VIAGEM APOSTÓLICA
DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
AOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
E VISITA À SEDE
DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS
(15 - 21 DE ABRIL DE 2008)

"Confio a Nossa Senhora, Mãe da Igreja e Rainha da Paz, a experiência missionária que viverei nos próximos dias com a viagem apostólica aos Estados Unidos e à sede das Nações Unidas, enquanto peço-lhes que me acompanhem com sua oração". (Bento XVI, oração do Regina Coeli, Cidade do Vaticano - 13.abril.2008)


"Cristo, nossa esperança"

 

 

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI
AOS CATÓLICOS E AO POVO
DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
 POR OCASIÃO DA IMINENTE VIAGEM APOSTÓLICA

 

Amados irmãos e irmãs
dos Estados Unidos da América!

A graça e a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo estejam com todos vós! Faltam só poucos dias para a minha viagem apostólica no vosso amado País, e antes de partir desejo enviar-vos uma cordial saudação e um convite à oração. Como sabeis, a minha visita incluirá apenas duas cidades:  Washington e Nova Iorque; mas ela pretende abraçar espiritualmente todos os católicos que vivem nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, desejo vivamente que a minha ida entre vós seja acolhida como expressão de fraternidade para com todas as Comunidades eclesiais e como testemunho de amizade a todos os crentes e aos homens e mulheres de boa vontade. O Senhor ressuscitado confiou aos Apóstolos e à Igreja o seu Evangelho de amor e de paz, e confiou-o para que fosse levado a todos os povos.

Sinto neste momento a necessidade de agradecer, porque bem sei que muitas pessoas estão a trabalhar há tempos, quer no âmbito eclesial quer no civil, para preparar a minha viagem. O meu pensamento dirige-se antes de tudo a vós, que me estais a abrir o caminho com a oração, isto é, do modo mais importante! Queridos amigos, estou-vos profundamente grato, porque estou convencido isto é-nos ensinado pela fé que sem a força da oração, sem a união íntima com o Senhor, as nossas iniciativas humanas serviriam muito pouco. É Deus que salva a nós, ao mundo e à história, é Ele o Pastor do seu povo, e eu vou, enviado por Jesus Cristo, levar a sua Palavra de vida.

Juntamente com os vossos Bispos, escolhi como tema da minha viagem três palavras simples mas essenciais:  "Cristo nossa esperança". Seguindo os passos dos meus venerados Predecessores, Paulo VI e João Paulo II, vou pela primeira vez como Pontífice aos Estados Unidos da América, levando comigo esta grande verdade:  Jesus Cristo é a esperança para os homens e as mulheres de todas as línguas, raças, culturas e condição social. Sim, Cristo é o rosto de Deus que apareceu entre nós. Graças a Ele a nossa vida encontra a sua plenitude e juntos podemos formar uma família de pessoas e de povos que vivem em fraternidade, segundo o perene desígnio de Deus Pai. Sei bem quanto no vosso País esta mensagem evangélica está radicada! Venho partilhá-la convosco, nas celebrações e nos encontros. Levarei a mensagem da esperança cristã também à grande Assembléia das Nações Unidas, aos Representantes dos povos do mundo. De fato, o mundo tem necessidade como nunca de esperança:  esperança de paz, de justiça, de liberdade, mas não poderá realizar esta esperança sem obedecer à lei de Deus, que Cristo levou a cumprimento no mandamento de nos amarmos uns aos outros. Fazei aos outros o que quereis que seja feito a vós, não façais o que não quereis que eles vos façam. Esta "regra de ouro" encontra-se na Bíblia mas é válida para todos, também para os não crentes. É a lei inscrita na consciência humana, e sobre ela todos podemos estar de acordo, de modo que o encontro das diferenças seja positivo e construtivo para toda a comunidade humana.

Dirijo uma cordial saudação aos católicos de língua espanhola e manifesto-lhes a minha proximidade espiritual, de modo especial aos jovens, aos doentes, aos idosos e a quantos atravessam dificuldades ou se sentem mais provados. Expresso-vos o meu vivo desejo de poder encontrar-me imediatamente convosco nesta amada Nação. Entretanto, exorto-vos a rezar intensamente pelos frutos pastorais da minha iminente Viagem apostólica e a manter alta a chama da esperança em Cristo ressuscitado.

Amados irmãos e irmãs, amigos que viveis nos Estados Unidos. Desejo muito ir encontrar-me convosco! Sabei que, mesmo se o meu itinerário será breve e limitado nos seus deslocamentos, o meu coração estará próximo de todos, especialmente dos doentes, dos pequeninos, dos abandonados. Agradeço-vos pelo vosso apoio espiritual à minha missão. Com afeto vos abraço, ao invocar sobre vós a materna proteção da Bem-Aventurada Virgem Maria.

Que a Virgem Maria vos acompanhe e vos proteja. Que Deus vos abençoe!

Deus abençoe todos!

COLÓQUIO DO PAPA BENTO XVI
COM OS JORNALISTAS DURANTE
O VÔO PARA WASHINGTON

Terça-feira, 15 de Abril de 2008

 

P. Santidade, seja bem-vindo! Em nome de todos os colegas aqui presentes, agradeço-lhe a sua disponibilidade tão gentil ao vir saudar-nos e também dar-nos algumas indicações e idéias para acompanhar esta viagem. É a sua segunda viagem intercontinental; a primeira como Santo Padre à América, Estados Unidos e Nações Unidas. Uma viagem importante e muito esperada. Para começar, pode dizer-nos algo sobre os sentimentos, as esperanças com que enfrenta esta viagem e qual é o objetivo fundamental, sob o seu ponto de vista?

R. A minha viagem tem sobretudo dois objetivos. O primeiro é a visita à Igreja na América, nos Estados Unidos. Há um motivo particular: a diocese de Baltimore, há duzentos anos, foi elevada a arquidiocese e ao mesmo tempo nasceram outras quatro dioceses: Nova Iorque, Filadélfia, Boston, Louisville. É portanto um grande jubileu para este núcleo da Igreja nos Estados Unidos, um momento de reflexão sobre o passado e acima de tudo sobre o futuro, sobre como responder aos grandes desafios do nosso tempo, no presente e em vista do futuro. E naturalmente, fazem também parte desta visita o encontro inter-religioso e o encontro ecumênico, particularmente o encontro na Sinagoga com os nossos amigos judeus, na vigília da sua festa de Páscoa. Portanto, este é o aspecto religioso-pastoral da Igreja nos Estados Unidos neste momento da nossa história, e o encontro com todos os outros nesta fraternidade comum que nos relaciona numa responsabilidade conjunta. Neste momento gostaria também de agradecer ao Presidente Bush que virá ao aeroporto, me dedicará muito tempo para diálogos e me receberá por ocasião do meu genetlíaco. O segundo objetivo, a visita às Nações Unidas. Também aqui há um motivo particular: transcorreram 60 anos depois da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Esta é a base antropológica, a filosofia constituinte das Nações Unidas, o fundamento humano e espiritual sobre o qual estão construídas. Portanto, é realmente um momento de reflexão, o momento de retomar consciência desta etapa importante da história. Na Declaração dos Direitos do Homem confluíram diversas tradições culturais, sobretudo uma antropologia que reconhece no homem um sujeito de direito precedente a todas as Instituições, com valores comuns a serem respeitados da parte de todos. Portanto, esta visita, que é realizada num momento de crise de valores, parece-me importante para reconfirmarmos juntos que tudo começou naquele momento e para o recuperar para o nosso futuro.

P. Passemos agora às perguntas que apresentastes nos dias passados e que alguns de vós farão ao Santo Padre. Comecemos com a pergunta de John Allen, o qual penso que não precisa de ser apresentado, porque é muito conhecido como comentador dos fatos vaticanos nos Estados Unidos.

P. Santo Padre, faço a pergunta em inglês, se me é permitido, e talvez, se for possível, se pudéssemos ouvir uma frase, uma palavra em inglês, ficaríamos muito gratos. A pergunta: a Igreja que encontrará nos Estados Unidos é uma Igreja grande, uma Igreja vivaz, mas também uma Igreja que sofre, num certo sentido, sobretudo por causa da recente crise devida aos abusos sexuais. O povo americano espera uma sua palavra, uma sua mensagem sobre a crise. Qual será a sua mensagem para esta Igreja que sofre?

R. É um grande sofrimento para a Igreja nos Estados Unidos e para a Igreja em geral, e para mim pessoalmente, o fato de que tudo isto tenha acontecido. Quando leio os relatórios destes acontecimentos, tenho dificuldade de compreender como foi possível que alguns sacerdotes tenham podido falhar deste modo na missão de levar alívio, de levar o amor de Deus a estas crianças. Sinto-me mortificado e faremos o possível para garantir que isto não se repita no futuro. Penso que deveríamos agir a três níveis: o primeiro é o da justiça e o político. Neste momento não desejo falar da homossexualidade: este é outro problema. Excluiremos rigorosamente os pedófilos do ministério sagrado: é absolutamente incompatível e quem é realmente culpado de ser pedófilo não pode ser sacerdote. Eis, a este primeiro nível podemos fazer justiça e ajudar as vítimas, que estão profundamente provadas. E estes são os dois aspectos da justiça: um é que os pedófilos não podem ser sacerdotes e o outro é ajudar as vítimas de todas as formas possíveis. Depois, há o nível pastoral. As vítimas terão necessidade de se curar, de ajuda, assistência e reconciliação. Este é um grande compromisso pastoral e sei que os Bispos e os sacerdotes e todos os católicos nos Estados Unidos farão o possível para ajudar, assistir, curar. Fizemos inspeções nos seminários e faremos o que é possível para que os seminaristas recebam uma profunda formação espiritual, humana e intelectual. Só pessoas sadias poderão ser admitidas ao sacerdócio e só pessoas com uma profunda vida pessoal em Cristo e que tenham também uma profunda vida sacramental. Sei que os Bispos e os reitores dos seminários farão o possível para exercer um discernimento muito, muito severo, pois é mais importante ter bons sacerdotes do que ter muitos. Este é o nosso terceiro ponto, e contamos poder fazer, ter feito e fazer no futuro tudo o que estiver ao nosso alcance para sarar estas feridas.

P. Obrigado, Santidade. Outro tema sobre o qual tivemos muitas perguntas da parte dos nossos colegas foi o da imigração, da presença na sociedade estadunidense também das componentes de língua espanhola. E por isso, a pergunta é feita pelo nosso colega Andrés Leonardo Beltramo Alvares, da Agência de informações do México.

P. Santidade, faço a segunda pergunta em italiano e depois, se Vossa Santidade quiser, pode fazer o comentário em espanhol. Uma saudação, apenas uma saudação. Há um grande crescimento da presença hispânica também na Igreja dos Estados Unidos em geral: a comunidade católica torna-se cada vez mais bilíngüe e bicultural. Ao mesmo tempo, há na sociedade um crescente movimento anti-imigração: a situação dos imigrados caracteriza-se por formas de precariedade e discriminação. Vossa Santidade tenciona falar deste problema e convidar a América a acolher bem os imigrantes, muitos dos quais são católicos?

R. Não sou capaz de falar espanhol, mas envio a minha saudação e a minha bênção a todos os hispânicos. Certamente falarei deste aspecto. Recebi diversas visitas "ad Limina" dos Bispos da América Central, também da América do Sul, e vi a vastidão deste problema, sobretudo o grave problema da separação das famílias. Isto é deveras perigoso para o tecido social, moral e humano destes Países. Mas é preciso distinguir entre medidas a serem adotadas imediatamente e soluções a longo prazo. A solução fundamental é que não haja mais necessidade de emigrar, porque na Pátria existem lugares de trabalho e um tecido social suficientes, de modo que ninguém tenha necessidade de emigrar. Portanto, devemos trabalhar todos para este objetivo, para um progresso social que consinta oferecer aos cidadãos trabalho e um futuro na terra de origem. Gostaria de falar também sobre este ponto com o Presidente, porque sobretudo os Estados Unidos devem ajudar os Países para que se possam desenvolver. É no interesse de todos, não só destes Países, mas do mundo e também dos Estados Unidos. Depois, medidas a curto prazo: é muito importante ajudar sobretudo as famílias. À luz dos diálogos que tive com os Bispos, o problema primário é que as famílias sejam protegidas, e não destruídas. Tudo o que pode deve ser feito. Depois, é preciso fazer o possível contra a precariedade e contra todas as violências e ajudar para que possam ter realmente uma vida digna, onde atualmente se encontram. Desejo dizer também que existem tantos problemas e sofrimentos, mas há também tanta hospitalidade! Sei que sobretudo a Conferência Episcopal Americana colabora muitíssimo com as Conferências Episcopais da América Latina em vista das ajudas necessárias. Com todos os aspectos dolorosos, não esqueçamos também tanta verdadeira humanidade, tantas ações positivas que existem.

P. Obrigado, Santidade. Agora, uma pergunta que se refere à sociedade americana: exatamente ao lugar dos valores religiosos na sociedade americana. Damos a palavra ao nosso colega Andrea Tornielli, que é vaticanista de um jornal italiano.

P. Santo Padre, ao receber a nova Embaixadora dos Estados Unidos da América, Vossa Santidade ressaltou como valor positivo o reconhecimento público da religião nos Estados Unidos. Queria perguntar-lhe se considera isto um possível modelo também para a Europa secularizada, ou se não pensa que há também o risco de que a religião e o nome de Deus possam ser usados para fazer passar certas políticas e até a guerra.

R. Certamente, na Europa não podemos simplesmente copiar os Estados Unidos: temos a nossa história. Mas todos devemos aprender um do outro. O que eu considero fascinante nos Estados Unidos é que começaram com um conceito positivo de laicidade, porque este povo novo era composto por comunidades e pessoas que tinham fugido das Igrejas de Estado e queriam ter um Estado laico, secular que abrisse possibilidades a todas as confissões, a todas as formas de prática religiosa. Nasceu assim um Estado propositadamente laico: eram contrários a uma Igreja de Estado. Mas laico devia ser o Estado precisamente por amor à religião na sua autenticidade, que só pode ser vivida livremente. E assim encontramos este conjunto de um Estado propositada e decididamente laico, mas por vontade religiosa, para dar autenticidade à religião. E sabemos que Alexis de Tocqueville, estudando a América, viu que as instituições laicas vivem com um consenso moral de fato que existe entre os cidadãos. Isto parece-me um modelo fundamental e positivo. Deve considerar-se que na Europa, entretanto, transcorreram duzentos anos, mais de duzentos anos, com tantos progressos. Agora também nos Estados Unidos existe o ataque de um novo secularismo, totalmente diverso, e portanto antes os problemas eram a imigração, mas a situação complicou-se e diferenciou-se no decurso da história. Contudo o fundamento, o modelo essencial parece-me hoje digno de ser considerado também na Europa.

P. Obrigado, Santidade. E então, um último tema diz respeito à sua visita às Nações Unidas, e sobre isto formula-nos uma pergunta John Thavis, que em Roma é o responsável da Agência católica de notícias dos Estados Unidos.

P. Santo Padre, o Papa é muitas vezes considerado a consciência da humanidade, e também por isso o seu discurso às Nações Unidas é muito esperado. Gostaria de perguntar: Vossa Santidade pensa que uma instituição multilateral como as Nações Unidas pode salvaguardar os princípios considerados "não negociáveis" da Igreja católica, ou seja, os princípios fundados sobre a lei natural?

R. É precisamente esta a finalidade fundamental das Nações Unidas: que salvaguardem os valores comuns da humanidade, sobre os quais está assente a convivência pacífica das Nações: a observância e o desenvolvimento da justiça. Já mencionei brevemente o fato de que me parece muito importante que o fundamento das Nações Unidas seja exatamente a idéia dos direitos humanos, dos direitos que expressam valores não negociáveis, que precedem todas as instituições e são o fundamento de todas elas. E é importante que haja esta convergência entre as culturas que encontraram um consenso em relação ao fato que estes valores são fundamentais e estão inscritos no próprio ser Homem. Renovar a consciência de que as Nações Unidas, com a sua função pacificadora, só podem trabalhar se tiverem o fundamento coral dos valores que depois se expressam em "direitos" que devem ser observados por todos. Um dos objetivos da minha missão é confirmar este conceito essencial e atualizá-lo no que for possível.

Para concluir, dado que inicialmente o Padre Lombardi me dirigiu uma pergunta também sobre os meus sentimentos, gostaria de dizer: vou aos Estados Unidos realmente com alegria! Precedentemente já estive várias vezes nos Estados Unidos, conheço este grande país, conheço a grande vivacidade da Igreja, não obstante todos os problemas, e estou feliz por poder encontrar-me, neste momento histórico tanto para a Igreja como para as Nações Unidas, com este grande povo e esta grande Igreja. Obrigado a todos!

CERIMÔNIA DE BOAS-VINDAS

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Casa Branca, Washington D.C.
Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Senhor Presidente

Estou-lhe grato pelas amáveis palavras de boas-vindas em nome do povo dos Estados Unidos da América. Aprecio profundamente o seu convite a visitar este grande país. A minha visita coincide com um importante momento na vida da comunidade católica na América: a celebração do bicentenário da elevação da primeira Diocese do país Baltimore a Arquidiocese Metropolitana, e o estabelecimento das Sedes de Nova Iorque, Boston, Filadélfia e Louisville. Além disso, sinto-me feliz por estar aqui como convidado de todos os Americanos. Venho como amigo, como pregador do Evangelho e com grande respeito por esta vasta sociedade pluralista. Os católicos da América deram, e continuam a oferecer, uma excelente contribuição para a vida do seu país. Ao começar a minha visita, estou persuadido de que a minha presença será um manancial de renovação e de esperança para a Igreja nos Estados Unidos, para que revigore a determinação dos católicos a contribuir de modo cada vez mais responsável para a vida desta nação, da qual se sentem cidadãos orgulhosos.

Desde o nascimento da República, a busca de liberdade da América foi orientada pela convicção de que os princípios que governam a vida política e social estão intimamente vinculados a uma ordem moral fundamentada no domínio de Deus Criador. Os autores dos documentos constituintes desta nação basearam-se nesta convicção, quando proclamaram a "verdade auto-evidente" segundo a qual todos os homens são criados iguais e dotados de direitos inalienáveis, assentes nas leis da natureza e no Deus desta natureza. O curso da histórica americana demonstra as dificuldades, as lutas e a grande determinação intelectual e moral que foram necessárias para formar uma sociedade que assumisse fielmente estes nobres princípios. Neste processo, que forjou a alma da nação, os credos religiosos representaram uma inspiração constante e uma força motriz, como por exemplo na luta contra a escravidão e no movimento pelos direitos civis. Também no nosso tempo, particularmente nos momentos de crise, os Americanos continuam a haurir a sua força da fidelidade a este patrimônio de ideais e aspirações compartilhadas.

Nos próximos dias, irei encontrar-me com a comunidade católica da América, e também com outras comunidades cristãs e com representantes de muitas tradições religiosas presentes neste país. Historicamente, não só os católicos mas também todos os fiéis encontraram aqui a sua liberdade de adorar a Deus de acordo com os preceitos da própria consciência, e ao mesmo tempo de ser aceites como parte de uma comunidade na qual cada indivíduo e cada grupo pode fazer com que a sua voz seja ouvida. No momento em que a nação está a enfrentar as questões políticas e éticas cada vez mais complexas da nossa época, estou convicto de que o povo norte-americano encontrará nos respectivos credos religiosos uma preciosa fonte de discernimento e a inspiração para promover um diálogo sensato, responsável e respeitoso, no esforço em vista de construir uma sociedade mais humana e livre.

A liberdade não é somente uma dádiva, mas também um convite à responsabilidade pessoal. Os Americanos sabem isto por experiência quase todas as cidades deste país têm monumentos em honra de quantos sacrificaram a própria vida em defesa da liberdade, tanto na pátria como no estrangeiro. A preservação da liberdade exige o cultivo da virtude, da autodisciplina, o sacrifício pelo bem comum e um sentido de responsabilidade em relação às pessoas menos afortunadas. Ela requer inclusivamente a coragem de se comprometer na vida cívica e de expor os credos e os valores mais profundos da pessoa a um debate público sensato. Em síntese, a liberdade é sempre nova. Ela constitui um desafio que se apresenta a todas as gerações e deve ser sempre conquistada para a causa do bem (cf. Spe salvi, 24). Poucas pessoas compreenderam isto de modo tão claro como o saudoso Papa João Paulo II. Ao refletir acerca da vitória espiritual da liberdade sobre o totalitarismo na sua Polônia natal e na Europa do Leste, ele recordava-nos que a história demonstra, sempre de novo, que "num mundo sem verdade, a liberdade perde o seu fundamento" e que a democracia desprovida de valores pode perder a própria alma (cf. Centesimus annus, 46). Num certo sentido, essas palavras proféticas fazem eco à convicção do Presidente Washington, expressas no seu Discurso de despedida, segundo a qual a moral representa o "alicerce indispensável" para a prosperidade política.

