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O Papa, o Islã
árabe
e o
Ocidente

Por: SAMIR KHALIL SAMIR, Asianews
As críticas
da mídia islâmica contra Bento XVI são nulas diante à toda riqueza de
sua proposta. No
mundo árabe, é urgente o diálogo com a ciência, travada ao longo de
séculos, no mundo ocidental é urgente não fechar-se em ideologias
relativistas que desprezam a fé.
Beirute
(AsiaNews)
A peregrinação
de Bento XVI à Terra Santa está
envolta por um turbilhão de controvérsias e críticas que dificultam a
visão da verdade. Na
realidade, a mensagem que o Papa confiou ao povo daquela terra,
cristãos e muçulmanos, israelenses e palestinos é essencial para o
desenvolvimento e a paz na região.
Na Jordânia verdadeira
fraternidade entre muçulmanos e cristãos
Na Jordânia, em
particular, Bento XVI consolidou, ainda mais, sólidas bases para a
cooperação entre cristãos e muçulmanos, entre o oriente e o ocidente. Existe
uma diferença notável entre o que o mundo muçulmano tem escrito na
imprensa e a atitude da Jordânia.
Em muitos
jornais árabes estão de volta a chamada "ofensa de Regensburg", a
procura de desculpas pela ofensa feita ao Islã, etc ... Mas ao contrário
a atmosfera que vimos na Jordânia foi serena, hospitaleira, com uma boa
dose de confiança mutua.
O papa não
deixou de elogiar o esforço sincero da Casa Real da Jordânia, o rei, o
príncipe Al-Ghazi, a rainha Rania, que o acompanhou a Universidade de
Madaba, para a benção da pedra angular. A
Universidade Católica de Madaba - querida pelo Patriarca emérito Michel
Sabbah - é um sinal da cordialidade entre cristãos e muçulmanos,
uma universidade católica, que se abre com o apoio, inclusive econômico,
da casa real Hachemita.
Este é o
resultado de uma política que é mais tolerante para com o Cristianismo. Minha
experiência na Jordânia - no ano passado, lá estive 3 vezes e encontrei
2 vezes o Príncipe Hassan - é a de uma atmosfera serena e amigável, que
não encontrai em nenhum outro país islâmico até agora.
Isso permitiu
pequenos gestos de hospitalidade e honra ao hospedar o Papa. Por
exemplo, para entrar na Mesquita "al-Hussein bin Talal-", em Amã,
permitiram que o papa mantivesse os sapatos, para isso, um longo tapete
foi estendido ao longo de todo o percurso.
E também o
príncipe Al-Ghazi manteve os sapatos.
O clima na
Jordânia inspira este tipo de mensagem: somos todos irmãos, beduínos,
cristãos, muçulmanos. O
povo da Jordânia também insistem no fato de que Jesus e Maria fazem
parte da tradição histórica do país, por terem vivido na Jordânia (ver o
local do batismo, Betânia, etc ..) Sentem que esta é uma terra
santificada pela presença de Jesus e dos profetas.
Religião e ciência: a
refinação "crítico talento"
Mas o discurso
à Universidade de
Madaba é
realmente um ponto-chave desta peregrinação. O
Papa enfatizou coisas diferentes, mas especialmente a importância de uma
educação séria e acadêmica dos cristãos e muçulmanos
para o desenvolvimento pessoal, para a paz, para o progresso na região.
O pontífice
enfatizou fortemente que o desenvolvimento da pessoa passa pela educação
que a universidade tem para oferecer, que a paz se constrói com o
conhecimento e o estudo e não a ignorância, que todo o progresso,
material e econômico, político e democrático cresce com o estudo e
conhecimento. O Santo Padre
desenvolve este ponto, afirmando que o objetivo da universidade é
transmitir aos estudantes "o amor pela verdade," promover "a sua adesão
aos valores," elevando "a sua liberdade pessoal".
É muito
importante que em um mundo muçulmano (e cristão), muitas vezes
teocrático, o Papa, antes de falar sobre religião, fale de cultura e
ciência. E
a ciência tem por objeto amar a verdade e descobri-la. O
Papa insiste que
esta formação intelectual "refinará os seus talentos críticos,
dispersará a ignorância e o preconceito, e os ajudará a quebrar os
encantamentos criados por antigas e novas ideologias."
