. Refletem a relevância, a amplitude e a complexidade do tema geral: "Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã". É difícil elencá-los, de modo justo. Dentre eles, podemos citar: a catequese, os sacramentos da iniciação cristã, o sacramento da penitência, a família, os jovens, a liturgia, a santidade, a piedade popular,  a Igreja Particular, a paróquia, as comunidades, o clero, a vida consagrada, os leigos, os movimentos eclesiais, a opção pelos pobres, os migrantes, os enfermos, a política, a educação, o ecumenismo, a inculturação, os cenários urbanos, as ciências, o serviço da caridade, os meios de comunicação, os direitos humanos e a liberdade religiosa. Dentre os novos temas ou temas que receberam nova acentuação estão: o reconhecimento do "ministério" de catequista; a ordem dos sacramentos da iniciação cristã em perspectiva pastoral; a "via da beleza" como caminho de evangelização; o  "átrio ou pátio dos gentios", retomando e especificando a questão dos "novos areópagos" como espaços de evangelização; a "conversão pastoral" segundo o espírito missionário de Aparecida; o papel dos teólogos na nova evangelização.
  10. Por fim, pode-se destacar aquilo que desde o início esteve no centro dos escritos e debates deste Sínodo: o que é a "nova evangelização"? em que sentido, a evangelização proposta quer ser "nova"? No início da XIII Assembleia Sinodal, o  Instrumentum laboris, em preparação ao Sínodo, já abordava a questão fazendo uma proposta ampla de compreensão. Na bela e sábia homilia da missa de encerramento do Sínodo, à luz da passagem da cura do cego Bartimeu, o Papa retomou o assunto, mostrando o caminho a seguir. É vasta a tarefa proposta, pois a nova evangelização deve ser assumida por todos, em comunhão na Igreja, com novo ardor e "criatividade pastoral", tendo como âmbitos próprios a pastoral ordinariamente voltada para os católicos que participam da Igreja,  a missão além-fronteiras (ad gentes) e as "pessoas batizadas que, porém não vivem as exigências do batismo".
Como terminou o Sínodo? Em clima de louvor a Deus, de gratidão e esperança, e ao mesmo tempo, de renovado empenho pela nova evangelização, conscientes de que temos  um longo caminho a percorrer para cumprir o mandato missionário de Jesus Cristo: Ide, fazei discípulos!  Há muito para se fazer pela nova evangelização! A oração e a reflexão devem continuar. A busca de respostas pastorais necessita continuar na Igreja local. O Sínodo ilumina e anima a ação evangelizadora, mas não dispensa a nossa tarefa de estabelecer os passos a serem dados na realidade em que vivemos.  As   58 "proposições" aprovadas pelo Sínodo começam a ser divulgadas. A  "Mensagem" dos Padres Sinodais tem sido publicada nas várias línguas, trazendo alento e estímulo. Aguardamos a Exortação Apostólica Pós-Sinodal que o Papa irá nos oferecer, recolhendo as contribuições da XIII Assembleia do Sínodo dos Bispos. O presente relato não substitui a leitura da "Mensagem" e das "Proposições" do Sínodo, bem como, a homilia do Santo Padre; antes, quer servir de estímulo para tanto, esperando que estejam logo disponíveis também em língua portuguesa. Nossa Senhora, Estrela da Evangelização, nos acompanhe com a sua intercessão materna e exemplo!
Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília



Missa de encerramento do Sínodo esta manhã na Basílica vaticana: Bento XVI indicou três linhas pastorais para a Nova Evangelização

 A Basílica de São Pedro estava esta manhã repleta de fieis que participaram na celebração litúrgica de encerramento do Sínodo dos Bispos sobre a nova evangelização.
Com o Santo Padre concelebrou a mais de centena e meia de cardeais e bispos que, ao longo de três semanas, estiveram reunidos no Vaticano para reflectir sobre a forma de reavivar a vivência evangélica dos católicos no mundo de hoje.

A leitura do Evangelho deste domingo em que São Marcos nos apresenta a figura de cego, Bartimeu, curado, graças à sua profunda fé, por Jesus - serviu de inspiração ao Papa para a sua homilia. Bartimeu é a pessoa que tem necessidade de luz e tem consciência disso. Poderia, por isso, representar – disso o Papa – um modelo para aquelas pessoas que vivem em regiões de antiga evangelização, onde a luz da fé se ofuscou, e se afastaram de Deus, deixando de O considerar relevante para a própria vida”.

“São as inúmeras pessoas que precisam de uma nova evangelização, isto é, de um novo encontro com Jesus, o Cristo, o Filho de Deus que pode voltar a abrir os seus olhos, a ensinar-lhes o caminho”

Mas a nova evangelização não é só para essas pessoas. Diz respeito a toda vida da Igreja, antes de mais à pastoral ordinária, que deve ser animada pelo fogo do Espírito – frisou Bento XVI, ponde em realce três linhas pastorais que emergiram do Sínodo:

“A primeira diz respeito aos Sacramentos da iniciação cristã. Foi reafirmada a necessidade de acompanhar com uma catequese adequada, a preparação para o Baptismo, a Confirmação e a Eucaristia”.

O Papa recordou a este respeito que foi também reiterada a importância da Penitência, Sacramento da misericórdia de Deus, e que a figura dos Santos foi indicada como protagonistas da nova evangelização, pois que, com o exemplo da vida e as obras de caridade, falam uma linguagem acessível a todos.

Como segunda linha de evangelização, Bento XVI indicou a missão ad gentes, para a qual são chamados consagrados e leigos.

“Foi sublinhado que há muitos ambientes em África, Ásia e Oceânia, onde os habitantes aguardam com viva expectativa – às vezes sem estar plenamente conscientes disso – o primeiro anuncio do Evangelho. Por isso é preciso pedir ao Espírito Santo que suscite na Igreja um renovado dinamismo missionário, cujos protagonistas sejam, de modo especial, os agentes pastorais e féis leigos”.

Frisando que com a globalização e a deslocação de populações a missão ad gentes torna-se necessária também nos países de antiga evangelização, o Papa passou à terceira linha pastoral desta nova evangelização.

“Um terceiro aspecto diz respeito ás pessoas baptizadas que, porém não vivem as exigências do Baptismo”.

Estas pessoas – constatou-se no Sínodo - encontram-se em todos os continentes, especialmente no mais secularizados. A Igreja dá-lhes particular atenção a fim de as levar a redescobrir a alegria da fé em Cristo – referiu o Papa acrescentando ainda que para pôr em práticas estas três linhas pastorais com vista na nova evangelização, a Igreja, não se serve apenas dos métodos tradicionais de pastoral, mas procura também “lançar mão de novos métodos”, de novas linguagens mais apropriadas para as diversas culturas do mundo, a fim de implementar um diálogo na simpatia e amizade fundamenta em Deus.

Este esforço de criatividade pastoral já está a ser levada a cabo com algumas iniciativas como “o átrio dos gentios”, e a “missão continental", entre outras, indicou o Papa, confiante de que o Senhor abençoará abundantemente esses esforços. E rematou dizendo que os novos evangelizadores são pessoas que, como Bartimeu, voltaram a aproximar-se, com fé, a Jesus Cristo, tornaram-se discípulos e exultam de alegria, porque o Senhor fez nelas grandes coisas.

Mudança de competências em relação aos Seminários e à Catequese - anunciou o Papa este sábado no fim dos trabalhos do Sínodo. Recordou também que a Igreja é universal e não dum continente.

Conclui-se neste domingo, 28 de Outubro, com uma Missa solene presidida pelo Papa, na Basílica de São Pedro, às 9.30, o Sínodo ordinário dos Bispos sobre a Nova Evangelização para a transmissão da fé no mundo de hoje.
Na manhã deste sábado, 27, os padres sinodais concluíram a leitura das proposições finais que foram submetidas a votação e, depois do meio dia, apresentadas aos jornalistas na sala de imprensa da Santa Sé.
No fim dos trabalhos o Santo Padre tomou a palavra e antes de agradecer a todos os participantes no Sínodo anunciou que depois de muita reflexão e oração no contexto deste Sínodo sobre a Nova Evangelização e da conclusão de uma caminhada de reflexão sobre a temática dos Seminários e da Catequese, decidiu transferir a competência da Congregação para a Educação Católica sobre os Seminários à Congregação para o Clero, e a competência sobre a Catequese da Congregação para o Clero ao Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização.

Bento XVI disse ainda que seguirão os relativos documentos sobre estas decisões, em forma de Carta Apostólica Motu Próprio para definir os âmbitos e as respectivas faculdades.

Exprimindo depois os bons votos aos novos cardeais, Bento XVI afirmou que quis com esse pequeno consistório dos dias passados mostrar que a Igreja é de todos os povos, que fala todas as línguas e que é sempre a Igreja do Pentecostes, não a Igreja dum continente, mas uma igreja universal.
Sublinhou ainda que o Sínodo que agora se conclui foi uma bela expressão dessa universalidade; um Sínodo em que se sentiu que a Igreja está a crescer e que, embora sinta ventos contrários, sente contudo, e sobretudo, e vento do Espírito Santo que a ajuda e que nos mostra o caminho certo.
Bento XVI dirigiu também uma palavra de agradecimento a todos os participantes no Sínodo, de modo particular os relatores que trabalharam dia e noite para os documentos do Sínodo. As proposições, disse, são um testemunho, um dom posto à sua disposição para elaborar todos os documentos que se seguirão ao Sínodo. Para isso, rezamos, com esperança, concluiu.




Cardeal Odilo Scherer fala dos principais temas discutidos no Sínodo dos Bispos


Cidade do Vaticano (RV) – Os trabalhos do Sínodo dos Bispos nesta quinta-feira se concentram no trabalho do Relator-Geral, do Secretário Especial e dos Relatores dos Círculos menores. Não há Congregações gerais.

Sobre esta quinta-feira e a análise das Proposições feitas pelos padres sinodais, Silvonei José conversou com o Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Scherer. (SP)

Ouça a entrevista 

XIII ASSEMBLEIA GERAL DO SÍNODO DOS BISPOS

MEDITAÇÃO DO PAPA BENTO XVI
DURANTE A ORAÇÃO DA HORA TÉRCIA
NA INAUGURAÇÃO DOS TRABALHOS
DO SÍNODO DOS BISPOS

Sala do Sínodo
Segunda-feira, 8 de Outubro de 2012

 

Queridos irmãos!

A minha meditação refere-se à palavra «evangelium» «euangelisasthai» (cf. Lc 4, 18). Neste Sínodo pretendemos conhecer mais o que o Senhor nos diz e o que podemos ou devemos fazer. Divide-se em duas partes: uma primeira reflexão sobre o significado destas palavras, e depois vou procurar interpretar o Hino da Hora Tércia «Nunc, Sancte, nobis Spiritus», na página 5 do Livro das Orações.

A palavra «evangelium» «euangelisasthai» tem uma longa história. Comparece em Homero: é o anúncio de uma vitória, e por conseguinte é anúncio de bem, de alegria, de felicidade. Comparece, depois, no Segundo livro de Isaías (cf. 40, 9), como voz que anuncia a alegria de Deus, como voz que faz compreender que Deus não se esqueceu do seu povo, que Deus, o Qual aparentemente quase se tinha retirado da história, existe, está presente. E Deus tem poder, Deus dá alegria, abre as portas do exílio; depois da longa noite do exílio, a sua luz aparece e dá a possibilidade do regresso ao seu povo, renova a história do bem, a história do seu amor. Neste contexto da evangelização, sobressaem sobretudo três palavras: dikaiosyne, eirene, soteria — justiça, paz, salvação. O próprio Jesus retomou as palavras de Isaías em Nazaré, falando deste «Evangelho» que agora ele leva precisamente aos excluídos, aos encarcerados, aos sofredores e aos pobres.

Mas para o significado da palavra «evangelium» no Novo Testamento, além deste — o Deutero-Isaías, que abre a porta —, é importante também o uso da palavra do Império Romano, começando pelo imperador Augusto. Aqui a palavra «evangelium» indica uma palavra, uma mensagem que vem do Imperador. Por conseguinte, a mensagem do Imperador — como tal — traz o bem: é renovação do mundo, é salvação. Mensagem imperial e como tal é uma mensagem de força e de poder; é uma mensagem de salvação, de renovação e de saúde. O Novo Testamento aceita esta situação. São Lucas confronta explicitamente o Imperador Augusto com o Menino nascido em Belém: «evangelium» — diz — sim, é uma palavra do Imperador, do verdadeiro Imperador do mundo. O verdadeiro Imperador do mundo fez-se ouvir, fala a nós. E este fato, como tal, é redenção, porque o grande sofrimento do homem — naquele tempo, como hoje — é precisamente este: por detrás do silêncio do universo, das nuvens da história há ou não um Deus? E, se este Deus existe, se nos conhece, está relacionado conosco? Este Deus é bom, e a realidade do bem tem ou não poder no mundo? Estas perguntas hoje são tão atuais como eram naquele tempo. Muita gente se pergunta: Deus é uma hipótese ou não? É uma realidade ou não? Por que não se manifesta? «Evangelho» significa: Deus interrompeu o seu silêncio, Deus falou, Deus existe. Este fato enquanto tal é salvação: Deus conhece-nos, Deus ama-nos, entrou na história. Jesus é a sua Palavra, o Deus conosco, o Deus que nos mostra que nos ama, que sofre conosco até à morte e ressuscita. Este é o próprio Evangelho. Deus falou, já não é o maior desconhecido, mas mostrou-se a si mesmo e isto é salvação.

Para nós a questão é: Deus falou, deveras rompeu o grande silêncio, mostrou-se, mas como podemos fazer chegar esta realidade ao homem de hoje, para que se torne salvação? Em si o fato que tenha falado é a salvação, é a redenção. Mas como pode o homem saber isto? Parece-me que este ponto constitua para nós uma pergunta, mas também um pedido, um mandato: podemos encontrar uma resposta meditando o Hino da Hora Tércia «Nunc, Sancte, nobis Spiritus». A primeira estrofe diz: «Dignare promptus ingeri nostro refusus, pectori», ou seja, oremos para que venha o Espírito Santo, esteja em nós e conosco. Por outras palavras: nós não podemos fazer a Igreja, podemos unicamente dar a conhecer quanto Ele fez. A Igreja não começa com o nosso «fazer», mas com o «fazer» e o «falar» de Deus. Assim os Apóstolos não disseram, depois de algumas assembleias: agora queremos criar uma Igreja, e com a forma de uma constituinte elaboraram uma constituição. Não, rezaram e em oração esperaram, porque sabiam que só o próprio Deus pode criar a sua Igreja, que Deus é o primeiro agente: se Deus não age, as nossas coisas são apenas nossas e são insuficientes; só Deus pode testemunhar que é Ele quem fala e quem falou. Pentecostes é a condição do nascimento da Igreja: só porque Deus agiu primeiro, os Apóstolos podem agir com Ele e com a sua presença e tornar presente quanto Ele faz. Deus falou e este «falou» é o perfeito da fé, mas é sempre também um presente: o perfeito de Deus não é só um passado, porque é um passado verdadeiro que tem sempre em si o presente e o futuro. Deus falou significa: «fala». E como naquele tempo só com a iniciativa de Deus podia nascer a Igreja, o Evangelho podia ser conhecido, o fato de que Deus falou e fala, assim também hoje só Deus pode começar, nós podemos unicamente cooperar, mas o início deve vir de Deus. Por isso não é uma simples formalidade se começarmos todos os dias a nossa Assembleia com a oração: isto responde à própria realidade. Só o preceder de Deus torna possível o nosso caminhar, o nosso cooperar, que é sempre um cooperar, não uma nossa decisão. Por isso é sempre importante saber que a primeira palavra, a iniciativa verdadeira, a atividade verdadeira vem de Deus e só inserindo-nos nesta iniciativa divina, só implorando esta iniciativa divina, nos podemos tornar também — com Ele e n’Ele — evangelizadores. Deus é sempre o início, e sempre só Ele pode fazer Pentecostes, pode criar a Igreja, pode mostrar a realidade do seu ser conosco. Mas por outro lado, contudo, Deus, que é sempre o início, deseja também o nosso compromisso, deseja comprometer a nossa atividade, de modo que as atividades sejam teândricas, por assim dizer, feitas por Deus, mas com o nosso comprometimento e exigindo o nosso ser, toda a nossa atividade.

Por conseguinte, quando nós fazemos a nova evangelização é sempre cooperação com Deus, insere-se no conjunto com Deus, está fundada na oração e na sua presença real.

Mas, este nosso agir, que provém da iniciativa de Deus, encontramo-lo descrito na segunda estrofe deste Hino: «Os, lingua, mens, sensus, vigor, confessionem personent, flammescat igne caritas, accendat ardor proximos». Temos aqui, em duas linhas, dois substantivos determinantes;: «confessio» nas primeiras linhas, e «caritas» nas duas segundas. «confessio» e «caritas», como os dois modos nos quais Deus nos envolve, nos faz agir com Ele e para a humanidade, para a sua criatura: «confessio» e «caritas». E são acrescentados os verbos: no primeiro caso «personent» e no segundo «caritas» interpretado com a palavra fogo, fervor, acender, atear.

Vejamos o primeiro: «confessionem personent». A fé tem um conteúdo: Deus comunica-se, mas este Eu de Deus mostra-se realmente na figura de Jesus e é interpretado na «confissão» que nos fala da sua concepção virginal do Nascimento, da Paixão, da Cruz, da Ressurreição. Este mostrar-se de Deus é todo uma Pessoa: Jesus como o Verbo, com um conteúdo muito concreto que se expressa na «confessio». Por conseguinte, o primeiro ponto é que nós devemos entrar nesta «confissão», fazer-nos penetrar, de modo que «personent» (ressoe) — como diz o Hino — em nós e através de nós. Aqui é importante observar também uma pequena realidade filológica: «confessio» em latim pré-cristão não seria «confessio» mas «professio» (profiteri): isto é, apresentar positivamente uma realidade. Ao contrário a palavra «confessio» refere-se à situação num tribunal, num processo no qual alguém abre a sua mente e confessa. Por outras palavras, esta «confissão», que no latim cristão substituiu a palavra «professio», tem em si o elemento martirológico, o elemento de testemunhar diante de instâncias inimigas à fé, testemunhar também em situações de paixão e de perigo de morte. É parte essencial da confissão cristã a disponibilidade para sofrer: isto parece-me muito importante. Sempre na essência da «confessio» do nosso Credo, está incluída também a disponibilidade para a paixão, para o sofrimento, aliás, para o dom da vida. E precisamente isto garante a credibilidade: a «confessio» não é algo que se pode pôr de lado; a «confessio» exige a disponibilidade para dar a vida, para aceitar a paixão. Isto é precisamente também a verificação da «confessio». Vê-se que para nós a «confessio» não é uma palavra, é mais que a dor, é mais que a morte. Vale realmente a pena sofrer, vale a pena sofrer até à morte pela «confessio». Quem faz esta «confessio» demonstra assim que deveras aquilo que confessa é mais do que vida: é a própria vida, o tesouro, a pérola preciosa e infinita. Precisamente na dimensão martirológica da palavra «confessio» sobressai a verdade: verifica-se só para uma realidade pela qual vale a pena sofrer, que é também mais forte do que a morte, e demonstra que possuo a verdade, que tenho mais segurança, que «levo» a minha vida porque encontro a vida nesta confissão.