Por sua vez, a Igreja deseja contribuir para a edificação de um mundo cada vez mais digno da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26-27). Ela está convencida de que a fé lança nova luz sobre todas as realidades, e que o Evangelho revela a vocação nobre e o destino sublime de cada homem e de cada mulher (cf. Gaudium et spes, 10). A fé oferece-nos também a força de responder à nossa excelsa vocação e a esperança que nos inspira a trabalhar por uma sociedade cada vez mais justa e fraterna. A democracia só poderá florescer, como os vossos pais fundadores compreenderam, se os líderes políticos e as pessoas por eles representadas forem orientados pela verdade e recorrerem à sabedoria derivada de um princípio moral firme nas decisões relativas à vida e ao futuro da nação.

Há mais de um século, os Estados Unidos da América desempenharam um papel importante na comunidade internacional. Na sexta-feira, se Deus quiser, terei a honra de me dirigir à Organização das Nações Unidas, onde espero encorajar os esforços que estão a ser envidados para dar a esta instituição uma voz cada vez mais eficaz para as legítimas aspirações de todos os povos do mundo. Nisto, no sexagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem, a necessidade de uma solidariedade global é mais urgente do que nunca, se quisermos que todas as pessoas vivam de uma maneira correspondente à sua dignidade como irmãos e irmãs que habitam a mesma casa e se sentam à volta daquela mesa que a generosidade de Deus destinou a todos os seus filhos. Tradicionalmente, a América enfrenta com generosidade as necessidades humanas imediatas, promovendo o desenvolvimento e oferecendo alívio às vítimas das catástrofes naturais. Estou persuadido de que esta solicitude pela família humana mais vasta há de continuar a encontrar expressão na assistência aos esforços pacientes feitos pela diplomacia internacional, em vista de resolver conflitos e promover o progresso. Desta forma, as gerações vindouras poderão viver num mundo em que a verdade, a liberdade e a justiça consigam florescer um mundo onde a dignidade e os direitos concedidos por Deus a cada homem, mulher e criança sejam valorizados, protegidos e eficazmente promovidos.

Senhor Presidente, queridos amigos, no momento em que dou início à minha visita aos Estados Unidos, expresso mais uma vez a minha gratidão pelo vosso convite, a minha alegria por estar no meio de vós e as minhas ardentes orações a fim de que Deus Todo-Poderoso confirme esta nação e o seu povo nos caminhos da justiça, da prosperidade e da paz.

Deus abençoe a América!

CELEBRAÇÃO DAS VÉSPERAS
E ENCONTRO COM OS BISPOS DOS ESTADOS UNIDOS

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Santuário Nacional da Imaculada Conceição em Washington
Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Queridos Irmãos Bispos

É com imensa alegria que vos saúdo no dia de hoje, no início da minha visita a este país, e agradeço ao Cardeal George as amáveis palavras que me dirigiu em vosso nome. Desejo manifestar o meu agradecimento a todos vós, de maneira especial aos Oficiais da Conferência Episcopal, pelo empenhativo trabalho que foi necessário enfrentar na preparação da presente visita. Dirijo o meu apreço reconhecido inclusivamente aos funcionários e aos voluntários do Santuário Nacional, que nos deram as boas-vindas aqui nesta tarde. Os católicos norte-americanos são conhecidos pela sua devoção leal à Sé de Pedro. A minha visita pastoral aqui constitui uma oportunidade para fortalecer ainda ulteriormente os vínculos de comunhão que nos unem. Começamos com a celebração da oração vespertina nesta Basílica, dedicada à Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, um santuário de especial significado para os católicos americanos, precisamente no coração da vossa capital. Congregados em oração com Maria, Mãe de Jesus, recomendamos de maneira amorosa ao nosso Pai celestial o povo de Deus em todas as partes dos Estados Unidos da América.

Para as comunidades católicas de Boston, Nova Iorque, Filadélfia e Louisville o corrente ano representa uma celebração especial, pois marca o bicentenário da ereção destas Igrejas locais como Dioceses. Uno-me a vós, ao dar graças pelas numerosos benefícios concedidos à Igreja nestas Sedes durante estes últimos dois séculos. Dado que neste ano se celebra também o bicentenário da elevação da Sede fundadora de Baltimore a Arquidiocese, isto oferece-me a oportunidade para evocar com admiração e gratidão a vida e o ministério de D. John Carroll, o primeiro Bispo de Baltimore um digno representante da comunidade católica na vossa nação, que então tinha acabado de se tornar independente. Os seus incansáveis esforços para difundir o Evangelho no vasto território sob os seus cuidados lançaram os fundamentos para a vida eclesial do vosso país e tornaram a Igreja na América capaz de alcançar a sua maturidade. Atualmente, a comunidade católica que vós servis é uma das mais numerosas do mundo, além de ser uma das mais influentes. Por isso, é extremamente importante que permitais que a vossa luz brilhe diante dos vossos concidadãos e do mundo, "de modo que, vendo estas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está no Céu" (Mt 5, 16).

Muitas das pessoas que D. John Carroll e os seus irmãos Bispos assistiam há dois séculos tinham chegado de terras distantes. A diversidade das suas origens reflete-se na rica variedade da vida eclesial na América destes nossos dias. Amados irmãos Bispos, desejo encorajar-vos, assim como às vossas comunidades, que continueis a acolher os imigrantes que se inserem nas vossas sociedades nos dias de hoje, a compartilhar as suas alegrias e esperanças, a auxiliá-los nas suas dificuldades e provações, e a ajudá-los a prosperar na sua nova pátria. Com efeito, foi quanto fizeram os vossos compatriotas de geração em geração. Desde o início, eles abriram as suas portas aos oprimidos, aos pobres, às "multidões de pessoas que aspiram a respirar livremente" (cf. Soneto inscrito na Estátua da Liberdade). Este é o povo que a América fez seu.

Daqueles que vieram para construir uma nova vida aqui, muitos conseguiram fazer bom uso dos recursos e das oportunidades que encontraram, alcançando assim um elevado nível de prosperidade. Efetivamente, o povo deste país é conhecido pela sua enorme vitalidade e criatividade. Mas é também conhecido pela sua generosidade. Depois dos ataques contra as Torres Gêmeas em Setembro de 2001, e novamente após o furacão Katrina em 2005, os Americanos deram demonstração da sua disponibilidade, indo em socorro dos seus irmãos e irmãs em necessidade. A nível internacional, a contribuição oferecida pelo povo da América para as operações de socorro e de assistência depois do tsunami de Dezembro de 2004 constitui uma ulterior demonstração desta compaixão. Permiti-me expressar o meu particular apreço pelas numerosas formas de assistência humanitária oferecidas pelos católicos americanos, através das Cáritas católicas e de outras agências. A sua generosidade deu fruto nos cuidados demonstrados aos pobres e aos necessitados, mas também na energia despendida em vista de edificar uma rede nacional de paróquias, hospitais, escolas e universidades católicos. Tudo isto representa um grande motivo de ação de graças.

A América é também uma terra de imensa fé. O vosso povo é reconhecido pelo seu ardor religioso e pelo seu orgulho de pertencer a uma determinada comunidade de culto. Ele tem confiança em Deus e não hesita em expor ao debate público argumentações morais arraigadas na fé bíblica. O respeito pela liberdade de religião está profundamente radicado na consciência americana um fato que tem contribuído para a atração deste país pelas gerações de imigrantes, em busca de uma casa onde possam prestar livremente o seu próprio culto, em conformidade com os respectivos credos.

A este propósito, é com alegria que reconheço a presença no meio de vós de Bispos de todas as veneráveis Igrejas Orientais em comunhão com o Sucessor de Pedro, aos quais saúdo com particular júbilo. Queridos Irmãos, peço-vos que transmitais às vossas comunidades o meu profundo afeto e as minhas orações incessantes, tanto por elas como pelos numerosos irmãos e irmãs que permaneceram nas suas terras de origem. A vossa presença aqui constitui uma lembrança do destemido testemunho de Cristo, oferecido por muitos membros das vossas comunidades, muitas vezes no meio de sofrimentos, nas respectivas pátrias. Ela representa inclusivamente um enriquecimento da vida eclesial da América, dando uma expressão viva da catolicidade da Igreja e da variedade das suas tradições litúrgicas e espirituais.

É neste solo fértil, alimentado a partir de mananciais tão diferentes entre si, que todos vós, Irmãos Bispos, sois chamados a lançar as sementes do Evangelho nos dias de hoje. Isto impele-me a perguntar como, no século XXI, um bispo pode cumprir melhor a chamada de "renovar tudo em Cristo, nossa esperança". Como pode ele levar o seu povo a "encontrar-se com o Deus vivo", fonte daquela esperança que transforma a vida, da qual fala o Evangelho (cf. Spe salvi, 4)? Talvez ele tenha a necessidade de começar, eliminando algumas das barreiras que impedem tal encontro. Embora seja verdade que este país se caracteriza por um espírito genuinamente religioso, contudo a influência subtil do secularismo pode marcar o modo como as pessoas permitem que a fé influencie o próprio comportamento. Porventura é coerente professarmos o nosso credo na igreja aos domingos, e depois, durante a semana, promovermos negócios ou procedimentos médicos contrários a tal credo? É porventura coerente que os católicos praticantes ignorem ou explorem os pobres e os marginalizados, que promovam comportamentos sexuais contrários ao ensinamento moral católico, ou assumam posições que contradizem o direito à vida de cada ser humano, desde a concepção até à morte natural? Qualquer tendência a tratar a religião como uma questão particular deve ser evitada. Só quando a sua fé impregna todos os aspectos das respectivas vidas, os cristãos podem tornar-se verdadeiramente abertos ao poder transformador do Evangelho.

Para uma sociedade abastada, um ulterior obstáculo para o encontro com o Deus vivo encontra-se na subtil influência do materialismo, que infelizmente pode com muita facilidade concentrar a atenção no "cêntuplo", prometido por Deus já nesta vida, em detrimento da vida eterna que Ele promete no tempo futuro (cf. Mc 10, 30). Hoje em dia, é preciso recordar às pessoas a finalidade derradeira da própria vida. Elas têm necessidade de reconhecer que existe nelas uma profunda sede de Deus. É preciso oferecer-lhes a oportunidade de beber das nascentes do seu Amor infinito. É fácil permanecermos fascinados pelas possibilidades quase infinitas que a ciência e a tecnologia nos oferecem; é fácil cometer o erro de pensar que, somente com os nossos próprios esforços, podemos alcançar o cumprimento das nossas aspirações mais profundas. Trata-se de uma ilusão. Em última análise, sem Deus, o único que nos confere aquilo que por nós mesmos não conseguimos obter (cf. Spe salvi, 31), as nossas vidas permanecem vazias. As pessoas têm necessidade de recordarem constantemente que devem permanecer em contato com Aquele que veio para que tenhamos vida em abundância (cf. Jo 10, 10). A finalidade de toda a nossa obra pastoral e catequética, o objeto da nossa pregação e o cerne do nosso ministério sacramental deveriam consistir em ajudar as pessoas a estabelecerem e a alimentarem aquela relação viva com "Jesus Cristo, nossa esperança" (1 Tm 1,1).

Numa sociedade que valoriza a liberdade e a autonomia pessoais, é fácil perder de vista a nossa dependência dos outros, assim como as responsabilidades que devemos assumir em relação ao próximo. Esta ênfase no individualismo chegou a atingir a própria Igreja (cf. Spe salvi, 13-15), dando espaço a uma forma de piedade que por vezes põe em evidência os nossos relacionamentos particulares com Deus, em desvantagem da nossa vocação para ser membros de uma comunidade redimida. No entanto, desde o início Deus viu que "não é conveniente que o homem esteja só" (Gn 2, 18). Fomos criados como seres sociais, que encontramos a nossa realização unicamente no amor a Deus e ao nosso próximo. Se verdadeiramente quisermos fixar o nosso olhar naquele que é a fonte da nossa alegria, temos o dever de o fazer como membros do Povo de Deus (cf. Spe salvi, 14). Se isto parece ir contra a cultura de hoje, é simplesmente mais uma evidência da urgente necessidade de uma renovada evangelização da própria cultura.

Aqui na América, vós recebestes a bênção de um laicado católico de considerável variedade cultural, que coloca os seus diversificados dons ao serviço da Igreja e da sociedade em geral. Os leigos esperam que lhes ofereçais encorajamento, orientação e direção. Numa época saturada de informações, a importância de oferecer uma sólida formação na fé não corre o risco de ser sobreestimada. Tradicionalmente, os católicos americanos atribuem um elevado valor à educação religiosa, tanto nas escolas como no contexto dos programas de formação para os adultos. Eles precisam de ser mantidos e ampliados. Os numerosos homens e mulheres generosos que se consagram às atividades caritativas têm necessidade de ser ajudados a renovar a sua dedicação através de uma "formação do coração": um "encontro com Deus em Cristo que neles suscite o amor e abra o seu íntimo ao outro" (Deus caritas est, 31). Numa época em que os progressos na ciência médica trazem uma nova esperança para muitas pessoas, apresentam também desafios éticos precedentemente inimagináveis. Por isso, é mais importante do que nunca oferecer aos católicos comprometidos no campo da saúde, uma formação integral no ensinamento moral da Igreja. Em todos estes apostolados é necessária uma orientação sábia, a fim de que eles possam produzir frutos abundantes; se verdadeiramente quiserem promover o bem integral da pessoa humana, eles deverão também renovar-se em Cristo, nossa esperança.

Como anunciadores do Evangelho e guias da comunidade católica, vós sois também chamados a participar no intercâmbio de idéias no sector público, contribuindo assim para a formação das atitudes culturais adequadas. Num contexto no qual a liberdade de expressão é apreciada e o debate vigoroso e honesto é encorajado, a vossa voz é respeitada e tem muito a oferecer para o debate acerca das questões sociais e morais da atualidade. Assegurando que o Evangelho seja claramente ouvido, não só formais os membros das vossas respectivas comunidades mas no âmbito do mais vasto alcance dos meios de comunicação social, também ajudais a difundir a mensagem da esperança cristã no mundo inteiro.

Sem dúvida, a influência da Igreja no debate público verifica-se a diferentes níveis. Nos Estados Unidos, como noutros países, existem atualmente muitas leis já em vigor ou em discussão que suscitam preocupação sob o ponto de vista da moralidade, e a comunidade católica, sob a vossa orientação, deve oferecer um testemunho claro e unitário sobre estes temas. No entanto, o que é ainda mais importante é a abertura gradual das mentes e dos corações à comunidade mais vasta à verdade moral. Neste campo, ainda há muito a realizar. A este propósito, é crucial o papel dos fiéis leigos no seu agir como "fermento" no meio da sociedade. Contudo, não se pode afirmar que todos os cidadãos católicos pensam em harmonia com o ensinamento da Igreja, no que diz respeito às principais questões éticas da atualidade. Uma vez mais, compete a vós assegurar que a formação moral oferecida a todos os níveis da vida eclesial reflita o ensinamento autêntico do Evangelho da vida.

A este propósito, uma questão de profunda solicitude para todos nós é a situação da família no seio da sociedade. Com efeito, o Cardeal George mencionou precedentemente que vós incluístes o revigoramento da vida matrimonial e familiar entre as prioridades da vossa atenção ao longo dos próximos anos. Na Mensagem deste ano para o Dia Mundial da Paz, falei a respeito da contribuição essencial que a vida familiar sadia oferece para a paz no meio das nações e entre elas. No contexto familiar, experimentamos "algumas componentes fundamentais da paz: a justiça e o amor entre irmãos e irmãs, a função da autoridade manifestada pelos pais, o serviço carinhoso aos membros mais débeis porque pequenos, doentes ou idosos, a mútua ajuda nas necessidades da vida, a disponibilidade para acolher o outro e, se necessário, perdoar-lhe" (n. 3). A família é também o lugar primário para a evangelização, para a transmissão da fé, para ajudar os jovens a apreciarem a importância da prática religiosa e da observância dominical. Como não ficar apreensivos, ao observar o forte declínio da família como elemento básico da Igreja e da sociedade? O divórcio e a infidelidade aumentaram, enquanto numerosos homens e mulheres preferem adiar o matrimônio ou renunciar completamente. Para alguns jovens católicos, o laço sacramental do matrimônio parece escassamente distinguível do vínculo civil, ou até um acordo puramente informal e sem estabilidade, aberto a viver com outra pessoa. Por conseguinte, encontramo-nos diante de uma diminuição alarmante no número de matrimônios católicos nos Estados Unidos da América, combinada com um aumento do número de convivências, em que a entrega mútua cristã dos esposos como Cristo, selada por uma promessa pública de assumir as exigências de um compromisso indissolúvel para a vida inteira, está simplesmente ausente. Em tais circunstâncias, aos filhos é negado o ambiente seguro de que têm necessidade para crescerem verdadeiramente como seres humanos, e à sociedade são negadas as pedras angulares estáveis exigidas, se quisermos conservar a coesão e a atenção moral da comunidade.

Como ensinava o meu predecessor o Papa João Paulo II, "o primeiro responsável pela pastoral familiar na diocese é o bispo... ele deve consagrar-lhe uma grande dedicação, solicitude, tempo, pessoal e recursos; sobretudo, porém, apoio pessoal às famílias e a quantos... o ajudam na pastoral da família" (Familiaris consortio, 73). Tendes a tarefa de proclamar corajosamente as argumentações da fé e da razão em vantagem da instituição do matrimônio, compreendido como um compromisso para a vida inteira entre um homem e uma mulher, e aberto à transmissão da vida. Esta mensagem deveria ressoar no meio do povo hoje, porque representa essencialmente um "sim" incondicional e sem reservas à vida, um "sim" ao amor e um "sim" às aspirações do coração da nossa humanidade comum, enquanto procuramos realizar as nossas profundas aspirações de intimidade com o próximo e com o Senhor.

Entre os sinais contrários ao Evangelho da vida que se podem encontrar na América, e também noutras partes, há um que causa uma profunda vergonha: o abuso sexual de menores. Muitos de vós já me falastes acerca da enorme dor que as vossas comunidades padeceram, quando os respectivos clérigos atraiçoaram as suas obrigações e deveres, com gravíssimos comportamentos imorais. Enquanto procurais eliminar este mal onde quer que ele ocorra, podeis contar com a ajude orante do Povo de Deus no mundo inteiro. Justamente, dais prioridade à vossa manifestação de compaixão e cuidado às vítimas. Como pastores, tendes a responsabilidade recebida de Deus de curar as feridas provocadas por cada violação da confiança, de promover a purificação, de fomentar a reconciliação e de ir amorosamente ao encontro daqueles que foram seriamente ofendidos.

Não tem sido fácil responder a esta situação que, como o Presidente da vossa Conferência Episcopal indicou, foi "às vezes muito impropriamente abordada". Agora que a dimensão e a gravidade deste problema é mais claramente compreendida, vós conseguistes adotar medidas lenitivas e disciplinares mais adequadas, promovendo um ambiente seguro que oferece maior salvaguarda aos jovens. Embora seja necessário recordar o fato de que a esmagadora maioria dos clérigos e dos religiosos na América estão a levar a cabo uma obra extraordinária em vista de anunciar a mensagem libertadora do Evangelho aos jovens confiados aos seus cuidados, é de importância vital que as pessoas mais vulneráveis sejam sempre protegidas contra os indivíduos que os podem prejudicar. A este propósito, os vossos esforços para aliviar e proteger estão a produzir frutos abundantes, não só para as pessoas diretamente sob os vossos cuidados pastorais, mas para toda a sociedade.

Mas se quisermos que atinjam todas as suas finalidades, os programas que vós adotastes devem ser inseridos num contexto mais amplo. As crianças merecem crescer com uma compreensão sadia da sexualidade e do seu lugar apropriado no âmbito dos relacionamentos humanos. Dever-lhes-iam ser poupadas as manifestações degradantes e a manipulação vulgar da sexualidade, hoje em dia tão predominante. Elas têm o direito de ser educadas para os autênticos valores morais, radicados na dignidade da pessoa humana. Isto leva-nos novamente à nossa consideração a respeito da centralidade da família e da necessidade de promover o Evangelho da vida. Que significa falar de proteção infantil, quando a pornografia e a violência podem ser vistas em tantos lares através dos meios de comunicação, amplamente disponíveis nos nossos dias? Precisamos de reconsiderar urgentemente os valores subjacentes à sociedade, a fim de que seja possível oferecer uma formação moral sadia aos jovens e igualmente aos adultos. Todos têm um papel a desempenhar nesta tarefa, e não apenas os pais, os chefes religiosos, os professores e os catequistas, mas inclusivamente a indústria dos meios de comunicação e de divertimento. Com efeito, cada membro da sociedade pode contribuir para esta renovação moral e dela beneficiar. Verdadeiramente, preocupar-se com os jovens e com o porvir da nossa civilização significa reconhecer a nossa responsabilidade de promover e de viver segundo os valores morais mais autênticos, os únicos que tornam a pessoa humana capaz de prosperar. Compete a vós, como pastores modelados em conformidade com Cristo Bom Pastor, proclamar esta mensagem em voz alta e clara, e deste modo abordar o pecado do abuso num contexto mais amplo dos hábitos sexuais. Além disso, ao reconhecer o problema quando se verifica num contexto eclesial, podeis servir de exemplo para os outros, uma vez que este flagelo não se verifica unicamente no seio das vossas dioceses, mas em todos os sectores da sociedade. Isto exige uma resposta firme e coletava.