Os "talentos
críticos" são importantes para o mundo árabe: sem a crítica a fé pode se
tornar fanatismo, superstição, a respeito da manipulação, o Papa tocou
numa questão que é fundamental para o crescimento desta região: a falta
de um olhar crítico, leva as pessoas a seguirem na política, um ou outro
líder, sem considerar as necessidades da democracia, da liberdade, dos
direitos humanos, da convivência. Todos
seguem religiosamente, mas sem perguntar-se sobre os fundamentos da
própria fé, seguindo as tradições chegando a renegar a liberdade de
consciência. Isto
aplica-se a todas as religiões, não apenas para o Islã. A
ignorância e o preconceito, para o Papa, são uma ameaça para à paz e ao
diálogo.
E quando fala
dos "encantamentos de ideologias", ele faz alusão ao modo fácil com que
se deixam prender pelo fanatismo e pela violência.
Ele disse: "a
religião, como a ciência e a tecnologia, como a filosofia e toda
expressão de nossa busca pela verdade, pode se corromper. A
religião
é desfigurada quando é forçada a servir a ignorância
e o preconceito, o desprezo, a violência
e o abuso".
Bento XVI coloca
no mesmo recipiente todas estas realidades, porque tudo pode ser
desfigurado - até a ciência. O
importante para ele é não deixar que a religião seja desfigurada pela
ignorância e pelo abuso.
Necessidade de uma
"sabedoria ética"
Falando na Mesquita em Amã, ele
disse também que por vezes a sociedade leiga coloca como única causa da
violência a religião. Na
verdade isto acontece apenas se a religião se deixa "desfigurar", mas
este é o risco de todos os conhecimentos.
Por este motivo,
o Papa exorta com a Carta aos Filipenses (4:8) para estar atento a "tudo
o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, que merece elogios" Ele
recomenda a cristãos e muçulmanos que não tenham medo da ciência, que
abram suas mentes, mesmo pondo em risco a própria fé. Esta
mensagem é corajosa, numa sociedade como a árabe, que é susceptível de
encontrar um refúgio na religião.
Mas sua mensagem
esta também voltada para a ciência, que muitas vezes se arrisca a
transformar-se em uma ideologia sem ética ou abertura a Deus.
Este é também um
elemento presente em Regensburg. O
Papa sublinhou que "também a ciência tem os seus limites. Não
pode dar respostas a todas as questões relativas ao homem e sua
existência. Na
realidade, a pessoa humana, o seu lugar e o seu objetivo no
universo não
pode ser contido dentro dos
limites da ciência."
Portanto, o uso
do conhecimento científico tem necessidade da luz orientadora da
"sabedoria ética". "Essa
sabedoria tem inspirado o juramento de Hipócrates, a Declaração
Universal dos Direitos do Homem de 1948, a Convenção de Genebra e de
outros dignos códigos internacionais de conduta".
O papa explica
esta "sabedoria ética", com o juramento de hipócrates, um pagão do
século III aC e, em seguida, fala da Declaração dos Direitos do Homem de
1948, uma secular declaração, a Convenção de Genebra sobre o
comportamento em caso de conflito, que também é secular. Ele
não se refere a elementos religiosos. Assim,
sugere que a "sabedoria ética" pode ser independente da religião. Esta
ênfase é importante em uma sociedade muçulmana ou cristã-tradicional:
significa que o diálogo está a 360 graus, com todos, incluindo aqueles
que não crêem. Mas
àqueles que não acreditam disse que não é possível agir sem ética, ou
sem fundamentos religiosos, porque desta forma faltará alguma coisa
essencial na formação humana.
A religião tem
sufocado o homem árabe
A função da
Universidade Católica é formar "homens e mulheres qualificados, sejam
cristãos, muçulmanos ou de outras religiões." Não
é apenas uma mensagem para o Islã. Esta
enfase a não deixar que a religião seja desfigurada; a aceitar o desafio
da ciência para ter um olhar crítico; a procurar uma ética religiosa e
secular para criar uma comunidade de diferentes religiões e não-crentes,
me parece um importante discurso no nosso mundo Árabe.
