HOMILIA DA PRIMEIRA MISSA DO SANTO PADRE O PAPA BENTO XVI PARA OS CARDEAIS

20.maio.2005

 

 

Caros irmãos Cardeais,
Caríssimos Irmãos e Irmãs em Cristo,
Todos vós, homens e mulheres de boa vontade!

No meu espírito convivem nestas horas dois sentimentos contraditórios. De um lado, um sentido de inadequação e de humana perturbação pela responsabilidade que ontem me foi confiada, enquanto Sucessor do apóstolo Pedro nesta Sede de Roma, cara a cara com a Igreja universal. Por outro lado, sinto em mim uma viva gratidão a Deus que - como nos faz cantar a liturgia - não abandona o seu rebanho, mas o conduz através dos tempos, sob a orientação daqueles que Ele mesmo elegeu como vigários do seu Filho e constitui pastores.

Caríssimos, este íntimo reconhecimento por um dom da divina misericórdia prevalece, acima de tudo, no meu coração. E considero este fato como uma graça especial oferecida pelo meu venerado predecessor, João Paulo II. Parece-me sentir a sua mão forte a apertar a minha; parece-me ver os seus olhos sorridentes e ouvir as suas palavras, dirigidas a mim em particular, neste momento: "Não tenhas medo!"

A morte do Santo Padre João Paulo II, e os dias que se seguiram, foram para a Igreja e para o mundo inteiro um tempo extraordinário de graça. A grande dor pelo seu falecimento e o sentimento de perda que deixou em todos foram atenuados pela ação de Cristo ressuscitado, que se manifestou durante tantos dias na onda de fé, amor e solidariedade espiritual, culminada nas suas exéquias solenes.

Podemos dizer que o funeral de João Paulo II foi uma experiência verdadeiramente extraordinária, na qual se percebeu, de algum modo, o poder de Deus que, através da sua Igreja, quer fazer de todos os povos uma grande família pela força unificante da Verdade e do Amor (conferir Lumen gentium, 1). Na hora da morte, conformado ao seu Mestre e Senhor, João Paulo II coroou o seu longo e fecundo Pontificado, confirmando na fé o povo cristão, congregando-o em volta de si e fazendo sentir mais unida toda a família humana.

Como não sentir-nos sustentados por este testemunho? Como não perceber o encorajamento que vem deste acontecimento da graça?

2. Surpreendendo todas as minhas previsões, a divina Providência, através do voto dos meus venerados Padres Cardeais, chamou-me a suceder a este grande Papa. Penso, nesta hora, naquilo que aconteceu na região de Cesaréia de Filipe, há dois mil anos. Parece-me ouvir as palavras de Pedro: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo", e a solene afirmação do Senhor: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja... Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus" (Mt 16, 15-19).

Tu és o Cristo! Tu és Pedro! É como se revivesse a própria cena evangélica; eu, Sucessor de Pedro, repito com estremecimento as palavras estremecidas do pescador da Galiléia e ouço de novo, com íntima emoção, a promessa reconfortante do divino Mestre. Se é enorme o peso da responsabilidade que se coloca sobre os meus ombros, é certamente desmesurada força divina com a qual posso contar: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" (Mt 16, 18).

Escolhendo-me como Bispo de Roma, o Senhor quis fazer de mim seu vigário, "pedra" sobre a qual todos se podem apoiar com segurança. Peço-lhe que supra a pobreza das minhas forças, para que eu seja Pastor fiel e corajoso do seu rebanho, sempre dócil às inspirações do seu Espírito.

Preparo-me para empreender este peculiar ministério, o ministério "petrino" ao serviço da Igreja universal, com humilde abandono nas mãos da Providência de Deus. Em primeiro lugar, é a Cristo que renovo a minha total e confiante adesão: "In Te, Domine, speravi; non confundar in aeternum!".

A vós, Senhores Cardeais, com espírito agradecido pela confiança demonstrada, peço que me sustentem com a oração e com a constante, ativa e sábia colaboração. Peço também a todos os Irmãos no Episcopado que estejam a meu lado com a oração e com o conselho, para que possa ser verdadeiramente o Servus servorum Dei. Como Pedro e os outros Apóstolos constituíram por desejo do Senhor um único Colégio apostólico, do mesmo modo o Sucessor de Pedro e os Bispos, sucessores dos Apóstolos devem estar estreitamente unidos entre si - algo que o Concílio frisou com força (conferir Lumen gentium, 22).