Vejamos agora onde deveria penetrar esta «confissão»: «Os, lingua, mens, sensus, vigor» [A boca, a língua, a mente, os sentidos e o vigor]. De São Paulo, Carta aos Romanos 10, sabemos que a colocação da «confissão» é no coração e na boca: deve estar no fundo do coração, mas deve ser também pública: deve ser anunciada a fé que se tem no coração: nunca é apenas uma realidade no coração, mas tende para ser comunicada, para ser confessada realmente diante dos olhos do mundo. Assim devemos aprender, por um lado, a estar realmente — digamos — penetrados no coração pela «confissão», assim o nosso coração é formado, e do coração encontrar também, juntamente com a grande história da Igreja, a palavra e a coragem da palavra, e a palavra que indica o nosso presente, esta «confissão» que é sempre contudo uma.
«Mens»: a «confissão» não é só uma questão do coração e da boca, mas também da inteligência: deve ser pensada e assim, como pensada e inteligentemente concebida, toca o outro e supõe sempre que o meu pensamento seja realmente colocado na «confissão».
«Sensus»: não é uma coisa meramente abstrata e intelectual, a «confessio» deve penetrar também os sentidos da nossa vida. São Bernardo de Claraval disse-nos que Deus, na sua revelação, na história de salvação, deu aos nossos sentidos a possibilidade de ver, de tocar, de saborear a revelação. Deus já não é só uma coisa espiritual: entrou no mundo pelos sentidos e os nossos sentidos devem estar cheios deste sabor, desta beleza da Palavra de Deus, que é realidade. «Vigor»: é a força vital do nosso ser e também o vigor jurídico de uma realidade. Com toda a nossa vitalidade e força, devemos ser penetrados pela «confessio», que deve realmente «personare»; a melodia de Deus deve entoar o nosso ser na sua totalidade.

«Confessio» é a primeira coluna — por assim dizer — da evangelização e a segunda é «caritas». A «confessio» não é uma coisa abstrata, é «caritas», é amor. Só assim é realmente o reflexo da verdade divina, que como verdade é inseparavelmente também amor. O texto descreve, com palavras muito fortes, este amor: é fervor, é chama, é atear os outros. Há uma nossa paixão que deve crescer da fé, que deve transformar-se em fogo da caridade. Jesus disse-nos: Vim para lançar fogo à terra e quanto desejaria que já estivesse ateado. Orígenes transmitiu-nos uma palavra do Senhor: «Quem está perto de mim está perto do fogo». O cristão não deve ser tíbio. O Apocalipse diz-nos que este é o maior perigo do cristão: não diz não, mas diz um sim tíbio. Precisamente esta tibiez desacredita o cristianismo. A fé deve tornar-se em nós chama do amor, chama que incendeia realmente o meu ser, se torna grande paixão do meu ser, e assim incendeia o próximo. Este é o modo da evangelização: «Accendat ardor proximos», que a verdade se torne em mim caridade e a caridade incendeie como o fogo também o outro. Só neste acender o outro através da chama da nossa caridade, cresce realmente a evangelização, a presença do Evangelho, que já não é só palavra, mas realidade vivida.

São Lucas narra que no Pentecostes, nesta fundação da Igreja por Deus, o Espírito Santo era fogo que transformou o mundo, mas fogo em forma de língua, ou seja, fogo que é contudo também razoável, que é espírito, que é também compreensão; fogo que está unido ao pensamento, à «mens». E precisamente este fogo inteligente, esta «sobria ebrietas»[embriaguez sóbria], é característica para o cristianismo. Sabemos que o fogo é o início da cultura humana: o fogo é luz, é calor, é força de transformação. A cultura humana começa no momento em que o homem tem o poder de criar o fogo: com o fogo pode destruir, mas pode também transformar, renovar. O fogo de Deus é fogo transformador, fogo de paixão — sem dúvida — que destrói também tanto em nós, que leva a Deus, mas fogo sobretudo que transforma, renova e cria uma novidade do homem, que se torna luz em Deus.

Assim, no final, podemos unicamente rezar ao Senhor para que a «confessio» esteja fundada profundamente em nós e que se torne fogo que ateia os outros; assim o fogo da sua presença, a novidade do seu ser conosco, torna-se realmente visível e força do presente e do futuro.
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A TRADIÇÃO DE FÉ: UMA RESPOSTA PARA A PERGUNTA SOBRE O UNIVERSO

Cardeal Péter Erdo

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 19 de outubro de 2012 (ZENIT.org) – Apresentamos abaixo as palavras do cardeal Péter Erdo, arcebispo de Esztergom-Budapeste, presidente da Conferência Episcopal e do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), durante a décima quarta congregação geral do Sínodo dos Bispos, em 16 de outubro de 2012.
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O nº 54 do instrumentum laboris fala sobre o Pátio dos Gentios. Para a evangelização, é necessário partir do básico da nossa existência. A nossa fé, na verdade, se refere à realidade. À totalidade de tudo o que existe. A atual visão científica do mundo nos dá uma perspectiva amplíssima.
Se tentarmos imaginar o universo, a nossa imaginação se abre para Deus, para a sua imensa realidade. A realidade colossal de Deus, quando se encontra com o mundo, sendo intimamente presente nele, mas ficando acima do espaço e do tempo, produz situações que muitas vezes nos parecem paradoxais.
As ciências naturais, a física, a astronomia, nos demonstram a flexibilidade e a riqueza de conceitos fundamentais como a matéria e a energia. Colocam a questão do início e do fim do universo. Falam até de energia escura e de antimatéria, categorias úteis para ajudar a explicar certos fenômenos basilares do universo. Há uma abundância de pesquisadores que estão abertos à aceitação da existência de um Deus transcendente, que não é a mesma coisa que o universo em si.
Quando nós, cristãos, proclamamos que Deus é pessoal, que ele nos ama, que ele nos salvou, que ele nos convida a uma vida feliz e eterna em comunhão com ele, não estamos formulando conclusões automáticas do nosso conhecimento sobre a natureza.
Nós temos outra fonte, que é necessária para a nossa fé: a revelação divina, que nos veio em sua plenitude na pessoa de Jesus Cristo. Este grande evento nós podemos conhecer através da tradição, transmitida pela Igreja, atestada pelo testemunho das gerações de santos, partindo dos apóstolos até os dias atuais.
A tradição da fé soa como uma resposta autêntica para a nossa grande experiência e pergunta sobre o universo. Nós vivemos, portanto, em uma época de grandes oportunidades para proclamar a nossa fé também através do diálogo com as ciências naturais e históricas.

Rigor científico e paixão pelo homem: Bento XVI, elogiando os vencedores do Prémio Ratzinger

Promover um saber que reuna ciência e sapiência, rigor científico e paixão pelo homem, de tal modo que este possa descobrir a arte de viver: Este – segundo o Papa – o principal mérito dos dois estudiosos hoje galardoados por Bento XVI com o “Prémio Ratzinger para a Teologia” 2012: o padre jesuíta americano Brian Daley, professor de Teologia na Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos, e o historiador francês Rémi Brague (foto), leigo casado, professor emérito de Filosofia Medieval, na Sorbona, em Paris, e professor de Filosofia das Religiões europeias, em Munique.
Bento XVI sublinhou a competência e o empenho dos dois premiados em dois aspetos decisivos para a Igreja do nosso tempo: o ecumenismo e o confronto com as outras religiões. Estudando a fundo os Padres da Igreja – observou o Papa – o padre Daley colocou-se na melhor das escolas para conhecer e amar a Igreja una e indivisa, na diversidade das suas diferentes tradições. Por sua vez o professor Brague é um grande estudiosos da filosofia das religiões, em especial da religião hebraica e islâmica na Idade Média.
Estudos que, nos 50 anos do início do Concílio Vaticano II, convidam a reler dois documentos conciliares: a Declaração “Nostra aetate”, sobre as religiões não cristãs, e o Decreto “Unitatis redintegratio” sobre o ecumenismo, a que seria de acrescentar ainda – considerou o Papa – “um outro documento que se revelou de extraordinária importância – a Declaração “Dignitatis humanae”, sobre a liberdade religiosa.
Bento XVI exprimiu o seu “apreço e gratidão” pela atividade académica de investigação e divulgação desenvolvida pelos dois premiados:

“Personalidades como o Padre Daley e o Professor Brague são exemplares para a transmissão de um saber que une ciência e sapiência, rigor científico e paixão pelo homem (…). Temos necessidade precisamente de pessoas (assim), que, através da fé iluminada e vivida, tornem Deus presente e credível ao homem de hoje (…). Homens cuja inteligência esteja iluminada pela luz de Deus, para que possam falar também à mente e ao coração dos outros. (Isso) para que os homens e as mulheres do nosso tempo possam descobrir e redescobrir a verdadeira arte de viver: foi esta uma das grandes paixões do Concílio Vaticano II, mais do que nunca atual no empenho da nova evangelização”.
Radio Vaticano

Cardeal Dom Odilo e os trabalhos sinodais desta sexta - 19.outubro
Os trabalhos do Sínodo dos Bispos no Vaticano, sobre o tema da “Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã, se concentram nestes dias sobre os trabalhos dos Círculos Menores. Os muitos temas apresentados nos dias passados são agora discutidos em pequenos grupos que apresentam as suas proposições. Sobre os trabalhos, volta a nos falar o Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Scherer que participa dos trabalhos sinodais. Ouça a entrevista. Radio Vaticano

Audiência: Papa inaugura novo ciclo de catequeses por ocasião do Ano da Fé

Milhares de peregrinos e fiéis, inclusive muitos brasileiros, lotaram esta quarta-feira a Praça S. Pedro para a Audiência Geral com o Papa Bento XVI.

Com a abertura do Ano da Fé, o Santo Padre interrompe seu ciclo de catequeses dedicado à escola de oração, para aprofundar o conteúdo da nossa fé cristã no decorrer de todo este Ano inaugurado na semana passada.

Mas a fé é realmente a força motriz da nossa vida? Esta foi a primeira pergunta que Bento XVI dirigiu aos fiéis. A fé não deve ser somente um dos elementos que fazem parte da existência, mas a parte determinante. Hoje, è importante reiterar este aspecto com clareza, diante de transformações culturais que mostram formas de barbáries como sinal de conquistas de civilidade. A verdadeira humanidade existe onde o homem é animado pelo amor de Deus. A fé cristã não limita, mas humaniza a vida, ou melhor, a torna plenamente humana.

Onde encontramos a fórmula essencial da fé? Onde encontramos as verdades que nos foram fielmente transmitidas? A resposta é simples: no Credo, na Profissão de Fé, nós nos unimos ao evento originário da Pessoa e da História de Jesus de Nazaré. Hoje necessitamos que o Credo seja melhor conhecido, compreendido e rezado.

Muitas vezes, o cristão não conhece nem mesmo o núcleo central da própria fé católica, do Credo, deixando espaço para um certo sincretismo e relativismo religioso, sem clareza sobre o conteúdo. Deste modo, corre-se o risco de se construir, por assim dizer, uma religião “self-service”. Pelo contrário, devemos regressar a Deus, ao Deus de Jesus Cristo, devemos redescobrir a mensagem do Evangelho.

Nas catequeses deste Ano da Fé, gostaria de oferecer uma ajuda para realizar este caminho, para retomar e aprofundar as verdades centrais da fé, meditando e refletindo sobre as afirmações do Credo. E gostaria que fosse claro que esses conteúdos se ligam diretamente à nossa vivência. Que este caminho que realizaremos este ano possa fazer-nos crescer todos na fé e no amor a Cristo, para que aprendamos a viver, nas escolhas e nas ações cotidianas, a vida boa e bela do Evangelho.

Este é o resumo que o Santo Padre fez de sua catequese em português:

“Queridos irmãos e irmãs, hoje iniciamos um novo ciclo de catequeses que se inserem no contexto do Ano da Fé, inaugurado recentemente. Com estas catequeses, queremos percorrer um caminho que leve a reforçar ou a reencontrar a alegria da fé em Jesus Cristo, único Salvador do mundo. De fato, o nosso mundo de hoje está profundamente marcado pelo secularismo, relativismo e individualismo que levam muitas pessoas a viver a vida de modo superficial, sem ideais claros. Por isso, é essencial redescobrir como a fé é uma força transformadora para a vida: saber que Deus é amor, que se fez próximo aos homens com a Encarnação e se entregou na cruz para nos salvar e nos abrir novamente a porta do céu. De fato, a fé não é uma realidade desconectada da vida concreta. Neste sentido, para perceber o vínculo profundo que existe entre as verdades que professamos e a nossa vida diária, é preciso que o Credo, o Símbolo da Fé, seja mais conhecido, compreendido e rezado. Nele encontramos as fórmulas essenciais da fé: as verdades que nos foram fielmente transmitidas e que constituem a luz para a nossa existência.
Dou às boas-vindas aos grupos de visitantes do Brasil e demais peregrinos de língua portuguesa. Agradeço a vossa presença e desejo que este Ano possa ajudar-vos a crescer na fé e no amor a Cristo, para que aprendais a viver a vida boa e bela do Evangelho. De coração, a todos abençôo. Obrigado!”.
Radio Vaticano

BENTO XVI: "SEMPRE HAVERÁ NOVOS DESPERTARES PARA O CRISTIANISMO"

Entrevista inédita com o Santo Padre no filme Bells of Europe, apresentado ontem à noite após a sessão sinodal


CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 16 de outubro de 2012 (ZENIT.org) - Ontem, segunda-feira, 15 de outubro, após a sessão sinodal, foi apresentado a alguns padres sinodais o filme Bells of Europe [Sinos da Europa], sobre a relação entre o cristianismo, a cultura europeia e o futuro do continente.
O filme apresenta trechos de uma série de entrevistas originais exclusivas com as maiores personalidades religiosas cristãs, incluindo o papa Bento XVI, o patriarca ecumênico Bartolomeu I, o patriarca de Moscou, Kirill, o arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, o ex-presidente da Federação das Igrejas Evangélicas na Alemanha, Wolfgang Huber, e outras personalidades da política e da cultura.
O fio condutor da produção vem do som dos sinos dos diversos cantos do continente e da fusão de um sino na antiga fundição de Agnone. A trilha sonora traz músicas do famoso compositor estoniano Arvo Pärt, que, também entrevistado no filme, explica como se inspirou precisamente no tilintar dos sinos.
Realizado pelo Centro Televisivo Vaticano a partir de uma concepção do pe. Germano Marani e com o apoio de várias outras instituições, entre as quais a Fundação Gregoriana, o filme já está disponível para a RAI Cinema, que detém os direitos de transmissão televisiva e de distribuição doméstica.
Um fascículo com os textos completos das entrevistas realizadas no filme, em italiano e em inglês, foi distribuído a todos os participantes do sínodo. Destaque para a ampla entrevista, até agora inédita, com o Santo Padre Bento XVI, que reproduzimos a seguir.
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Santidade, as suas encíclicas propõem uma antropologia forte, um homem habitado pelo amor de Deus, um homem de racionalidade alargada pela experiência da fé, um homem que tem uma responsabilidade social na dinâmica da caridade, recebida e doada dentro da verdade. Justamente nessa dimensão antropológica, em que a mensagem do evangelho exalta todos os elementos dignos da pessoa humana, purificando os resíduos que obscurecem o verdadeiro rosto do homem criado à imagem e semelhança de Deus, Sua Santidade tem dito repetidamente que essa redescoberta da face humana, dos valores do evangelho, das raízes profundas da Europa, é uma fonte de grande esperança para o continente europeu e para os demais continentes. Pode nos explicar as razões da sua esperança?

Papa Bento XVI: A primeira razão para a minha esperança é que o desejo de Deus, a busca de Deus, está inscrita profundamente em cada alma humana e não pode desaparecer. É claro que, durante algum tempo, as pessoas podem se esquecer de Deus, deixá-lo de lado, fazer outras coisas, mas Deus nunca desaparece. É simplesmente verdadeiro o que diz Santo Agostinho: que nós, homens, ficamos inquietos até que o nosso coração repouseem Deus. Essa inquietação existe hoje também. É a esperança de que o homem, de novo, inclusive hoje, empreenda o seu caminho rumo a esse Deus.
A segunda razão para a minha esperança é que o evangelho de Jesus Cristo, a fé em Cristo, é simplesmente verdadeira. E a verdade não envelhece. Ela também pode ser esquecida durante um certo tempo, outras coisas podem ser encontradas, ela pode ser deixada num canto, mas a verdade, como tal, não desaparece. As ideologias têm um prazo de vida contado. Parecem fortes, irresistíveis, mas, depois de algum tempo, elas se consomem, não têm mais a força de antes, porque carecem de uma verdade profunda. São partículas da verdade, mas, no fim, acabam se consumindo. Já o evangelho é verdadeiro e, portanto, nunca se desgasta. Em todos os períodos da história aparecem as suas novas dimensões, aparece toda a sua novidade, no ato de responder às necessidades do coração e da razão humana, que pode caminhar nesta verdade e nela se encontrar. E assim, por este motivo, eu estou convencido de que há também uma nova primavera do cristianismo.
Uma terceira razão empírica nós vemos no fato de que essa inquietação, hoje, está presente na juventude. Os jovens já viram tanta coisa, as ofertas das ideologias e do consumismo, mas captam o vazio em tudo isso, captam a sua insuficiência. O homem é criado para o infinito. Todo o finito é pouco demais. E por isso nós vemos que, justo nas gerações mais jovens, esta ansiedade é despertada de novo e eles começam a sua jornada, e acontecem assim novas descobertas da beleza do cristianismo, de um cristianismo que não é de baixo custo, que não é reduzido, mas sim do cristianismo na sua radicalidade e profundidade. Eu penso, portanto, que a antropologia, como tal, nos mostra que sempre haverá novos despertares do cristianismo e que isto é confirmado com uma expressão: fundações profundas. É o cristianismo. É verdadeiro, e a verdade sempre tem futuro.

Sua Santidade afirmou em várias ocasiões que a Europa teve e ainda tem uma influência cultural sobre todo o gênero humano e que não pode deixar de se sentir particularmente responsável não apenas pelo próprio futuro, mas também pelo futuro de toda a humanidade. Olhando para frente, é possível delinear os contornos do testemunho visível de católicos e cristãos das Igrejas ortodoxas e protestantes, na Europa toda, do Atlântico aos Urais, que, vivendo os valores do evangelho em que eles acreditam, contribuem para a construção de uma Europa mais fiel a Cristo, mais acolhedora, solidária, não somente preservando a herança cultural e espiritual que os distingue, mas também no compromisso de buscar novos caminhos para enfrentar os grandes desafios comuns que marcam a era pós-moderna e multicultural?

Papa Bento XVI: Esta é a grande questão. É claro que a Europa ainda tem um grande peso no mundo de hoje, seja econômico, seja cultural e intelectual. E, com esse peso, ela tem uma grande responsabilidade. Mas a Europa, como você mencionou, ainda tem que encontrar a sua plena identidade para ser capaz de falar e de agir de acordo com as suas responsabilidades. O problema, hoje, não é mais, na minha opinião, o das diferenças nacionais. São diversidades que não representam mais divisões, graças a Deus. As nações permanecem, e, na sua diversidade cultural, humana, temperamental, são um tesouro que se completa e que dá à luz uma grande sinfonia de culturas. São, fundamentalmente, uma cultura comum.
O problema da Europa, de encontrar a sua identidade, me parece que está no fato de que temos hoje duas almas na Europa: uma alma é a razão abstrata, anti-histórica, que tenta dominar tudo porque se sente acima de todas as culturas. Uma razão desembocada em si mesma, que pretende se emancipar de todas as tradições e valores culturais em prol de uma racionalidade abstrata. A primeira sentença de Estrasburgo sobre os crucifixos era um exemplo dessa razão abstrata, que quer se livrar de todas as tradições, da própria história. Mas não podemos viver desse jeito. Até porque a própria "razão pura" é condicionada por uma situação histórica específica, e é só neste sentido que ela pode existir.
A outra alma é aquela que podemos chamar de cristã, que se abre a tudo o que é razoável, que criou, ela mesma, a audácia da razão e da liberdade de uma razão crítica, mas permanece ancorada nas raízes que deram origem a esta Europa, que a construíram nos grandes valores, nas grandes intuições, na visão da fé cristã. Como você mencionou, especialmente no diálogo ecumênico entre a igreja católica, ortodoxa, protestante, esta alma tem que encontrar uma expressão comum e, então, se encontrar com esta razão abstrata, isto é, aceitar e manter a liberdade crítica da razão no tocante a tudo o que ela pode fazer e a tudo o que ela já fez, mas praticá-la, concretizá-la no fundamento, na coesão com os grandes valores que o cristianismo nos deu.
Só nesta síntese é que a Europa pode ter o seu peso no diálogo intercultural da humanidade de hoje e de amanhã, porque uma razão que se emancipou de todas as culturas não pode entrar em diálogo intercultural. Só uma razão que tem uma identidade histórica e moral pode conversar com as outras pessoas e procurar uma interculturalidade, em que todos possam entrar e encontrar uma unidade fundamental dos valores capazes de abrir as estradas para o futuro, para um novo humanismo, que deve ser o nosso propósito. E, para nós, este humanismo cresce justamente a partir da grande ideia do homem à imagem e semelhança de Deus.