Inclusivamente os presbíteros têm necessidade da vossa orientação e da vossa proximidade durante este período difícil. Eles experimentaram a vergonha por aquilo que se verificou, e entre eles há quem reconheceu que perdeu uma parte da confiança e da estima de que antes gozavam. Não poucos chegaram a experimentar a proximidade de Cristo na sua Paixão, enquanto procuram resolver as conseqüências desta crise. Como pai, irmão e amigo dos seus sacerdotes, o bispo pode ajudá-los a haurir frutos espirituais desta união com Cristo, levando-os a adquirir consciência da presença consoladora do Senhor no meio dos seus sofrimentos, e encorajando-os a caminhar juntamente com o Senhor ao longo da vereda da esperança (cf. Spe salvi 39). Como o Papa João Paulo II já observava há seis anos, "temos que ter confiança que este período de provação há de proporcionar a purificação de toda a comunidade católica", levando a "um sacerdócio mais santo, a um episcopado mais santo e a uma Igreja mais santa" (Discurso aos Cardeais dos Estados Unidos da América, 23 de Abril de 2002, n. 4). Existem muitos sinais de que, durante este período intermediário, tal purificação realmente já está a acontecer. A presença constante de Jesus Cristo no meio dos nossos sofrimentos está a transformar gradualmente a nossa obscuridade em luz: com efeito, tudo está a renovar-se em Jesus Cristo, nossa esperança.

Nesta fase, uma parte vital da vossa tarefa consiste em fortalecer os relacionamentos com o vosso clero, de maneira especial nos casos em que se criou uma tensão entre os sacerdotes e os respectivos bispos, no início da crise. É importante que vós continueis a demonstrar-lhes a vossa solicitude, a auxiliá-los e a orientá-los mediante o vosso exemplo. Desta forma, certamente conseguireis ajudá-los a encontrar-se com o Deus vivo, indicando-lhes a esperança que transforma a vida, mencionada no Evangelho. Se vós mesmos viverdes de uma maneira intimamente configurada com Cristo, o Bom Pastor que entrega a vida pelas suas ovelhas, haveis de inspirar os vossos irmãos sacerdotes a dedicar-se novamente ao serviço dos respectivos rebanhos com uma generosidade semelhante à de Cristo. Com efeito, para ir em frente temos necessidade precisamente de uma atenção clarividente à imitação de Cristo na santidade de vida. Precisamos de redescobrir a alegria de levar uma vida centrada em Cristo, cultivando as virtudes e imergindo-nos na oração. Quando os fiéis sabem que o seu pastor é um homem que reza e dedica a sua própria vida ao serviço deles, respondem com ternura e carinho, alimentando e sustentando a vida de toda a comunidade.

O tempo dedicado à oração nunca é desperdiçado, independentemente da urgência das tarefas que nos constrangem de todos os lados. A adoração de nosso Senhor Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento prolonga e intensifica a união com Ele, estabelecida através da celebração eucarística (cf. Sacramentum caritatis, 66). A contemplação dos mistérios do Rosário liberta todo o seu poder salvífico, conformando-nos, unindo-nos e consagrando-nos a Jesus Cristo (cf. Rosarium Virginis Mariae, 11.15). A fidelidade à Liturgia das Horas garante que o nosso dia inteiro seja santificado, recordando-nos continuamente a necessidade de permanecermos atentos ao cumprimento da obra de Deus, por mais pressões e distrações que possam ser ocasionadas pelas tarefas a cumprir. Deste modo, a nossa devoção ajuda-nos a falar e agir in persona Christi, a ensinar, governar e santificar os fiéis em nome de Jesus, a anunciar a sua reconciliação, a sua purificação e o seu amor a todos os queridos irmãos e irmãs. Esta configuração radical a Cristo, o Bom Pastor, situa-se no âmago do nosso ministério pastoral, e se nos abrirmos através da oração ao poder do Espírito Santo, Ele conceder-nos-á as dádivas de que temos necessidade para levar a cabo a nossa tarefa exigente, de maneira que nunca nos "preocupemos como havemos de falar, nem com o que havemos de dizer" (Mt 10, 19).

Ao concluir estas minhas palavras nesta tarde, confio a Igreja no vosso país de modo muito particular ao cuidado e à intercessão maternal de Maria Imaculada, Padroeira dos Estados Unidos. Ela, que trouxe no seu seio a esperança de todas as nações, interceda pelo povo deste país, a fim de que todos se renovem no seu Filho Jesus Cristo. Meus estimados Irmãos Bispos, asseguro a cada um de vós aqui presentes a minha profunda amizade e a minha participação nas vossas solicitudes pastorais. A todos vós e ao vosso clero, aos religiosos, às religiosas e aos fiéis leigos, concedo cordialmente a minha Bênção apostólica como penhor de alegria e de paz em Cristo ressuscitado.

RESPOSTAS DO PAPA BENTO XVI
ÀS PERGUNTAS DOS BISPOS AMERICANOS

Santuário Nacional da Imaculada Conceição de Washington, D.C.
Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

1. Pede-se ao Santo Padre que exprima a sua avaliação a respeito do desafio do secularismo em aumento na vida pública e sobre o relativismo na vida intelectual, assim como as suas sugestões acerca do modo como enfrentar tais desafios do ponto de vista pastoral, para poder realizar a obra de evangelização de forma mais eficaz.

Abordei brevemente este tema no meu discurso. Considero significativo o fato de que aqui na América, diversamente de muitos lugares na Europa, a mentalidade secular não se pôs como intrinsecamente oposta à religião. No interior do contexto da separação entre Igreja e Estado, a sociedade norte-americana sempre se distinguiu por um respeito fundamental pela religião e pelo seu papel público e, se quisermos dar crédito às sondagens, o povo americano é profundamente religioso. Todavia, não é suficiente contar com esta religiosidade tradicional e comportar-se como se tudo fosse normal, enquanto os seus fundamentos são lentamente corroídos. Um compromisso sério no campo da evangelização não pode prescindir de um profundo diagnóstico dos desafios reais que o Evangelho tem diante de si na cultura americana contemporânea.

Naturalmente, o que é essencial é uma correta compreensão da justa autonomia da ordem secular, uma autonomia que não pode ser desvinculada de Deus Criador e do seu plano de salvação (cf. Gaudium et spes, 36). Talvez o tipo de secularismo da América apresente um problema particular: enquanto permite acreditar em Deus e respeita o papel público da religião e das Igrejas, todavia subtilmente reduz o credo religioso ao mínimo denominador comum. A fé torna-se aceitação passiva de que determinadas coisas "lá fora" são verdadeiras, mas sem relevância prática para a vida quotidiana. O resultado é uma crescente separação entre a fé e a vida: o viver "como se Deus não existisse". Isto é agravado por uma abordagem individualista e eclética da fé e da religião: longe da aproximação católica do pensar com a Igreja, cada pessoa julga ter um direito de identificar e escolher, conservando os vínculos sociais mas sem uma conversão integral, interior à lei de Cristo. Por conseguinte, em vez de ser transformados e renovados na alma, os cristãos são facilmente tentados a conformar-se com o espírito do século (cf. Rm 12, 3). Constatamo-lo de maneira aguda no escândalo causado por católicos que promovem um presumível direito ao aborto.

A um nível mais profundo, o secularismo desafia a Igreja a confirmar e a perseguir ainda mais ativamente a sua missão no e para o mundo. Como foi esclarecido pelo Concílio, a este propósito os leigos têm uma responsabilidade particular. Estão convencidos de que é necessário, por um lado, um maior sentido da relação intrínseca entre o Evangelho e a lei natural e, por outro, a busca do autêntico bem humano, como é encarnado na lei civil e nas decisões morais pessoais. Numa sociedade que justamente tem em alta consideração a liberdade pessoal, a Igreja deve promover a todos os níveis os seus ensinamentos na catequese, na pregação, na instrução no seminário e na universidade uma apologética destinada a afirmar a verdade da revelação cristã, a harmonia entre fé e razão, e uma sadia compreensão da liberdade, vista em termos positivos como libertação tanto dos limites do pecado como para uma vida autêntica e plena. Em síntese, o Evangelho deve ser pregado e ensinado como um modo de vida integral, que oferece uma resposta atraente e verdadeira, intelectual e prática, aos problemas humanos concretos. Em última análise, a "ditadura do relativismo" nada mais é do que uma ameaça à liberdade humana que somente amadurece na generosidade e na fidelidade à verdade.

Poder-se-ia dizer muito mais, naturalmente, sobre este tema: todavia, permiti-me concluir, dizendo que na minha opinião a Igreja na América, neste preciso momento da sua história, tem diante de si o desafio de reencontrar a visão católica da realidade e de apresentá-la de maneira envolvedora e com fantasia a uma sociedade que oferece todos os tipos de receitas par a auto-realização humana. Penso de modo particular na nossa necessidade de falar ao coração dos jovens que, apesar da constante exposição a mensagens contrárias ao Evangelho, continuam a ter sede de autenticidade, de bondade e de verdade. Ainda resta muito a fazer a nível da pregação e da catequese, nas paróquias e nas escolas, se quisermos que a evangelização produza frutos para a renovação da vida eclesial na América.

2. O Santo Padre é interrogado a respeito de "um certo silencioso processo", mediante o qual os católicos abandonam a prática da fé, por vezes através de uma decisão explícita, mas com maior frequência afastando-se passiva e gradualmente da participação na Missa e da identificação com a Igreja.

Certamente, uma boa parte de tudo isto depende do progressivo reduzir-se de uma cultura religiosa, às vezes comparada de modo pejorativo com um "gueto", que poderia revigorar a participação e a identificação com a Igreja. como acabei de dizer, um dos grandes desafios que estão diante da Igreja neste país consiste em cultivar uma identidade católica fundamentada não apenas em elementos exteriores, mas principalmente num modo de pensar e de agir arraigado no Evangelho e enriquecido com base na tradição viva da Igreja.

Este tema envolve claramente fatores como o individualismo religioso e o escândalo. Mas vamos ao cerne da questão: a fé não pode sobreviver, se não for alimentada, se não "agir através da caridade" (Gl 5, 6). Têm hoje as pessoas dificuldade de encontrar Deus nas nossas igrejas? A nossa pregação perdeu, porventura, o sal que lhe é próprio? Isto não poderia ser devido ao fato de que muitos se esqueceram, ou talvez nunca aprenderam, como rezar na e com a Igreja?

Não falo aqui de pessoas que deixam a Igreja em busca de "experiências" religiosas subjetiva; este é um tema pastoral que deve ser enfrentado nos seus próprios termos. Penso que estamos a falar de pessoas que se desviaram do caminho, sem ter conscientemente rejeitado a fé em Cristo, mas que, por um motivo qualquer, não receberam a força vital da liturgia, dos Sacramentos e da pregação. E no entanto a fé cristã, como sabemos, é essencialmente eclesial, e sem um vínculo vivo com a comunidade, nunca alcançará a sua maturidade. Para voltar à questão que acaba de ser debatida: o resultado pode ser uma silenciosa apostasia.

Por isso, permiti-me fazer duas breves observações sobre o problema do "processo de abandono", que espero estimulem ulteriores reflexões.

Em primeiro lugar, como sabeis, torna-se cada vez mais difícil nas sociedades ocidentais falar de maneira sensata de "salvação". E no entanto a salvação a libertação da realidade do mal e o dom de uma vida nova e livre em Cristo está no próprio âmago do Evangelho. Como eu já disse, temos que redescobrir modos novos e fascinantes para proclamar esta mensagem e despertar uma sede daquela plenitude que somente Cristo pode oferecer. É na liturgia da Igreja, e sobretudo no sacramento da Eucaristia, que estas realidades são manifestadas do modo mais poderoso e são vividas na existência dos crentes; talvez ainda tenhamos muito a fazer, para realizar a visão do Concílio a respeito da liturgia, como exercício do sacerdócio comum e como impulso para um apostolado frutuoso no mundo.

Em segundo lugar, temos que reconhecer com preocupação o quase completo eclipse de um sentido escatológico em muitas das nossas sociedades tradicionalmente cristãs. Como sabeis, formulei esta problemática na Encíclica Spe salvi. É suficiente dizer que fé e esperança não são limitadas a este mundo: como virtudes teologais, elas unem-se ao Senhor e levam-nos ao cumprimento não apenas do nosso destino, mas também do destino de toda a criação. A fé e a esperança são a inspiração e a base dos nossos esforços em vista de nos prepararmos para a vinda do Reino de Deus. No Cristianismo não pode haver lugar para uma religião puramente particular: Cristo é o Salvador do mundo e, como membros do seu Corpo e partícipes dos seus munera profético, sacerdotal e régio, não podemos separar o nosso amor por Ele do compromisso da edificação da Igreja e da ampliação do Reino. Na medida em que a religião se torna uma questão puramente particular, ela perde a sua própria alma.

Permiti-me concluir, afirmando o óbvio. Os campos estão ainda hoje prontos para a colheita (cf. Jo 4, 35); Deus continua a fazer crescer a messe (cf. 1 Cor 3, 6). Podemos e devemos crer, juntamente com o saudoso Papa João Paulo II, que Deus está a preparar uma nova Primavera para a cristandade (cf. Redemptoris missio, 86). O que é mais necessário, neste tempo específico da história da Igreja na América, é a renovação daquele zelo apostólico que inspire os seus pastores de maneira ativa a procurar os que se perderam, a curar quantos estão feridos e a revigorar os mais frágeis (cf. Ez 34, 16). E isto, como eu disse, exige novos modos de pensar fundados num sadio diagnóstico dos desafios hodiernos e um compromisso pela unidade no serviço à missão da Igreja em relação às gerações do presente.

3. Pede-se ao Santo Padre que expresse uma sua opinião sobre o declínio das vocações, não obstante o número crescente da população católica, e a respeito das razões da esperança oferecidas pelas qualidades pessoais e pela sede de santidade que caracterizam os candidatos que decidem prosseguir.

Sejamos sinceros: a capacidade de cultivar as vocações para o sacerdócio e para a vida religiosa é um sinal seguro da saúde de uma Igreja local. Não há espaço para qualquer satisfação a este propósito. Deus continua a chamar os jovens, mas compete a nós encorajar uma resposta generosa a livre a tal chamamento. Além disso, nenhum de nós pode dar esta graça por certa.

No Evangelho, Jesus diz-nos que devemos rezar para que o Senhor da messe envie trabalhadores; Ele admite também que os trabalhadores são poucos, em comparação com a abundância da messe (cf. Mt 9, 37-38). Pode parecer estranho, mas com frequência penso que a oração o unum necessarium é o único aspecto eficaz das vocações, e nós tendemos muitas vezes a esquecê-lo ou a subestimá-lo!

Não falo somente de oração pelas vocações. A própria oração, nascida nas famílias católicas, alimentada por programas de formação cristã, revigorada pela graça dos Sacramentos, é o meio principal mediante o qual podemos conhecer a vontade de Deus para a nossa vida. Na medida em que ensinamos os jovens a rezar, e a rezar bem, cooperamos para o chamamento de Deus. Os programas, os planos e os projetos têm o seu lugar, mas o discernimento de uma vocação é antes de tudo o fruto do diálogo íntimo entre o Senhor e os seus discípulos. Se souberem rezar, os jovens podem estar confiantes de saber o que fazer do chamamento de Deus.

Observou-se que existe uma crescente sede de santidade em muitos jovens e que, embora em número cada vez menor, quantos vão em frente demonstram um grande idealismo e oferecem muitas promessas. É importante ouvi-los, compreender as suas experiências e encorajá-los a ajudar os seus coetâneos a ver a necessidade de sacerdotes e religiosos comprometidos, assim como a beleza de uma vida de sacrifício e de serviço ao Senhor e à sua Igreja. Na minha opinião, é pedido muito aos diretores e formadores das vocações: hoje como nunca, é necessário oferecer aos candidatos uma sadia formação intelectual e humana, que os torne capazes não só de responder às interrogações concretas e às necessidades dos contemporâneos, mas também de amadurecer na sua conversão e de perseverar na vocação através de um compromisso que dure a vida inteira. Como bispos, estais conscientes do sacrifício que é exigido de vós, quando vos pedem que um dos vossos melhores sacerdotes deixe os seus compromissos para trabalhar no seminário. Exorto-vos a responder com generosidade, para o bem da Igreja inteira.

Enfim, penso que sabeis por experiência que muitos dos vossos irmãos sacerdotes são felizes na sua vocação. Aquilo que disse no meu discurso acerca da importância da unidade e da colaboração com o presbitério aplica-se também neste campo. Todos nós temos a necessidade de abandonar as divisões estéreis, os desacordos e os preconceitos, e de ouvir em conjunto a voz do Espírito que orienta a Igreja para um futuro de esperança. Cada um de nós sabe como foi importante a fraternidade sacerdotal na própria vida; ela não é apenas uma posse preciosa, mas inclusivamente um grande recurso para a renovação do sacerdócio e o crescimento de novas vocações. Desejo concluir, encorajando-vos a criar oportunidades de um diálogo ainda maior e de encontros fraternos entre os vossos presbíteros, de maneira especial os jovens. Estou persuadido de que isto dará fruto para o seu enriquecimento, para o aumento do seu amor ao sacerdócio e à Igreja, assim como para a eficácia do seu apostolado.

Com estas poucas observações, encorajo-vos mais uma vez no vosso ministério os fiéis confiados aos vossos cuidados pastorais, e recomendo-vos à intercessão amorosa de Maria Imaculada, Mãe da Igreja.

 FESTA DE ANIVERSÁRIO PARA O PAPA NA CASA BRANCA

 

 

 

 

Hoje dia 16 de abril de 2008 sua Santidade o Papa Bento XVI completa 81 anos, por intercessão do Imaculado Coração de Maria pedimos que Deus lhe conceda saúde, coragem, disposição, força, alegria e muito amor  para continuar conduzindo a Santa Madre Igreja pelos caminhos que o Espírito Santo o guiar.

 

 

Santa Missa no Estádio Nacional de Washington

homilia do santo padre

Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Queridos irmãos e irmãs em Cristo

"A paz esteja convosco!" (Jo 20, 19). Com estas palavras, as primeiras dirigidas pelo Senhor ressuscitado aos seus discípulos, saúdo todos vós na alegria deste tempo pascal. Em primeiro lugar, agradeço a Deus a graça de estar no meio de vós. Estou particularmente grato ao Arcebispo D. Wuerl pelas suas amáveis palavras de boas-vindas.

A nossa Santa Missa hodierna reconduz a Igreja que está nos Estados Unidos até às suas raízes no vizinho Maryland e recorda o bicentenário do primeiro capítulo do seu considerável crescimento o desmembramento por obra do meu Predecessor, o Papa Pio VII, da Diocese originária de Baltimore, e a instauração das Dioceses de Boston, Bardstown (hoje Louisville), Nova Iorque e Filadélfia. Duzentos anos mais tarde, a Igreja na América justamente pode louvar a capacidade das gerações passadas de congregar grupos de imigrantes muito diferentes na unidade da fé católica e num comum compromisso pela difusão do Evangelho. Ao mesmo tempo, a comunidade católica neste país, consciente da sua rica multiplicidade, chegou a apreciar cada vez mais plenamente a importância de cada indivíduo e grupo na oferenda do próprio dom particular ao conjunto. Agora a Igreja nos Estados Unidos é chamada a olhar para o futuro, firmemente arraigada na fé transmitida pelas gerações precedentes e pronta a enfrentar novos desafios não menos exigentes do que aqueles enfrentados pelos vossos antepassados com a esperança que nasce do amor de Deus, derramando nos nossos corações por meio do Espírito Santo (cf. Rm 5, 5).

No exercício do meu ministério de Sucessor de Pedro, vim à América para vos confirmar, estimados irmãos e irmãs, na fé dos Apóstolos (cf. Lc 22, 32). Vim para proclamar novamente, como São Pedro proclamou no dia do Pentecostes, que Jesus Cristo é Senhor e Messias, ressuscitado da morte, sentado à direita do Pai na glória e constituído Juiz dos vivos e dos mortos (cf. Act 2, 14 ss.). Vim para repetir a urgente exortação dos Apóstolos à conversão para o perdão dos pecados e para implorar do Senhor uma renovada efusão do Espírito Santo sobre a Igreja que está neste país. Como sentimos neste tempo pascal, a Igreja nasceu mediante o arrependimento e a fé no Senhor ressuscitado dons concedidos pelo Espírito Santo. Em todas as épocas, ela é impelida pelo mesmo Espírito a anunciar aos homens e mulheres de todas as raças, línguas e povos (cf. Ap 5, 9), a boa nova da nossa reconciliação com Deus em Cristo.