Esta comunhão colegial, apesar da diversidade de papéis e funções do Romano Pontífice e dos Bispos, está ao serviço da Igreja e da unidade na fé, da qual depende em grande medida a eficácia da ação evangelizadora no mundo contemporâneo. Neste caminho, portanto, sobre o qual avançaram os meus venerados Predecessores, também eu me proponho prosseguir, unicamente preocupado em proclamar ao mundo inteiro a presença viva de Cristo.

3. Tenho diante de mim, de forma particular, o testemunho do Papa João Paulo II. Ele deixa uma Igreja mais corajosa, mais livre, mais jovem. Uma Igreja que, segundo o seu ensinamento e exemplo, olha com serenidade para o passado e não tem medo do futuro.

Com o grande Jubileu ela entrou no novo milênio trazendo nas mãos o Evangelho, aplicado no mundo atual através da releitura autorizada do II Concílio do Vaticano. Justamente o Papa João Paulo II indiciou o Concílio como "bússola" pela qual orientar-se no vasto oceano do terceiro milênio (conferir Novo millennio ineunte, 57-58).

Também no seu testamento espiritual, ele apontava: "Estou convencido de que ainda por muito tempo será dado às novas gerações descobrir as riquezas que este Concílio do século XX nos deixou" (17.III.2000).

Também eu, ao colocar-me ao serviço que é próprio do Sucessor de Pedro, quero afirmar com força a vontade decidida de prosseguir no compromisso da atuação do Concílio do Vaticano, sobre o trilho dos meus Predecessores e em fiel continuidade com a bimilenária tradição da Igreja.

Terá lugar neste ano o 40º aniversário da conclusão das sessões Conciliares (8 de Dezembro de 1965). Com o passar dos anos, os Documentos conciliares não perderam a sua atualidade; os seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas instâncias da Igreja e da presente sociedade globalizada.

4. De maneira muito significativa, o meu Pontificado inicia-se quando a Igreja está a viver o Ano especial dedicado à Eucaristia. Como deixar de acolher esta coincidência providencial, como um elemento que deve caracterizar o ministério ao qual fui chamado?

A Eucaristia, coração da vida cristã e fonte da missão evangelizadora da Igreja, não pode deixar de constituir o centro permanente e a fonte do serviço petrino que me foi confiado. A Eucaristia torna constantemente presente o Cristo ressuscitado, que continua a dar-se a nós, chamando-nos a participar na mesa do seu Corpo e do seu Sangue. Da plena comunhão com Ele nascem todos os outros elementos da vida da Igreja, em primeiro lugar a comunhão entre todos os fiéis, o compromisso de anunciar e de testemunhar o Evangelho, o ardor da caridade para com todos, especialmente os mais pobres e pequenos.

Neste ano, portanto, deverá ser celebrada com particular relevo a Solenidade do Corpus Domini. A Eucaristia estará, portanto, no centro da Jornada Mundial da Juventude, de Agosto, em Colônia e em Outubro da Assembléia Ordinária do Sínodo dos Bispos, que decorrerá sobre o tema "A Eucaristia, fonte e cume da vida e da missão da Igreja".

Peço a todos que intensifiquem nos próximos meses o amor e a devoção a Jesus Eucaristia e que exprimam de modo corajoso e claro a fé na presença real do Senhor, sobretudo mediante a solenidade e a correção das celebrações.

Peço-o de modo especial aos Sacerdotes, nos quais penso neste momento com grande afeto. O Sacerdócio ministerial nasceu no Cenáculo, juntamente com a Eucaristia, como tantas vezes sublinhou o meu venerado Predecessor João Paulo II. "A existência sacerdotal deve ter a título especial uma forma eucarística ", escreveu na sua última Carta para a Quinta-feira Santa (nº 1).

Para este fim contribui, acima de tudo, a devota celebração quotidiana da santa Missa, centro da vida e da missão de cada Sacerdote.

5. Alimentados e sustentados pela Eucaristia, os católicos não podem deixar de sentir-se estimulados a tender para aquela plena unidade que Cristo desejou ardentemente no Cenáculo.

Deste supremo anelo do Mestre divino, o Sucessor de Pedro sabe que deve assumir esta tarefa de um modo muito particular. A ele foi, de fato, confiada a missão de confirmar os irmãos (cf. Lc 22,32). Plenamente consciente, portanto, no início do seu ministério na Igreja de Roma que Pedro regou com o seu sangue, o atual seu Sucessor assume como compromisso primário o de trabalhar sem poupar energias na reconstituição da plena e visível unidade de todos os seguidores de Cristo.