Bento XVI a Graziano: "Que a humanidade possa realmente se livrar da fome"
Radio Vaticano
Cidade do Vaticano – O Papa Bento XVI enviou uma mensagem ao Diretor-Geral da FAO, José Graziano da Silva, por ocasião do Dia Mundial da Alimentação, que se celebra esta terça-feira, 16 de outubro.

No texto, o Pontífice nota que este ano o Dia Mundial da Alimentação se celebra enquanto os efeitos da crise econômica atingem sempre mais as necessidades primárias dos povos, inclusive o direito fundamental de cada pessoa a uma nutrição suficiente. O Papa denuncia a falta de empenho generalizado, que se manifesta gradualmente, para acabar com a desnutrição. Instituições e governos se esquecem que somente uma ação comum e compartilhada poderá ser capaz de dar respostas adequadas às expectativas das pessoas e dos povos.

Bento XVI declara-se satisfeito com o tema escolhido este ano para o Dia Mundial da Alimentação: “As cooperativas agrícolas nutrem o mundo”. “Não se trata somente de apoiar as cooperativas, mas de considerá-las uma verdadeiro instrumento da ação internacional. Além de impulsionarem o trabalho agrícola, permitem às populações rurais intervir nos momentos decisivos de suas vidas.”

Dando a devida prioridade à dimensão humana, as cooperativas podem superar o perfil exclusivamente técnico do trabalho agrícola, favorecendo as necessidades reais dos camponeses e de suas famílias. Desse modo, o lucro deixa de ser o único objetivo, sendo possível combater a especulação dos preços dos alimentos.

A Igreja Católica, recorda o Papa, considera o trabalho nas cooperativas como uma possibilidade de viver a unidade e a solidariedade, capaz inclusive de superar as diferenças e até mesmo os conflitos sociais. As cooperativas são ainda uma expressão concreta de uma verdadeira subsidiariedade – um princípio que a Doutrina Social da Igreja aponta como fundamento para uma relação correta entre a pessoa, a sociedade e das instituições.

Olhando para as situações onde conflitos ou desastres naturais limitam o trabalho agrícola, Bento XVI dirige um pensamento especial ao papel insubstituível da mulher, chamada muitas vezes a articular o trabalho das cooperativas.

Num mundo em busca de soluções para superar a crise econômica e para dar à globalização um significado autenticamente humano, a experiência das cooperativas representa um novo tipo de economia a serviço da pessoa. Por isso, afirma o Pontífice, é indispensável que os poderes públicos ofereçam os instrumentos legislativos e financeiros necessários para seu funcionamento e aprimoramento.

Bento XVI conclui a mensagem, renovando a atenção da Igreja e o empenho de suas instituições para que a humanidade possa realmente se livrar da fome. 

Ouça Dom Odlilo Pedro Scherer - Cardeal Arcebispo Metropolitano de São Paulo comentando à Radio Vaticano a Primeira Semana do Sínodo: http://media01.radiovaticana.va/audiomp3/00338681.MP3

Radio Vaticano


Os ricos usem a riqueza para dar sentido à vida: Bento XVI no Angelus deste domingo, em que recordou a beatificação, em Praga, os primeiros Beatos deste Ano da Fé

Como habitualmente, também neste domingo, Bento XVI apareceu ao meio dia, à Janela do seu apartamento, sobre a Praça de São Pedro, para rezar a oração do Angelus e fazer uma breve reflexão com os fieis ali reunidos e no mundo inteiro, através dos de comunicação social.

Tal como sugere o Evangelho deste domingo em que São Marcos fala do encontro de Jesus com o rico opulento, foi sobre a questão da partilha das riquezas com os mais necessitados que o Papa centrou as suas palavras.

No encontro com esse rico, fiel observante dos mandamentos da lei de Deus, mas que não tinha ainda encontrado a felicidade e pergunta, por isso, a Jesus “como fazer para ter a vida eterna”, Jesus aproveita o desejo profundo desse homem habituado a “comprar” tudo com o dinheiro e apegado aos seus bens materiais, para lhe propor dar tudo aos pobres e a segui-Lo. “Vem, segue-me!”

Mas o homem que pensava que Jesus lhe ai propor algum mandamento especial que pudesse, quem sabe, cumprir também com a ajuda do dinheiro, não compreendeu essa proposta de Jesus. O Filho de Deus colhe, então, a ocasião para explicar aos seus discípulos “quão difícil é para os ricos entrar no reino de Deus”, Aliás, disse, “é mais fácil para um camelo passar pelo fundo duma agulha do que para um rico entrar no reino de Deus”

Perante o espanto dos discípulos, Jesus acrescentou todavia, que isto é impossível para os homens, mas não para Deus, porque a Deus tudo é possível .

E a este respeito o Papa citou São Clemente de Alexandria, segundo o qual a parábola do rico opulento ensina aos ricos que não devem descurar a sua salvação, como se fossem já condenados a não entrar no reino dos céus, nem devem considerar a sua riqueza hostil à vida, mas devem, isso sim, aprender a usá-la para dar sentido à vida

O Papa recordou ainda que a Igreja está cheia de exemplos de pessoas ricas que souberam usar os próprios bens de forma evangélica, chegando mesmo à santidade… E lembrou o caso de São Francisco, Santa Isabel da Hungria ou São Carlos Borromeo…

Bento XVI concluiu as suas reflexões com os fieis invocando Nossa Senhora, sede da sabedoria, para nos ajudar a acolher com alegria o convite de Jesus, para entrar na plenitude da vida.

Depois da Oração o Papa saudou os peregrinos em diversas línguas, começando por recordar, em italiano, que, ontem em Praga, foram proclamados os primeiros beatos deste Ano da Fé: Federico Bachstein e treze confrades da ordem dos Frades Menores fraciscanos, martirizados em 1611 por causa da sua fé. Recordam-nos – disse o Papa – que acreditar em Cristo significa estar dispostos também a sofrer com Ele e para Ele.

Em esloveno e polaco, Bento XVI saudou os peregrinos da Eslovénia e da Polónia, recordando os 250 anos da paróquia de Dob Pri Domzalah na Eslovénia, e o “Dia do Papa, com o lema “João Paulo II – Papa da Família”, na Polónia.

“N’ayons pás peur de vivre e de proclamer notre foi en Dieu”

Em língua francesa Bento XVI exortou os cristãos a não terem medo de viver e de proclamar a própria fé em Deus e recordou que hoje como ontem viver para Deus obriga a fazer escolhas por vezes difíceis e convidou, neste mês do Rosário, a virar o olhar para Maria, confiando-lhe as nossas famílias a Assembleia sinodal reunida no Vaticano para reflectir sobre a Nova Evangelização.

“Have de Cougare to ask Lord wahta morte can we do….”

Em inglês Bento XVI convidou a ter a coragem de perguntar a Deus “que mais podemos fazer, especialmente para os pobres, as pessoas sós, os doentes, os que sofrem de algum modo, por forma a sermos testemunhos e herdeiros da vida eterna prometida por Deus.
Radio Vaticano

"Sínodo" significa "caminhar juntos" com o homem de hoje, como Jesus caminha conosco
Radio Vaticano
O mundo muitas vezes está vazio e sem esperança, e não acredita, mas Jesus não o abandona. Mais ainda, caminha lado a lado, silenciosamente, para lhe fazer sentir a sua presença: sugestivas observações do Papa, ontem, no final do almoço no Vaticano com os padres sinodais, os bispos que participaram há 50 anos atrás no Concílio e os Presidentes da Conferências Episcopais. Presentes também o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I e o Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams.

"É uma bela tradição criada pelo Beato João Paulo II esta de coroar o Sínodo com um almoço em comum" – comentou Bento XVI, contente por este momento de pausa dos trabalhos e sublinhando em particular a presença ao seu lado do Patriarca Ecuménico de Constantinopla e do Primaz da Comunidade Anglicana. O Papa fez notar que a palavra “sínodo” significa “caminho comum”, caminhar juntos:
Para mim esta comunhão é um sinal de que estamos em caminho para a unidade e que avançamos no coração. O Senhor nos ajudará a avançar também externamente.

A alegria de estar juntos, afirmou o Papa, reforça-nos também no mandato da evangelização. E recordou o episódio dos discípulos de Emaús que, disse, "são um pouco a imagem do mundo agnóstico de hoje":
Jesus, esperança dos discípulos, estava morto; o mundo vazio; parecia que Deus realmente ou não existisse não se interessasse de nós. Com este desespero no coração, mas todavia com uma pequena chama de fé, continuam o caminho. O Senhor caminha misteriosamente com eles e ajuda-os a perceber o mistério de Deus, a sua presença na história, o seu caminhar silenciosamente connosco. No final, na ceia, quando já as palavras do Senhor e a sua escuta tinham aceso o coração e iluminado a mente, reconhecem-no na ceia e, finalmente, o coração começa a ver.

Todos estamos a caminho com os nossos contemporâneos – concluiu o Papa:
Peçamos ao Senhor que nos ilumine, nos acenda o coração, para que se torne “vidente”, e nos ilumine a mente. E peçamos que na ceia, na comunhão eucarística, possamos realmente ser disponíveis para o ver e, assim, inflamar também o mundo e dar a Sua luz a este nosso mundo.



"O cristianismo é sempre novo". Há um justo "aggiornamento" contínuo da Igreja. Bento XVI aos bispos presentes em Roma

Radio Vaticano
Ao fim da manhã, Bento XVI recebeu, sucessivamente: -Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca de Constantinopla, com o séquito;- e, conjuntamente, os bispos que participaram no Concílio e os presidentes das Conferências Episcopais vindos a Roma nesta circunstância.

Saudando os bispos de idade que, há 50 anos, tomaram parte nos trabalhos conciliares, o Papa mencionou as “palavras comoventes” com que muitos deles, impedidos em razão da idade e da doença, de se deslocarem nesta ocasião a Roma, recordam a experiência do Concílio.

Referindo “aquele período tão vivo, rico e fecundo que foi o Concílio”, o Santo Padre recordou a palavra “aggiornamento”, lançada pelo Beato João XXIII de modo quase programático e que ocorria continuamente nos trabalhos do Vaticano II. Alguém poderia levantar a questão de ver se não se terá tratado de uma expressão menos feliz. Não esse o parecer de Bento XVI, que considera que “foi e permanece exata” a “intuição” do seu predecessor:

“O Cristianismo não dever ser considerado como algo do passado, nem deve ser vivido com o olhar permanentemente voltado para trás, porque Jesus Cristo é ontem, hoje e para a eternidade”.

“O Cristianismo é sempre novo” – insistiu o Papa .“O Cristianismo é uma árvore que está, por assim dizer, em aurora perene, sempre jovem. E esta atualidade, este aggiornamento, não significa rotura com a tradição, mas exprime – isso sim – a sua contínua vitalidade.” “Não significa reduzir a fé, confinando-a à moda dos tempos, à medida daquilo que mais apetece, daquilo de que a opinião pública mais gosta. Pelo contrário: exatamente como fizeram os Padres conciliares, há que elevar o hoje que vivemos à dimensão do acontecimento cristão, levar o hoje do nosso tempo ao hoje de Deus”.

Dom Odilo fala sobre o terceiro dia do Sínodo
entrevista para a Rádio Vaticano
“Estamos ainda no terceiro dia, de fato, tivemos apenas um dia de reflexão com o grupo de participantes, portanto estamos muito no início ainda, mas é claro que o tema do Sínodo – Nova Evangelização para Transmissão da Fé – consiste em dois polos: a nova evangelização enquanto um processo de evangelização que precisa ser retomado, precisa ser feito sempre, precisa ser feito agora diante de situações novas, num contexto novo, com possivelmente motivações de linguagens novas, mas , enfim, a Evangelização é a tarefa permanente da Igreja. Me parece que a tomada de consciência mais importante, neste momento, é que a nova Evangelização de fato é Evangelizar de novo. É esquecer o pressuposto de que já foi feito uma vez, porque a Evangelização nunca está completa, nunca é um processo concluído, mas é um processo sempre em andamento.

Por outro lado, até mesmo pessoas já Evangelizadas precisam ser novamente Evangelizadas ao longo de toda a vida. Então, esta é a primeira constatação. Nova Evangelização significa de fato Evangelização. Arregaçar as mangas e fazer Evangelização. Isso requer talvez mudanças, Conversão Pastoral como se disse em Aparecida e aqui já começou a ser dito várias vezes, por várias vozes. Conversão Pastoral que signifique uma conversão missionária que signifique de fato que a Igreja se assuma missionária em tudo que ela é e faz, e, portanto, passe de uma Pastoral do que já tem e passe para uma Pastoral de missão, indo ao encontro, procurando àqueles que não vem, procurando àqueles que não foram contactados. Este é um primeiro aspecto.

Por outro lado, aparecem acenos a uma necessidade e a uma melhor formação do clero, pressuposto básico para renovação da vida da Igreja. Depois, uma atenção muito especial aos mistérios da fé que a Igreja celebra na liturgia e que alimentam a fé e que atraem para Deus, porque a Igreja não é auto-fundante, mas sim obra do Espírito Santo, portanto também é um mistério da fé, e por isso mesmo, aquilo que ela é ou aquilo que ela prega, não vem dela mesma, mas vem justamente do autor da fé, que é Jesus Cristo e o Espírito Santo que desperta a fé e faz animar a fé, portanto, uma atenção maior justamente àquilo que são os mistérios da fé, que são os sacramentos, que é a Liturgia, a palavra de Deus pregada e apresentada de maneira convincente, testemunhal, atenta, amorosa, alegre. Essas coisas estão aparecendo pelas muitas vozes que vão sendo levantadas no Sínodo através das palavras e dos depoimentos dos membros do Sínodo que vão falando. Portanto, o que posso dizer é que o primeiro dia de depoimentos dos membros do Sínodo é que a Igreja precisa voltar-se, não sobre si, mas para as suas bases. Precisa partir de novo para seus pressupostos e não entender-se demasiadamente como uma organização que tem uma eficácia por si mesmo, por suas estruturas, organização, métodos, planos. Tudo isso é bom, tudo isso é necessário, mas não é só isso que produz o efeito da Igreja, ainda, por si só. O que produz o efeito do trabalho da Igreja é, de fato, a Graça de Deus, em função da qual nós estamos trabalhando”.


Acesse o link abaixo, não deixe de ler
a 2ª Carta Pastoral
à Arquidiocese de São Paulo
- Senhor, aumentai a nossa fé!
do Cardeal Arcebispo Metropolitano de São Paulo - Dom Odilo Pedro Scherer.
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Bento XVI - Homilia inaugural do Ano da Fé - comemorando 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II
Radio Vaticano
Precisamente a 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II, sob um esplêndido sol outonal, Bento XVI presidiu esta manhã, 11 de outubro, a uma solene celebração eucarística concelebrada com centenas de bispos de todo o mundo, dando assim início ao Ano da Fé por ele promulgado. Convidados de honra, em lugar de destaque, o patriarca de Constantinopla - Bartolomeu I, e o arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, que ontem à tarde interveio no Sínodo dos Bispos sobre a nova evangelização.

Para além dos mais de 250 bispos que participam no Sínodo, vieram a Roma para esta ocasião, convidados pelo Papa, com ele concelebrando esta celebração, os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, assim como alguns bispos de idade que há 50 anos estão presentes na abertura do Concílio Vaticano II.
O rito desta solene Missa foi enriquecida com alguns sinais que evocavam a celebração de 1962: a procissão inicial, que quis recordar a memorável procissão dos Padres conciliares, quando entraram solenemente na basílica de São Pedro; a entronização do Evangeliário, cópia daquele que foi utilizado durante o Concílio; e a entrega das sete mensagens finais do Concílio e do Catecismo da Igreja Católica, a concluir a celebração, antes da bênção final.
Como fez notar o Papa na homilia, com estes sinais e com esta celebração dos 50 anos, não se deseja apenas comemorar, mas – isso sim – “entrar mais profundamente no movimento espiritual que caracterizou o Vaticano II, para o assumir e promover no seu verdadeiro sentido”.

“O Ano da fé que estamos inaugurando hoje está ligado coerentemente com todo o caminho da Igreja ao longo dos últimos 50 anos: desde o Concílio, passando pelo Magistério do Servo de Deus Paulo VI, que proclamou um "Ano da Fé", em 1967, até chegar ao Grande Jubileu do ano 2000, com o qual o Bem-Aventurado João Paulo II propôs novamente a toda a humanidade Jesus Cristo como único Salvador, ontem, hoje e sempre”.

Embora o Concílio Vaticano II – observou o Papa - não tenha tratado da fé como tema de um documento específico, no entanto, esteve todo ele inteiramente animado pela consciência e pelo desejo de, por assim dizer, imergir mais uma vez no mistério cristão, para o poder propor de novo e eficazmente ao homem contemporâneo. Como dizia Paulo VI, dois anos depois da conclusão do Concílio:
«Se o Concílio não trata expressamente da fé, fala da fé a cada página, reconhece o seu caráter vital e sobrenatural, pressupõe-na íntegra e forte, e estrutura as suas doutrinas tendo a fé por alicerce. Bastaria recordar [algumas] afirmações do Concílio (...) para dar-se conta da importância fundamental que o Concílio, em consonância com a tradição doutrinal da Igreja, atribui à fé, a verdadeira fé, que tem a Cristo por fonte e o Magistério da Igreja como canal».

Bento XVI recordou o que ele próprio teve ocasião de experimentar: “durante o Concílio havia uma emocionante tensão em relação à tarefa comum de fazer resplandecer a verdade e a beleza da fé no hoje do nosso tempo, sem a sacrificar às exigências do tempo presente, mas também sem a manter presa ao passado”. “na fé ecoa o eterno presente de Deus, que transcende o tempo, mas que só pode ser acolhida no nosso hoje, que não torna a repetir-se. Por isso, julgo que a coisa mais importante, especialmente numa ocasião tão significativa como a presente, seja reavivar em toda a Igreja aquela tensão positiva, aquele desejo ardente de anunciar novamente Cristo ao homem contemporâneo.”

Mas para que este impulso interior à nova evangelização não fique num mero um ideal e não dê lugar a confusões, é necessário que se apoie numa base concreta e precisa – prosseguiu o Papa, que considerou que tal base se encontra nos documentos do Concílio Vaticano II, nos quais este impulso encontrou a sua expressão. Insistiu portanto na “necessidade de retornar, por assim dizer, à «letra» do Concílio - ou seja, aos seus textos - para também encontrar o seu verdadeiro espírito”, pois – acrescentou – “neles se encontra a verdadeira herança do Concílio Vaticano II”.
“A referência aos documentos protege dos extremos tanto de nostalgias anacrónicas como de avanços excessivos, permitindo captar a novidade na continuidade. O Concílio não excogitou nada de novo em matéria de fé, nem quis substituir aquilo que existia antes. Pelo contrário, preocupou-se em fazer com que a mesma fé continue a ser vivida no presente, continue a ser uma fé viva em um mundo em mudança.”

A concluir, Bento XVI referiu-se à “desertificação espiritual”, ao “vazio”, que se tem estendido nas últimas décadas. Mas deixou uma palavra de otimismo, de esperança:
“No entanto, é precisamente a partir da experiência deste deserto, deste vazio, que podemos redescobrir a alegria de crer, a sua importância vital para nós homens e mulheres. No deserto é possível redescobrir o valor daquilo que é essencial para a vida; e existe, sobretudo, necessidade de pessoas de fé que, com suas próprias vidas, indiquem o caminho para a Terra Prometida, mantendo assim viva a esperança. A fé vivida abre o coração à Graça de Deus que liberta do pessimismo.”