As leituras da Missa hodierna convidam-nos a considerar o crescimento da Igreja na América como um capítulo na maior história da expansão da Igreja, a seguir à descida do Espírito Santo no Pentecostes. Nestas leituras, vemos o vínculo inseparável entre o Senhor ressuscitado, o dom do Espírito para o perdão dos pecados e o mistério da Igreja. Cristo constituiu a sua Igreja sobre o fundamento dos Apóstolos (cf. Ap 21, 14), como comunidade visível estruturada, que é comunhão espiritual e ao mesmo tempo corpo místico animado pelos múltiplos dons do Espírito e sacramento de salvação para a humanidade inteira (cf. Lumen gentium, 8). Em todos os tempos e lugares, a Igreja é chamada a crescer na unidade, mediante uma constante conversão a Cristo, cuja obra redentora é proclamada pelos Sucessores dos Apóstolos e celebrada nos Sacramentos. Além disso, esta unidade comporta uma expansão contínua, porque o Espírito impele os fiéis a proclamar "as grandes obras de Deus" e a convidar todos os povos a entrar na comunidade daqueles que são salvos mediante o sangue de Cristo e receberam a nova vida no seu Espírito.

Depois, rezo a fim de que este aniversário significativo na vida da Igreja nos Estados Unidos e a presença do Sucessor de Pedro no meio de vós sejam para todos os católicos uma ocasião par confirmar a sua unidade na fé apostólica, para oferecer aos seus contemporâneos uma razão convincente da esperança que os inspira (cf. 1 Pd 3, 15) e para serem renovados no zelo missionário ao serviço da expansão do Reino de Deus.

O mundo tem necessidade do testemunho! Quem pode negar que o momento presente constitui uma viragem não somente para a Igreja na América, mas também para a sociedade no seu conjunto? Trata-se de uma época de grandes promessas, pois vemos a família humana aproximar-se sempre de formas diferentes, tornando-se cada vez mais interdependente. Todavia, ao mesmo tempo, vemos sinais evidentes de uma crise preocupante nos próprios fundamentos da sociedade: sinais de alienação, raiva e contraposição em muitos dos nossos contemporâneos; violência crescente, debilitação do sentido moral, vulgarização nos relacionamentos sociais e um aumentado esquecimento de Cristo e de Deus. Inclusivamente a Igreja vê sinais de imensas promessas nas suas numerosas paróquias sólidas e nos movimentos vivazes, no entusiasmo pela fé demonstrado por muitos jovens, no número daqueles que todos os anos abraçam a fé católica e num interesse cada vez maior pela oração e pela catequese. Ao mesmo tempo ela sente, de modo frequentemente doloroso, a presença de divisão e de polarização no seu interior, e descobre também desconcertada que muitos batizados, em vez de agir como fermento espiritual no mundo, são propensos a abraçar atitudes contrárias à verdade do Evangelho.

"Senhor, enviai o vosso Espírito e renovai a face da terra!" (cf. Sl 104, 30). As palavras do Salmo responsorial de hoje são uma oração que, em todos os tempos e lugares, brota do coração da Igreja. Elas recordam-nos que o Espírito Santo foi difundido como primícias de uma nova criação, de "novos céus e uma nova terra" (cf. 2 Pd 3, 13; Ap 21, 1), em que reinará a paz de Deus e a família humana será reconciliada na justiça e no amor. Ouvimos São Paulo dizer-nos que toda a criação "geme" até aos dias de hoje, esperando aquela liberdade verdadeira, que é a dádiva de Deus aos seus filhos (cf. Rm 8, 21-22), uma liberdade que nos torna capazes de viver em conformidade com a sua vontade. Oremos no dia de hoje insistentemente para que a Igreja que está na América seja renovada neste mesmo Espírito e sustentada na sua missão de anunciar o Evangelho a um mundo que tem saudades de uma liberdade genuína (cf. Jo 8, 32), de uma felicidade autêntica e da realização das suas aspirações mais profundas!

Desejo agora dirigir uma particular palavra de gratidão e de encorajamento a todos aqueles que enfrentaram o desafio do Concílio Vaticano II, reiterado muitas vezes pelo Papa João Paulo II, e dedicaram a sua vida à Nova Evangelização. Estou grato aos meus irmãos bispos, aos sacerdotes e diáconos, aos religiosos e religiosas, aos pais, professores e catequistas. A fidelidade e a coragem com que a Igreja neste país conseguir enfrentar os desafios de uma cultura cada vez mais secularizada e materialista dependerá em grande parte da vossa fidelidade pessoal à transmissão do tesouro da nossa fé católica. Os jovens têm necessidade de ser ajudados a discernir o caminho que leva à liberdade autêntica: o caminho de uma sincera e generosa imitação de Cristo, a vereda da dedicação à justiça e à paz. Alcançaram-se muitos progressos no desenvolvimento de programas sólidos para a catequese, mas muito mais ainda deve ser feito para formar os corações e as mentes dos jovens no conhecimento e no amor ao Senhor. Os desafios que vêm ao nosso encontro exigem uma instrução ampla e sadia na verdade da fé. No entanto, requerem inclusivamente que se cultive um modo de pensar, uma "cultura" intelectual que seja genuinamente católica, confiante na profunda harmonia entre fé e razão, e preparada para levar a riqueza da visão da fé a entrar em contato com as questões urgentes que dizem respeito ao porvir da sociedade norte-americana.

Prezados amigos, a minha visita aos Estados Unidos tenciona ser um testemunho de "Cristo, nossa esperança". Os americanos foram sempre um povo da esperança: os vossos antepassados vieram a este país com a expectativa de encontrar uma renovada liberdade e novas oportunidades, enquanto a vastidão do território inexplorado lhes inspirava a esperança de serem capazes de começar completamente de zero, criando uma nova nação sobre novos fundamentos. Sem dúvida, esta expectativa não foi a experiência de todos os habitantes deste país; é suficiente pensar nas injustiças padecidas pelas populações americanas nativas e por quantos, da África, foram trazidos aqui com a força, como escravos. No entanto a esperança, a esperança no futuro, faz profundamente parte do carisma americano. E a virtude cristã da esperança a esperança derramada nos nossos corações por meio do Espírito Santo, a esperança que purifica e corrige de modo sobrenatural as nossas aspirações, orientando-as para o Senhor e para o seu plano de salvação esta mesma esperança caracterizou também, e continua a caracterizar, a vida da comunidade católica neste país.

É no contexto desta esperança nascida do amor e da fidelidade a Deus que reconheço a dor que a Igreja na América experimentou como consequência do abuso sexual de menores. Nenhuma palavra minha poderia descrever a dor e o prejuízo causados por tal abuso. É importante que a quantos sofreram seja reservada uma amorosa atenção pastoral. Nem posso descrever de modo adequado o dano que se verificou no interior da comunidade da Igreja. Já foram envidados grandes esforços para enfrentar de modo honesto e justo esta trágica situação e para garantir que as crianças que nosso Senhor ama de modo tão profundo (cf. Mc 10, 14) e que são o nosso maior tesouro possam crescer num ambiente seguro. Estes cuidados para salvaguardar as crianças devem continuar. Ontem falei sobre este tema com os vossos bispos. Hoje encorajo cada um de vós a fazer tudo o que lhe for possível para promover a purificação e a reconciliação, e para ajudar quantos foram feridos. Além disso, peço-vos que ameis os vossos sacerdotes e que os confirmeis no excelente trabalho que realizam. E sobretudo rezai a fim de que o Espírito Santo infunda os seus dons na Igreja, as dádivas que levam à conversão, ao perdão e ao crescimento na santidade.

Como ouvimos na segunda leitura, São Paulo fala de uma espécie de oração que se eleva das profundidades dos nossos corações com suspiros demasiado profundos para ser expressos com palavras, com "gemidos" (cf. Rm 8, 26), sugeridos pelo Espírito Santo. Esta é uma oração que aspira, no meio do castigo, pelo cumprimento das promessas de Deus. É uma oração de esperança inesgotável, mas também de perseverança paciente e, não raro, acompanhada do sofrimento pela verdade. Através desta oração, participamos no mistério da própria debilidade e sofrimento de Cristo, enquanto confiamos firmemente na vitória da sua Cruz. Que a Igreja na América, mediante esta oração, siga cada vez mais o caminho da conversão e da fidelidade às exigências do Evangelho! E que todos os católicos experimentem a consolação da esperança e os dons da alegria e da força, concedidos pelo Espírito.

No trecho evangélico de hoje, o Senhor ressuscitado oferece aos Apóstolos o dom do Espírito Santo e concede-lhes a autoridade de perdoar os pecados. Mediante o poder invencível da graça de Cristo, confiado a frágeis ministros humanos, a Igreja renasce continuamente e a cada um de nós é dada a esperança de um novo início. Confiemos no poder do Espírito Santo de inspirar a conversão, de curar todas as feridas, de superar cada divisão e de suscitar vida e liberdade novas! Quanta necessidade temos de tais dons! E como estão ao nosso alcance, particularmente no Sacramento da Penitência! A força libertadora deste Sacramento, em que a nossa sincera profissão do pecado encontra a palavra misericordiosa de perdão e de paz da parte de Deus, tem necessidade de ser redescoberta e feita própria por cada um dos católicos. Em grande parte, a renovação da Igreja na América e no mundo depende da renovação da prática da penitência e do crescimento na santidade: ambos são inspirados e realizados por este Sacramento.

"Fomos salvos na esperança!" (Rm 8, 24). Enquanto a Igreja nos Estados Unidos dá graças pelas bênçãos dos passados duzentos anos, convido-vos, bem como as vossas famílias e cada uma das paróquias e comunidades religiosas a confiar no poder da graça de criar um futuro promissor para o Povo de Deus neste país. Em nome do Senhor Jesus, peço-vos que suprimais toda a divisão e que trabalheis com alegria para preparar um caminho para Ele, na fidelidade à sua palavra e na conversão constante à sua vontade. Convido-vos sobretudo a continuar a ser fermento de esperança evangélica na sociedade norte-americana, tendo em vista levar a luz e a verdade do Evangelho à tarefa de criar um mundo cada vez mais justo e livre para as gerações vindouras.

Quem tem esperança, deve viver diversamente (cf. Spe salvi, 2)! Que vós possais, mediante as vossas orações, mediante o testemunho da vossa fé e através da fecundidade da vossa caridade, indicar o caminho para aquele vasto horizonte de esperança que Deus, também agora, está a abrir para a sua Igreja, aliás, para a humanidade inteira: a visão de um mundo reconciliado e renovado em Jesus Cristo, nosso Salvador. A Ele, toda a honra e glória, agora e para sempre.

Amém!

***

Diletos irmãos e irmãs de língua espanhola:

Desejo saudar-vos com as mesmas palavras que Cristo ressuscitado dirigiu aos Apóstolos: "A paz esteja convosco!" (Jo 20, 19). Que a alegria de saber que o Senhor triunfou sobre a morte e o pecado vos ajude a ser, onde quer que vos encontreis, testemunhas do seu amor e semeadores daquela esperança que Ele veio trazer-nos e que jamais desilude. Não vos deixeis vencer pelo pessimismo, pela inércia ou pelos problemas. Antes de tudo, fiéis aos compromissos assumidos no batismo, aprofundai todos os dias o conhecimento de Jesus Cristo e deixai que o vosso coração seja conquistado pelo seu amor e pelo seu perdão.

A Igreja que se encontra nos Estados Unidos, acolhendo no seu seio muitos dos seus filhos emigrantes, foi crescendo graças também à vitalidade do testemunho de fé dos fiéis de expressão espanhola. Por isso, o Senhor chama-vos a perseverar, contribuindo para o futuro da Igreja neste país e para a difusão do Evangelho. Somente se permanecerdes unidos a Cristo e entre vós, o vosso testemunho evangelizador será credível e expressar-se-á em copiosos frutos de paz e de reconciliação no meio de um mundo muitas vezes assinalado por divisões e embates. A Igreja espera muito de vós. Não a desiludais no vosso compromisso generoso. "Aquilo que recebestes de graça, dai também de graça!" (Mt 10, 8).

Amém!

PAPA ENCONTRA VÍTIMAS DE ABUSOS SEXUAIS

Washington, 17 abr (Rádio Vaticano) - A Sala de Imprensa da Santa Sé divulgou um comunicado sobre o encontro do Santo Padre com um grupo de vítimas de abuso sexual por parte de expoentes do clero. O encontro não estava previsto na programação oficial da viagem do papa aos EUA. Eis o texto:

"Hoje, às 16h15, o Santo Padre encontrou, na capela da nunciatura em Washington, um pequeno grupo de pessoas vítimas de abusos sexuais por parte de expoentes do clero.

O grupo, acompanhado do arcebispo de Boston, Card. Sean O'Malley, rezou com o Santo Padre, o qual depois ouviu seus relatos pessoais e disse-lhes palavras de encorajamento e de esperança.

O papa garantiu-lhes sua oração por suas intenções, por suas famílias e por todas as vítimas de abuso sexual."

Cidade do Vaticano, 19 abr (Rádio Vaticano) - No encontro de quinta-feira, em Washington, de Bento XVI com as vítimas de abusos sexuais por parte do clero, houve intenso momentos de lágrimas e oração. O grupo provinha da região de Boston, uma das dioceses mais afetadas pelo escândalo.

Em particular, o Santo Padre conversou com cada um deles, deu as mãos e entregou terços. Por sua vez, Bento XVI recebeu um pequeno livro com o nome de milhares de vítimas para que pudesse rezar por elas.

Depois de ter expressado publicamente por três dias seguidos a "vergonha" da Igreja pelo o que aconteceu, o papa, na missa de hoje de manhã na catedral de São Patrício, em Nova York, voltará a abordar o tema. Na celebração, vão estar reunidos três mil sacerdotes, diáconos e religiosos provenientes de diversas partes dos EUA.

As organizações que reúnem as vítimas de pedofilia acolheram de modo positivo as iniciativas do papa, mas as consideraram apenas como o primeiro passo. Agora, as entidades vão acompanhar de perto como a Igreja vai tratar o assunto. Entre elas, está a "Rede de Sobreviventes de Pessoas que Sofreram Abusos", que reúne o maior número de vítimas, mais de 8 mil.

Bento XVI surpreendeu todos pela força com a qual colocou no centro da visita aos EUA o tema dos abusos sexuais. Primeiro, no avião que o levava da Itália para o país; depois, num encontro com os cardeais e bispos; e, ainda, diante de mais de 50 mil fiéis na missa no Estádio Nacional de Washington.

 

ENCONTRO COM OS EDUCADORES CATÓLICOS

DISCURSO DE SUA SANTIDADE BENTO XVI

Salão de Conferências da Universidade Católica da América, Washington, D.C.
Quinta, 17 de abril de 2008

Queridos Cardeais,
Queridos Irmãos Bispos,
Ilustres Professores, Mestres e Educadores,

“Como são belos os pés daqueles que anunciam boas notícias!” (Rm 10, 15-17). Com estas palavras de Isaías, citadas por São Paulo, saúdo calorosamente cada um de vocês – portadores de sabedoria – e, através de vocês, todo os funcionários, estudantes e famílias das mais diversas instituições formativas que os senhores representam. Para mim, é um verdadeiro prazer encontrá-los e compartilhar com os senhores algumas reflexões sobre a natureza e a identidade da educação católica. Desejo agradecer, em especial, ao Pe. David O’Connell, presidente e reitor da Catholic University of America. Apreciei muito, caro Presidente, as Suas gentis palavras de boas-vindas. Por favor, estenda a expressão da minha cordial gratidão a toda a comunidade – faculdade, funcionários e alunos – desta Universidade.

A tarefa educativa é parte integrante da missão que a Igreja tem de proclamar a Boa Nova. Em primeiro lugar e, sobretudo, toda instituição educativa católica é um local no qual encontrar o Deus vivo, que revela em Jesus Cristo a força transformadora de seu amor e de sua verdade (cfr Spe salvi, 4). Esta relação suscita o desejo de crescer no conhecimento e na compreensão de Cristo e de seu ensinamento. Deste modo, aqueles que o encontram são levados pela força do Evangelho a conduzir uma nova vida, caracterizada por tudo o que é belo, bom e verdadeiro. Uma vida de testemunho cristão nutrido e reforçado em meio à comunidade dos discípulos de Nosso Senhor, a Igreja.

A dinâmica entre encontro pessoal, conhecimento e testemunho cristão é parte integrante da diakonia da verdade que a Igreja exerce em meio à humanidade. A revelação de Deus oferece a todas as gerações a possibilidade de descobrir a verdade última sobre a própria vida e sobre o fim da história. Este dever não é nada fácil: envolve toda a comunidade cristã e motiva toda geração de educadores cristãos a garantir que o poder da verdade de Deus forje toda dimensão das instituições. Desta forma, a Boa Nova de Cristo é colocada em condição de agir, orientando seja o mestre, seja o aluno para a verdade objetiva que, transcendendo do particular e do subjetivo, conduz ao universal e ao absoluto que nos habilita a proclamar com confiança a esperança que não decepciona (cfr Rm 5,5). Contra os conflitos pessoais, a confusão moral e a fragmentação do conhecimento, os nobres objetivos da formação acadêmica e da educação, fundados na unidade da verdade e no serviço à pessoa e à comunidade, se tornam um instrumento especial e poderoso de esperança.

Queridos amigos, a história desta Nação oferece numerosos exemplos do compromisso da Igreja neste campo. De fato, a comunidade católica neste País fez da educação uma de suas mais importantes prioridades. Este feito não se realizou sem grandes sacrifícios. Figuras eminentes, como Santa Elizabeth Ann Seton e outros fundadores e fundadoras, com grande tenacidade e visão, promoveram a criação daquilo que é hoje uma significativa rede de escolas paroquiais, que contribuem ao bem-estar da Igreja e da Nação. Alguns, como Santa Katharine Drexel, dedicaram suas vidas à educação daqueles que foram abandonados por outros – em seu caso, afro-americanos e americanos nativos. Diversos Irmãos e Irmãs e Sacerdotes de Congregações religiosas, ao lado de pais altruístas, ajudaram, através das escolas católicas, gerações de imigrantes a sair da miséria e a assumir um papel na sociedade de hoje.

Este sacrifício continua ainda hoje. Encarregar-se das necessidades materiais, intelectuais e espirituais de mais de três milhões de jovens e estudantes é um excelente apostolado da esperança. Isto oferece também a toda a comunidade católica uma oportunidade altamente louvável para contribuir generosamente com as exigências financeiras de nossas instituições. É preciso assegurar-lhes a possibilidade de se manterem a longo prazo. Efetivamente, deve ser feito todo o possível, em colaboração com a grande comunidade, para garantir seu acesso a pessoas de todos os níveis sociais e econômicos. A nenhum menino ou menina deve ser negado o direito da educação na fé, que, por conseguinte, nutre o espírito da Nação.

Algumas pessoas colocam em dúvida hoje o empenho da Igreja na educação, questionando se os recursos não poderiam ser melhor utilizados em outras iniciativas. Certamente, em uma nação como esta, o Estado oferece amplas oportunidades para a educação e convida mulheres e homens dedicados e generosos para esta honrada profissão. Assim sendo, é oportuno refletir sobre o específico de nossas instituições católicas. Como elas podem contribuir para o bem da sociedade através da missão primária da Igreja que é evangelizar?

Todas as atividades da Igreja nascem de sua consciência de ser portadoras de uma mensagem que tem sua origem no próprio Deus: em sua bondade e sabedoria, Deus escolheu revelar a si mesmo e difundir os desígnios ocultos de sua vontade (cfr Ef 1,9; Dei Verbum, 2). O desígnio de Deus de fazer-se conhecer e o desejo inato de todo ser humano de conhecer a verdade oferecem o contexto da busca humana sobre o significado da vida. Este encontro único é defendido em meio à nossa comunidade cristã: quem procura a verdade se torna alguém que vive da fé (cfr Fides et ratio, 31). Isto pode ser descrito como um movimento do ‘eu’ para o ‘nós’, que leva as pessoas a serem inseridas entre o povo de Deus.

A mesma dinâmica de identidade comunitária – a quem pertenço? – vivifica o ethos de nossas instituições católicas. A identidade de uma Universidade ou de uma Escola católica não é simplesmente uma questão de números de alunos católicos. É uma questão de convicção – acreditamos realmente que somente no mistério do Verbo encarnado se torna verdadeiramente claro o mistério do homem (cfr Gaudium et spes, 22)? Estamos realmente prontos a confiar o nosso ‘eu’, por inteiro – intelecto e vontade, mente e coração – a Deus? Aceitamos a verdade que Cristo revela? Em nossas universidades e escolas, a fé é tangível? Atribuímos a ela fervorosas expressões na liturgia, nos sacramentos, mediante a oração, os gestos de caridade, a solicitude pela justiça e o respeito pela criação de Deus? Somente deste modo nós damos realmente testemunho do sentido de quem somos e do que defendemos.