Aqueles citados
pelo papa são os valores que muitos hoje estão procurando e que nós
árabes vivemos no passado (de 1860 a 1950, com a chamada «Renascença»,
Nahda), ou durante a Idade Média (do século IX ao XI): na ocasião, nós
vivemos um relacionamento vivo entre ciência e religião, com recíprocas
colocadas em questão, em um diálogo crítico com os desafios. Mas
a cerca de meio século, este diálogo desapareceu, tanto a nível
científico como religioso.
Alguns anos
atrás, árabe estudiosos fizeram uma análise da situação dos
conhecimentos científicos no mundo árabe e escreveram uma reportagem
catastrófica: da escola primária à universidade, todos se perguntam qual
é a contribuição do mundo árabe para o conhecimento universal e vemos
que ele é inexistente. Mais
recentemente, a 3 de março último, o jornalista argelino Anwar Malek, na
Al-Jazeera TV, atacou os árabes por não ter contribuído de nenhum modo
para o progresso neste século.
Nós realmente
regredimos do ponto de vista científico. E
na esfera religiosa, estamos sufocados por uma religião formal, cada vez
mais controlada do exterior, preocupada com a aparência (tomar o véu, a
barba, a burqa ou niqab), a todas as infinitas regras que os imãs dão
com as suas fatwas. Agora
em todos os pequenos aspectos da vida social e privada, se metem as
fatwas: é proibido usar o batom, depilar as sobrancelhas, comer com um
cristão, convivência entre xiitas e sunitas ... Dezenas e dezenas de
fatwas são emitidas sobre o vestir-se, o modo de fazer amor entre marido
e mulher, sobre as relações econômicas ... Tudo isso está sufocando a
liberdade e se manifesta pela ausência de ciência, da democracia e da
liberdade.
Espaço
à fé nas sociedades
ocidentais
O discurso simples,
humilde e corajoso do Papa, dá as boas-vindas à ciência, ao espírito
crítico, à
liberdade, pedindo a
todos que procurem aquilo que é belo, nobre e justo.
Ao mesmo tempo,
ele proclama o direito de expressar a sua fé, exortando o mundo não
religioso a encontrar os fundamentos éticos. Para
mim, esta mensagem de Bento XVI é uma extensão do discurso de Regensburg
sobre a relação entre fé e razão. Lá,
ele desenvolveu o tema em um ambiente cristão e ocidental; aqui o
ampliou em um ambiente muçulmano.
Reduzir esta
mensagem para "algo que só serve para os muçulmanos", significa ser
míope. O
papa falou para todo o mundo, incluindo o Ocidente, que continua a
afundar no relativismo, na falta de fé e no desprezo pelas religiões. Neste
sentido, em seu discurso na mesquita al-Hussein bin Talal, ele alertou
para o perigo do secularismo: "não podemos deixar de ficar preocupados -
disse ele - pelo fato de hoje, com crescente insistência, algumas
pessoas acreditarem que a religião falha na sua pretensão de ser, pela
sua natureza, a construtora de unidade e harmonia, uma expressão de
comunhão entre as pessoas e com Deus, de fato, alguns argumentam que a
religião é, necessariamente, uma causa de divisão em nosso mundo, e que
por isso afirmam que quanto menor atenção se dá à religião na esfera
pública, melhor é. "
Esta é uma
claríssima crítica ao ateísmo e relativismo do Ocidente. Mas
ele também corrige os muçulmanos, reconhecendo que existe alguma verdade
nesta posição leiga: "No entanto - acrescentou - não é sempre o caso que
frequentemente seja a manipulação ideológica da religião, às vezes para
fins políticos, o verdadeiro catalisador real das tensões e das divisões
e não raramente também das violências na sociedade?" Mas afirma
que não é a religião o problema, mas a "manipulação da religião". Por fim disse: "Muçulmanos e cristãos devem hoje empenhar-se para serem
identificados e reconhecidos como adoradores de Deus fiéis à oração,
desejosos de viver e agir em conformidade com as disposições do
Onipotente, misericordioso e compassivo, para dar testemunho coerente de
tudo o que é justo e bom,
sempre consciente da comum origem e dignidade de cada pessoa humana, que
está no vértice do desígnio do Deus Criador para o mundo e para a
história". Nisto, está a afirmação de que adorar a Deus na sociedade é um direito.
Como existe um direito de praticar nenhuma religião, assim também há o
direito de praticar a religião.
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