O Concílio Vaticano II cuidou de reformular a relação da Igreja com a idade moderna, para melhor propor o Evangelho: Bento XVI na audiência geral

Na audiência geral desta quarta-feira, 10 de Outubro, véspera da celebração dos 50 anos da abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II, com o início do Ano da Fé, Bento XVI dedicou a sua costumada catequese precisamente ao Concílio, do qual – recordou – foi testemunha pessoal.
“Para mim foi uma experiência única: depois de todo o fervor e entusiasmo da preparação, pude ver uma Igreja viva – quase três mil Padres conciliares de todas as partes do mundo reunidos sob a guia do Sucessor do Apóstolo Pedro – que se põe à escuta do Espírito Santo, o verdadeiro motor do Concílio. Raras vezes na história se pôde , como então, tocar concretamente a universalidade da Igreja…”
Bento XVI recordou, fazendo sua, a afirmação de João Paulo II, no limiar do terceiro: “Sinto mais do que nunca o dever de propor o Concílio como a grande graça de que a Igreja beneficiou no século XX: nele se oferece uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que se abre”. “Parece-me eloquente esta imagem. Os documentos do Concílio Vaticano II, a que há que regressar, libertando-os de uma massa de publicações que frequentemente, em vez de os dar a conhecer, os esconderam, são, também para o nosso tempo, uma bússola que permite à nave da Igreja avançar pelo mar dentro, no meio de tempestades ou com ondas calmas e tranquilas, para navegar com segurança e chegar à meta”.

O Papa recordou que na história da Igreja, em geral os Concílios Ecuménicos foram convocados para definir elementos fundamentais da fé, corrigindo erros que a punham em perigo. No caso do Concílio Vaticano II, não havia especiais questões de doutrina ou de disciplina a esclarecer. Daí a grande surpresa que suscitou inicialmente o anúncio do Concílio. A primeira questão foi, portanto, clarificar que tarefa precisa iria ter. O Beato João XXIII deu, no discurso de abertura, há 50 anos, uma indicação geral:
“O Papa desejava que a Igreja refletisse sobre a sua fé, sobre as verdades que a guiam. Mas desta série e aprofundada reflexão sobre a fé, haveria de delinear de modo novo a relação entre a Igreja e a idade moderna, entre o Cristianismo e certos elementos essenciais do pensamento moderno, não para se conformar com ele, mas para apresentar a este nosso mundo, que tende a afastar-se de Deus, a exigência do Evangelho em toda a sua grandeza e em toda a sua pureza”.

Para além desta catequese mais desenvolvida, em italiano, Bento XVI sintetizou em diferentes línguas, o essencial do seu pensamento. Estas as palavras pronunciadas em português:  

Queridos irmãos e irmãs,
Amanhã, estaremos celebrando os 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II e o início do Ano da Fé. Hoje, queria refletir sobre a importância que este Concílio teve na vida da Igreja, um evento do qual fui uma testemunha direta. Foi uma oportunidade de ver uma Igreja viva: quase três mil Padres conciliares vindos de todas as partes do mundo, reunidos sob a guia do Sucessor do Apóstolo Pedro; era possível quase tocar de modo concreto a universalidade da Igreja. O Concílio Vaticano II, ao contrário dos Concílios precedentes, não foi convocado para definir elementos fundamentais da fé, corrigindo erros doutrinais ou disciplinares, mas tinha como objetivo delinear de um modo novo a relação da Igreja com a idade moderna: não para conformar-se a ela, mas para apresentar a este mundo, que tende a afastar-se de Deus, a beleza da fé em toda a sua grandeza e pureza, para que todos os homens possam conhecer o Evangelho e encontrar o Senhor Jesus, como caminho, verdade e vida.

Saúdo todos os peregrinos de língua portuguesa, especialmente os diversos grupos de brasileiros, com votos de que esta peregrinação vos sirva de estímulo para aprender a redescobrir a cada dia a beleza da fé, para que tenhais uma união sempre mais intensa com Cristo, vivendo plenamente a vossa vocação cristã. Que Deus vos abençoe! Obrigado.

Novidade de relevo, nesta audiência geral: pela primeira vez na história a língua o árabe foi também utilizada, tanto na apresentação dos respetivos peregrinos, mas também com a apresentação de uma síntese da catequese papa e mesmo com uma breve saudação de Bento XVI.
Esta inovação, que se situa em continuidade com a recente viagem do Papa ao Líbano e a publicação da Exortação Apostólica "Ecclesia in Medio Oriente", corresponde (como afirma numa nota a Sala de Imprensa) ao "desejo do Santo Padre de manifestar assim o seu incessante interesse e o seu apoio aos cristãos do Médio Oriente, recordando a todos o dever de rezarem e de se empenharem pela paz na região."
Radio Vaticano



BENTO XVI NO LIBANO
Papa envia telegrama aos chefes de Estado
 
Cidade do Vaticano (RV) - Em sua viagem de volta a Roma, após os três dias passados no Líbano, o Papa enviou telegramas de saudações aos chefes de Estado do Líbano, Chipre, Grécia e Itália. Ao presidente do Líbano, General Michel Sleiman, o Papa agradece mais uma vez os momentos vividos no País, a bondade, a generosidade e a hospitalidade do povo libanês, das autoridades civis e religiosas e pede abundantes bênçãos divinas sobre o País.

Ao presidente de Chipre e a seus povos, Bento XVI pede as bênçãos de Deus sobre o País. Aos presidentes da Grécia e Itália, o Santo Padre deseja os melhores votos para um futuro de esperança e de paz para os dois povos.




"CHEGADO O MOMENTO DA PARTIDA, É COM PENA QUE DEIXO ESTE QUERIDO LIBANO"

Bento XVI de volta a Roma

BEIRUTE, domingo, 16 de setembro de 2012 (ZENIT.org) - Apresentamos o discurso pronunciado por Bento XVI no Aeroporto Internacional de Rafiq Hariri de Beirute, ao fim de sua Viagem Apostólica ao Líbano.
Senhor Presidente da República,
Senhores Presidentes do Parlamento e do Conselho de Ministros,
Suas Beatitudes, amados Irmãos no Episcopado,
Ilustres Autoridades civis e religiosas,
Queridos amigos!
Chegado o momento da partida, é com pena que deixo este querido Líbano. Agradeço-lhe, Senhor Presidente, as suas palavras e o ter favorecido, com o Governo cujos Representantes saúdo, a organização dos diversos acontecimentos que marcaram a minha presença no vosso meio, assistida de forma notável pela eficiência dos diversos serviços da República e do setor privado. Agradeço também ao Patriarca Béchara Boutros Raï e a todos os Patriarcas presentes bem como aos Bispos orientais e latinos, aos presbíteros e aos diáconos, aos religiosos e religiosas, aos seminaristas e aos fiéis que se deslocaram para me receber. Visitando-vos, é como se Pedro viesse ter convosco, e vós recebestes Pedro com a cordialidade que caracteriza as vossas Igrejas e a vossa cultura.
Os meus agradecimentos dirigem-se de modo particular para todo o povo libanês, que forma um belo e rico mosaico e que soube manifestar ao Sucessor de Pedro o seu entusiasmo, graças à contribuição multiforme e específica de cada comunidade. Agradeço cordialmente às veneráveis Igrejas irmãs e às comunidades protestantes. Agradeço de modo particular aos representantes das comunidades muçulmanas. Durante toda a minha estadia, pude constatar quanto a vossa presença contribuiu para o bom êxito da minha viagem. O mundo árabe e o mundo inteiro verão, nestes tempos conturbados, cristãos e muçulmanos reunidos para celebrar a paz. É tradicional no Médio Oriente receber o hóspede de passagem com consideração e respeito, e assim o fizestes. A todos agradeço. Mas, à consideração e ao respeito, juntastes um complemento, que se pode comparar a uma daquelas famosas especiarias orientais que enriquece o sabor dos alimentos: o vosso calor e o vosso coração, que me deixaram o desejo de voltar. Eu vo-lo agradeço de forma particular. Deus vos abençoe por isso.
Durante a minha breve estadia, motivada principalmente pela assinatura e entrega da Exortação apostólica Ecclesia in Medio Oriente, pude encontrar os diversos componentes da vossa sociedade. Houve momentos mais oficiais, outros mais íntimos, momentos de alta densidade religiosa e fervorosa oração, e outros ainda marcados pelo entusiasmo da juventude. Dou graças a Deus por estas oportunidades que Ele permitiu, pelos encontros qualificados que pude ter, e pela oração que foi feita por todos e a favor de todos no Líbano e no Médio Oriente, independentemente da origem ou da confissão religiosa de cada um.
Na sua sabedoria, Salomão fez apelo a Hiram de Tiro para o ajudar na construção duma casa ao nome de Deus, um santuário para a eternidade (cf. Sir 47, 13). E Hiram, que evoquei à minha chegada, enviou madeira dos cedros do Líbano (cf. 1 Rs 5, 22). Todo o interior do Templo era revestido de cedro em tábuas entalhadas com flores e frutos (cf. 1 Rs 6, 18). O Líbano estava presente no santuário de Deus. Oxalá o Líbano de hoje, com os seus habitantes, continue a estar presente no santuário de Deus. Possa o Líbano continuar a ser um espaço onde os homens e as mulheres vivam em harmonia e paz uns com os outros, para darem ao mundo, não apenas o testemunho da existência de Deus – primeiro tema do Sínodo passado – mas igualmente o da comunhão entre os homens – segundo tema do Sínodo –, qualquer que seja a sua sensibilidade política, comunitária e religiosa.
Rezo a Deus pelo Líbano, para que viva em paz e resista com coragem a tudo o que poderia destrui-la ou ameaçá-la. Desejo que o Líbano continue a permitir a pluralidade das tradições religiosas e a não dar ouvidos à voz daqueles que a querem impedir. Espero que o Líbano reforce a comunhão entre todos os seus habitantes, seja qual for a comunidade e religião a que pertençam, rejeitando decididamente tudo o que poderia levar à desunião e optando com determinação pela fraternidade. Estas são as flores agradáveis a Deus, virtudes que são possíveis e conviria consolidá-las com um enraizamento ainda maior.
A Virgem Maria, venerada com devoção e ternura pelos fiéis das confissões religiosas aqui presentes, é um modelo seguro para avançar com esperança pelo caminho duma fraternidade vivida e autêntica. Bem o compreendeu o Líbano, ao proclamar há algum tempo o dia 25 de Março como feriado, permitindo assim a todos os seus habitantes poder viver em medida crescente a sua unidade na serenidade. Que a Virgem Maria, cujos santuários antigos são tão numerosos no vosso país, continue a acompanhar-vos e a inspirar-vos.
Deus abençoe o Líbano e todos os libaneses. Que Ele não cesse de atraí-los a Si para lhes conceder a vida eterna. Que Ele os cumule da sua alegria, da sua paz e da sua luz. Deus abençoe todo o Médio Oriente. Sobre cada um e cada uma de vós, invoco de todo o coração a abundância das bênçãos divinas. « لِيُبَارِك الربُّ جميعَكُم » [Deus vos abençoe a todos].

Papa no Líbano: A vocação da Igreja e do cristão é servir
 
Beirute
(Radio Vaticano) - Bento XVI presidiu, neste domingo, a celebração eucarística no City Center Waterfront de Beirute, no Líbano, e após a santa missa entregou a Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Medio Oriente. Participaram da cerimônia 350 mil pessoas.

A missa foi particularmente tocante por causa da presença de pastores e fiéis de países como a Síria, abalada pela guerra e pela violência.

"Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Bendito seja Ele neste dia em que tenho a alegria de me encontrar convosco aqui, no Líbano, para entregar aos Bispos da região a Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Medio Oriente" – frisou o Papa em sua homilia.

Jesus quer fazer os discípulos entenderem quem Ele realmente é. "Um Messias sofredor, um Messias servo, e não um libertador político onipotente. Ele é o Servo obediente à vontade de seu Pai a ponto de perder a sua vida. É o que já anunciava o profeta Isaías na primeira leitura. Assim Jesus vai contra o que muitos esperavam d’Ele. A sua afirmação choca e desconcerta. Aquele que quiser ser seu discípulo deve aceitar ser servo, como Ele se fez servo" – disse o Papa.

O Santo Padre destacou que "seguir Jesus significa tomar a própria cruz e o acompanhar pelo seu caminho, um caminho incômodo que não é o do poder nem da glória terrena, mas o que leva necessariamente a renunciar a si mesmo, a perder a sua vida por Cristo e pelo Evangelho, a fim de a salvar. É que nos foi dada a certeza de que este caminho leva à ressurreição, à vida verdadeira e definitiva com Deus".

Bento XVI recordou o Ano da Fé que terá início em 11 de outubro próximo, frisando que deseja que todo fiel se comprometa de maneira renovada neste caminho da conversão do coração.

O Papa destacou que o caminho por onde Jesus nos conduz é um caminho de esperança para todos. "Deus manifesta o seu amor, fazendo-se servo, dando-se a nós. O serviço é um elemento constitutivo da identidade dos discípulos de Cristo. A vocação da Igreja e do cristão é servir; e fazê-lo, como o próprio Senhor, gratuitamente e a todos sem distinção. Assim, servir a justiça e a paz, num mundo onde a violência não cessa de alongar o seu rasto de morte e destruição, é uma urgência de modo a comprometer-se em prol duma sociedade fraterna, para edificar a comunhão" - disse o pontífice.

O Papa pediu ao Senhor para que "conceda ao Oriente Médio servidores da paz e da reconciliação, para que todos possam viver pacífica e dignamente. O serviço deve estar no centro da vida da comunidade cristã. Todo o ministério, toda a função na Igreja é primariamente um serviço a Deus e aos irmãos".

"É este espírito que deve animar todos os batizados, uns em relação aos outros, especialmente através dum compromisso efetivo em favor dos mais pobres, dos marginalizados, daqueles que sofrem, para que seja preservada a dignidade inalienável de toda a pessoa" – concluiu Bento XVI.



Bento XVI no Angelus: Deus conceda paz à Síria e a todo o Oriente Médio
 
Beirute (Radio Vaticano) - Na oração do Angelus, deste domingo, o Papa fez novamente um apelo pela paz no Oriente Médio.

"Peçamos a Maria, Nossa Senhora do Líbano, ao redor da qual se encontram cristãos e muçulmanos, para que interceda junto de seu divino Filho por vós, pelos habitantes da Síria e dos países vizinhos, implorando o dom da paz – disse Bento XVI a todos os presentes no City Center Waterfront de Beirute.

"Vós conheceis bem a tragédia dos conflitos e da violência, que gera tantos sofrimentos. Infelizmente, o fragor das armas continua a fazer-se ouvir, assim como o grito das viúvas e dos órfãos. A violência e o ódio invadem as estradas, e as mulheres e as crianças são as suas primeiras vítimas. Porquê tantos horrores? Porquê tantos mortos? Faço apelo à comunidade internacional; faço apelo aos países árabes para que, como irmãos, proponham soluções viáveis que respeitem a dignidade de cada pessoa humana, os seus direitos e a sua religião. Quem quer construir a paz, deve deixar de ver no outro um mal a ser eliminado; não é fácil ver no outro uma pessoa para respeitar e amar, e todavia é preciso consegui-lo, se se deseja construir a paz, se se quer a fraternidade. Que Deus conceda ao vosso país, à Síria e a todo o Oriente Médio o dom da paz dos corações, o silêncio das armas e o fim de toda a violência" - frisou o Papa.

"Queira Deus que os homens compreendam que são todos irmãos! Possamos com a ajuda de Deus nos converter para trabalhar com ardor na construção da paz, necessária para uma vida harmoniosa entre irmãos, independentemente da origem e da convicção religiosa" – concluiu o Santo Padre.


Papa aos jovens do Oriente Médio: "Façam a revolução do amor". A saudação à Síria

Bkerké (RV) – Uma multidão em festa acolheu Bento XVI para seu último compromisso este sábado em terras libanesas: o encontro com os jovens do Líbano e do Oriente Médio no Patriarcado Maronita de Bkerké.

Tratou-se de um encontro como “de pai para filho”, aberto e franco, em que os jovens libaneses falaram sem máscaras dos problemas e dos desafios que os angustiam; Bento XVI os ouviu e os aconselhou, dirigindo-lhes uma palavra de esperança.

O encontro se realizou em forma de Celebração da Palavra. Teve início com a saudação do Patriarca de Antioquia dos Maronitas, Béchara Boutros Rai, e do Arcebispo de Saida dos Greco-melquitas, Dom Elie Haddad, que garantiu a presença de um grupo de jovens do Oriente Médio na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, em 2013, evento para o qual já estão se preparando.

A seguir, foi a vez do testemunho dos jovens: “Nós, jovens do Oriente Médio, estamos hoje mergulhados em um mar de dificuldades, de apreensões e de temores”, disseram a Bento XVI.

Eles falaram de conflitos, de ódio, de sofrimento, de desemprego, de falta de perspectivas, de emigração. Diante da realidade, o anseio: “Aspiramos à paz e sonhamos com um futuro sem guerras; um futuro onde desempenharemos um papel ativo, onde trabalharemos com nossos irmãos, jovens de diferentes religiões, construindo a civilização do amor, edificando pátrias onde os direitos do homem e sua liberdade são respeitados, onde sua dignidade é protegida.”

Nós, jovens da Igreja de hoje, queremos ser um sinal de esperança para toda a região, e testemunhar o amor de Deus, que é mais forte que a morte.

Ao Papa, eles garantiram sua fé e sua confiança na Igreja, que são grandes apesar dos desafios e das crises.

“Nós lhe pedimos que vele sempre sobre a Juventude do Líbano e do Oriente Médio, que seja uma fonte constante de apoio e de encorajamento para que nós continuemos nossa missão nesta região.”

A presença de Bento XVI no Líbano, a despeito das nossas circunstâncias, é um desafio à lógica da guerra e do desespero; ela é um sinal de paz e de esperança.

O Pontífice, por sua vez, não deixou os jovens desiludidos. Declarou-se consciente das dificuldades que devem enfrentar devido à falta de estabilidade e segurança. Todavia, este contexto não deve impelir a juventude a provar o «mel amargo» da emigração, com o desenraizamento e a separação em troca dum futuro incerto.

Bento XVI garantiu que os jovens ocupam    um lugar privilegiado no seu coração e na Igreja inteira, porque a Igreja é sempre jovem. "Sede jovens na Igreja. Sede jovens com a Igreja."

Citou as palavras de seu predecessor: "Não tenhais medo! Abri as portas de vossas almas e de vossos corações a Cristo". Nele, encontrarão a força e a coragem para avançar nos caminhos da sua vida, superando as dificuldades e o sofrimento.

As frustrações presentes não devem levar a buscar refúgio em mundos paralelos, como por exemplo o mundo das drogas de todo o tipo ou o mundo triste da pornografia. Quanto às redes sociais, são interessantes, disse o Papa, mas podem, com facilidade, levar à dependência e à confusão entre o real e o virtual. Outra tentação é representada pelo dinheiro. Ponham de lado o que é ilusório, aparência e mentira.

Sede os portadores do amor de Cristo. Fazei a revolução do amor. É bom comprometer-se com os outros e pelos outros. A fraternidade é uma antecipação do Céu. Sede os mensageiros do Evangelho da vida e dos valores da vida; resisti corajosamente a tudo o que a nega: o aborto, a violência, a rejeição e o desprezo do outro, a injustiça, a guerra. O perdão e a reconciliação são caminhos de paz, e abrem um futuro.

Sobre a Exortação apostólica Ecclesia in Medio Oriente, assinada esta sexta-feira, o Pontèifice recordou que esta carta destina-se "também a vós, queridos jovens. Procurai lê-la com atenção e meditá-la, para a pôr em prática".

Nas saudações finais, o Papa recordou os milhões de pessoas que formam a diáspora libanesa e mantêm laços sólidos com o seu país de origem. Saudou ainda os jovens muçulmanos que também estavam presentes esta tarde. “Com os jovens cristãos, sois são o futuro deste país maravilhoso e de todo o Médio Oriente. Procurai construi-lo juntos! É preciso que o Oriente Médio inteiro, pondo os olhos em vós, compreenda que os muçulmanos e os cristãos, o Islã e o Cristianismo, podem viver juntos, sem ódio e no respeito das crenças de cada um, para construírem juntos uma sociedade livre e humana”.

Antes da oração dos féis e do Pai-Nosso, Bento XVI saudou outro grupo presente neste encontro: jovens vindos da Síria. “Quero dizer-vos o quanto admiro a vossa coragem. Dizei em vossa casa, aos vossos familiares e aos vossos amigos que o Papa não vos esquece. Dizei ao vosso redor que o Papa está triste por causa dos vossos sofrimentos e lutos. Não esquece a Síria nas suas orações e preocupações. Nem esquece as populações do Médio Oriente que sofrem. É tempo que muçulmanos e cristãos se unam para pôr termo à violência e às guerras”.