Desta perspectiva, pode-se reconhecer que a ‘crise de verdade’ contemporânea tem raízes na ‘crise de fé’. Somente mediante a fé nós podemos dar livremente nosso consenso ao testemunho de Deus e reconhecê-Lo como garante transcendente da verdade que Ele revela. Mais uma vez, nós vemos a razão para promover a intimidade pessoal com Jesus Cristo e o testemunho comunitário à sua verdade, que é amor, é indispensável nas instituições formativas católicas.
De fato, todos nós vemos e observamos com preocupação a dificuldade ou a resistência que muitas pessoas têm hoje em entregar-se a Deus. É um fenômeno complexo, sobre o qual reflito continuamente. Enquanto nós tentamos com devoção envolver a inteligência de nossos jovens, pode ser que subestimemos seus desejos. Conseqüentemente, observamos com ansiedade que a noção de liberdade é desviada. A liberdade não é ter o direito de se desvincular de algo. É o direito de se empenhar por alguma coisa, é a participação no próprio Ser. Assim sendo, a autêntica liberdade não pode jamais ser alcançada no afastamento de Deus. Uma escolha semelhante significaria, em conclusão, subestimar a genuína verdade de que precisamos para entender nós mesmos. Por isso, suscitar entre seus jovens o desejo de um ato de fé, encorajando-os a engajar-se na vida eclesial que deriva deste ato de fé, é uma responsabilidade especial de cada um de vocês e de seus colegas. Aqui, a liberdade alcança a certeza da verdade. Na escolha de viver segundo esta verdade, nós abraçamos a plenitude da vida de fé que nos é dada na Igreja.

Claramente, portanto, a identidade católica não depende das estatísticas. Nem pode ser simplesmente equiparada com a ortodoxia do conteúdo dos cursos. Isto requer e inspira muito mais: ou seja, que todos os aspectos de suas comunidades de estudo se reflitam na vida eclesial de fé. Somente na fé a verdade pode ser encarnada e a razão realmente humana, capaz de dirigir a vontade rumo ao caminho da liberdade (cfr Spe salvi, 23). Deste modo, nossas instituições oferecem uma contribuição vital para a missão da Igreja e servem eficazmente a sociedade. Elas se tornam locais nos quais a ativa presença de Deus nos assuntos humanos é reconhecida e todos os jovens descobrem a alegria de entrar no ‘ser para os outros’ de Cristo (cfr ibid., 28).
A missão, primária na Igreja, de evangelizar, na qual as instituições educativas desempenham um papel crucial, está em sintonia com a aspiração fundamental da nação de desenvolver uma sociedade realmente digna da dignidade da pessoa humana. Todavia, por vezes, o valor da contribuição da Igreja ao fórum público é colocado em questão. Por isso, é importante recordar que a verdade da fé e a verdade da razão nunca se contradizem entre si (cfr Concílio Ecumênico Vaticano I, Constituição dogmática sobre a Fede católica Dei Filius, IV: DS 3017; S. Agostino, Contra Acadêmicos, III, 20,43). A missão da Igreja, de fato, a envolve na luta que a humanidade empreende para alcançar a verdade. Ao expressar a verdade revelada, ela serve todos os membros da sociedade purificando a razão, garantindo que ela permaneça aberta à consideração das verdades últimas. Nutrindo-se da divina sabedoria, esta esclarece a fundação da moralidade e da ética humana e recorda a todos os grupos na sociedade que não é a práxis a criar a verdade, mas é a verdade que deve servir como base da práxis. Longe do ameaçar a tolerância da legítima diversidade, semelhante contribuição ilumina a própria verdade, que torna alcançável o consenso e ajuda a manter razoável, honesto e confiável o debate público. Do mesmo modo, a Igreja nunca se cansa de sustentar as categorias morais essenciais do justo e do injusto, sem as quais a esperança pode somente murchar, abrindo o caminho a frios cálculos pragmáticos utilitarísticos, que subtraem a identidade da pessoa, fazendo com que se reduza a apenas um número.

Em relação ao fórum educativo, a diakonia da verdade assume um elevado significado nas sociedades em que a ideologia do secularismo põe uma divisória entre verdade e fé. Esta divisão levou à tendência de igualar verdade e conhecimento e de adotar uma mentalidade positivistica que, rejeitando a metafísica, nega os fundamentos da fé e rejeita a necessidade de uma visão moral. Verdade significa mais do que conhecimento: conhecer a verdade nos leva a descobrir o bem. A verdade fala ao indivíduo na sua inteireza, convidando-nos a responder com todo o nosso ser. Esta visão otimista é fundada na nossa fé cristã, porque em tal fé é doada a visão do Logos, a Razão criadora de Deus, que na Encarnação se revelou ela mesma como Divindade. A verdade de amor do Evangelho não é somente uma comunicação de dados factuais – “informativa” –, mas é criativa e capaz de mudar a vida – é “performativa” (cfr Spe salvi, 2). Com confiança, os educadores cristãos podem libertar os jovens dos limites do positivismo e despertar neles a receptividade quanto à verdade, a Deus e à sua bondade. Deste modo, os senhores ajudarão também a formar a consciência deles que, enriquecida pela fé, abre um seguro caminho rumo à paz interior e ao respeito pelos outros.

Todavia, não constitui uma surpresa se a sociedade em geral, nem tanto as nossas próprias comunidades eclesiais, espera muito dos educadores católicos. Isso representa para os senhores uma responsabilidade e lhes oferece uma oportunidade. Um número sempre maior de pessoas – em especial de pais – reconhece a necessidade de excelência na formação humana de seus filhos. Como Mater et Magistra, a Igreja compartilha suas preocupações. Quando nada além do indivíduo é reconhecido como definitivo, o critério último de juízo se torna o ‘eu’ e a satisfação dos desejos imediatos do indivíduo. A objetividade e a perspectiva que derivam somente do reconhecimento da essencial dimensão transcendente da pessoa humana podem se perder. Dentro de semelhante horizonte relativístico, os fins da educação são inevitavelmente reduzidos. Lentamente, se afirma um rebaixamento dos níveis. Observamos hoje certa timidez diante da categoria do bem e uma imprudente caça de novidades em evidência como realização da liberdade. Somos testemunhas da convicção de que toda esperança tenha o mesmo valor e da relutância em admitir imperfeições e erros. E particularmente inquietante é a redução da preciosa e delicada área da educação sexual à gestão do “risco”, privo de qualquer referência à beleza do amor conjugal.

Como podem responder os educadores cristãos? Essas perigosas evoluções põem em evidência a particular urgência daquilo que poderíamos chamar de “caridade intelectual”. Esse aspecto da caridade pede ao educador que reconheça que a profunda responsabilidade de conduzir os jovens à verdade é um ato de amor. Na verdade, a dignidade da educação reside na promoção da verdadeira perfeição e da alegria daqueles que devem ser guiados. Na prática, a “caridade intelectual” sustenta a essencial unidade do conhecimento contra a fragmentação que resulta quando a razão é separada da busca da verdade. Isso guia os jovens rumo a uma profunda satisfação de exercitar a liberdade em relação à verdade, e isso leva a formular a relação entre a fé e os vários aspectos da vida familiar e civil. Uma vez que a paixão pela plenitude e pela unidade da verdade foi despertada, os jovens certamente vão saborear a descoberta que a questão sobre aquilo que eles podem conhecer os abre para a vasta aventura daquilo que eles deveriam fazer. Aqui eles experimentarão “em quem” e “em quê” é possível esperar e serão inspirados a oferecer sua contribuição à sociedade de um modo que gere esperança nos outros.

Caros amigos, desejo concluir chamando a atenção especificamente sobre a eminente importância da competência e do testemunho dos senhores dentro de nossas Universidades e Escolas católicas. Primeiramente, permitam-me agradecer-lhes por sua dedicação e generosidade. Conheço desde os tempos em que era professor e depois ouvi de seus Bispos e Oficiais da Congregação para a Educação Católica que a reputação das Instituições educativas neste país é amplamente devida aos senhores e aos seus predecessores. As desinteressadas contribuições dos senhores – da pesquisa externa à dedicação daqueles que trabalham dentro dos Institutos escolares – servem seja este país, seja a Igreja. Por isso, lhes expresso a minha profunda gratidão.

A propósito dos membros das Faculdades nos Colégios universitários católicos, desejo reafirmar o grande valor da liberdade acadêmica. Em virtude desta liberdade, os senhores são chamados a buscar a verdade aonde a atenta análise da evidência os conduz. Todavia, é também o caso de recordar que todo apelo ao princípio da liberdade acadêmica para justificar posições que contradizem a fé e o ensinamento da Igreja podem obstaculizar ou até mesmo trair a identidade e a missão da Universidade, uma missão imprescindível para o munus docendi da Igreja e não é de alguma maneira autônoma ou independente desta.

Professores e administradores de Universidades e Escolas, vocês têm o dever e o privilégio de assegurar que os estudantes recebam uma educação na doutrina e na prática católica. Isso requer que o testemunho público do modo de ser de Cristo, como consta no Evangelho e é proposto pelo Magistério da Igreja, forje todos os aspectos da vida institucional, seja dentro, seja fora das salas de aula. Distanciar-se desta visão enfraquece a identidade católica e, além de não fazer avançar a liberdade, inevitavelmente conduz à confusão seja moral, seja intelectual e espiritual.

Desejo também expressar uma palavra especial de encorajamento aos catequistas, leigos e religiosos que se empenham em assegurar que os jovens se tornem, a cada dia, mais capazes de apreciar o dom da fé. A educação religiosa é um apostolado estimulante e existem muitos sinais em meio aos jovens de desejo de conhecer mais a fé e de praticá-la com determinação. Se quisermos que este despertar aumente, é necessário que os mestres tenham uma clara e precisa compreensão da especifica natureza e do papel da educação católica. Eles devem também estar prontos para orientar o compromisso de toda a comunidade escolar em assistir os nossos jovens e suas famílias a experimentar a harmonia entre fé, vida e cultura.

Agora desejo dirigir um apelo especial aos religiosos, religiosas e sacerdotes: não abandonem o apostolado escolar; aliás, renovem sua dedicação às escolas, especialmente àquelas que estão em áreas mais pobres. Em locais nos quais há muitas falsas promessas que atraem os jovens para longe do caminho da verdade e da liberdade genuína, o testemunho dos conselhos evangélicos oferecidos pela pessoa consagrada é um dom insubstituível. Encorajo os religiosos presentes a investirem um novo entusiasmo na promoção das vocações. Saibam que seu testemunho em favor do ideal da consagração e da missão em meio aos jovens é uma fonte de grande inspiração na fé, para eles e para suas famílias.

A vocês todos digo: sejam testemunhas da esperança! Alimentem o seu testemunho com a oração. Demonstrem a esperança que caracteriza suas vidas (cfr 1 Pt 3,15) vivendo a verdade que vocês propõem a seus alunos. Ajude-os a conhecer e amar aquele Um que vocês encontraram, cuja verdade e bondade vocês experimentaram com prazer. Com Santo Agostinho dizemos: “Nós que falamos e vocês que ouvem, reconheçamo-nos como fiéis discípulos de um único Mestre” (Serm., 23,2). Com estes sentimentos de comunhão, concedo, de bom grado, a vocês, seus colegas e alunos e a suas famílias a Benção Apostólica.

 

Encontro com os representantes de outras religiões no Centro Cultural Papa João Paulo II de Washington

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Centro Cultural "Pope John Paul II" em Washington, D.C.
Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

 

Caros amigos

Estou feliz por ter a ocasião de me encontrar hoje convosco. Agradeço ao Bispo Sklba as suas gentis palavras de boas-vindas e saúdo cordialmente todos vós aqui reunidos em representação das diversas religiões presentes nos Estados Unidos da América. Muitos de vós aceitaram gentilmente o convite a compor as reflexões contidas no programa de hoje. Estou-vos particularmente grato pelas vossas palavras sobre o modo como cada uma das vossas tradições dá testemunho da paz. Obrigado a todos vós!

Este país tem uma longa história de colaboração entre as diversas religiões, em muitos campos da vida pública. Serviços de oração inter-religiosa no decurso da festa nacional de ação de graças, iniciativas corais em atividades caritativas e uma voz comum sobre importantes questões públicas: estes são alguns dos modos como os membros de várias religiões se encontram, para melhorar a compreensão recíproca e promover o bem comum. Encorajo todos os grupos religiosos na América a perseverar na sua colaboração e enriquecer assim a vida pública com os valores espirituais que animam a vossa ação no mundo.

O lugar onde agora nos encontramos congregados foi fundado especialmente para a promoção deste tipo de colaboração. Com efeito, o Centro cultural Pope John Paul II propõe-se oferecer uma voz cristã à "busca humana de significado e de finalidade na vida" num mundo de "diversas comunidade religiosas, étnicas e culturais" (Mission Statement). Esta instituição recorda-nos a convicção desta nação de que todos os homens deveriam ser livres para perseguir a felicidade de um modo compatível com a sua natureza de criaturas dotadas de razão e de livre vontade.
Os americanos sempre apreciaram a possibilidade de prestar um culto livre e em conformidade com a sua própria consciência. Alexis de Tocqueville, o historiador francês e observador das realidades norte-americanas, fascinou-se por este aspecto da nação. Ele ressaltou que este é um país onde a religião e a liberdade estão "intimamente vinculadas" em vista de contribuir para uma democracia estável que favoreça as virtudes sociais e a participação na vida comunitária de todos os seus cidadãos. Nas áreas urbanas, é normal que as pessoas provenientes de diversas tradições culturais e religiosas se comprometam todos os dias, umas ao lado das outras, nos âmbitos comerciais, sociais e educativos. Hoje jovens cristãos, judeus, muçulmanos, hindus e budistas, bem como crianças de todas as religiões nas salas de aula de todo o país sentam-se lado a lado, aprendendo umas com e das outras. Esta diversidade dá lugar a novos desafios que suscitam uma reflexão mais profunda sobre os princípios fundamentais de uma sociedade democrática. Possam outros haurir coragem da vossa experiência, dando-se conta de que uma sociedade unida pode originar de uma pluralidade de povos "E pluribus unum, de muitos, um só" sob a condição de que todos reconheçam a liberdade religiosa como um direito civil fundamental (cf. Dignitatis humanae, 2).

A tarefa de defender a liberdade religiosa nunca está completa. Novas situações e desafios exortam os cidadãos e os líderes a refletir sobre o modo como as respectivas decisões respeitam este direito humano fundamental. Tutelar a liberdade religiosa segundo a norma da lei não garante que aos povos, de modo particular as minorias, sejam poupadas formas injustas de discriminação e de preconceito. Isto exige um esforço constante da parte de todos os membros da sociedade a fim de que aos cidadãos seja oferecida a oportunidade de praticar o culto pacificamente e de transmitir o seu patrimônio religioso aos próprios filhos.

A transmissão das tradições religiosas às gerações que se sucedem não só ajuda a preservar um patrimônio, mas também apóia e alimenta no presente a cultura que as circunda. O mesmo é válido para o diálogo entre as religiões; enriquecem-se tanto aqueles que nele participam como a sociedade em geral. Na medida em que crescemos na compreensão recíproca, vemos que compartilhamos uma estima pelos valores éticos alcançáveis pela razão humana, que são respeitados por todas as pessoas de boa vontade. O mundo pede insistentemente um testemunho comum destes valores. Portanto, convido todas as pessoas religiosas a considerar o diálogo não somente como um meio para reforçar a compreensão mútua, mas inclusive como um modo para servir de maneira ampla a sociedade. Dando testemunho das verdades morais que têm em comum com todos os homens e mulheres de boa vontade, os grupos religiosos hão de exercer uma influência positiva na cultura mais vasta e inspirar os vizinhos, os colegas de trabalho e os compatriotas a unir-se na tarefa de revigorar laços de solidariedade. Citando as palavras do Presidente Franklin Delano Roosevelt, "à nossa terra hoje não poderia acontecer algo maior que um renascimento do espírito de fé".

Um exemplo concreto da contribuição que as comunidades religiosas podem oferecer à sociedade civil são as escolas confessionais. Estas instituições enriquecem as crianças, quer intelectual quer espiritualmente. Orientados pelos seus professores a descobrir a dignidade conferida por Deus a cada ser humano, os jovens aprendem a respeitar os credos e as práticas religiosas dos outros, enriquecendo a vida civil de uma nação.

Que enorme responsabilidade têm os chefes religiosos! Eles devem imbuir a sociedade com um profundo temor e respeito pela vida humana e liberdade; garantir que a dignidade do homem seja reconhecida e apreciada; facilitar a paz e a justiça; e ensinar às crianças o que é justo, bom e sensato!

Há outro ponto sobre o qual desejo refletir aqui. Observei um crescente interesse entre os governos em patrocinar programas destinados a promover o diálogo inter-religioso e intercultural. Trata-se de iniciativas louváveis. Ao mesmo tempo, a liberdade religiosa, o diálogo inter-religioso e a fé visam algo mais que um consenso em vista de descobrir caminhos para pôr em prática estratégias concretas para fazer progredir a paz. A finalidade mais ampla do diálogo consiste em descobrir a verdade. Qual é a origem e o destino do gênero humano? O que são o bem e o mal? O que nos espera no final da nossa existência? Somente enfrentando estas problemáticas mais profundas poderemos construir uma sólida base para a paz e a segurança da família humana: "Onde e quando se deixa iluminar pelo esplendor da verdade, o homem empreende quase naturalmente o caminho da paz" (Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2006, n.3).

Vivemos numa época em que estas interrogações são muitas vezes postas de lado. No entanto, elas nunca poderão ser eliminadas do coração humano. Ao longo da história, os homens e as mulheres procuraram encontrar um nexo entre a sua inquietação e este mundo passageiro. Na tradição judaico-cristã, os Salmos estão cheios destas expressões: "O meu espírito desfalece dentro de mim" (Sl 143, 4; cf. Sl 6, 7; 31, 11; 32, 4; 38, 8; 77, 3); "Por que estás triste, minha alma, e por que te perturbas?" (Sl 42, 6). A resposta é sempre de fé: "Confia em Deus: ainda O hei de louvar. Ele é o meu Deus e o meu Salvador" (Ibidem; cf. Sl 62, 6). Os chefes espirituais têm um dever particular, e poderíamos dizer uma competência especial, que consiste em pôr em primeiro plano as questões mais profundas da consciência do homem, em despertar a humanidade diante do mistério da existência humana e, num mundo frenético, em reservar espaço à reflexão e à prece.

Colocados diante destas interrogações mais profundas, relativas à origem e ao destino do gênero humano, os cristãos propõem Jesus de Nazaré. Ele é esta é a nossa fé o Logos eterno, que se fez carne para reconciliar o homem com Deus e revelar a razão que se encontra na base de todas as realidades. É Ele que hoje anunciamos no foro do diálogo inter-religioso. A ardente aspiração de seguir os seus passos impele os cristãos a abrir a sua mente e o seu coração ao diálogo (cf. Lc 10, 25-37; Jo 4, 7-26).

Estimados amigos, na nossa tentativa de descobrir os pontos comuns, talvez tenhamos evitado a responsabilidade de debater com calma e clarividência acerca das nossas diferenças. Enquanto unimos sempre os nossos corações e mentes na busca da paz, temos que ouvir também com atenção a voz da verdade. Deste modo, o nosso diálogo não se limita a encontrar um conjunto comum de valores, mas vai mais além, para indagar sobre o seu fundamento último. Não temos qualquer motivo para temer, porque a verdade nos revela a relação essencial entre o mundo e Deus. Conseguimos compreender que a paz é um "dom celestial", que nos exorta a conformar a história humana com a ordem divina. Nisto consiste a "verdade da paz" (cf. Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2006).

Então como vimos, o objetivo mais importante do diálogo inter-religioso exige uma clara exposição das nossas respectivas doutrinas religiosas. A este propósito, os colegas, as universidades e os centros de estudo constituem importantes âmbitos para um sincero intercâmbio de idéias religiosas. Por sua vez, a Santa Sé procura dar continuidade a este importante trabalho através do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, o Pontifício Instituto de Estudos Árabes e de Islamística, além de várias Universidades Pontifícias.

Diletos amigos, permiti que o nosso diálogo sincero e a nossa cooperação inspirem todas as pessoas a meditar sobre as interrogações mais profundas relativas à sua origem e ao seu destino. Possam os seguidores de todas as religiões permanecer unidos na defesa e na promoção da vida e da liberdade religiosa no mundo inteiro. Dedicando-nos generosamente a esta sagrada função através do diálogo e de inúmeros pequenos gestos de amor, de compreensão e de compaixão sejamos instrumentos de paz para toda a família humana. A paz esteja com todos vós!

