A Religiosidade Popular

Antes do Vaticano II a religiosidade cristã em geral tinha bastantes tendências populares. Com o Vaticano II foram dadas orientações no sentido que a religiosidade popular deveria ser mais cristocentrica.

Ninguém duvida desta orientação oportuna. Mas como fica o nosso povo simples que não tem acesso a grandes teologias? Tendo em conta todas as motivações, se reconsiderou e se valorizou novamente a religiosidade popular. Pessoalmente penso que foi uma boa! É bom considerar que a chuva faz bem, quando é suficiente, nem muita e nem pouca. No mundo existem muitas realidades e tendências e é prudente respeitar a todas elas.

Vamos ver.

No Brasil:

A Segunda-feira é dedicada às almas.

A Terça é dedicada aos santos anjos.

A Quarta é dedicada a S. José.

A Quinta é dedicada à Eucaristia e ao Sacerdócio.

A Sexta é dedicada à paixão do Senhor.

O Sábado é dedicado a Nossa Senhora.

O Domingo é dedicado à Santíssima Trindade.

 

No Congo, África:

A Segunda-feira é dedicada ao Pai criador.

A Terça é dedicada ao Filho redentor

A Quarta é dedicada ao Espírito Santo.

A Quinta é dedicada à Eucaristia e sacerdócio.

A Sexta é dedicada à paixão e doentes.

O Sábado é dedicado a Maria.

O Domingo é dedicado à Ressurreição.

O respeito da Igreja Católica pelas culturas dos povos e pela religiosidade popular, renova constantemente esta mesma Igreja pela ação do Espírito Santo.

Que a Igreja nunca perca esta nota de unidade na diversidade.

 

Pe. João Monteiro da Felícia - jomofaba@hotmail.com

 

Os sentimentos do padre João são compartilhados pelo Magistério da Igreja, vejamos:

Assim se expressa sobre a religiosidade popular o Catecismo da Igreja Católica nos parágrafos 1674 e 1675: <<Além da liturgia sacramental e dos sacramentais, a catequese tem de levar em conta as formas da piedade dos fiéis e da religiosidade popular. O senso religioso do povo cristão encontrou, em todas as épocas, sua expressão em formas diversas de piedade que circundam a vida sacramental da Igreja, como a veneração de relíquias, visitas a santuários, peregrinações, procissões, via-sacra, danças religiosas, o rosário, as medalhas etc.

Estas expressões prolongam a vida litúrgica da Igreja, mas não a substituem: "Considerando os tempos litúrgicos, estes exercícios devem ser organizados de tal maneira que condigam com a sagrada liturgia, dela de alguma forma derivem, para ela encaminhem o povo, pois que ela, por sua natureza, em muito os supera".>>

Os papas sobre a Religiosidade Popular:

Trecho da Exortação Apostólica EVANGELII NUNTIANDI do  Papa PauloVI (8 de dezembro de 1975) 

“Neste ponto, tocamos um aspeto da evangelização a que não se pode ser indiferente. Queremos referir-nos àquela realidade que com freqüência vai sendo designada nos nossos dias com os termos religiosidade popular. É um fato que, tanto nas regiões onde a Igreja se acha implantada de há séculos quanto nos lugares onde ela se encontra em vias de implantação, subsistem expressões particulares da busca de Deus e da fé. Encaradas durante muito tempo como menos puras, algumas vezes desdenhadas, essas expressões assim constituem hoje em dia, mais ou menos por toda a parte, o objeto de uma redescoberta. Os Bispos aprofundaram o seu significado, no decorrer do recente Sínodo, com um realismo e um zelo pastoral que são de assinalar.

A religiosidade popular, pode-se dizer, tem sem dúvida as suas limitações. Ela acha-se freqüentemente aberta à penetração de muitas deformações da religião, como sejam, por exemplo, as superstições. Depois, ela permanece com freqüência apenas a um nível de manifestações cultuais, sem expressar ou determinar uma verdadeira adesão de fé. Ela pode, ainda, levar à formação de seitas e pôr em perigo a verdadeira comunidade eclesial.

Se essa religiosidade popular, porém, for bem orientada, sobretudo mediante uma pedagogia da evangelização, ela é algo rico de valores. Assim ela traduz em si uma certa sede de Deus, que somente os pobres e os simples podem experimentar; ela torna as pessoas capazes para terem rasgos de generosidade e predispõe-nas para o sacrifício até ao heroísmo, quando se trata de manifestar a fé; ela comporta um apurado sentido dos atributos profundos de Deus: a paternidade, a providência, a presença amorosa e constante, etc. Ela, depois, suscita atitudes interiores que raramente se observam alhures no mesmo grau: paciência, sentido da cruz na vida cotidiana, desapego, aceitação dos outros, dedicação, devoção, etc. Em virtude destes aspectos, nós chamamos-lhe de bom grado "piedade popular", no sentido religião do povo, em vez de religiosidade.