Discurso de Bento XVI aos jovens

Bkerké (RV) – Confira a íntegra do discurso de Bento XVI aos jovens, na tarde deste sábado, no encontro realizado no Patriarcado Maronita de Bkerké.

Sua Beatitude, Irmãos Bispos, queridos amigos!

«Graça e paz vos sejam concedidas em abundância por meio do conhecimento de Deus e de Jesus, Senhor nosso» (2 Ped 1, 2). A passagem da carta de São Pedro, que ouvimos, exprime bem o grande desejo que há muito tempo trago no meu coração. Obrigado pelo vosso caloroso acolhimento, obrigado de todo o coração pela vossa presença tão numerosa nesta tarde! Agradeço a Sua Beatitude o Patriarca Béchara Boutros Raï as suas palavras de boas-vindas, a D. Georges Bou Jaoudé, Arcebispo de Tripoli e Presidente do Conselho para o Apostolado dos Leigos no Líbano, e a D. Elie Haddad, Arcebispo de Sídon dos Greco-Melquitas e Vice-Presidente do referido Conselho, bem como aos dois jovens que me saudaram em nome de todos vós. سَلامي أُعطيكُم (dou-vos a minha paz) (Jo 14, 27): diz-nos Jesus Cristo.
Queridos amigos, cabe a vós viver hoje nesta parte do mundo que viu o nascimento de Jesus e o desenvolvimento do cristianismo. É uma grande honra! E é um apelo à fidelidade, ao amor pela vossa terra e sobretudo para serdes testemunhas e mensageiros da alegria de Cristo, porque a fé transmitida pelos Apóstolos leva à liberdade plena e à alegria, como manifestaram tantos Santos e Beatos deste país. A sua mensagem ilumina a Igreja universal; e pode continuar a iluminar as vossas vidas. Muitos dos Apóstolos e dos Santos viveram períodos conturbados, e a própria fé foi a fonte da sua coragem e do seu testemunho. Extraí do seu exemplo e intercessão a inspiração e o apoio de que precisais.
Conheço as dificuldades que sentis na vida diária, por causa da falta de estabilidade e segurança, da dificuldade em encontrar emprego ou ainda do sentimento de solidão e marginalização. Num mundo em contínua mudança, enfrentais numerosos e graves desafios. O próprio desemprego e a precariedade não devem impelir-vos a provar o «mel amargo» da emigração, com o desenraizamento e a separação em troca dum futuro incerto. Tendes de ser protagonistas do futuro do vosso país e assumir a vossa função na sociedade e na Igreja.
Ocupais um lugar privilegiado no meu coração e na Igreja inteira, porque a Igreja é sempre jovem. A Igreja confia em vós; conta convosco. Sede jovens na Igreja. Sede jovens com a Igreja. A Igreja precisa do vosso entusiasmo e criatividade. A juventude é o tempo em que se anela por grandes ideais, e o período em que se estuda preparando-se para uma profissão e um futuro. Isto é importante e requer tempo. Procurai o que é belo, e comprazei-vos na prática do bem. Dai testemunho da grandeza e dignidade do vosso corpo, que «é para o Senhor» (1 Cor 6, 13). Conservai a delicadeza e a rectidão dos corações puros. Na linha do Beato João Paulo II, repito-vos também eu: «Não tenhais medo! Abri as portas das vossas almas e dos vossos corações a Cristo». O encontro com Ele «dá à vida um novo horizonte e, desta forma, um rumo decisivo» (Deus caritas est, 1). N’Ele, encontrareis a força e a coragem para avançar nos caminhos da vossa vida, superando as dificuldades e o sofrimento. N’Ele, encontrareis a fonte da alegria. Cristo diz-vos: سَلامي أُعطيكُم (dou-vos a minha paz) (Jo 14, 27)! Esta é a verdadeira revolução trazida por Cristo: a do amor.
As frustrações presentes não devem levar-vos a buscar refúgio em mundos paralelos, como por exemplo o mundo das drogas de todo o tipo ou o mundo triste da pornografia. Quanto às redes sociais, são interessantes mas podem, com facilidade, levar-vos à dependência e à confusão entre o real e o virtual. Procurai e vivei relações ricas de amizade verdadeira e nobre. Cultivai iniciativas que dêem sentido e raízes à vossa existência, lutando contra a superficialidade e o consumismo fácil. Estais de igual modo sujeitos a outra tentação: a do dinheiro – este ídolo tirânico que cega até ao ponto de sufocar a pessoa e o seu coração. Infelizmente os exemplos que vedes em redor não são sempre dos melhores. Muitos esquecem-se da afirmação de Cristo: não se pode servir a Deus e ao dinheiro (cf. Lc 16, 13). Procurai bons mestres, guias espirituais que saibam indicar-vos o caminho para a maturidade, pondo de lado o que é ilusório, aparência e mentira.
Sede os portadores do amor de Cristo. Como? Voltando-vos sem reservas para Deus, seu Pai, que é a medida do que é justo, verdadeiro e bom. Meditai a Palavra de Deus. Descobri o interesse e a actualidade do Evangelho. Rezai. A oração, os sacramentos são os meios seguros e eficazes para ser cristão e viver «enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé» (cf. Cl 2, 7). O Ano da fé, que está quase a começar, será uma oportunidade para descobrir o tesouro da fé recebida no Baptismo. Podeis aprofundar o seu conteúdo através do estudo do Catecismo, para que a vossa fé seja viva e vivida. Assim tornar-vos-eis, para os outros, testemunhas do amor de Cristo. N’Ele, todos os homens são nossos irmãos. A fraternidade universal, que Ele inaugurou na Cruz, reveste duma luz brilhante e exigente a revolução do amor. «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 13, 34). Este é o testamento de Jesus e o sinal do cristão. Aqui está a verdadeira revolução do amor.
E assim Jesus convida-vos a proceder como Ele, a acolher o outro sem reservas, mesmo que pertença a cultura, religião, nação diferentes. Dar-lhe lugar, respeitá-lo, ser bom com ele torna-vos sempre mais ricos em humanidade e fortes com a paz do Senhor. Sei que muitos de vós participam nas diversas actividades promovidas pelas paróquias, escolas, movimentos, associações. É bom comprometer-se com os outros e pelos outros. Viver, juntos, momentos de amizade e alegria permite resistir aos germes de divisão, que devemos combater sem cessar. A fraternidade é uma antecipação do Céu. E a vocação do discípulo de Cristo é ser «fermento» na massa, como afirmava São Paulo: «Um pouco de fermento faz fermentar toda a massa» (Gl 5, 9). Sede os mensageiros do Evangelho da vida e dos valores da vida; resisti corajosamente a tudo o que a nega: o aborto, a violência, a rejeição e o desprezo do outro, a injustiça, a guerra. Deste modo, propagareis a paz ao vosso redor. No fim de contas, não são os «obreiros da paz» aqueles que mais admiramos? E não é a paz o bem precioso que toda a humanidade procura? Porventura não é um mundo de paz aquilo que mais profundamente desejamos para nós e para os outros? سَلامي أُعطيكُم (dou-vos a minha paz): disse Jesus. Ele venceu o mal não com outro mal, mas tomando-o sobre Si e aniquilando-o na cruz com o amor vivido até ao fim. Descobrir verdadeiramente o perdão e a misericórdia de Deus, permite sempre recomeçar uma nova vida. Não é fácil perdoar; mas o perdão de Deus dá a força da conversão, e a alegria de, por nossa vez, perdoar. O perdão e a reconciliação são caminhos de paz, e abrem um futuro.
Queridos amigos, com certeza muitos de vós se interrogam de forma mais ou menos consciente: O que é que Deus espera de mim? Que projecto tem para mim? Não quererá que eu anuncie ao mundo a grandeza do seu amor por meio do sacerdócio, da vida consagrada ou do matrimónio? Não me chamará Cristo para O seguir mais de perto? Debruçai-vos confiadamente sobre estas questões. Encontrai tempo para reflectir nelas e pedir luz. Respondei ao convite, oferecendo-vos diariamente Àquele que vos chama a ser seus amigos. Procurai seguir com coração generoso a Cristo que, por amor, nos resgatou e deu a vida por cada um de nós. Conhecereis uma alegria e uma plenitude insuspeitáveis. Responder à vocação que Cristo prevê para cada um: está aqui o segredo da verdadeira paz.
Ontem, assinei a Exortação apostólica Ecclesia in Medio Oriente. Esta carta destina-se também a vós, queridos jovens, como a todo o povo de Deus. Procurai lê-la com atenção e meditá-la, para a pôr em prática. Para vos ajudar, recordo-vos as palavras de São Paulo aos Coríntios: «A nossa carta sois vós, uma carta escrita nos nossos corações, conhecida e lida por todos os homens. É evidente que sois uma carta de Cristo, confiada ao nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne que são os vossos corações» (2 Cor 3, 2-3). Também vós, queridos amigos, podeis ser uma carta viva de Cristo. Esta carta não estará escrita em papel nem com a caneta; será o testemunho da vossa vida e da vossa fé. Assim, com coragem e entusiasmo, fareis compreender ao vosso redor que Deus quer a felicidade de todos sem distinção, e que os cristãos são os seus servos e testemunhas fiéis.
Jovens libaneses, sois a esperança e o futuro do vosso país. Vós sois o Líbano, terra de acolhimento, de convivência, com esta capacidade incrível de adaptação. E neste momento, não podemos esquecer os milhões de pessoas que formam a diáspora libanesa e mantêm laços sólidos com o seu país de origem. Jovens do Líbano, sede acolhedores e abertos, como Cristo vos pede e como o vosso país vo-lo ensina.
Queria agora saudar os jovens muçulmanos que estão connosco nesta tarde. Obrigado pela vossa presença, que é tão importante. Sois, juntamente com os jovens cristãos, o futuro deste país maravilhoso e de todo o Médio Oriente. Procurai construi-lo juntos! E, quando fordes adultos, continuai a viver a concórdia na unidade com os cristãos; é que a beleza do Líbano encontra-se nesta bela simbiose. É preciso que o Médio Oriente inteiro, pondo os olhos em vós, compreenda que os muçulmanos e os cristãos, o islão e o cristianismo, podem viver juntos, sem ódio e no respeito das crenças de cada um, para construírem juntos uma sociedade livre e humana.
Soube ainda que há entre nós jovens vindos da Síria. Quero dizer-vos o quanto admiro a vossa coragem. Dizei em vossa casa, aos vossos familiares e aos vossos amigos que o Papa não vos esquece. Dizei ao vosso redor que o Papa está triste por causa dos vossos sofrimentos e lutos. Não esquece a Síria nas suas orações e preocupações. Nem esquece as populações do Médio Oriente que sofrem. É tempo que muçulmanos e cristãos se unam para pôr termo à violência e às guerras.


Ao terminar, voltemo-nos para Maria, a Mãe do Senhor, Nossa Senhora do Líbano. Do alto da colina de Harissa, Ela vos protege e acompanha, vela como uma mãe sobre todos os libaneses e tantos peregrinos que vêm de toda a parte para Lhe confiar as suas alegrias e penas. Nesta tarde, confiamos à Virgem Maria e ao Beato João Paulo II, que esteve aqui antes de mim, as vossas vidas, as de todos os jovens do Líbano e dos países da região, especialmente aqueles que sofrem por causa da violência ou da solidão, aqueles que precisam de conforto. Deus vos abençoe a todos! E agora todos juntos, rezemos-Lhe:
السّلامُ عَلَيكِ يا مَرْيَم... (Ave, Maria,…).

Discurso do Papa aos líderes políticos e religiosos do Líbano

Baabda (RV) - Segue, na íntegra, o discurso proferido por Bento XVI no Palácio Presidencial, em Baabda, aos membros do Governo e das Instituições da República, ao Corpo Diplomático, aos líderes religiosos e representantes do mundo da cultura.

Senhor Presidente da República,
Ilustres Autoridades parlamentares, governamentais, institucionais e políticas do Líbano,
Senhoras e Senhores Chefes das Missões Diplomáticas,
Beatitudes, Responsáveis religiosos,
Amados Irmãos no Episcopado,
Senhoras, Senhores, queridos amigos!

سَلامي أُعطيكُم [dou-vos a minha paz] (Jo 14, 27)! É com estas palavras de Jesus Cristo que desejo saudar-vos, agradecido pelo vosso acolhimento e a vossa presença. Agradeço-lhe, Senhor Presidente, não só as palavras cordiais, mas também o facto de ter permitido este encontro. Acabo, juntamente com Vossa Excelência, de plantar um cedro do Líbano, símbolo do vosso lindo país. Vendo esta pequena planta e os cuidados de que necessitará para se tornar robusta e lançar os seus ramos majestosos, pensei no vosso país e seu destino, nos libaneses e suas esperanças, em todas as pessoas desta Região do mundo que parece conhecer as dores dum parto sem fim. Então pedi a Deus que vos abençoe, abençoe o Líbano e abençoe todos os habitantes desta Região que viu nascer grandes religiões e nobres culturas. Por que motivo escolheu Deus esta Região? Porque vive ela em turbulência? Parece-me que Deus a escolheu para servir de exemplo, para testemunhar ao mundo a possibilidade concreta que o homem tem de viver o seu anelo de paz e reconciliação; inscrita desde sempre no plano divino, esta aspiração foi impressa por Deus no coração do homem. É da paz que vos desejo falar, porque Jesus disse: سَلامي أُعطيكُم [dou-vos a minha paz] .

O que faz rico um país são, antes de mais nada, as pessoas que nele vivem. De cada uma e todas juntas, depende o seu futuro e a sua capacidade de se comprometer pela paz. Tal compromisso só será possível numa sociedade unida. No entanto, a unidade não é a uniformidade. O que assegura a coesão da sociedade é o respeito constante pela dignidade de cada pessoa e a participação responsável de cada um segundo as próprias capacidades, pondo a render o que há em si de melhor. A fim de assegurar o dinamismo necessário para construir e consolidar a paz, é preciso retornar incansavelmente aos fundamentos do ser humano. A dignidade do homem é inseparável do carácter sagrado da vida, que o Criador lhe deu. No desígnio de Deus, cada pessoa é única e insubstituível. Vem ao mundo numa família, que é o seu primeiro lugar de humanização e sobretudo a primeira educadora para a paz. Por isso, para construir a paz, a nossa atenção deve fixar-se sobre a família a fim de facilitar a sua tarefa, para assim a apoiar e consequentemente promover por toda a parte uma cultura da vida. A eficácia do compromisso a favor da paz depende do conceito que o mundo possa ter da vida humana. Se queremos a paz, defendamos a vida. Esta lógica desabona não só a guerra e as acções terroristas, mas também qualquer atentado contra a vida do ser humano, criatura querida por Deus. A indiferença ou a negação daquilo que constitui a verdadeira natureza do homem impedem o respeito desta gramática que é a lei natural inscrita no coração humano (cf. Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2007, n. 3). A grandeza e a razão de ser de cada pessoa só se encontram em Deus. Assim, o reconhecimento incondicional da dignidade de cada ser humano, de cada um de nós, e do carácter sagrado da vida responsabiliza-nos a todos diante de Deus. Portanto, devemos unir os nossos esforços para desenvolver uma sã antropologia que integre a unidade da pessoa. Sem isso, não é possível construir a paz autêntica.

Embora mais evidentes nos países que conhecem conflitos armados – estas guerras repletas de bazófia e de horrores –, os atentados à integridade e à vida das pessoas existem também noutros países. O desemprego, a pobreza, a corrupção e tudo o mais que se lhes vem juntar como a exploração, os tráficos ilícitos de toda a espécie e o terrorismo acarretam, para além do sofrimento inaceitável dos que são as suas vítimas, um enfraquecimento do potencial humano. A lógica económica e financeira quer continuamente impor-nos o seu jugo e fazer prevalecer o ter sobre o ser. Mas cada vida humana que se perde é uma perda para a humanidade inteira. Esta é uma grande família, da qual todos somos responsáveis. Algumas ideologias, pondo em questão de maneira directa ou indirecta, e mesmo legalmente, o valor inalienável de cada pessoa e o fundamento natural da família, minam os alicerces da sociedade. Devemos estar conscientes destes atentados contra a construção e a harmonia da convivência social. O único antídoto para tudo isto é uma solidariedade efectiva: solidariedade para rejeitar o que impede o respeito por todo o ser humano, solidariedade para apoiar as políticas e iniciativas que visam unir os povos de forma honesta e justa. É bom ver as acções de cooperação e de verdadeiro diálogo que constroem uma nova maneira de viver juntos. Uma melhor qualidade de vida e desenvolvimento integral não é possível senão numa partilha das riquezas e das competências, respeitando a dignidade de cada um. Mas tal estilo de convivência social, sereno e dinâmico, não pode existir sem a confiança no outro, seja ele quem for. Hoje, as diferenças culturais, sociais, religiosas devem levar a viver um novo tipo de fraternidade, onde aquilo que une é justamente o sentido comum da grandeza de cada pessoa e o dom que ela constitui para si mesma, para os outros e para a humanidade. Está aqui o caminho da paz. Aqui está o compromisso que nos é pedido. Aqui está a orientação que deve presidir às escolhas políticas e económicas nos seus diversos níveis e a escala planetária.

Deste modo, a fim de patentear às novas gerações um futuro de paz, a primeira tarefa é educar para a paz, construindo uma cultura de paz. A educação, na família ou na escola, deve ser, antes de mais nada, educação para os valores espirituais que conferem à transmissão do saber e das tradições duma cultura o seu sentido e a sua força. O espírito humano possui o gosto inato do belo, do bom e do verdadeiro; é o selo do divino, a marca de Deus nele! Desta aspiração universal deriva uma concepção moral firme e justa, que sempre coloca a pessoa no centro. Mas é só na liberdade que o homem se pode voltar para o bem, porque «a dignidade do homem exige que ele proceda segundo a própria consciência e por livre adesão, ou seja, movido e induzido pessoalmente desde dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coacção externa» (Gaudium et spes, 17). A tarefa da educação é acompanhar a maturação da capacidade de fazer escolhas livres e justas, que possam ir contra-corrente relativamente às opiniões generalizadas, às modas, às ideologias políticas e religiosas. A consolidação duma cultura de paz tem este preço. Obviamente é necessário banir a violência verbal ou física; é sempre um ultraje à dignidade humana, tanto do agressor como da vítima. Além disso, ao valorizar as obras de paz e o seu influxo no bem comum, cria-se também o interesse pela paz. Como testemunha a história, tais gestos de paz desempenham papel considerável na vida social, nacional e internacional. Assim a educação para a paz formará homens e mulheres generosos e rectos, solícitos para com todos mas particularmente com as pessoas mais débeis. Pensamentos de paz, palavras de paz e gestos de paz criam uma atmosfera de respeito, honestidade e cordialidade, onde os erros e as ofensas podem ser reconhecidos com verdade, para avançar juntos rumo à reconciliação. Peço aos estadistas e aos responsáveis religiosos que reflictam nisto.

Devemos estar bem cientes de que o mal não é uma força anónima que actua no mundo de forma impessoal ou determinista. O mal, o demónio, passa através da liberdade humana, através do uso da nossa liberdade; procura um aliado, o homem: o mal precisa dele para se espalhar. E assim, depois de ter violado o primeiro mandamento, o amor a Deus, vem para perverter o segundo, o amor ao próximo. Com ele, o amor ao próximo desaparece, deixando o lugar à mentira e à inveja, ao ódio e à morte. Mas é possível não se deixar vencer pelo mal, e vencer o mal com o bem (cf. Rm 12, 21). Somos chamados a esta conversão do coração; sem ela, as «libertações» humanas tão desejadas decepcionam, porque se movem no espaço reduzido que lhes concede a mesquinhez do espírito do homem, a sua dureza, as suas intolerâncias, os seus favoritismos, os seus desejos de vingança e os seus instintos de morte. É necessária a transformação nas profundezas do espírito e do coração para reencontrar uma certa clarividência e imparcialidade, o sentido profundo da justiça e do bem comum. Um olhar novo e mais livre tornar-nos-á capazes de analisar e questionar sistemas humanos que levam a becos sem saída, a fim de se avançar tendo em conta o passado para não mais o repetir com os seus efeitos devastadores. Esta conversão requerida é exaltante, porque abre possibilidades ao fazer apelo aos inúmeros recursos presentes no coração de tantos homens e mulheres ansiosos de viver em paz e dispostos a comprometer-se pela paz. Esta, porém, é particularmente exigente: trata-se de dizer não à vingança, reconhecer os próprios erros, aceitar as desculpas sem as buscar e, finalmente, perdoar. Porque só o perdão dado e recebido coloca os alicerces duradouros da reconciliação e da paz para todos (cf. Rm 12, 16b.18).