Washington, 18 abr (Rádio Vaticano) - Na tarde de ontem, às 18:30h locais, o papa foi saudado pelo bispo auxiliar de Milwaukee, Dom Richard J. Sklba, responsável pela Comissão Episcopal para o Ecumenismo e o Diálogo inter-religioso. Estavam presentes no encontro cerca de 200 representantes de cinco comunidades religiosas: judaica, muçulmana, hindu, budista e jainista.

No seu discurso, Bento XVI pediu aos líderes das diferentes religiões para debater suas diferenças com "calma e clareza" e poder, assim, não só alcançar a paz, mas também descobrir a verdade compartilhada por todos. "Em nossa tentativa de descobrir os pontos comuns, talvez deixamos de lado a responsabilidade de discutir nossas diferenças com calma e clareza”.

O evento na sede do Centro Cultural João Paulo II começou às 18h locais, conforme o previsto. Mas, por motivos de segurança, os convidados tiveram que chegar ao centro horas antes de o encontro ter início. Durante essas horas, houve uma animada troca de idéias entre os líderes dos diferentes credos.

Bento XVI disse que esse diálogo não deve parar na identificação de uma "série de valores comuns", mas ir em frente para descobrir a base na qual se assentam. "Não temos nada a temer, já que a verdade nos revela a relação essencial entre o mundo e Deus", disse o papa, elogiando a convivência pacífica nos Estados Unidos entre pessoas de diferentes crenças.

"Hoje, em escolas de todo o país, jovens e crianças cristãos, judeus, muçulmanos, hindus e budistas estudam juntos e aprendem uns com os outros", afirmou.

Bento XVI expressou seu desejo de que outras sociedades sigam o exemplo americano e se dêem conta de que "uma sociedade unida pode surgir da pluralidade", e defendeu a liberdade religiosa como um "direito civil básico".

O pontífice insistiu em afirmar que a defesa da liberdade religiosa é uma tarefa que nunca acaba e lembrou que mesmo nas sociedades tolerantes os credos minoritários sofrem injustiças, discriminações e preconceitos.

O diálogo entre as diferentes crenças beneficia tanto os indivíduos, quanto a sociedade em seu conjunto: "À medida que nos conhecemos melhor, nos damos conta de que sentimos um apreço por valores éticos reverenciados por todas as pessoas de boa vontade".

O papa destacou que os líderes religiosos têm uma grande responsabilidade ao transmitir à sociedade o necessário respeito pela vida e pela liberdade, assim como facilitar a paz e a justiça e ensinar às crianças a diferença entre o bem e o mal.

O Santo Padre indicou que vivemos momentos históricos nos quais com freqüência se evitam questões profundas como: "Qual é a origem e o destino da humanidade?" ou "Que é o bem e o mal?". Ao longo da história, disse, o ser humano sempre encontrou a resposta a essas dúvidas na fé.

"Os líderes religiosos têm a obrigação especial de colocar essas perguntas profundas no primeiro plano da consciência humana, de voltar a despertar a humanidade perante o mistério da existência humana e conseguir com que haja espaço para a reflexão e a oração em um mundo frenético", afirmou.

Ao encerrar seu discurso, Bento XVI insistiu que os líderes religiosos podem ser instrumentos da paz ao defender a vida e a liberdade de religião no mundo todo.

O Bispo Richard Sklba apresentou ao pontífice, no final do encontro, cinco jovens representantes de diferentes religiões. Eles trabalharam em favor da paz e do diálogo entre os diversos credos em suas respectivas comunidades e entregaram ao pontífice vários símbolos de paz. A seguir, o papa cumprimentou dez líderes religiosos norte-americanos.

Depois, foi a vez de Bento XVI se encontrar com representantes da comunidade judaica e lhes entregar uma Mensagem por ocasião Páscoa, que tem início neste sábado.

ENCONTRO COM A COMUNIDADE JUDAICA

PALAVRAS DO PAPA BENTO XVI

 

Queridos amigos

Transmito uma especial saudação de paz à comunidade judaica dos Estados Unidos e de todo o mundo, no momento em que vos preparais para celebrar a festa anual de Pesah. A minha visita a este país coincide com esta festa e permite-me encontrar-vos pessoalmente e garantir-vos a minha oração enquanto fazeis memória dos sinais e prodígios que Deus realizou para libertar o seu povo eleito. Em virtude da nossa comum herança espiritual, apraz-me entregar-vos esta mensagem como sinal da nossa esperança que se funda no Onipotente e na sua misericórdia.

 

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI
À COMUNIDADE JUDAICA NA FESTA DE PESAH

Mensagem à Comunidade Judaica na Festa de Fixa

A minha vista aos Estados Unidos proporciona-me a ocasião de enviar uma ardente e cordial saudação aos meus irmãos e irmãs judeus desta Nação e do mundo inteiro. Uma saudação que se reveste de maior intensidade espiritual porque está próxima a grande festa de Fixa. «Conservareis a recordação deste dia, comemorando-o com uma solenidade em honra do Senhor: celebrá-la-eis como uma instituição perpétua, de geração em geração» (Êxodo 12, 14). Embora a celebração cristã da Páscoa seja diferente em vários aspectos da vossa celebração de Fixa, nós compreendemo-la e sentimo-la em continuidade com a narração bíblica das grandes obras que o Senhor cumpriu em favor do seu povo.

Por ocasião da vossa celebração mais solene, sinto-me particularmente unido convosco, precisamente por aquilo que os cristãos são convidados pela declaração conciliar “Nostra Ætate a terem sempre presente, ou seja, que «foi por meio desse povo, com o qual Deus Se dignou, na sua inefável misericórdia, estabelecer a antiga Aliança, que [a Igreja] recebeu a revelação do Antigo Testamento e se alimenta da raiz da oliveira mansa, na qual foram enxertados os ramos da oliveira brava, os gentios» (n. 4). Ao dirigir-me a vós, desejo reafirmar a doutrina do Concílio Vaticano II sobre as relações católico-judaicas e reiterar o empenho da Igreja no diálogo que, nos quarenta anos passados, mudou fundamentalmente e melhorou o nosso relacionamento.

Em virtude deste crescimento na confiança e na amizade, cristãos e judeus podem, juntos, experimentar o caráter profundamente espiritual da Páscoa, um memorial (zikkarôn) de liberdade e redenção. Quando anualmente ouvimos a narração da Páscoa, voltamos à noite bendita da libertação. Este tempo santo do ano deveria ser um apelo para ambas as nossas comunidades perseguirem a justiça, a misericórdia, a solidariedade para com o estrangeiro, a viúva e o órfão, como Moisés ordenou: «Recorda-te de que foste escravo no Egito e que o Senhor, teu Deus, te libertou. É por isso que te deu esta ordem» (Deuteronômio 24, 18).

No Sèder da Páscoa, recordais os santos patriarcas Abraão, Isaac e Jacob, e as santas mulheres de Israel, Sara, Rebeca, Raquel e Lia, o início da longa geração de filhos e filhas da Aliança. Com o passar do tempo, a Aliança assume um valor cada vez mais universal, ganhando forma a promessa feita a Abraão: «Abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos… Todas as famílias da terra serão em ti abençoadas» (Gênesis 12, 2-3). De fato, segundo o profeta Isaías, a esperança da redenção estende-se à humanidade inteira: «Virão muitos povos e dirão: “Vinde, subamos à Montanha do Senhor, à Casa do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os seus caminhos, e nós andaremos pelas suas veredas”» (Isaías 2, 3). Neste horizonte escatológico, é oferecida uma real perspectiva de fraternidade universal pela vereda da justiça e da paz, preparando o caminho do Senhor (cf. Isaías 62, 10).

Cristãos e judeus compartilham esta esperança; de fato, como dizem os profetas, nós somos «prisioneiros da esperança» (Zacarias 9, 12). Este vínculo permite-nos, a nós cristãos, celebrar ao vosso lado, embora a modo nosso, a Páscoa da morte e da ressurreição de Cristo, que vemos como que inseparável de vós mesmos, pois o próprio Jesus afirmou: «A salvação vem dos judeus» (João 4, 22). A nossa Páscoa e a vossa Fixa, apesar de distintas e diferentes, unem-nos na esperança comum que está centrada em Deus e na sua misericórdia. Isto incita-nos a cooperar uns com os outros e com todos os homens e mulheres de boa vontade, a fim de fazermos melhor este mundo para todos, à espera do cumprimento das promessas de Deus.

Com respeito e amizade, peço, pois, à Comunidade Judaica que aceite os meus votos de Fixa num espírito de abertura às reais possibilidades de cooperação que se abrem diante de nós, enquanto contemplamos as urgentes necessidades do nosso mundo e olhamos com compaixão para os sofrimentos de milhões de irmãs e irmãos nossos em toda a terra. Naturalmente, a nossa compartilhada esperança de paz no mundo abraça o Médio Oriente e, de modo particular, a Terra Santa. Possa a recordação das misericórdias do Senhor, que judeus e cristãos celebram neste tempo de festa, inspirar a todos os responsáveis pelo futuro daquela região – onde tiveram realmente lugar os acontecimentos ligados à revelação de Deus – renovados esforços e, especialmente, novas atitudes e uma nova purificação dos corações!

No meu coração, repito convosco o salmo do Hallel pascal, invocando abundantes bênçãos divinas sobre vós:

«Louvai o Senhor porque Ele é bom, porque é eterno o seu amor.
Diga-o a Casa de Israel: “É eterno o seu amor” (…).
Digam-nos os fiéis do Senhor: “É eterno o seu amor” (Salmo 118, 1-4).

Do Vaticano, 14 de Abril de 2008.

BENEDICTUS PP. XVI

 

Chegada a New York

Discurso de Santo Padre à Assembléia Geral das Nações Unidas e saudação aos funcionários da ONU

Nova Iorque, 18 abr (Rádio Vaticano) - A viagem apostólica internacional de Bento XVI aos EUA chega hoje a seu quarto dia. O Santo Padre iniciou as suas atividades celebrando esta manhã, de forma privada, às 6h45 locais (7h45 de Brasília), a santa missa na Capela da Nunciatura apostólica, em Washington.

Às 8h locais, o pontífice deixou a Nunciatura transferindo-se para o aeroporto militar da capital estadunidense, de onde partiu _ a bordo do Boeing 777 da Alitalia _ com destino a Nova Iorque, segunda e última etapa de sua primeira viagem aos EUA, a segunda ao continente americano, após a visita ao Brasil, em maio do ano passado.

Às 11h45 de Brasília, Bento XVI chegou à ONU para o esperado encontro na sede do organismo internacional.

Bento XVI foi calorosamente recebido na entrada da ONU _ com o piquete de honra _ pelo secretário-geral, Ban Ki-moon, e pelo presidente da Assembléia Geral, Kerim Srgjan. Após um encontro privado com o secretário-geral, o Santo Padre se dirigiu à sala da Assembléia Geral, onde se encontrou com os representantes das Nações Unidas.

Ao dar as boas-vindas ao Santo Padre, Ban Ki-moon disse que as NN.UU. são "uma instituição laica, com seis línguas oficiais, mas nenhuma religião oficial. Não temos uma capela, mas uma sala de meditação", recordou o secretário-geral citando, todavia, as palavras do próprio papa sobre o terrível desafio da pobreza, sobre a não-proliferação dos armamentos nucleares e sobre o caminho rumo ao desarmamento, ressaltando assim a consonância que existe entre as posições da Santa Sé e as da ONU, que ambas seguem "o princípio segundo o qual aqueles que têm um poder maior não o devem utilizar para violar os direitos humanos de outros e da paz, como respeito pelos direitos de todos".

Ban Ki-moon recordou também o compromisso de Bento XVI em favor do ambiente e de seus apelos em favor do diálogo "entre religiões e culturas". "Santidade _ concluiu _ esses são os objetivos que temos em comum, e somos gratos por suas orações ao tempo em que procedemos em nosso caminho para realizá-los".

O papa se dirigiu ao presidente da Assembléia; Kerim
Srgjan e ao secretário-geral, Ban Ki-moon, agradecendo pelas palavras de boas-vindas e pelo convite a visitar a sede da ONU. Saudou os embaixadores e os diplomatas dos Estados-membros e a todos os presentes: através deles, saudou os povos ali representados.

Logo depois, o papa propôs as suas reflexões sobre a finalidade e a missão da ONU. Elas esperam dessa Instituição _ disse o pontífice _ que leve avante a inspiração que guiou a sua fundação, a de um "centro para a harmonização dos atos das nações no perseguir os fins comuns", a paz e o desenvolvimento (Carta das NN.UU.).

Como o papa João Paulo II disse em 1995, a Organização deveria ser "centro moral, na qual todas as nações do mundo se sintam em sua casa, desenvolvendo a consciência comum de ser, por assim dizer, uma 'família de nações'".

Os princípios fundadores da Organização _ o desejo de paz, a busca da justiça, o respeito pela dignidade da pessoa, a cooperação humanitária e assistência _ expressam as justas aspirações do espírito humano e constituem os ideais que deveriam ser subjacentes às relações internacionais, destacou Bento XVI.

Como os meus predecessores Paulo VI e João Paulo II observaram dessa mesma tribuna, trata-se de temas que a Igreja católica e a Santa Sé acompanham com atenção e com interesse, porque vêem nas atividades dos senhores que problemas e conflitos concernentes à comunidade mundial podem ser sujeitos a uma regulamentação comum.


As NN.UU. encarnam a aspiração a "um grau superior de orientação internacional", inspirado e governado pelo princípio de subsidiariedade, e, portanto, capaz de responder às perguntas da família humana mediante regras internacionais vinculadoras e através de estruturas capazes de harmonizar o cotidiano desdobramento da vida dos povos, frisou o papa.

Isso é ainda mais necessário num tempo em que experimentamos o óbvio paradoxo de um consenso multilateral que continua em crise por causa da sua subordinação às decisões de poucos, ao tempo em que os problemas do mundo exigem intervenções na forma de ação coletiva por parte da comunidade internacional.

O papa ressaltou a necessidade de que todos os responsáveis internacionais ajam conjuntamente e demonstrem uma prontidão a atuar em boa fé, no respeito da lei e na promoção da solidariedade em relação às regiões mais remotas do planeta. Penso de modo particular nos países da África e de outras partes do mundo que permanecem à margem de um autêntico desenvolvimento integral, e por isso correm o risco de experimentar somente os efeitos negativos da globalização.

No contexto das relações internacionais, é necessário reconhecer o papel superior que desempenham as regras e as estruturas intrinsecamente ordenadas a promover o bem comum, e, portanto, a defender a liberdade humana. Tais regras não limitam a liberdade; pelo contrário, a promovem, quando proíbem comportamentos e atos que atuam contra o bem comum, criam obstáculo para o seu efetivo exercício e, por isso, comprometem a dignidade de toda pessoa humana.

Em nome da liberdade deve existir uma correlação entre direitos e deveres, com a qual toda pessoa é chamada a assumir a responsabilidade das próprias escolhas, feitas conseqüentemente ao entrar em relação com os outros.

Outro aspecto importante que o papa ressaltou diz respeito ao modo em que os resultados das descobertas da pesquisa científica e tecnológica foram por vezes aplicados.

Apesar dos enormes benefícios que a humanidade pode adquirir delas, alguns aspectos de tal aplicação representam uma clara violação da ordem da criação, a ponto de não somente contradizer o caráter sagrado da vida, mas a própria pessoa humana e a família serem despojadas de sua identidade natural.

Do mesmo modo _ prosseguiu Bento XVI _ a ação internacional voltada a preservar o ambiente e a proteger as várias formas de vida sobre a terra não deve garantir somente um uso racional da tecnologia e da ciência, mas deve também redescobrir a autêntica imagem da criação. Isso jamais requer uma escolha a ser feita entre ciência e ética: trata-se, sobretudo, de adotar um método científico que seja verdadeiramente respeitoso dos imperativos éticos.

Em seguida, Bento XVI destacou o tema do princípio de subsidiariedade - a ONU – os Estados. "Responsabilidade de proteger". Ajuda por parte da comunidade internacional não significa uma limitação de soberania, exige diálogo e reconciliação _ observou ele. Todo Estado tem o dever primário de proteger a sua população de violações graves e contínuas dos direitos humanos, bem como das conseqüências das crises humanitárias, provocadas tanto pela natureza quanto pelo homem.

Se os Estados não são capazes de garantir análoga proteção, a comunidade internacional deve intervir com os meios jurídicos previstos pela Carta das NN.UU. e por outros instrumentos internacionais. A ação da comunidade internacional e de suas instituições _ suposto o respeito pelos princípios que estão na base da ordem internacional _ jamais deve ser interpretada como uma imposição indesejada e uma limitação de soberania.

Pelo contrário _ observou o Santo Padre _ é a indiferença ou a falta de intervenção que produzem dano real. Aquilo que é necessário é uma busca mais profunda de modos de prevenir e controlar os conflitos, explorando todo possível caminho diplomático e dando atenção e encorajamento aos mais sutis sinais de diálogo ou de desejo de reconciliação.

O princípio da "responsabilidade de proteger" era considerado pelo antigo ius gentium como fundamento de toda ação empreendida pelos governos em relação aos governados: no tempo em que o concerto de Estados nacionais soberanos estava se desenvolvendo, o frei dominicano Francisco de Vitória, justamente considerado precursor da idéia das Nações Unidas _ continuou o pontífice _ havia descrito tais responsabilidades como um aspecto da razão natural partilhada por todas as nações, e como o resultado de uma ordem internacional cuja tarefa era de regular as relações entre os povos.

Outro tema importante do discurso do Santo Padre aos representantes das nações foi o da importância da justa visão da pessoa humana. Ora, como então, tal princípio deve invocar a idéia da pessoa como imagem do Criador, o desejo de uma absoluta e essencial liberdade.

A fundação das NN.UU, como sabemos _ frisou o Santo Padre _ coincide com a profunda rejeição experimentada pela humanidade quando foi abandonada a referência ao significado da transcendência e da razão natural, e conseqüentemente, foram gravemente violadas a liberdade e a dignidade do homem.

Quando isso acontece, são ameaçados os fundamentos objetivos dos valores que inspiram e governam a ordem internacional e são ameaçadas as bases daqueles princípios congênitos e invioláveis formulados e consolidados pelas NN.UU. Quando se está diante de novos e insistentes desafios, é um erro voltar atrás a uma atitude pragmática, limitada a determinar "um terreno comum" mínimo nos conteúdos e frágil em seus efeitos.

A referência à dignidade humana, que é o fundamento e o objetivo da responsabilidade de proteger, nos leva ao tema sobre o qual fomos convidados a concentrar-nos este ano, que marca o 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Reconhecer o fundamento religioso é necessário pela sua universalidade e para salvaguardar os direitos, apesar dos contextos sociopolíticos particulares contrastantes.

O documento foi o resultado de uma convergência de tradições religiosas e culturais, todas motivadas pelo desejo comum de colocar a pessoa humana no centro das instituições, leis e intervenções da sociedade; e de considerar a pessoa humana essencial para o mundo da cultura, da religião e da ciência.

Os direitos humanos são sempre mais apresentados como linguagem comum e substrato ético das relações internacionais. Ao mesmo tempo, a universalidade, a indivisibilidade e a interdependência dos direitos humanos servem todos como garantias para a salvaguarda da dignidade humana.

É evidente, todavia _ observou Bento XVI _ que os direitos reconhecidos e delineados na Declaração se aplicam a cada um em virtude da origem comum da pessoa, a qual permanece sendo o ponto mais alto do desígnio criador de Deus para o mundo e para a história. Tais direitos estão baseados na lei natural inscrita no coração do homem e presente nas diversas culturas e civilizações.

Remover os direitos humanos desse contexto significaria restringir o seu âmbito e ceder a uma concepção relativista, segundo a qual o significado e a interpretação dos direitos poderiam variar e a sua universalidade seria negada em nome de contextos culturais, políticos, sociais e até mesmo religiosos diferentes. Todavia _ continuou o papa _ não se deve permitir que tal ampla variedade de pontos de vista obscureça o fato de que não somente os direitos são universais, mas o é também a pessoa humana, sujeito desses direitos.

A vida da comunidade, em nível tanto nacional quanto internacional, mostra claramente que o respeito pelos direitos e as garantias que lhe são próprias são medidas do bem comum que servem para avaliar a relação entre justiça e injustiça, desenvolvimento e pobreza, segurança e conflito.

A promoção dos direitos humanos permanece sendo a estratégia mais eficaz para eliminar as desigualdades entre países e grupos sociais, bem como para um aumento da segurança... o bem comum que os direitos humanos ajudam a alcançar não se pode realizar simplesmente com a aplicação de procedimentos corretos e nem mesmo diante de um simples equilíbrio entre direitos contrastantes _ observou o pontífice.

O mérito da Declaração Universal é o de ter permitido a diferentes culturas, expressões jurídicas e modelos institucionais, de convergir em torno de um núcleo fundamental de valores e, portanto, de direitos.