A caridade pastoral há de ditar, a todos aqueles que o Senhor colocou como chefes de comunidades eclesiais, as normas de procedimento em relação a esta realidade, ao mesmo tempo tão rica e tão vulnerável. Antes de mais, importa ser sensível em relação a ela, saber aperceber-se das suas dimensões interiores e dos seus inegáveis valores, estar-se disposto a ajudá-la a superar os seus perigos de desvio. Bem orientada, esta religiosidade popular, pode vir a ser cada vez mais, para as nossas massas populares, um verdadeiro encontro com Deus em Jesus Cristo.”

Trecho do Discurso do Santo Padre Bento XVI na Seção Inaugural dos Trabalhos da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe no Santuário de Aparecida, 13 de maio de 2007

“ A fé cristã na América Latina

A fé em Deus animou a vida e a cultura destes povos durante cinco séculos. Do encontro desta fé com as etnias originárias nasceu a rica cultura cristã deste Continente, manifestada na arte, na música, na literatura e sobretudo nas tradições religiosas e na idiossincrasia das suas populações, unidas por uma única história e por um mesmo credo, e formando uma grande sintonia na diversidade das culturas e das línguas. Na atualidade, esta mesma fé tem que enfrentar sérios desafios, pois estão em jogo o desenvolvimento harmônico da sociedade e a identidade católica dos seus povos. A este respeito, a V Conferência Geral vai refletir sobre esta situação para ajudar os fiéis cristãos a viver a sua fé com alegria e coerência, a tomar consciência de que são discípulos e missionários de Cristo, enviados por Ele ao mundo para anunciar e dar testemunho da nossa fé e amor.

Porém, o que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina e do Caribe? Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam silenciosamente. Significou também ter recebido, com as águas do batismo, a vida divina que fez deles filhos de Deus por adoção; ter recebido, outrossim, o Espírito Santo que veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germes e sementes que o Verbo encarnado tinha lançado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho. Com efeito, o anúncio de Jesus e do seu Evangelho não supôs, em qualquer momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura alheia. As culturas autênticas não estão encerradas em si mesmas, nem petrificadas num determinado ponto da história, mas estão abertas, mais ainda, buscam o encontro com outras culturas, esperam alcançar a universalidade no encontro e o diálogo com outras formas de vida e com os elementos que possam levar a uma nova síntese, em que se respeite sempre a diversidade das expressões e da sua realização cultural concreta.

Em última instância, somente a verdade unifica, e a sua prova é o amor. Por isso Cristo, dado que é realmente o Logos encarnado, "o amor até ao extremo", não é alheio a qualquer cultura, nem a qualquer pessoa; pelo contrário, a resposta desejada no coração das culturas é o que lhes dá a sua identidade última, unindo a humanidade e respeitando, ao mesmo tempo, a riqueza das diversidades, abrindo todos ao crescimento na verdadeira humanização, no progresso autêntico. O Verbo de Deus, tornando-se carne em Jesus Cristo, fez-se também história e cultura.

A utopia de voltar a dar vida às religiões pré-colombianas, separando-as de Cristo e da Igreja universal, não seria um progresso, mas um regresso. Na realidade, seria uma involução para um momento histórico ancorado no passado.

A sabedoria dos povos originários levou-os felizmente a formar uma síntese entre as suas culturas e a fé cristã que os missionários lhes ofereciam. Daqui nasceu a rica e profunda religiosidade popular, em que aparece a alma dos povos latino-americanos:

- o amor a Cristo sofredor, o Deus da compaixão, do perdão e da reconciliação; o Deus que nos amou a ponto de se entregar por nós;

- o amor ao Senhor presente na Eucaristia, o Deus encarnado, morto e ressuscitado para ser Pão de Vida;

- o Deus próximo dos pobres e daqueles que sofrem;

a profunda devoção à Santíssima Virgem de Guadalupe, de Aparecida ou das diversas invocações nacionais e locais. Quando a Virgem de Guadalupe apareceu ao índio São João Diogo, disse-lhe estas palavras significativas: "Não estou aqui, eu que sou a tua Mãe? Não te encontras sob a minha sombra e a minha proteção? Não sou eu a fonte da tua alegria? Não te encontras debaixo do meu manto, no cruzamento dos meus braços?" (Nican Mopohua, nn. 118-119).

Esta religiosidade expressa-se também na devoção aos Santos com as suas festas patronais, no amor ao Papa e aos demais Pastores, no amor à Igreja universal como grande família de Deus que nunca pode, nem deve, deixar abandonados ou na miséria os seus próprios filhos. Tudo isto forma o grande mosaico da religiosidade popular que é o precioso tesouro da Igreja Católica na América Latina, e que ela deve proteger, promover e, naquilo que for necessário, também purificar.”

 

 

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