Só assim pode crescer o bom entendimento entre as culturas e as religiões, a estima de umas pelas outras sem complexos de superioridade e no respeito pelos direitos de cada uma. No Líbano, há séculos que o cristianismo e o islão habitam no mesmo espaço. Não é raro ver, na mesma família, as duas religiões. Se, numa mesma família, isto é possível, por que não o haveria de ser ao nível da sociedade inteira? A especificidade do Médio Oriente reside na secular amálgama de componentes diversas. É certo que também se combateram, infelizmente! Uma sociedade pluralista só existe por causa do respeito recíproco, do desejo de conhecer o outro e do diálogo contínuo. Este diálogo entre os homens O diálogo só é possível com a consciência de que há valores comuns a todas as grandes culturas, porque estas estão radicadas na natureza da pessoa humana. Estes valores, que formam um substrato comum, exprimem os traços autênticos e característicos da humanidade; pertencem aos direitos de cada ser humano. As diversas religiões prestam uma decisiva contribuição para a afirmação da sua existência. Não esqueçamos que a liberdade religiosa é o direito fundamental, de que muitos outros dependem. Para toda e qualquer pessoa deve ser possível professar e viver livremente a própria religião sem pôr em perigo a sua vida e liberdade. A perda ou a diminuição desta liberdade priva a pessoa do direito sagrado a uma vida íntegra no plano espiritual. A chamada tolerância não elimina as discriminações; antes, por vezes até as reforça. E, sem a abertura ao transcendente que permite encontrar resposta para os interrogativos do próprio coração sobre o sentido da vida e sobre como viver de forma moral, o homem torna-se incapaz de agir segundo a justiça e comprometer-se em prol da paz. A liberdade religiosa tem uma dimensão social e política indispensável para a paz: promove uma coexistência e uma vida harmoniosas através do compromisso comum ao serviço de causas nobres e na busca da verdade que não se impõe pela violência, mas pela «sua própria força» (Dignitatis humanae, 1), aquela Verdade que é Deus. Eis o motivo por que a fé viva conduz invariavelmente ao amor. A fé autêntica não pode levar à morte. O obreiro de paz é humilde e justo. Por isso, os crentes têm hoje um papel essencial: dar testemunho da paz que vem de Deus e que é um dom concedido a todos na vida pessoal, familiar, social, política e económica (cf. Mt 5, 9; Heb 12, 14). A inércia dos homens de bem não deve permitir que o mal triunfe. O pior de tudo é não fazer nada!

Estas breves reflexões sobre a paz, a sociedade, a dignidade da pessoa, sobre os valores da família e da vida, sobre o diálogo e a solidariedade não podem permanecer ideais simplesmente enunciados; podem e devem ser vividos. Estamos no Líbano e é aqui que devem ser vividos. O Líbano é chamado, agora mais do que nunca, a ser um exemplo. Por isso vos convido a vós, políticos, diplomatas, religiosos, homens e mulheres do mundo da cultura, a dar testemunho ao vosso redor e com coragem, em tempo favorável e fora dele, de que Deus quer a paz, de que Deus nos confia a paz. سَلامي أُعطيكُم [dou-vos a minha paz] – diz Jesus Cristo (Jo 14, 27)! Que Deus vos abençoe. Obrigado!



Discurso do Papa por ocasião da Assinatura da Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Medio Oriente

Harissa (RV) - Segue, na íntegra, o discurso proferido por Bento XVI na Basílica de São Paulo, em Harissa, por ocasião da assinatura da Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Medio Oriente.

Senhor Presidente da República,
Sua Beatitude, venerados Patriarcas,
Amados Irmãos no Episcopado e membros do Conselho Especial do Sínodo dos Bispos para o Médio Oriente,
Ilustres Representantes das Confissões religiosas, do mundo da cultura e da sociedade civil,
Prezados irmãos e irmãs em Cristo, queridos amigos!

Agradeço ao Patriarca Gregorios Laham as suas palavras de boas-vindas, e ao Secretário-Geral do Sínodo dos Bispos, D. Nikola Eterović, as suas palavras de apresentação. As minhas saudações calorosas aos Patriarcas, a todos os Bispos orientais e latinos reunidos nesta linda Basílica de São Paulo, e aos membros do Conselho Especial do Sínodo dos Bispos para o Médio Oriente. Alegro-me também com a presença das delegações ortodoxa, muçulmana e drusa, bem como as do mundo da cultura e da sociedade civil. Saúdo com afecto a amada Comunidade greco-melquita que me acolhe. A vossa presença confere solenidade à assinatura da Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Medio Oriente, e testemunha que este documento, destinado sem dúvida à Igreja universal, reveste-se duma importância particular para todo o Médio Oriente.

É providencial que este acto tenha lugar precisamente no dia da Festa da Exaltação da Santa Cruz, cuja celebração nasceu no Oriente em 335, na sequência da Dedicação da Basílica da Ressurreição sobre o Gólgota e o sepulcro de Nosso Senhor construída pelo imperador Constantino, o Grande, que venerais como santo. Dentro de um mês, celebrar-se-ão os 1700 anos da aparição que lhe fez ver, na noite simbólica da sua incredulidade, o monograma cintilante de Cristo enquanto uma voz lhe dizia: «Por este sinal, vencerás!». Mais tarde, Constantino assinou o Édito de Milão e deu o seu nome a Constantinopla. Parece-me que a Exortação pós-sinodal pode ser lida e interpretada à luz da festa da Exaltação da Santa Cruz e, de forma particular, à luz do monograma de Cristo, o X (ghi) e o P (ro), as duas primeiras letras da palavra Χριστός. Tal leitura leva a uma descoberta autêntica da identidade do baptizado e da Igreja e, ao mesmo tempo, constitui como que um apelo ao testemunho na comunhão e pela comunhão. Porventura a comunhão e o testemunho cristãos não estão fundados no mistério pascal, na crucifixão, morte e ressurreição de Cristo? Não é aqui que encontram a sua plena realização? Existe um vínculo indivisível entre a Cruz e a Ressurreição, que não pode ser esquecido pelo cristão; sem este vínculo, exaltar a Cruz significaria justificar o sofrimento e a morte vendo neles apenas uma fatalidade. Para um cristão, exaltar a Cruz quer dizer entrar em comunhão com a totalidade do amor incondicional de Deus pelo homem; é fazer um acto de fé. Exaltar a Cruz, na perspectiva da Ressurreição, é desejar viver e manifestar a totalidade deste amor; é fazer um acto de amor. Exaltar a Cruz leva ao compromisso de ser arauto da comunhão fraterna e eclesial, fonte do verdadeiro testemunho cristão; é fazer um acto de esperança.

Debruçando-se sobre a situação actual das Igrejas no Médio Oriente, os Padres sinodais puderam reflectir sobre as alegrias e as penas, os temores e as esperanças dos discípulos de Cristo que vivem nestes lugares. Deste modo, toda a Igreja pôde ouvir o grito ansioso e notar o olhar desesperado de tantos homens e mulheres que se encontram em situações humana e materialmente árduas, vivendo no medo e inquietação pelas fortes tensões, e que desejam seguir Cristo – Aquele que dá sentido à sua vida – mas frequentemente encontram-se impedidos; por isso, quis que a Primeira Carta de São Pedro fosse o fio condutor do documento. Ao mesmo tempo, a Igreja pôde admirar o que há de belo e nobre nas Igrejas presentes nestas terras. Como não dar contínuas graças a Deus por todos vós (cf. 1 Ts 1, 2: I Parte da Exortação pós-sinodal), amados cristãos do Médio Oriente!? Como não O louvar pela vossa coragem na fé!? Como não Lhe agradecer pela chama do seu amor infinito que vós continuais a manter viva e ardente nestes lugares que foram os primeiros a acolher o seu Filho encarnado!? Como não Lhe elevar o nosso canto de gratidão pelos ímpetos de comunhão eclesial e fraterna, pela solidariedade humana constantemente manifestada por todos os filhos de Deus!?

A Exortação Ecclesia in Medio Oriente permite repensar o presente para considerar o futuro com o próprio olhar de Cristo. Com as suas orientações bíblicas e pastorais, com o seu convite a um aprofundamento espiritual e eclesiológico, com a renovação litúrgica e catequética preconizada, com os seus apelos ao diálogo, pretende traçar um caminho para chegar ao essencial: o seguimento de Cristo, num contexto difícil, e por vezes doloroso, que poderia fazer surgir a tentação de ignorar ou esquecer a Cruz gloriosa. Mas é precisamente então que é necessário celebrar a vitória do amor sobre o ódio, do perdão sobre a vingança, do serviço sobre a prepotência, da humildade sobre o orgulho, da unidade sobre a divisão. À luz da festa de hoje e tendo em vista uma aplicação frutuosa da Exortação, convido todos a que não tenham medo, permaneçam na verdade e a cultivem a pureza da fé. Esta é a linguagem da Cruz gloriosa. Esta é a loucura da Cruz: a de saber converter os nossos sofrimentos em grito de amor a Deus e de misericórdia para com o próximo; e a de saber também transformar, seres atacados e feridos na sua fé e identidade, em vasos de barro prontos a serem cumulados pela abundância dos dons divinos mais preciosos que o ouro (cf. 2 Cor 4, 7-18). Não se trata aqui duma linguagem puramente alegórica, mas dum apelo premente a praticar actos concretos que configuram cada vez mais a Cristo, actos que ajudam as diversas Igrejas a reflectir a beleza da primeira comunidade dos crentes (cf. Act 2, 41-47: II parte da Exortação); actos semelhantes aos do imperador Constantino, que soube testemunhar e fazer sair os cristãos da discriminação, permitindo-lhes viver, aberta e livremente, a sua fé em Cristo crucificado, morto e ressuscitado para a salvação de todos.

A Exortação Ecclesia in Medio Oriente oferece elementos que podem ajudar a um exame de consciência pessoal e comunitário, uma avaliação objectiva do compromisso e desejo de santidade de cada discípulo de Cristo. A Exortação abre ao verdadeiro diálogo inter-religioso fundado na fé em Deus Uno e Criador. Quer também contribuir para um ecumenismo repleto de ardor humano, espiritual e caritativo, na verdade e amor evangélicos, que vai buscar a sua força ao mandato do Ressuscitado: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (Mt 28, 19-20).

Nas suas diversas partes, a Exortação quer ajudar cada um dos discípulos do Senhor a viver plenamente e a transmitir realmente aquilo que ele mesmo se tornou pelo baptismo: um filho da Luz, um ser iluminado por Deus, uma lâmpada nova na escuridão tenebrosa do mundo para que das trevas brilhe a luz (cf. Jo 1, 4-5; 2 Cor 4, 1-6). Este documento quer contribuir para despojar a fé daquilo que a ensombra, de tudo o que pode ofuscar o esplendor da luz de Cristo. Assim a comunhão é uma autêntica adesão a Cristo, e o testemunho é uma irradiação do mistério pascal que dá um sentido pleno à Cruz gloriosa. Nós seguimos e «proclamamos Cristo crucificado (...) poder de Deus e sabedoria de Deus» (1 Cor 1, 23-24: cf. III parte da Exortação).

«Não temas, pequenino rebanho» (Lc 12, 32) e lembra-te da promessa feita a Constantino: «Por este sinal, vencerás!». Igrejas presentes no Médio Oriente, não temais, porque o Senhor está verdadeiramente convosco até ao fim do mundo. Não temais, porque a Igreja universal vos acompanha com a sua solidariedade humana e espiritual. É com estes sentimentos de esperança e encorajamento a ser protagonistas activos da fé através da comunhão e do testemunho que, no domingo, entregarei a Exortação pós-sinodal Ecclesia in Medio Oriente aos meus venerados Irmãos Patriarcas, Arcebispos e Bispos, a todos os presbíteros, aos diáconos, aos religiosos e religiosas, aos seminaristas e aos fiéis-leigos. «Tende confiança!» (Jo 16, 33). Por intercessão da Virgem Maria, a Theotókos, invoco com grande afecto a abundância dos dons divinos sobre todos vós. Deus conceda a todos os povos do Médio Oriente viverem na paz, na fraternidade e na liberdade religiosa! Deus vos abençoe a todos (لِيُبَارِك الربُّ جميعَكُم)!


Bento XVI: Venho ao Líbano como peregrino de paz

Beirute
(Radio Vaticano) – “Venho ao Líbano como peregrino de paz.” A longa espera acabou, pois Bento XVI já se encontra em Beirute, para a sua 24ª viagem apostólica internacional.

Depois de pouco mais de três horas de viagem de Roma à capital libanesa, o Pontífice e sua delegação foram recebidos no Aeroporto internacional “Rafiq Hariri” pelo Presidente da República, Michel Sleiman, pelo Patriarca Maronita Béchara Boutros Rai, e outras autoridades civis e eclesiásticas.

Após o cerimonial de boas-vindas, tomaram a palavra primeiro do Presidente da República e, a seguir, Bento XVI.

O Papa agradeceu a recepção calorosa, “o magnífico acolhimento” – que se reserva a um irmão amado e respeitado. Falou das “excelentes relações” que sempre existiram entre a Santa Sé e o Líbano e do motivo de sua viagem, ou seja, a publicação da Exortação apostólica Pós-Sinodal “Ecclesia in Medio Oriente”.

Dirigindo-se a todos os libaneses, Bento XVI afirma que não esquece os acontecimentos “tristes e dolorosos” que, durante longos anos, atormentaram este lindo país.

“A convivência feliz de todos os libaneses deve demonstrar a todo o Médio Oriente e ao resto do mundo que, dentro duma nação, pode haver colaboração entre as diversas Igrejas – todas elas membros da única Igreja Católica – num espírito de comunhão fraterna com os outros cristãos e, ao mesmo tempo, a convivência e o diálogo respeitoso entre os cristãos e os seus irmãos de outras religiões.”

Este equilíbrio, que é apresentado em toda a parte como um exemplo, é extremamente delicado, disse o Papa. Por vezes, ameaça romper-se. Então, é preciso dar provas de real moderação e grande sabedoria; a razão deve prevalecer sobre a paixão unilateral para favorecer o bem comum de todos.

A convivência que o Líbano quer testemunhar, acrescentou, só será profunda se estiver fundada sobre uma atitude de benevolência para com o outro, se estiver enraizada em Deus. Só então será um modelo para os habitantes de toda a região e para o mundo inteiro. Não se trata duma obra meramente humana, mas dum dom de Deus que é preciso pedir com insistência, preservar a todo custo e consolidar resolutamente.

“Venho ao Líbano como peregrino de paz, como amigo de Deus e como amigo dos homens”, disse ainda o Papa, citando o lema da sua viagem apostótica: «Salami ō-tīkum – dou-vos a minha paz». E hoje, além deste país, dirijo-me em espírito também a todos os países do Médio Oriente como peregrino de paz, como amigo de Deus e como amigo de todos os habitantes de todos os países da região, independentemente da sua filiação e da sua crença.”

Bento XVI garantiu que as alegrias e as tribulações dos povos do Oriente Médio estão continuamente presentes em sua oração, pedindo a Deus que os acompanhe e console. « Posso assegurar que rezo de maneira particular por todos os que sofrem nesta região, e são tantos! Estou feliz por estar com todos vocês. Que Deus os abençoe a todos.

No final da cerimônia, o Papa deixou o Aeroporto de Beirute em direção à Nunciatura Apostólica de Harissa, a 37 km da capital, onde ficará hospedado nesses três dias de visita.

À tarde, o evento que aguarda Bento XVI se realizará na Basílica Greco-melquita de São Paulo, para a assinatura da Exortação Apostólica “Ecclesia in Medio Oriente”, na presença de todos os patriarcas e bispos da região.



Discurso do Papa na cerimônia de boas-vindas

Beirute (Radio Vaticano) – Leia a íntegra do discurso pronunciado por Bento XVI na cerimônia de boas-vindas do Aeroporto Rafiq Hariri, de Beirute, esta sexta-feira.

Senhor Presidente da República,
Senhores Presidentes do Parlamento e do Conselho de Ministros, Amadas Beatitudes, Membros do Corpo Diplomático,
Ilustres Autoridades civis e religiosas presentes,
Queridos amigos!

Tenho a alegria, Senhor Presidente, de responder ao amável convite que me fez para visitar o vosso país, e também ao convite recebido dos Patriarcas e Bispos católicos do Líbano. Este duplo convite bastaria, se fosse necessário, para manifestar a dupla finalidade da minha visita ao vosso país. Esta sublinha as excelentes relações que sempre existiram entre o Líbano e a Santa Sé, e pretende contribuir para as reforçar. Com esta visita, desejo também retribuir as que o Senhor Presidente me fez ao Vaticano em Novembro de 2008 e, mais recentemente, em Fevereiro de 2011, seguida nove meses mais tarde pela visita do Senhor Primeiro-Ministro.
Foi durante o segundo dos nossos encontros que a majestosa estátua de São Maron foi abençoada. A sua presença silenciosa numa parede lateral da Basílica de São Pedro lembra, de forma permanente, o Líbano no próprio lugar onde foi sepultado o apóstolo Pedro. Manifesta um património espiritual secular, confirmando a veneração dos libaneses pelo primeiro dos Apóstolos e seus sucessores. Precisamente para ressaltar a sua grande devoção a Simão Pedro é que os Patriarcas Maronitas acrescentam ao seu nome o de Boutros. É bom ver como do santuário petrino, São Maron intercede continuamente pelo vosso país e por todo o Médio Oriente. Desde já lhe agradeço, Senhor Presidente, por todos os esforços realizados para o bom êxito da minha estadia entre vós.
Outro motivo da minha visita é a assinatura e entrega da Exortação apostólica pós-sinodal da Assembleia Especial para o Médio Oriente do Sínodo dos Bispos, Ecclesia in Medio Oriente; trata-se dum importante evento eclesial. Agradeço a todos os Patriarcas católicos que aqui se encontram, e de modo particular ao Patriarca emérito, o amado Cardeal Nasrallah Boutros Sfeir, e ao seu sucessor, o Patriarca Bechara Boutros Raï. Saúdo fraternalmente todos os Bispos do Líbano, bem como aqueles que vieram para rezar comigo e receber das mãos do Papa este documento. Através deles, saúdo com paterno afecto todos os cristãos do Médio Oriente. Destinada ao mundo inteiro, a Exortação propõe-se ser para eles um roteiro para os anos futuros. Alegro-me também por poder encontrar, durante estes dias, numerosas representações das comunidades católicas do vosso país, por podermos celebrar e rezar juntos. A sua presença, o seu compromisso e o seu testemunho são um contributo reconhecido e muito apreciado na vida diária de todos os habitantes do vosso amado país.
Desejo saudar também, com grande deferência, os Patriarcas e Bispos ortodoxos que me vieram receber, bem como os representantes das várias comunidades religiosas do Líbano. A vossa presença, queridos amigos, demonstra a estima e colaboração que, no respeito mútuo, desejais promover entre todos. Agradeço-vos pelos vossos esforços e tenho a certeza de que continuareis a procurar caminhos de unidade e concórdia. Não esqueço os acontecimentos tristes e dolorosos que, durante longos anos, atormentaram o vosso lindo país. A convivência feliz de todos os libaneses deve demonstrar a todo o Médio Oriente e ao resto do mundo que, dentro duma nação, pode haver colaboração entre as diversas Igrejas – todas elas membros da única Igreja Católica – num espírito de comunhão fraterna com os outros cristãos e, ao mesmo tempo, a convivência e o diálogo respeitoso entre os cristãos e os seus irmãos de outras religiões. Vós sabeis, tão bem como eu, que este equilíbrio, que é apresentado em toda a parte como um exemplo, é extremamente delicado. Por vezes ameaça romper-se, quando está esticado como um arco ou sujeito a pressões que são muitas vezes de parte ou interessadas, contrárias e estranhas à harmonia e suavidade libanesas. Então é preciso dar provas de real moderação e grande sabedoria; e a razão deve prevalecer sobre a paixão unilateral para favorecer o bem comum de todos. Porventura o grande rei Salomão, que conhecia o rei Hiram de Tiro, não considerava a sabedoria como sendo a virtude suprema!? Por isso a pediu com insistência a Deus, que lhe deu um coração sábio e inteligente (cf. 1 Rs 3, 9-12).
Venho também para vos dizer como é importante a presença de Deus na vida de cada um e como a forma de viver juntos – esta convivência de que o vosso país quer dar testemunho – só será profunda se estiver fundada sobre uma visão acolhedora e uma atitude de benevolência para com o outro, se estiver enraizada em Deus que deseja que todos os homens sejam irmãos. O famoso equilíbrio libanês, que quer continuar a ser efectivo, pode-se prolongar graças à boa vontade e ao compromisso de todos os libaneses. Só então será um modelo para os habitantes de toda a região e para o mundo inteiro. Não se trata duma obra meramente humana, mas dum dom de Deus que é preciso pedir com insistência, preservar a todo custo e consolidar resolutamente.
Os laços entre o Líbano e o Sucessor de Pedro são históricos e profundos. Senhor Presidente e queridos amigos, venho ao Líbano como peregrino de paz, como amigo de Deus e como amigo dos homens. «Salami ō-tīkum – dou-vos a minha paz», diz Jesus Cristo (Jo 14, 27). E hoje, além do vosso país, dirijo-me em espírito também a todos os países do Médio Oriente como peregrino de paz, como amigo de Deus e como amigo de todos os habitantes de todos os países da região, independentemente da sua filiação e da sua crença. Também a eles Jesus Cristo diz: «Salami ō-tīkum». As vossas alegrias e as vossas tribulações estão continuamente presentes na oração do Papa, pedindo a Deus que vos acompanhe e console. Posso assegurar-vos que rezo de maneira particular por todos os que sofrem nesta região, e são tantos! A estátua de São Maron recorda-me aquilo que vós viveis e suportais.
Senhor Presidente, o seu país preparou-me uma recepção calorosa, um magnífico acolhimento – o acolhimento que se reserva a um irmão amado e respeitado. Verdadeiramente digno é o seu país do «Ahlan wa Sahlan» libanês; já o é agora e sê-lo-á ainda mais daqui para diante. Estou feliz por estar com todos vós. Que Deus vos abençoe a todos (Lè yo barèk al-Rab jami’a kôm!). Obrigado.
Bento XVI em colóquio com jornalistas durante voo para o Líbano: fundamentalismo é falsificação da religião