Bento XVI prosseguiu dizendo que hoje, porém, é necessário redobrar os esforços diante das pressões a reinterpretar os fundamentos da Declaração e de comprometer a sua unidade íntima, de modo a facilitar um distanciamento da proteção da dignidade humana para satisfazer simples interesses, muitas vezes interesses particulares.

A Declaração foi adotada como "concepção comum a ser perseguida" (preâmbulo) e não pode ser aplicada por partes separadas, segundo tendências ou escolhas seletivas que correm simplesmente o risco de contradizer a unidade da pessoa humana e por isso a indivisibilidade dos direitos humanos.

A experiência nos ensina que muitas vezes a legalidade prevalece sobre a justiça quando a insistência sobre os direitos humanos os faz aparecer como o exclusivo resultado de providências legislativas ou de decisões normativas tomadas pelas várias agências daqueles que estão no poder.

Quando são apresentados simplesmente em termos de legalidade, os direitos correm o risco de se tornar frágeis proposições separadas da dimensão ética e racional, que é o seu fundamento e finalidade.

Pelo contrário _ observou ainda _ a Declaração Universal reforçou a convicção de que o respeito pelos direitos humanos está radicado principalmente na justiça que não muda, na qual se baseia também a força vinculadora das proclamações internacionais. Tal aspecto é muitas vezes não observado quando se tenta privar os direitos da sua verdadeira função em nome de uma estéril perspectiva utilitarista.

Bento XVI ressaltou os novos desafios: O discernimento, isto é, a capacidade de distinguir o bem do mal, se torna ainda mais essencial no contexto de exigências que dizem respeito às próprias vidas e aos comportamentos das pessoas, das comunidades e dos povos...

O discernimento mostra como confiar de modo exclusivo aos Estados singularmente considerados, com as suas leis e instituições, a responsabilidade última de ir ao encontro das aspirações de pessoas, comunidades e povos inteiros pode por vezes ter conseqüências que excluem a possibilidade de uma ordem social respeitosa da dignidade e dos direitos da pessoa.

As NN.UU. _ disse o Santo Padre _ podem contar com os resultados do diálogo entre religiões e usufruir da disponibilidade dos fiéis a colocar as suas experiências a serviço do bem comum. A sua tarefa é a de propor uma visão da fé não em termos de intolerância, de discriminação e de conflito, mas em termos de respeito total da verdade, da consciência, dos direitos e da reconciliação.

Obviamente, os direitos humanos devem incluir o direito de liberdade religiosa, inclusive como expressão de uma dimensão que é, ao mesmo tempo, individual e comunitária, uma visão que manifesta a unidade da pessoa, embora distinguindo claramente entre a dimensão de cidadão e a de fiel.

O Santo Padre concluiu seu denso discurso afirmando que as NN.UU. permanecem sendo um lugar privilegiado no qual a Igreja está comprometida a levar a sua experiência "em humanidade", desenvolvida ao longo dos séculos entre povos de toda raça e cultura, e a colocá-la à disposição de todos os membros da comunidade internacional. Ademais, essa experiência e atividade _ voltada a obter a liberdade para todo fiel _ busca aumentar a proteção oferecida aos direitos da pessoa.

ENCONTRO COM OS FUNCIONÁRIOS
DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Nova Iorque
Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

 

Senhoras e Senhores

Aqui, num pequeno espaço no meio da agitada cidade de Nova Iorque, está situada uma Organização com uma missão vasta como o mundo, de promover a paz e a justiça. Vem-me ao pensamento um contraste análogo, em termos de tamanho, entre o Estado da Cidade do Vaticano e o mundo, em que a Igreja exerce a sua missão universal e o seu apostolado. Os artistas do século XVI, que pintaram os mapas geográficos nas paredes do Palácio Apostólico recordaram aos Papas a vasta extensão do mundo conhecido. Naqueles afrescos oferecia-se aos Sucessores de Pedro um sinal tangível do imenso raio de ação da missão da Igreja num tempo em que a descoberta do Novo Mundo estava a abrir horizontes imprevistos. Aqui, neste Palácio de Vidro, a arte em exposição tem o seu próprio modo de evocar na nossa memória as responsabilidades da Organização das Nações Unidas. Vemos imagens dos efeitos da guerra e da pobreza, é-nos recordado o dever de nos comprometermos em prol de um mundo melhor e sentimos alegria pela genuína multiplicidade e exuberância da cultura humana, manifestada nesta vasta gama de povos e nações reunidos sob a proteção da comunidade internacional.

Na ocasião da minha visita, desejo prestar homenagem à incalculável contribuição dada pelos funcionários administrativos e pelos numerosos empregados das Nações Unidas, que desempenham as suas tarefas todos os dias com tão grande dedicação e profissionalidade aqui em Nova Iorque, noutros centros da ONU e em missões particulares no mundo inteiro. A vós e a quem vos precedeu, gostaria de expressar o meu apreço pessoal e de toda a Igreja católica. Recordamos especialmente os numerosos civis e guardiães da paz que sacrificaram a sua vida na primeira linha pelo bem dos povos que servem quarenta e dois deles somente em 2007. Recordamos também a grande multidão de quantos dedicam a sua vida a trabalhos nunca suficientemente reconhecidos, levados a cabo não raro em condições difíceis. A todos vós tradutores, secretários, pessoal administrativo de todos os tipos, equipes de manutenção e de segurança, agentes em favor do desenvolvimento, guardiães da paz e muitos outros o meu mais sincero agradecimento. O trabalho por vós realizado torna a Organização capaz de uma contínua busca de caminhos para alcançar os objetivos para os quais foi fundada.

Das Nações Unidas fala-se frequentemente como da "família das nações". Do mesmo modo, poder-se-ia descrever a sede central aqui em Nova Iorque como um lar, um lugar de hospitalidade e de solicitude pelo bem dos membros da família em toda a parte. É um lugar excelente, onde promover o aumento da compreensão e da colaboração entre os povos. Justamente, os funcionários das Nações Unidas são escolhidos de uma vasta gama de culturas e nacionalidades. O pessoal aqui constitui um microcosmos do mundo inteiro, onde cada pessoa oferece uma contribuição indispensável sob o ponto de vista do seu particular patrimônio cultural e religioso. Os ideais que inspiraram os fundadores desta instituição devem expressar-se, aqui e em cada uma das missões da Organização, no respeito e na aceitação recíprocos, que são os sinais distintivos de uma família próspera.

Nos debates internos das Nações Unidas, é dada uma crescente importância à "responsabilidade de proteger". Com efeito, ela começa a ser reconhecida como a base moral para o direito de um governo de exercer a autoridade. É também uma característica que, por natureza, pertence à família, onde os membros mais fortes cuidam dos mais frágeis. Esta Organização, atenta a que medida os governos correspondem à sua responsabilidade de tutelar os seus cidadãos, presta um serviço importante em nome da comunidade internacional. A nível do dia-a-dia, sois vós que, mediante a consideração que demonstrais uns pelos outros no lugar de trabalho e mediante a vossa solicitude pelos numerosos povos cujas necessidades e aspirações vós servis com tudo aquilo que realizais, lançais os fundamentos sobre os quais se edifica este trabalho.

A Igreja católica, por meio da atividade internacional da Santa Sé e através das numerosas atividades de católicos leigos, Igrejas locais e comunidades religiosas garante-vos o seu sustento para o vosso trabalho. Asseguro-vos uma especial recordação para vós e para os vossos familiares nas minhas orações. Queira Deus Todo-Poderoso abençoar-vos sempre e confortar-vos com a sua graça e a sua paz a fim de que, mediante a atenção que ofereceis a toda a família humana, possais continuar a servi-lo. Obrigado!

 

 

ENCONTRO COM OS REPRESENTANTES
DA COMUNIDADE JUDAICA

PALAVRAS DO PAPA BENTO XVI

Sinagoga do Park East, New York
Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

 

Prezados amigos

Shalom! Foi com grande alegria que vim aqui, a poucas horas do início da celebração da vossa Pesah, para expressar o meu respeito e a minha estima à comunidade judaica de Nova Iorque. A proximidade deste lugar de culto da minha residência oferece-me hoje a oportunidade para vos saudar. Considero emocionante o pensamento que Jesus, quando era jovem, ouviu as palavras da Escritura e rezou num lugar como este. Agradeço ao Rabino Schneier as suas palavras de boas-vindas e em particular estou grato pelo vosso amável dom, as flores de Primavera e o delicioso cântico que as crianças executaram em minha honra. Sei bem que a comunidade judaica ofereceu uma contribuição válida para a vida da cidade, e encorajo-vos todos a continuar a construir pontes de amizade com todos os numerosos e diversos grupos étnicos e religiosos que vivem perto de vós. Asseguro-vos de modo especial a minha proximidade neste momento, em que vos preparais para celebrar as grandes gestas do Onipotente e para cantar os louvores daquele que realizou tais prodígios para o seu povo. Peço a todos vós que transmitais as minhas saudações aos membros da comunidade judaica. Bendito seja o nome do Senhor!

PAPA VISITA SINAGOGA EM NY E SAÚDA JUDEUS POR OCASIÃO DO 'PESSACH'

Cidade do Vaticano, 19 abr (Rádio Vaticano) - O papa fez ontem uma visita à sinagoga Park East, no coração de Manhattan.

Construída em 1889 a partir de um projeto de dois arquitetos de origem alemã, o templo é um dos lugares históricos da cidade. O rabino da sinagoga, Arthur Schneider, é um austríaco sobrevivente do Holocausto, que vive nos EUA desde 1947. Ele é o fundador e presidente da ONG "Apelo à Consciência", e propaga que a Cruz, a Meia-Lua e a Estrela de Davi devem ser símbolos de paz, tolerância e respeito mútuo.

Ontem foi a véspera do Pessach, a Páscoa judaica, celebrada neste final de semana. Nesse contexto, a visita papal foi qualificada como "simbolicamente muito importante" por dirigentes da comunidade.

Bento XVI chegou às 17h20 (18h20 de Brasília) e assim saudou os presentes: "Shalom! Vim aqui com grande alegria, poucas horas antes do início da celebração do Pessach, para expressar meu respeito e estima pela comunidade judaica de Nova York. Sempre lembrarei esse momento".

O Sumo Pontífice foi recebido com o canto Shalom (paz) e se uniu ao rabino Arthur Schneier, que comentou que a visita papal "é uma ocasião histórica que será recordada para sempre", acrescentando que sua presença "nos dá esperança para o caminho que ainda devemos percorrer juntos".

A visita, que durou cerca de vinte minutos, transcorreu em um clima emocionado e, às vezes, descontraído, dando inclusive lugar a algumas brincadeiras e risadas.

O papa recebeu dois presentes ligados à tradição da Páscoa judaica: um prato trabalhado, chamado keará, parte do ritual da ceia pascoal (seder), e um pacote de matzá (pão ázimo). "Vou comê-lo amanhã à noite", disse Bento XVI.

Num gesto inesperado e surpreendente, uma mulher se inclinou e beijou a mão do pontífice. "É tocante imaginar que, quando jovem, Jesus ouvia as palavras da Escritura e rezava num lugar como este", declarou o papa.

 

ENCONTRO ECUMÊNICO

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Igreja de São José, Nova Iorque
Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

 

Estimados irmãos e irmãs em Cristo

O meu coração está repleto de gratidão a Deus "Pai de todos, que reina sobre todos, age por todos e permanece em todos" (Ef 4, 6) por esta feliz oportunidade de me encontrar esta tarde em oração convosco. Agradeço ao Bispo D. Dennis Sullivan a sua cordial saudação de boas-vindas e, com afeto, saúdo todos os presentes em representação das comunidades cristãs espalhadas pelos Estados Unidos. A paz do nosso Senhor e Salvador esteja com todos vós!

Através de vós, tenciono expressar o meu sincero apreço pela inestimável obra de todos aqueles que estão comprometidos no ecumenismo: o National Council of Churches, o Christian Churches Together, o Catholic Bishops's Secretariat for Ecumenical and Interreligious Affairs, além de muitos outros. A contribuição oferecida ao movimento ecumênico pelos cristãos dos Estados Unidos é sentida no mundo inteiro. Encorajo todos vós a perseverar, confiando sempre na graça de Cristo ressuscitado, que nos esforçamos por servir para obter "a obediência da fé... para glória do seu nome" (cf. Rm 1, 5).

Acabamos de ouvir o trecho da Escritura em que Paulo o "prisioneiro do Senhor" formula o seu urgente apelo aos membros da comunidade cristã de Éfeso. "Exorto-vos, pois escreve a que procedais de um modo digno do chamamento que recebestes... para manter a unidade do Espírito, mediante o vínculo da paz" (Ef 4, 1-3). Em seguida, no final do seu apaixonado apelo à unidade, Paulo recorda aos seus leitores que Jesus, uma vez que subiu ao Céu, derramou sobre todos os homens os dons necessários para a edificação do Corpo de Cristo (cf. Ef 4, 11-13).

Hoje a exortação de Paulo não ressoa com menor força. As suas palavras infundem em nós a certeza de que o Senhor jamais nos abandonará na nossa busca da unidade. Convidam-nos, outrossim, a viver de modo a dar testemunho daquele "um só coração e uma só alma" (Act 4, 32), que foi sempre característica da koinonia cristã (cf. Act 2, 42) e a força que atrai quantos estão fora para entrarem a fazer parte da comunidade dos crentes, de modo que também eles possam compartilhar as "insondáveis riquezas de Cristo" (Ef 3, 8).

A globalização pôs a humanidade entre dois extremos. Por um lado, o crescente sentido de inter-relação e interdependência entre os povos, mesmo quando falando em termos geográficos e culturais estão distantes entre si. Esta nova situação oferece a possibilidade de melhorar o sentido da solidariedade global e da partilha das responsabilidades pelo bem da humanidade. Por outro lado, não se pode negar que as rápidas mudanças que se verificam no mundo apresentam, também elas, alguns sinais inquietantes de fragmentação e de fechamento no individualismo. Paradoxalmente, o uso cada vez mais difundido da eletrônica no mundo das comunicações provocou um aumento do isolamento. Por esta razão, muitos inclusive os jovens procuram formas mais autênticas de comunidade. É também fonte de grave preocupação a difusão da ideologia secularista que ameaça e até rejeita a verdade transcendente. A própria possibilidade de uma revelação divina e, por conseguinte, da fé cristã, é muitas vezes posta em discussão por modas de pensamento amplamente presentes nos ambientes universitários, nos mass media e na opinião pública. Por estes motivos, é necessário como nunca um testemunho fiel do Evangelho. Pede-se aos cristãos que digam claramente a razão da sua esperança (cf. 1 Pd 3, 15).

Com demasiada frequência os não-cristãos, que observam a fragmentação das comunidades cristãs, justamente permanecem confundidos a propósito da própria mensagem do Evangelho. Às vezes, credos e comportamentos cristãos fundamentais são modificados no seio das comunidades, por chamadas "ações proféticas" fundadas numa hermenêutica nem sempre em sintonia com os dados da Escritura e da Tradição. Por conseguinte, as comunidades renunciam a agir como um corpo unido e, ao contrário, preferem agir segundo o princípio das "opções locais". Neste processo, perde-se num certo sentido a necessidade de uma koinonia diacrônica a comunhão com a Igreja em todos os tempos precisamente no momento em que o mundo perdeu a orientação e tem necessidade de testemunhos comuns e convincentes do poder salvífico do Evangelho (cf. Rm 1, 18-23).

Diante destas dificuldades, em primeiro lugar temos que recordar que a unidade da Igreja deriva da perfeita unidade da Trindade. O Evangelho de João diz-nos que Jesus pediu ao Pai que os seus discípulos fossem um só, "como Tu... estás em mim e Eu em ti" (cf. Jo 17, 21). Este trecho reflete a firme convicção da comunidade cristã das origens, que a sua unidade era fruto e reflexo da unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Isto, por sua vez, demonstra que a coesão recíproca dos fiéis estava fundada na plena integridade da confissão do seu credo (cf. 1 Tm 1, 3-11). Em todo o Novo Testamento, nós vemos que os Apóstolos foram repetidamente chamados a dizer a razão da sua fé, tanto aos gentios (cf. Act 17, 16-34) como aos judeus (cf. Act 4, 5-22; 5, 27-42). O núcleo central da sua argumentação foi sempre o fato histórico do Senhor ter ressuscitado do túmulo (cf. Act 2, 24.32; 3, 15; 4, 10; 5, 30; 10, 40; 13, 30). A eficácia última da sua pregação não dependia de "palavras doutas" ou da "sabedoria humana" (1 Cor 2, 13), mas sobretudo da ação do Espírito (cf. Ef 3, 5), que confirmava o testemunho eficaz dos Apóstolos (cf. 1 Cor 15, 1-11). O núcleo da pregação de Paulo e da Igreja das origens era unicamente Jesus Cristo, e "Ele crucificado" (1 Cor 2, 2). E esta proclamação tinha que ser garantida pela pureza da doutrina normativa, expressa nas fórmulas de fé os símbolos que definiam a essência da fé cristã e constituíam o fundamento da unidade dos batizados (cf. 1 Cor 15, 3-5; Gl 1, 6-9; Unitatis redintegratio, 2).

Meus caros amigos, a força do querigma nada perdeu do seu dinamismo interior. Não obstante, temos que perguntar se o seu pleno vigor não foi atenuado por uma abordagem relativista da doutrina cristã, semelhante àquela que encontramos nas ideologias secularizadas que, com a afirmação de que somente a ciência é "objetiva", relegam completamente a religião para o campo subjetivo do sentimento do indivíduo. Sem dúvida, as descobertas científicas e as suas realizações através do engenho humano oferecem à humanidade novas possibilidades de melhoramento. Todavia, isto não significa que o "conhecível" se limita àquilo que é empiricamente verificável, nem que a religião está confinada no reino mutável da "experiência pessoal".

A aceitação desta linha de pensamente errônea levaria os cristãos a concluir que na apresentação da fé cristã não é necessário salientar a verdade objetiva, porque não se deve seguir a própria consciência e escolher a comunidade que melhor encontra os próprios gostos pessoais. O resultado pode ser encontrado na contínua proliferação das comunidades que muitas vezes evitam estruturas institucionais e minimizam a importância do conteúdo doutrinal para a vida cristã.

Também no interior do movimento ecumênico os cristãos podem mostrar-se relutantes a afirmar o papel da doutrina, com medo que ele possa somente exacerbar, em vez de curar as feridas da divisão. Apesar disto, um testemunho claro e convincente da salvação, realizada em nosso benefício em Jesus Cristo, deve fundamentar-se na noção de um ensinamento apostólico normativo um ensinamento que realmente realça a palavra inspirada de Deus e sustém a vida sacramental dos cristãos de hoje.

Somente "permanecendo firmes" ao ensinamento seguro (cf. 2 Ts 2, 15), conseguiremos responder aos desafios que somos chamados a enfrentar num mundo que se transforma. Só assim daremos um testemunho firme da verdade do Evangelho e do seu ensinamento moral. Esta é a mensagem que o mundo espera ouvir de nós. Assim como os primeiros cristãos, temos a responsabilidade de dar um testemunho transparente das "razões da nossa esperança", de modo que os olhos de todos os homens de boa vontade possam abrir-se para ver que Deus manifestou o seu rosto (cf. 2 Cor 3, 12-18) e nos permitiu aceder à sua vida divina através de Jesus Cristo. Só Ele é a nossa esperança! Deus revelou o seu amor por todos os povos mediante o mistério da paixão e morte do seu Filho, e chamou-nos para proclamar que verdadeiramente ressuscitou, está sentado à direita do Pai e "voltará na glória, para julgar os vivos e os mortos" (Credo niceno).

Possa a Palavra de Deus, que esta tarde ouvimos, inflamar de esperança os nossos corações no caminho da unidade (cf. Lc 24, 32). Possa este encontro de oração ser um exemplo da centralidade da oração no movimento ecumênico (cf. Unitatis redintegratio, 8), pois sem oração, as estruturas, as instituições e os programas ecumênicos seriam desprovidos do seu coração e da sua alma. Agradeçamos a Deus pelos progressos alcançados através da ação do Espírito, e reconheçamos com gratidão os sacrifícios espirituais realizados por muitas das pessoas aqui presentes e por quantos nos precederam.

Seguindo os seus passos e depositando a nossa confiança somente em Deus, estou convicto de que fazendo minhas as palavras do Padre Paul Wattson alcançaremos aquela "unidade de esperança, de fé e de amor", a única que pode convencer o mundo que Jesus Cristo é o Enviado do Pai para a salvação de todos.

Muito obrigado!

EM ENCONTRO COM REPRESENTANTES CRISTÃOS, PAPA ALERTA PARA O ISOLAMENTO DOS JOVENS

Cidade do Vaticano, 19 abr (Rádio Vaticano) - No final da tarde de ontem, após a visita à sinagoga, o papa se dirigiu à Igreja de São José, para o encontro, simples, mas caloroso, com representantes de dez confissões cristãs. A intenção do pontífice era expressar seu apreço aos organismos ecumênicos norte-americanos pelo inestimável testemunho de fidelidade evangélica que propagam no mundo inteiro.