Esta é a sua ambição, este é o seu dever arrebatador. Ele está consciente de que para isto não bastam as manifestações de bons sentimentos. São precisos gestos concretos que entrem nas almas e movam as consciências, solicitando a cada um a conversão interior que é o pressuposto de qualquer progresso no caminho do ecumenismo. O diálogo teológico é necessário, o aprofundamento das motivações históricas de escolhas acontecidas no passado é, contudo, indispensável.

Aquilo que nos urge de maior maneira, no entanto, é aquela "purificação da memória", tantas vezes evocadas por João Paulo II, a única que poderá dispor os espíritos a acolher a plena verdade de Cristo. É diante dele, supremo Juiz de cada ser vivo, que cada um de nós deve colocar-se, na consciência de ter um dia de dar-lhe contas de tudo aquilo que fizeram ou não em vista do grande bem da plena e visível unidade de todos os seus discípulos.

O atual Sucessor de Pedro deixa-se interpelar na primeira pessoa por esta questão e está disposto a fazer tudo o que estiver em seu poder para promover a causa fundamental do ecumenismo. Sobre os passos dos seus Predecessores, ele está plenamente determinado a cultivar qualquer iniciativa que possa aparecer para promover os contactos e o encontro com representantes das diversas Igrejas e Comunidades eclesiais. A eles, também, envia nesta ocasião a mais cordial saudação em Cristo, único Senhor de todos.

6. Volto com a memória, neste momento, à inesquecível experiência vivida por todos nós por ocasião da morte e das exéquias de João Paulo II. Em volta dos seus restos mortais, depositados na terra nua, recolheram-se Chefes das Nações, pessoas de todos os estratos sociais e especialmente os jovens, num inesquecível abraço de afeto e admiração.

O mundo inteiro olhou para ele com confiança. Pareceu a muitos que aquela intensa participação, amplificada até aos confins do planeta pelos meios de comunicação social, fosse como um coral pedido de ajuda dirigido ao Papa por parte da humanidade hodierna, perturbada por incertezas e temores, que se interroga sobre o seu futuro.

A Igreja de hoje deve reavivar em si mesma a consciência da missão de propor ao mundo, novamente, a voz daquele que disse: "Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida" (Jo 8,12).

Ao assumir o seu ministério, o novo Papa sabe que a sua missão é o de fazer resplandecer diante dos homens e mulheres de hoje a luz de Cristo: não a sua própria luz, mas a de Cristo. Com esta consciência, dirijo-me a todos, mesmo aos que seguem outras religiões ou que simplesmente procuram uma resposta às perguntas fundamentais da existência e ainda não a encontraram. A todos me dirijo com simplicidade e afeto, para assegurar que a Igreja quer continuar a tecer com eles um diálogo aberto e sincero, à procura do verdadeiro bem do homem e da sociedade.

Invoco de Deus a unidade e paz para a família humana e declaro a disponibilidade de todos os católicos em cooperar para um autêntico desenvolvimento social, que respeite a dignidade de cada ser humano.

Não pouparemos esforços e dedicação para prosseguir o promissor diálogo começado pelos meus venerados Predecessores com as diversas civilizações, para que da compreensão recíproca nasçam as condições de um futuro melhor para todos.

Penso em particular nos jovens. A eles, interlocutores privilegiados do Papa João Paulo II, vai o meu abraço afetuoso à espera, se Deus quiser, de encontrá-los em Colônia por ocasião da próxima Jornada Mundial da Juventude. Convosco, caros jovens, futuro e esperança da Igreja e da humanidade, continuarei a dialogar, escutando as vossas expectativas no intento de ajudar-vos a encontrar, numa profundidade cada vez maior, o Cristo vivo, o eternamente jovem.

7. Mane nobiscum, Domine! Fica conosco Senhor!

Esta invocação é o tema dominante da Carta Apostólica de João Paulo II para o Ano da Eucaristia e é a oração que brota espontaneamente do meu coração, enquanto me preparo para iniciar o ministério a que Cristo me chamou.

Como Pedro, também eu renovo-lhe a promessa incondicional de fidelidade. Só a Ele pretendo servir, dedicando-me totalmente ao serviço da sua Igreja.

Para sustentar esta promessa, invoco a materna intercessão de Maria Santíssima, em cujas mãos ponho o presente e o futuro da minha pessoa e da Igreja. Intervenham com a sua intercessão também os Santos Apóstolos Pedro e Paulo, e todos os Santos.

Com estes sentimentos, ofereço-vos, venerados Irmãos Cardeais, àqueles que participam neste rito e a quantos nos acompanham pela televisão e a rádio uma especial, afetuosa bênção.

TRADUÇÃO DA CNBB

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