Cidade do Vaticano (Radio Vaticano) - Bento XVI iniciou nesta sexta-feira a 24ª viagem apostólica internacional de seu Pontificado, viagem esta que o levou ao Líbano. Durante o voo para o País dos Cedros, num Airbus A320 da Alitalia, o Santo Padre deteve-se com os jornalistas a bordo para a tradicional coletiva de imprensa.

Na coletiva, o Papa tratou de temas fortes como o diálogo com o Islã, a primavera árabe, os temores pela situação dos cristãos na Síria e na área do Oriente Médio, e sobre a ajuda que as Igrejas e os católicos do Ocidente podem lhes dar.

"Ninguém jamais me aconselhou a renunciar a esta viagem e jamais contemplei essa hipótese, porque sei que quando a situação se complica ainda mais, é aí então que se faz mais necessário um sinal de fraternidade, de encorajamento e de solidariedade."

Com essas palavras – respondendo em francês e em italiano às perguntas dos jornalistas –, Bento XVI resumiu os sentimentos com os quais faz essa viagem apostólica ao Líbano, cujo objetivo, acrescentou, num país que já representa uma mensagem de encontro inter-religioso, é, portanto, "convidar ao diálogo, à paz contra a violência, a caminhar juntos para encontrar a solução dos problemas".

Respondendo a uma pergunta sobre o imperativo do diálogo com o Islã, hoje num momento de crescimento do extremismo, o Papa ressaltou que "o fundamentalismo é sempre uma falsificação da religião" que, ao invés, convida a difundir a paz de Deus.

Portanto, "o empenho da Igreja e das religiões", observou, "é realizar uma purificação dessas tentações, iluminar as consciências e fazer de modo que cada um tenha uma imagem clara de Deus". Em seguida, fez um premente convite ao respeito recíproco, vez que cada um é "imagem de Deus".

Foi igualmente incisivo o convite do Pontífice à tolerância, sem a qual, disse, não há verdadeira liberdade.

A propósito da primavera árabe e da questão da sobrevivência dos cristãos, minorias naquelas áreas, Bento XVI quis ressaltar que um desejo de maior democracia, de liberdade, de cooperação é por si positivo, é um "progresso", mas que se pode crescer somente na partilha, no viver juntos com determinadas regras.

Devemos fazer tudo o que for possível para que "o conceito de liberdade, o desejo de liberdade caminhe na direção justa e não se esqueça a tolerância e a reconciliação, que são elementos fundamentais da própria liberdade", observou.

Em relação à situação na Síria, o Papa ressaltou que é necessário promover todos os gestos possíveis, inclusive materiais, para favorecer o fim da guerra e da violência.

O perigo de os cristãos irem embora destas terras é "grande", observou, embora fujam também muçulmanos. Nesse sentido, "o cessar das violências seria a ajuda essencial", acrescentou.

O Papa afirmou reiteradas vezes que o papel da Igreja é a difusão da mensagem da paz, o empenho em evidenciar que a violência não resolve os problemas, e nesse sentido também a tarefa dos jornalistas é importante, ponderou.

Em seguida, o Santo Padre fez um apelo: "ao invés de importar armas, que é um pecado grave, devemos importar as ideias, a paz, a criatividade, aceitar os outros nas adversidades, tornar visível o respeito recíproco das religiões, o respeito pelo homem como criatura de Deus, o amor pelo próximo como elemento fundamental para todas as religiões".

Respondendo à pergunta de um dos jornalistas sobre os passos concretos do Ocidente em favor dos irmãos do Oriente Médio, o Papa afirmou que todos devem contribuir.

É necessário "influenciar a opinião pública", "convidar os políticos a realmente se empenharem, com todas as forças e com todas as possibilidades, em favor da paz". "Gestos visíveis de solidariedade e dias de oração pública podem ter efeitos reais.

Num certo sentido, concluiu Bento XVI, o nosso trabalho "é um trabalho de admoestação, de educação e de purificação muito necessário".
Primeiro-ministro libanês, Najib Miqati, define a visita do Papa histórica

Beirute (Radio Vaticano) - “Uma visita histórica”: assim o Primeiro-Ministro libanês, Najib Miqati, define a viagem de Bento XVI ao País dos Cedros. Numa entrevista a Aki- Adnkronos, o premiê afirma que o Papa “renova um ato de confiança ao país, que foi e continuará sendo um ponto de encontro e de integração entre as civilizações e as culturas e um modelo luminoso de convivência entre muçulmanos e cristãos”.

“Todos os libaneses cristãos e muçulmanos – continua – esperam a chegada do Papa confiantes de que esta visita será portadora de bem e será o início de uma verdadeira colaboração entre os povos de todos os países do Oriente Médio aos quais Bento XVI endereça a sua Exortação Apostólica pós-sinodal, que dará a eles esperança em um futuro melhor”.

“Somente uma paz justa, duradoura e total é o caminho para a estabilidade e a segurança”, destacou Miqati, colocando em evidência que “quem conhece as posições do Papa sabe que esses princípios sempre estiveram no centro de suas orações pela paz no Oriente Médio e no mundo”.

O primeiro-ministro recordou então o encontro ocorrido com o Papa no Vaticano, sublinhando ter “percebido na Sua Santidade um grande desejo de consolidar a presença cristã no Líbano e na região”. “A visita do Pontífice – conclui o premiê libanês – é a vista de um mensageiro de paz que sabe quanto sofre essa região”.







COMO CRISTÃOS, JAMAIS PODEMOS SER PESSIMISTAS
Bento XVI volta a falar sobre a oração na Audiência Geral desta quarta-feira

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 12 de setembro de 2012(ZENIT.org) – Pela segunda semana consecutiva, Bento XVI articulou sua catequese sobre o livro do Apocalipse, durante a Audiência Geral. Na semana passada o Papa falou sobre a oração orientada ao interno da vida eclesial, nesta manhã a meditação centralizou-se na oração direcionada ao mundo inteiro.
Bento XVI descreveu a oração como uma “janela aberta que nos permite ter os olhos voltados para Deus, não só para nos lembrar a meta para a qual tendemos, mas também para deixar que a vontade de Deus ilumine o nosso caminho terreno e nos ajude a vivê-lo com intensidade e empenho”.
E continuou a aprofundar a segunda parte do Apocalipse que mostra através dos símbolos do trono de Deus, do livro e do Cordeiro imolado, como a oração pessoal e comunitária leva a ver a realidade de um modo novo, captando o seu pleno sentido.
O Papa explicou que o Trono representa o senhorio de Deus sobre a história; o Livro com os sete selos, o plano de Deus sobre os homens e os acontecimentos; e o Cordeiro imolado se refere a Cristo morto e ressuscitado, o grande vencedor do maligno.
“De fato, o Apocalipse nos ensina a ler a realidade, muitas vezes marcada por sofrimentos e aparentes derrotas, com um olhar de esperança: como cristãos, jamais podemos ser pessimistas! Devemos olhar para Cristo Crucificado e Ressuscitado que nos associa à sua vitória!” – Destacou Bento XVI -.
Ao final da Audiência Bento XVI dirigiu a seguinte saudação aos peregrinos de língua portuguesa:
Saúdo os peregrinos de língua portuguesa, especialmente os portugueses de Avintes e Alpendurada, bem como os fiéis de Curitiba, acompanhados de seu Bispo, Dom Moacyr Vitti e todos os demais grupos de brasileiros. Lembrai-vos de que a vida de oração do cristão deve ter por centro a Missa dominical. É na Eucaristia que experimentareis como o Senhor Jesus vem e faz morada em quem n’Ele crê e acolhe. E que Deus vos abençoe em todas as vossas necessidades! Ide em paz!

O SANTO NOME DE MARIA

Ontem, 12 de setembro, a Igreja celebrou a Festa do Santo Nome de Maria.

No Calendário Ambrosiano de Milão, a festa do Santo Nome de Maria foi atribuído a 11 de setembro. No tempo do Calendário Geral Romano como em 1954, a data foi fixada como 12 de setembro. Após um curto período, quando ela foi removida, porque foi considerada uma duplicação da festa do Nascimento da Virgem Maria em 8 de setembro,[1] foi restabelecida a 12 de setembro.

Santíssimo Nome de Maria, Festa do Santo Nome de Maria, ou simplesmente Santo Nome de Maria, é um festa da Igreja Católica que se celebra em 12 de setembro. Após a vitória dos cristãos, conduzida pelo rei Jan III Sobieski da Polônia, sobre os turcos na Batalha de Viena, em 1683, a festa foi estendida a toda a Igreja pelo Papa Inocêncio XI, e atribuída ao domingo após o Nascimento de Maria. Antes da batalha, o rei Jan Sobieski colocou suas tropas sob a proteção da Virgem Maria. Após a batalha, o Papa Inocêncio XI, pretendendo homenagear Maria, estendeu a festa para toda a Igreja.

Nossa Senhora no livro do Movimento Sacerdotal Mariano –“Aos Sacerdotes, filhos prediletos de Nossa Senhora”- fala sobre esta Festa dedicada ao seu Nome.

<<Sastin (Eslováquia), 12 de setembro de 1991
Santuário nacional da Eslováquia

NO NOME DE MARIA. “Hoje, meu filho amadíssimo, na festa do venerado Nome da tua Mãe Celeste, terminas a tua viagem tão extraordinária em graças, com um grande Cenáculo que realizas para os Sacerdotes e fiéis, neste grande Santuário nacional dedicado à memória das minhas dores.

Viste por toda a parte uma resposta tão generosa de todos ao meu pedido de oração e de consagração.

Ficaste admirado sobretudo porque vieste aqui pela primeira vez e encontraste o meu Movimento Sacerdotal Mariano tão difundido, acolhido e seguido!

Esta Obra é só minha e Eu mesma a levo avante em toda a parte do mundo porque estes são os tempos do meu triunfo, da minha vitória e da vossa salvação.

— No Nome da vossa Mãe Celeste, sim, no Nome de Maria, que foram derrotados os turcos, quando estes assediavam a cidade de Viena e ameaçavam invadir e destruir todo o mundo cristão. Eram muito superiores em força, em número e em armas e sentiam que a vitória, para eles, era certa.

Mas os meus filhos Me invocaram e Me imploraram publicamente, o meu Nome foi escrito nos estandartes e aclamado pelos soldados e assim, graças à minha interces- são, aconteceu o milagre desta vitória que salvou o mundo cristão da sua destruição.

É por este motivo que o Papa instituiu, neste dia, a festa do Nome de Maria.

— No Nome de Maria, que foi derrotado, nestas nações, o comunismo marxista que exercia há dezenas de anos o seu domínio e mantinha muitos dos meus pobres filhos numa pesada e sangrenta escravidão. Não foi graças a movimentos ou a homens políticos, mas somente a uma minha intervenção pessoal que se deu finalmente esta vossa libertação.

E será novamente no Nome de Maria que Eu levarei a minha Obra ao seu cumprimento, com a derrota da maçonaria, de todas as forças diabólicas, do materialismo e do ateísmo prático, para que toda a humanidade possa chegar ao seu encontro com o Senhor e ser assim purificada e completamente renovada, com o triunfo do meu Coração Imaculado no mundo.

É por esta razão que Eu desejo que se reintroduza a festa em honra do Nome de Maria, agora que entrais nos momentos mais fortes da luta e na parte mais dolorosa da grande tribulação.

Deste meu Santuário, olho com amor para as nações que ainda conservaram a festa do Nome da vossa Mãe Celeste e prometo-lhes uma minha especial proteção materna.

Abençôo em particular esta terra da Eslováquia, onde sou tão amada, venerada e cada vez mais glorificada”.>>
facebook: Movimento Sacerdotal Mariano - Brasil

INVOCA MARIA! 
São Bernardo

 Se soprarem os ventos das tentações, se esbarrarem nos recifes da dor,
             OLHA PARA A ESTRELA, INVOCA MARIA.
 Se te sentes flagelado pelas ondas do orgulho, da ambição, da calúnia, da inveja,
             OLHA PARA A ESTRELA, INVOCA MARIA.
 Se a tua frágil embarcação é ameaçada pela ira e pela impureza,
             OLHA PARA MARIA.
 Se, oprimido pelos pecado, envergonhado pelo remorso, estiveres para ceder ao desespero,
            LEMBRA-TE DE MARIA.
 Nos perigos, nas provas, nas dúvidas,
            PENSA EM MARIA, INVOCA MARIA.
 Que MARIA não se afaste jamais dos teus lábios nem do teu coração.
 Para mereceres a sua proteção, esforça-te por imitar os seus exemplos.
 Seguindo-a, não te desviarás.
 Pensando Nela, não cairás.
 Se Ela te protege, nada tens a temer.
 Se Ela te conduz, não sentes cansaço.
 Com o seu favor, chegarás ao Porto da Vida.




Ao meio-dia, ao Angelus, em vésperas da partida para o Líbano, Papa pede empenho no diálogo a favor da paz

Bento XVI faz sua a angústia de tantos habitantes do Médio Oriente, quotidianamente a braços com sofrimentos de todo o tipo, e de modo especial os que se vêem obrigados ao exílio e invoca o empenho das partes implicadas a favor do diálogo e da reconciliação. Na saudação aos peregrinos de língua francesa, no final do encontro com os fiéis, em Castel Gandolfo, neste domingo ao meio-dia, o Santo Padre recordou a viagem apostólica que está para emprender ao Líbano (foto), para assinar a Exortação Apostólica fruto da Assembleia especial para o Médio Oriente, do Sínodo dos Bispos, celebrado em outubro de 2010.

Congratulando-se com a oportunidade que terá de se encontrar com os libaneses, muito especialmente com os cristãos do país e os provenientes dos países vizinhos, Bento XVI, embora sem referir expressamente a guerra na Síria, exprimiu toda a sua preocupação pela situação que se vive no Médio Oriente:    “Não ignoro a situação muitas vezes dramática vivida pelas populações desta região, desde há demasiado tempo flagelada por incessantes conflitos.    Compreendo a angústia de numerosos habitantes do Médio Oriente, dia a dia mergulhados em sofrimentos de todo o tipo, que afetam tristemente, por vezes de modo mortal, a sua vida pessoal e familiar.”

O Papa mencionou com preocupação aqueles que abandonam a vida familiar e profissional em busca de um espaço de paz, experimentando a precariedade do exilado. E foi neste contexto que pediu que não se ceda à resignação perante o prolongamento dos conflitos:

“Embora pareça difícil encontrar soluções para os diferentes problemas que afetam a região, não nos podemos resignar à violência e à exasperação das tensões. Há-de ser prioritário para as partes implicadas o empenho a favor de um diálogo e da reconciliação, esforço que tem que ser apoiado pela comunidade internacional, cada vez mais consciente da importância, para o mundo inteiro, de uma paz estável e duradoura para toda a região”.

E o Papa concluiu sublinhando que esta sua “viagem apostólica ao Líbano, e por extensão ao conjunto do Médio Oriente, se coloca sob o signo da paz, retomando as palavras de Cristo Dou-vos a minha paz.

“Que Deus abençoe o Líbano e o Médio Oriente!”

Nas saudações em espanhol, o Santo Padre referiu o “importante diálogo entre o governo colombiano e representantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia… para tentar pôr termo ao conflito que, ao longo de décadas, tem afetado este amado país”.
“Espero que todos os que tomarem parte nesta iniciativa, se deixem guiar pela vontade de perdão e reconciliação, na busca sincera do bem comum”.

Na costumada catequese antes das Ave-Marias, Bento XVI comentou o Evangelho da Missa deste domingo, invocando a materna intercessão de Maria para que “nos obtenha a graça de experimentar, dia após dia, na fé, o milagre do effatá, para viver em comunhão com Deus e com os irmãos”.
Radio Vaticano
Papa satisfeito com o tema escolhido pelo Congresso Mariológico Mariano

Na conclusão do XXIII Congresso Mariologico Mariano Internacional que teve lugar estes dias em Roma, o Papa recebeu os participantes no evento em Castel Gandolfo e regozijou-se pela grande oportunidade do tema escolhido: "A mariologia a partir do Concílio Vaticano II."
Na sua intervenção o Papa recordou que o Beato João XXIII quis que o Concílio Ecuménico Vaticano II se iniciasse precisamente no dia 11 de Outubro por ser o dia em que no ano 431 o Concílio de Éfeso proclamou Maria Teotokos, Maria Mãe de Deus. Disse ainda: "Como sabeis no próximo dia 11 de Outubro para recordar o Concílio Vaticano II iniciaremos o Ano da Fé onde apresentaremos Maria como modelo exemplar de fé e invocaremos e sua especial proteção e intercessão no caminho da Igreja."
Referindo-se à Festa da Natividade de Nossa Senhora que a Igreja celebra neste sábado, recordou a figura de Sant'André de Creta que numa sua famosa homilia nesta data tão importante se referiu a Maria como tendo sido "amamentada e criada para ser a Mãe do Rei, a Mãe de Deus".
Desta forma, o Santo Padre recordou-nos que com a votação de 29 de Outubro de 1963 foi decidido enriquecer a Constituição Dogmática da Igreja com um capítulo sobre a Mãe de Deus no qual se repropõe a figura de Maria a partir da Palavra de Deus, do texto da tradição patrística e litúrgica e também de uma ampla reflexão teológica e espiritual.
Ao despedir-se dos participantes no Congresso Mariológico, o Papa pediu-lhes que oferecessem a Deus a sua competente reflexão e as suas propostas pastorais em prol do Ano da Fé para que este possa representar, para todos os crentes, um verdadeiro momento de graça, em que a fé de Maria nos preceda e nos acompanhe como farol luminoso e como modelo de plenitude e maturidade cristã.
Radio Vaticano


A assembleia cristã reza com o olhar fixo em Jesus: Bento XVI, na audiência-geral

Bento XVI deslocou-se hoje ao Vaticano para a audiência geral, retomando a "escola da oração", tema das anteriores catequeses das quartas-feiras. O Papa inspirou-se desta vez no Livro do Apocalipse, que apresenta uma comunidade reunida em oração, experimentando a presença de Jesus connosco.
 Queridos irmãos e irmãs,
No âmbito da «escola de oração», que vos tenho vindo a propor, quero hoje falar da oração no Apocalipse, o último livro do Novo Testamento. Na primeira parte deste livro, vemos a oração viva e palpitante da assembleia cristã reunida no domingo, «no dia do Senhor». Envolvida pelo amor do Senhor, a assembleia sente-se livre dos laços do pecado e proclama-se como «reino» de Jesus Cristo: isto é, pertence só a Ele. Reconhece a grande missão, recebida no Baptismo, de levar ao mundo a presença de Deus. Conclui esta sua celebração de louvor, fixando o olhar directamente em Jesus e, com entusiasmo crescente, reconhece que Ele detém a glória e o poder para salvar a humanidade. O «ámen» final conclui o hino de louvor a Cristo Senhor. Tudo isto nos ensina que a nossa oração, feita muitas vezes só de pedidos, deve, pelo contrário, ser sobretudo louvor a Deus pelo seu amor, pelo dom de Jesus Cristo, que nos trouxe força, esperança e salvação.
Não faltou uma saudação aos peregrinos presentes:  
Amados fiéis brasileiros de Nossa Senhora das Dores e de São Bento e São Paulo, a graça e a paz de Jesus Cristo para todos vós e demais peregrinos de língua portuguesa. Quanto mais e melhor souberdes rezar, tanto mais sereis parecidos com o Senhor e Ele entrará verdadeiramente na vossa vida. É na oração que melhor podereis dar conta desta presença de Jesus em vós, recebendo serenidade, esperança e força na vossa vida. Tudo isto vos desejo, com a minha Bênção.

Radio Vaticano


05.setembro - Beata Madre Teresa de Calcutá

"Eu senti que o Senhor estava esperando para que eu voluntariamente desistisse de uma vida tranqüila na minha ordem e saísse às ruas para servir aos pobres.

Foram instruções simples e claras: eu tive que deixar as paredes do mosteiro para viver entre os pobres. E não apenas os pobres.

Ele me chamou para servir os desesperados, os mais pobres em Calcutá - aqueles que não têm nada nem ninguém, e perto dos quais ninguém quer chegar, porque eles são contagiosos, sujos, eles estão cheios de parasitas, de modo que não pode nem mesmo ir mendigar, porque eles estão nus, não têm mesmo panos para
cobrir o corpo, não podem comer
por causa do cansaço.

Eles não choram mais, porque não têm lágrimas. Jesus me mostrou essas pessoas durante minha vida, e Ele queria que eu as amasse. Deus precisava de minha pobreza, da minha fraqueza, da minha vida, a fim de demonstrar seu Amor aos pobres... .

Nas pessoas mais carentes de Calcutá, eu amava Jesus. Aqui não há tempo para ficar entediada, para reclamar da vida. Eu tenho vivido e confiando totalmente na vontade de Deus. Eu senti cada minuto da sua Presença, Ele se envolveu direto na minha vida."
Beata Madre Teresa de Calcutá      


Vaticano: Papa pede aos fiéis para cumprirem vontade de Deus «custe o que custar»
Bento XVI alerta católicos para perigo da fé se tornar costume «secundário»

Castel Gandolfo, Itália, 02 set 2012 (Ecclesia) – O Papa pediu hoje aos católicos para darem o melhor de si na obediência aos mandamentos divinos e alertou-os para o perigo de a religião se resumir a gestos que não correspondem às convicções e opções de vida.

“Sejamos dóceis ao Senhor e tratemos de cumprir constantemente a sua vontade, custe o que custar, sem cair no desalento ou na hipocrisia”, sublinhou Bento XVI na oração do Angelus, que proferiu na residência pontifícia de férias em Castel Gandolfo, próximo de Roma.

Diante de centenas de peregrinos reunidos para a prece dedicada à Virgem Maria, rezada habitualmente ao meio-dia, o Papa lembrou que, de acordo com a Bíblia, o povo de Israel foi tentado a “repor a sua segurança e a sua alegria” em elementos que não constituem a palavra divina: “nos bens, no poder, noutra ‘divindade’", que qualificou de "ídolos”.

Agindo dessa forma “a religião perde o seu autêntico sentido que é viver na escuta de Deus para fazer a sua vontade” e reduz-se a um hábito “secundário”, observou o Papa.

“Este é um grave risco de todas as religiões, que Jesus encontrou no seu tempo mas que pode verificar-se, infelizmente, também no cristianismo”, frisou Bento XVI.

Ainda que os mandamentos de Deus não desapareçam do horizonte dos fiéis, é possível que deixem de ser o “mais importante, a regra de vida” e se convertam num “revestimento”, enquanto que “a vida segue outra estrada”, envolvida por “interesses muitas vezes egoístas individuais e de grupo”, acrescentou.

“Na Bíblia a Lei não é vista como um peso, uma limitação opressora, mas como o dom mais precioso de Deus”, sinal “da sua vontade de estar próximo do seu povo, de ser o seu aliado e de assim escrever uma história de amor”, realçou.

Bento XVI lembrou o texto bíblico mais importante proclamado nas missas celebradas este domingo em todo o mundo, que alerta os fiéis para uma adoração a Deus por palavras e gestos exteriores mas que não é coerente com as convicções e comportamentos, ao mesmo tempo que sobrevaloriza as tradições humanas em detrimento dos mandamentos divinos.

Nas saudações finais, em seis idiomas, o Papa dirigiu-se a um grupo de libaneses que mostrava uma faixa onde se lia “Santidade, o Médio Oriente espera-o no Líbano”, uma alusão à visita que o Papa vai fazer ao país entre 14 e 16 de setembro.

Bento XVI mencionou também o recomeço das aulas: “é bom e necessário aprender”, afirmou, antes de encorajar as crianças e jovens a descobrir “a alegria da amizade”.

“O tempo para o desporto e para o lazer é importante, mas o tempo para a família e para Deus é ainda mais importante”, pelo que os parentes e professores “devem favorecer o justo equilíbrio”, vincou.

São João Batista, um exemplo e guia para o homem de hoje - disse o Papa na audiência desta quarta-feira, em Castelo Gandolfo

Hoje, solenidade litúrgica do martírio de São João Baptista, foi precisamente sobre este precursor de Jesus que o Papa centrou a sua catequese semanal, realizada, na presença de numerosos fieis de várias partes do mundo, na praça em frente do Castelo, onde o Papa passa o período de Verão, a sul da capital italiana.

O Papa começou por dizer que São João Baptista é o único Santo de que a Igreja celebra tanto o nascimento como a morte, ocorrida através do martírio. Uma memória que remonta ao século IV em Samaria e que se estendeu depois a Jerusalém, Igrejas Orientais e Roma, com o titulo de “degolação de São João Baptista”. Mais tarde a preciosa relíquia teria sido encontrada e transportada para a Igreja de São Silvestre em Roma.

Pequenas referências histórias que – disse o Papa – nos ajudam a compreender quão antiga e profunda é a veneração de São João Baptista, cujo papel em relação a Jesus é exaltado pelos evangelistas. São Lucas recorda, por ex., o seu nascimento, vida no deserto e pregações, enquanto que São Marcos nos fala, no Evangelho de hoje, do seu martírio.

João Baptista começou a sua pregação sob o imperador Tibério no ano 27-28 depois de Cristo, convidando as pessoas a preparar-se para acolher Jesus. Não se limitou, todavia, a dizer às pessoas para fazerem penitência, para se converterem, mas a reconhecerem Jesus como o verdadeiro enviado de Deus. Humilde e sem tirar de modo nenhum o espaço a Jesus que ele preanuncia, João Baptista acaba por cumprir a sua missão, resistindo contra os potentes e morrendo degolado pela defesa dos mandamentos de Deus. Morreu por Cristo – disse o Papa - perguntando-se donde lhe vinha essa rectidão e coerência na preparação da vinda de Jesus. E respondeu:

“Da relação com Deus, da oração, que foi o fio condutor de toda a sua existência”.

Com efeito, ele foi um dom de Deus para os seus pais, Zacarias e Isabel, que já era idosa e estéril. Mas nada é impossível a Deus! E tanto o anuncio da gravidez, como o nascimento de João estão envoltos num clima de oração, em cânticos de louvor – frisou Bento XVI - recordando que o Benedictus que cantamos nas laudes matutinas exaltam a acção de Deus na história e indicam profeticamente a missão de João Baptista, que não é contudo, apenas um homem de oração. É também um guia na relação com Deus. Uma exemplo também para nós hoje – acrescentou o Papa:

“Celebrar o martírio de São João Baptista recorda também a nós cristão deste nosso tempo que não se pode descer a compromissos com o amor de Cristo, a sua Palavra, com a Verdade. A verdade é verdade, não há compromissos. A vida cristã exige, por assim dizer, o “martírio” da fidelidade quotidiana do Evangelho, a coragem de deixar que Cristo cresça em nós e seja Ele a orientar o nosso pensamento e as nossas acções”.

Mas isto só pode acontecer se for sólida a nossa relação com Deus, prosseguiu ainda o Papa recordando que a oração não é tempo perdido, antes pelo contrário. Só se formos capazes de ter uma vida de oração fiel, constante e confiante, será o próprio Deus a dar-nos a força de viver felizes e serenos, ultrapassando as dificuldades. Que São João Baptista interceda por nós a fim de sabermos conservar sempre a primazia de Deus na nossa vida – concluiu Bento XVI, passando depois a saudar os fiéis em várias línguas. Eis as suas palavras em português…

"Amados peregrinos de Portugal e do Brasil, e demais pessoas de língua portuguesa, sede bem-vindos! Uma saudação particular aos fiéis de Chã Grande, Natal e do Rio de Janeiro. Que o exemplo e a intercessão de São João Batista vos ajudem a viver a vossa entrega a Deus sem reservas, sobretudo por meio da oração e da fidelidade ao Evangelho, para que Cristo cresça em vós, guiando os vossos pensamento e ações. Com estes votos, de bom grado a todos abençôo."

*No final da audiência o Papa saudou os bispos amigos da Comunidade de Santo Egídio vindos a Roma para um período de oração e reflexão, as irmãs missionárias de São Sisto em capítulo geral e diversos outros grupos, e dirigiu os seus pensamentos aos jovens, doentes e recém-casados, exortando todos a encontrar na oração uma força para a vida.

Por fim saudou um grande grupo de mais de um milhar de acólitos franceses em peregrinação a Roma e aos bispos que os acompanham.

“Caros jovens, o serviço que realizais fielmente, permite-vos estar particularmente próximos de Cristo-Jesus na Eucarística. Tendes o enorme privilégio de estar perto do altar, perto do Senhor. Tende consciência da importância deste serviço para a Igreja e para vós mesmos. Que esta seja para vós a ocasião de fazer crescer uma amizade, uma relação pessoal com Jesus. Não tenhais medo de transmitir, com entusiasmo, ao vosso redor, a alegria que recebeis da sua presença! Que a vossa vida toda resplandeça pela alegria desta proximidade com o Senhor Jesus! E se um dia ouvirdes o seu chamamento a seguir o caminho do sacerdócio ou da vida religiosa, respondei com generosidade! A todos desejo uma boa peregrinação ao túmulo dos Apóstolos, Pedro e Paulo.”
Radio Vaticano


SANTO AGOSTINHO - 28.AGOSTO

Aurélio Agostinho nasceu em Tagasta, cidade da Numídia, de uma família burguesa, a 13 de novembro do ano 354. Seu pai, Patrício, era pagão, recebido o batismo pouco antes de morrer; sua mãe, Mônica, pelo contrário, era uma cristã fervorosa, e exercia sobre o filho uma notável influência religiosa. Indo para Cartago, a fim de aperfeiçoar seus estudos, começados na pátria, desviou-se moralmente. Caiu em uma profunda sensualidade, que, segundo ele, é uma das maiores conseqüências do pecado original; dominou-o longamente, moral e intelectualmente, fazendo com que aderisse ao maniqueísmo, que atribuía realidade substancial tanto ao bem como ao mal, julgando achar neste dualismo maniqueu a solução do problema do mal e, por conseqüência, uma justificação da sua vida. Tendo terminado os estudos, abriu uma escola em Cartago, donde partiu para Roma e, em seguida, para Milão. Afastou-se definitivamente do ensino em 386, aos trinta e dois anos, por razões de saúde e, mais ainda, por razões de ordem espiritual.

Entrementes - depois de maduro exame crítico - abandonara o maniqueísmo, abraçando a filosofia neoplatônica que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal.

Destarte chegara a uma concepção cristã da vida - no começo do ano 386. Entretanto a conversão moral demorou ainda, por razões de luxúria. Finalmente, como por uma fulguração do céu, sobreveio a conversão moral e absoluta, no mês de setembro do ano 386. Agostinho renuncia inteiramente ao mundo, à carreira, ao matrimônio; retira-se, durante alguns meses, para a solidão e o recolhimento, em companhia da mãe, do filho e dalguns discípulos, perto de Milão. Aí escreveu seus diálogos filosóficos, e, na Páscoa do ano 387, juntamente com o filho Adeodato e o amigo Alipio, recebeu o batismo em Milão das mãos de Santo Ambrósio, cuja doutrina e eloqüência muito contribuíram para a sua conversão. Tinha trinta e três anos de idade.

Depois da conversão, Agostinho abandona Milão, e, falecida a mãe em Óstia, volta para Tagasta.

Aí vendeu todos os haveres e, distribuído o dinheiro entre os pobres, funda um mosteiro numa das suas propriedades alienadas. Ordenado padre em 391, e consagrado bispo em 395, governou a igreja de Hipona até à morte, que se deu durante o assédio da cidade pelos vândalos, a 28 de agosto do ano 430. Tinha setenta e cinco anos de idade.

Após a sua conversão, Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo da Sagrada Escritura, da teologia revelada, e à redação de suas obras, entre as quais têm lugar de destaque as filosóficas.

As obras de Agostinho que apresentam interesse filosófico são, sobretudo, os diálogos filosóficos: Contra os acadêmicos, Da vida beata, Os solilóquios, Sobre a imortalidade da alma, Sobre a quantidade da alma, Sobre o mestre, Sobre a música. Interessam também à filosofia os escritos contra os maniqueus: Sobre os costumes, Do livre arbítrio, Sobre as duas almas, Da natureza do bem.

Dada, porém, a mentalidade agostiniana, em que a filosofia e a teologia andam juntas, compreende-se que interessam à filosofia também as obras teológicas e religiosas, especialmente: Da Verdadeira Religião, As Confissões, A Cidade de Deus, Da Trindade, Da Mentira.
Catequese de Bento XVI sobre Santo Agostinho

Queridos irmãos e irmãs,

na vida de cada um de nós existem pessoas muito queridas, das quais nos sentimos particularmente próximos, algumas já estão nos braços de Deus, outros ainda partilham conosco o caminho da vida: são os nossos pais, os parentes, os educadores; são pessoas às quais fizemos bem ou das quais recebemos o bem; são pessoas com as quais sabemos que podemos contar. É importante, então, também ter alguns "companheiros de viagem" no caminho da nossa vida cristã: penso no Diretor Espiritual, no Confessor, em pessoas com as quais se pode compartilhar a própria experiência de fé, mas penso também na Virgem Maria e nos Santos. Todo mundo deveria ter algum Santo que lhe fosse familiar, para senti-lo próximo com a oração e a intercessão, mas também para imitá-lo. Desejo convidar-vos, portanto, a conhecer mais profundamente os Santos, começando por aqueles de que levais o nome, lendo-lhes a vida, os escritos. Tenhais certeza de que se tornarão bons guias para amar ainda mais o Senhor e válidos auxílios para o vosso crescimento humano e cristão.

Como sabeis, também eu sou ligado de uma forma especial a algumas figuras dos Santos: entre essas, assim como a de São José e São Bento, do qual levo o nome, estão outros, como Santo Agostinho, que tive o grande dom de conhecer, por assim dizer, proximamente através do estudo e da oração e que se tornou um com "companheiro de viagem" na minha vida e no meu ministério. Gostaria de sublinhar uma vez mais um aspecto importante da sua experiência humana e cristã, atual também na nossa época em que o relativismo parece ser, paradoxalmente, a "verdade" que deve guiar o pensamento, as escolhas, os comportamentos.

Santo Agostinho é um homem que nunca viveu com superficialidade; a sede, a busca inquieta e constante da Verdade é uma das características básicas de sua existência; não, porém, das "pseudoverdades", incapazes de dar paz duradoura ao coração, mas daquela Verdade que dá sentido à existência e é "a casa" em que o coração encontra serenidade e alegria. O dele, nós sabemos, não foi um caminho fácil: pensou encontrar a Verdade no prestígio, na carreira, no possuir das coisas, nas vozes que lhe prometiam felicidade imediata; cometeu erros, passou por sofrimentos, enfrentou reveses, mas nunca se deu por vencido, por satisfeito com aquilo que lhe dava somente um vislumbre de luz; soube olhar no íntimo de si mesmo e percebeu, como escreve nas Confissões, que aquela Verdade, aquele Deus que procurava com as suas forças era mais íntimo a si do que ele mesmo, sempre estava ao seu lado, nunca o havia abandonado, estava na expectativa de poder entrar definitivamente em sua vida (cf. III, 6, 11, X, 27, 38). Como disse em comentário sobre o recente filme acerca de sua vida, Santo Agostinho compreendeu, em sua incansável busca, que não é ele que havia encontrado a Verdade, mas a Verdade mesma, que é Deus, perseguiu-o e o encontrou (cf. L'Osservatore Romano, quinta-feira, 4 de setembro de 2009, p. 8). Romano Guardini, comentando um trecho do terceiro capítulo das Confissões, afirma: Santo Agostinho compreendeu que Deus é "a glória que nos coloca de joelhos, a bebida que sacia a sede, tesouro que nos torna felizes, [...ele tinha] a pacificadora certeza de quem finalmente entendeu, mas também a felicidade do amor que sabe: Isso é tudo e me basta" (Pensatori religiosi, Brescia, 2001, p. 177).

Também nas Confissões, no Livro nono, o nosso Santo relata uma conversa com a mãe, Santa Mônica – cuja memória é celebrada na próxima sexta-feira (27.agosto), um dia depois de amanhã. É uma cena muito bela: ele e a mãe estão em Ostia, em um albergue, e da janela veem o céu e o mar, e transcendem céu e mar, e por um momento tocam o coração de Deus no silêncio das criaturas. E aqui aparece uma ideia fundamental no caminho rumo à verdade: as criaturas devem ficar em silêncio quando se deve dar lugar ao silêncio em que Deus pode falar. Isso é sempre verdadeiro também em nosso tempo: por vezes, tem-se uma espécie de medo do silêncio, do recolhimento, do pensar nas próprias ações, no sentido profundo da própria vida, frequentemente prefere-se viver somente o momento presente, iludindo-se que traga felicidade duradoura; prefere-se viver, porque parece mais fácil, com superficialidade, sem pensar; tem-se medo de buscar a Verdade, ou talvez tenha-se medo de que a Verdade nos encontre, nos apanhe e mude a vida, como fez com Santo Agostinho.

Queridos irmãos e irmãs, desejo dizer a todos, também àqueles que estão em um momento difícil em sua caminhada de fé, a quem participa pouco na vida da Igreja ou a quem vive "como se Deus não existisse", que não tenham medo da Verdade, não interrompam nunca o caminho rumo a ela, não deixem de procurar a verdade profunda sobre si mesmos e sobre as coisas com o olho interior do coração. Deus não deixará de dar Luz para fazer ver e Calor para fazer sentir no coração que nos ama e que deseja ser amado.

A intercessão da Virgem Maria, de Santo Agostinho e de Santa Mônica nos acompanhe neste caminho.



Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede - 23.AGO.2010
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