O papa aproveitou também a ocasião para fazer uma breve análise da globalização, da qual destacou seus lados positivos, como a aproximação dos povos e a melhoria do sentido da solidariedade global. Por outra parte, denunciou que a globalização causou fragmentação e individualismo e afirmou que o uso cada vez mais difuso da eletrônica no mundo das comunicações gerou paradoxalmente um aumento do isolamento.

"Num mundo sempre mais globalizado, o testemunho de unidade da comunidade cristã, em seu característico ser 'um só coração e uma só alma', deveria ter uma grande força de atração", disse.

"Todavia, freqüentemente nossas comunidades estão divididas; crenças e comportamentos fundamentais são modificados. Renuncia-se a agir como corpo unido, perde-se a comunhão com a Igreja de todos os tempos, justamente no momento em que o mundo perde a orientação e precisa de testemunhos comuns e convincentes do poder salvífico do Evangelho", alertou o pontífice.

Em seguida, o Santo Padre criticou a proliferação de comunidades religiosas e a difusão da ideologia secularizante que, segundo disse, rejeita qualquer tipo de verdade transcendente.

Referindo-se a esses fenômenos, Bento XVI advertiu que existe uma tendência a escolher a comunidade religiosa que mais combina com os gostos pessoais, comunidades que com freqüência evitam as estruturas institucionais.

"A própria possibilidade de uma revelação divina e, por conseguinte, da fé cristã, é freqüentemente colocada em discussão por modas e correntes de pensamento amplamente presentes nas universidades, na mídia e na opinião pública", disse.

Após o encontro, o papa foi para a residência do observador permanente da Santa Sé na ONU, Dom Celestino Migliore, que o está hospedando em sua permanência em Nova York. Lá, estava programado um jantar com os cardeais estadunidenses, a cúpula da Conferência Episcopal e os membros da comitiva papal.

BENTO XVI ENCONTRA FILHA DE MARTIN LUTHER KING

Cidade do Vaticano, 19 abr (Rádio Vaticano) – No encontro ecumênico de ontem na igreja de São José, em Nova York, Bento XVI se encontrou com a filha de Martin Luther King. Foi uma conversa breve com Bernice King, uma das filhas do líder do movimento americano pelos direitos civis. No dia 4 de abril, em todo o mundo, foram recordados os 40 anos do assassinato do reverendo.

Bernice contou que o papa a abençoou e, depois, os dois conversaram. Mas, segundo ela, "aquilo que nós falamos é uma coisa particular". Ela é uma expoente da Igreja Batista Missionária do Novo Nascimento em Lithonia, na Geórgia.

Segunda filha de Martin com Coretta Scott King, Bernice era uma das líderes de várias denominações cristãs que participaram com o papa da cerimônia ecumênica na igreja de São José. Ela lembrou, entre outras coisas, que os seus pais tiveram contatos com outros dois pontífices.

Martin Luther King morreu aos 39 anos de idade em Memphis, no Tennessee, vítima de assassinato na sacada do hotel onde estava hospedado. Em 1964, o ativista negro se tornou a pessoa mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz.

Cidade do Vaticano, 19 abr (Rádio Vaticano) – No penúltimo dia da viagem apostólica internacional do Santo Padre aos EUA, onde se encontra deste a última terça-feira, dia 15. Recordamos que esta é a oitava viagem apostólica de Bento XVI, a segunda ao continente americano _ após a visita ao Brasil em maio do ano passado _ e a primeira aos EUA. A visita tem como tema "Cristo, nossa esperança". Neste sábado, 19 de abril, segundo dia do papa em Nova Iorque _ segunda etapa de sua visita em terras estadunidenses _ Bento XVI festejou seu terceiro aniversário de eleição à Cátedra de Pedro.

Após a intensa jornada de ontem, sexta-feira, marcada por diversos compromissos, entre os quais a histórica visita à sede da ONU, esta manhã, às 8h45 locais (9h45 de Brasília), o Santo Padre deixou a residência do Observador Permanente da Santa Sé na ONU, Dom Celestino Migliore _ que o hospeda nestes dias de sua permanência em Nova Iorque _ transferindo-se, de papamóvel, para a Catedral de São Patrício, onde presidiu a santa missa.

Ao chegar à catedral, em clima de festa, o pontífice foi calorosamente acolhido, entre outros, pelo arcebispo de Nova Iorque, Cardeal Edward Egan, e pelo prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg.

A santa missa teve a participação de milhares de fiéis, sacerdotes, religiosos e religiosas. Presidida pelo Santo Padre, os concelebrantes principais foram o cardeal-arcebispo de Nova Iorque, Edward Egan, e o cardeal secretário de Estado, Tarcisio Bertone. A celebração foi dedicada ao clero e aos religiosos, representando as dioceses da Costa Leste, no terceiro aniversário de eleição a Sumo Pontífice de Bento XVI.

A homilia da celebração foi uma mensagem de fé apostólica, que provém do Cenáculo da Ressurreição. O Santo Padre iniciou a homilia saudando "com grande afeto no Senhor" todos aqueles que representam os bispos, os sacerdotes e os diáconos, os homens e as mulheres de vida consagrada e os seminaristas dos EUA.

De fato, o papa recordou os bispos, os sacerdotes, os religiosos: vocês foram eleitos pelo Senhor, responderam a Seu chamado e dedicam suas vidas à busca da santidade, à difusão do Evangelho e à edificação da Igreja na fé, na esperança e no amor.

"Ao tempo em que agradecemos pelas bênçãos do passado e consideramos os desafios do futuro, queremos implorar a Deus a graça de um novo Pentecostes para a Igreja na América" _ disse o Santo Padre.

Em seguida, o pontífice recordou que a Igreja é chamada a proclamar o dom da vida, a proteger a vida e a promover uma cultura da vida. "A proclamação da vida, da vida em abundância _ continuou _ deve ser o coração da nova evangelização. Porque a verdadeira vida _ a nossa salvação _ pode ser encontrada somente na reconciliação, na liberdade e no amor que são dons de Deus.

No contexto das necessidades mais urgentes da sociedade, o Santo Padre citou que somos chamados a anunciar e a encarnar a mensagem de esperança num mundo no qual o egocentrismo, a avidez, a violência e o cinismo tão freqüentes parecem sufocar o frágil crescimento no coração das pessoas.

"Talvez tenhamos perdido de vista que numa sociedade na qual a Igreja para muitos parece ser legalista e 'institucional', o nosso desafio mais urgente é o de comunicar a alegria que nasce da fé e a experiência do amor de Deus."

Em seguida, em sua homilia dirigida ao clero e aos religiosos _ aos quais a missa foi dedicada _ Bento XVI falou do significado de alguns aspectos da Catedral de São Patrício para se "entender melhor os pontos cruciais da nossa vocação dentro da unidade do Corpo místico".

O primeiro aspecto _ destacou o papa _ diz respeito às janelas com vitrais com representações artísticas que inundam o ambiente interno de uma luz mística. Vistas de fora, tais janelas se mostram escuras, pesadas, até mesmo tristes. Mas quando se entra na igreja, elas improvisamente tomam vida; refletem a luz que as atravessa revelando todo o seu esplendor.

É somente a partir de dentro, da experiência de fé e de vida eclesial _ continuou _ que vemos a Igreja assim como verdadeiramente é: inundada de graça, esplendente de beleza, adornada pelos multíplices dons do Espírito.

Conseqüentemente _ observou _ nós, que vivemos a vida de graça na comunhão da Igreja, somos chamados a atrair todas as pessoas para dentro desse mistério de luz.

Não é uma tarefa fácil num mundo que pode ser propenso a olhar para a Igreja _ como aquelas janelas historiadas _ "a partir de fora": um mundo que sente profundamente uma necessidade de espiritualidade, mas acha difícil "entrar no mistério" da Igreja.

"Também para alguns de nós de dentro, a luz da fé pode ser atenuada pela rotina e o esplendor da Igreja pode ser ofuscado pelos pecados e pelas fraquezas de seus membros. O ofuscamento pode derivar também dos obstáculos encontrados numa sociedade que por vezes parece ter esquecido Deus e que se irrita diante das exigências mais elementares da moral cristã."

Em seguida, na moldura da complexa, mas harmoniosa estrutura arquitetônica da catedral, o papa dirigiu seu olhar para a situação interna da Igreja.

Uma das grandes desilusões após o Concílio Vaticano II, com a sua exortação a um maior compromisso na missão da Igreja pelo mundo, creio _ observou Bento XVI_ foi para todos nós a experiência de divisão entre grupos diversos, gerações diferentes e membros diferentes da própria família religiosa. Podemos seguir adiante somente se juntos fixarmos o nosso olhar em Cristo!

Desse modo seguiremos juntos rumo à verdadeira renovação espiritual que o Concílio Vaticano II queria, uma renovação que, somente ela, pode reforçar a Igreja na santidade e na unidade indispensáveis para a proclamação eficaz do Evangelho no mundo de hoje.

Diante da nossa necessidade de uma perspectiva fundada na fé e de unidade e colaboração no trabalho da edificação da Igreja, o pontífice retornou aos fatos do abuso sexual que causaram tanto sofrimento.

"Desejo simplesmente assegurar aos senhores, caros sacerdotes e religiosos, a minha proximidade espiritual, ao tempo em que buscam responder com esperança cristã aos contínuos desafios apresentados por essa situação. Uno-me aos senhores rezando a fim de que este seja um tempo de purificação para cada um e para toda Igreja particular e comunidade religiosa, seja um tempo de cura."

Ademais _ prosseguiu ele _ encorajo os senhores a colaborarem com os seus bispos que continuam trabalhando eficazmente para resolver esse problema. Que o Senhor Jesus Cristo conceda à Igreja na América um renovado sentido de unidade e de decisão, ao tempo em que todos _ bispos, clero, religiosos, religiosas e leigos _ caminham na esperança e no amor recíproco e para a verdade.

O Santo Padre concluiu a sua homilia fazendo uma premente exortação:

"Em conformidade com as tradições mais nobres da Igreja neste país, sejam também os primeiros amigos do pobre, do refugiado, do estrangeiro, do doente e de todos os que sofrem."

No final da missa, o cardeal secretário de Estado, Tarcisio Bertone, fez uma breve saudação de felicitações a Bento XVI pelo terceiro aniversário de sua eleição a Sumo Pontífice.

MISSA VOTIVA PELA IGREJA UNIVERSAL

HOMILIA DE SUA SANTIDADE BENTO XVI

Catedral de St. Patrick, New York

Sábado, 19 de abril de 2008

Queridos irmãos e irmãs em Cristo!

É com grande afeto no Senhor que saúdo todos vós que representais os bispos, os sacerdotes e os diáconos, os homens e as mulheres de vida consagrada e os seminaristas dos Estados Unidos. Agradeço ao Cardeal Egan as cordiais boas-vindas e os bons votos que expressou em vosso nome para este início do quarto ano do meu Pontificado. Estou feliz por celebrar esta Missa convosco que fostes escolhidos pelo Senhor, respondestes ao seu chamamento e dedicais a vossa vida à busca da santidade, à difusão do Evangelho e à edificação da Igreja na fé, na esperança e no amor.
Congregados nesta histórica Catedral, como não pensar nos inúmeros homens e mulheres que nos precederam, que trabalharam para o crescimento da Igreja nos Estados Unidos, deixando-nos um duradouro patrimônio de fé e de boas obras? Na primeira leitura de hoje, vimos como os Apóstolos, na força do Espírito Santo, saíram do Cenáculo para anunciar as grandes obras de Deus a pessoas de todas as nações e línguas. Neste país, a missão da Igreja incluiu sempre a atração de pessoas "provenientes de todas as nações que há debaixo do céu" (Act 2, 5) para uma unidade espiritual, enriquecendo o Corpo de Cristo com a multiplicidade dos seus dons. Enquanto damos graças por estas preciosas bênçãos do passado e consideramos os desafios do futuro, queremos implorar de Deus a graça de um novo Pentecostes para a Igreja que está na América. Possam descer sobre todos os presentes, como que línguas de fogo, fundindo o amor ardente a Deus e ao próximo com o zelo pela propagação do Reino de Deus!

Na segunda leitura da manhã de hoje, São Paulo recorda-nos que a unidade espiritual aquela unidade que reconcilia e enriquece a diversidade encontra a sua origem e o seu modelo supremo na vida do Deus uno e trino. Como comunhão de amor puro e liberdade infinita, a Santíssima Trindade faz nascer incessantemente a vida nova na obra de criação e redenção. Como "povo congregado na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (cf. Lumen gentium, 4), a Igreja é chamada a proclamar o dom da vida, a salvaguardar a vida e a promover uma cultura da vida. Aqui, nesta Catedral, o nosso pensamento dirige-se naturalmente ao testemunho heróico pelo Evangelho da vida, oferecido pelos saudosos Cardeais Cooke e O'Connor. A proclamação da vida, da vida em abundância, deve ser o coração da nova evangelização. Dado que a verdadeira vida a nossa salvação só pode ser encontrada na reconciliação, na liberdade e no amor, que constituem dons gratuitos de Deus.

Esta é a mensagem de esperança que somos chamados a anunciar e a encarnar num mundo em que o egocentrismo, a avidez, a violência e o cinismo tão frequentemente parecem sufocar o frágil crescimento da graça no coração das pessoas. Com grande perspicácia, Santo Irineu compreendeu que a exortação de Moisés ao povo de Israel:  "Escolhe a vida!" (Dt 30, 19) era a razão mais profunda para a nossa obediência a todos os mandamentos de Deus (cf. Adv. Haer. IV, 16, 2-5). Talvez tenhamos perdido de vista que numa sociedade na qual muitos consideram a Igreja legalista e "institucional", o nosso desafio mais urgente é comunicar a alegria que nasce da fé e a experiência do amor de Deus.

Sinto-me particularmente feliz por nos termos reunido na Catedral de São Patrício. Talvez mais do que qualquer outra igreja nos Estados Unidos, este lugar é conhecido e amado como "uma casa de oração para todos os povos" (cf. Is 56, 7; Mc 11, 17). Todos os dias, milhares de homens, mulheres e crianças entram pelas suas portas e, dentro das suas paredes, encontram a paz. O Arcebispo John Hughes que como no-lo recordou o Cardeal Egan foi o promotor da construção deste venerável edifício, desejou erigi-lo em puro estilo gótico. Ele queria que esta Catedral recordasse à jovem Igreja na América a grande tradição espiritual da qual era herdeira, e que a inspirasse a contribuir com a melhor parte deste patrimônio para a edificação do Corpo de Cristo neste país. Gostaria de chamar a vossa atenção para determinados aspectos desta linda estrutura, a qual poderia servir como ponto de partida para uma reflexão sobre as nossas particulares vocações no interior da unidade do Corpo místico.

O primeiro aspecto diz respeito às janelas com vitrais descritivos que inundam o ambiente interno com uma luz mística. Vistas de fora, estas janelas parecem escuras, pesadas e até tétricas. Mas quando se entra na igreja, elas repentinamente adquirem vida; refletindo a luz que as atravessa, revelam todo o seu esplendor. Muitos escritores aqui na América podemos pensar em Nathaniel Hawthorne utilizaram uma imagem dos vitrais descritivos para ilustrar o mistério da própria Igreja. É somente a partir de dentro, da experiência de fé e de vida eclesial que vemos a Igreja como verdadeiramente é:  cheia de graça, resplandecente de beleza e adornada com os múltiplos dons do Espírito. Daqui resulta que nós, que levamos a vida da graça na comunhão da Igreja, somos chamados a atrair todas as pessoas para dentro deste mistério de luz.

Não se trata de uma tarefa fácil, num mundo que tende para ver a Igreja, como aquelas janelas descritivas, "a partir de fora":  um mundo que sente profundamente uma necessidade de espiritualidade, mas julga difícil "entrar" no mistério da Igreja. Também para alguns de nós no interior, a luz da fé pode ser atenuada pela rotina e o esplendor da Igreja pode ser ofuscado pelos pecados e pelas debilidades dos seus membros. O ofuscamento pode derivar também dos obstáculos encontrados numa sociedade que por vezes parece ter esquecido Deus e irritar-se diante das exigências mais elementares da moral cristã. Vós, que consagrastes a vossa vida para dar testemunho do amor de Cristo e da edificação do seu Corpo, sabeis graças ao vosso contato quotidiano com o mundo que vos circunda, como às vezes nos sentimos tentados a ceder à frustração, à decepção e até ao pessimismo em relação ao futuro. Em síntese, nem sempre é fácil ver a luz do Espírito à nossa volta, o esplendor do Senhor ressuscitado que ilumina a nossa vida e infunde uma nova esperança na sua vitória sobre o mundo (cf. Jo 16, 33).

Todavia, a palavra de Deus recorda-nos que na fé nós vemos os céus abertos e a graça do Espírito Santo iluminar a Igreja e oferecer uma esperança certa ao nosso mundo. "Senhor, meu Deus", canta o salmista, "se lhes enviais o vosso espírito, voltam à vida. E assim renovais a face da terra" (Sl 105 [104], 30). Estas palavra evocam a primeira criação, quando "o espírito de Deus se movia sobre a superfície das águas" (Gn 1, 2). E elas impelem o nosso olhar para a frente, rumo à nova criação, ao Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos e instaurou a Igreja como primícias da humanidade redimida (cf. Jo 20, 22-23). Estas palavras exortam-nos a uma fé cada vez mais profunda no poder infinito de Deus de transformar toda a situação humana, de criar vida a partir da morte e de iluminar até a noite mais obscura. E fazem-nos pensar numa outra belíssima frase de Santo Irineu:  "Onde se encontra a Igreja, ali está o Espírito de Deus; onde se encontra o Espírito de Deus, ali estão a Igreja e toda a graça" (Adv. Haer. III, 24, 1).

Isto leva-me a fazer outra reflexão sobre a arquitetura desta igreja. Como todas as catedrais góticas, ela é uma estrutura muito complicada, cujas proporções exatas e harmoniosas simbolizam a unidade da criação de Deus. Os artistas medievais muitas vezes representam Cristo, a Palavra criadora de Deus, como um "geômetra" celeste, com o compasso na mão, que ordena o cosmos com sabedoria e determinação infinitas. Uma semelhante imagem não nos faz porventura vir ao pensamento a nossa necessidade de ver todas as coisas com os olhos da fé, para poder deste modo compreendê-las na sua perspectiva mais autêntica, na unidade do plano eterno de Deus? Como sabemos, isto exige uma conversão contínua e o compromisso de "nos renovarmos no Espírito da nossa mente" (cf. Ef 4, 23), para adquirirmos uma mentalidade nova e espiritual. Exige também o desenvolvimento daquelas virtudes que tornam cada um de nós capazes de crescer em santidade e produzir frutos espirituais na condição de vida que nos é própria. Não é porventura esta constante conversão "intelectual" tão necessária quanto a conversão "moral" para o nosso crescimento na fé, para o nosso discernimento dos sinais dos tempos e para a nossa contribuição pessoal para vida e a missão da Igreja?

Considero que uma das grandes desilusões que se seguiram ao Concílio Vaticano II, com a sua exortação a um maior compromisso na missão da Igreja pelo mundo, foi para todos nós a experiência de divisão entre diferentes grupos, gerações e membros da mesma família religiosa. Só podemos prosseguir, se juntos fixarmos o olhar em Cristo! Então, à luz da fé descobriremos a sabedoria e a força necessárias para nos abrirmos a pontos de vista que, eventualmente, não coincidem de modo completo com as nossas idéias ou os nossos pressupostos. Assim podemos avaliar os pontos de vista dos outros, quer eles sejam mais jovens ou mais idosos do que nós, e enfim ouvir "aquilo que o Espírito diz", a nós e à Igreja (cf. Ap 2, 7). Deste modo, caminharemos juntos rumo àquela verdadeira renovação espiritual desejada pelo Concílio, a única renovação que pode revigorar a Igreja na santidade e na unidade indispensáveis para a proclamação eficaz do Evangelho no mundo de hoje.

Não é porventura esta unidade de visão e de intenções arraigada na fé e no espírito de contínua conversão e sacrifício pessoal o segredo do crescimento surpreendente da Igreja neste país? É suficiente pensar na obra extraordinária realizada por aquele sacerdote americano exemplar, o Venerável Michael McGivney, cuja visão e zelo levaram à fundação dos Cavaleiros de Colombo, ou na herança espiritual de gerações de religiosas, religiosos e presbíteros que, silenciosamente, consagraram a sua vida ao serviço do povo de Deus em inúmeras escolas, hospitais e paróquias.

Aqui, no contexto da nossa necessidade de uma perspectiva assente na fé e de unidade e colaboração no trabalho da edificação da Igreja, gostaria de dizer uma palavra acerca do abuso sexual que causou tanto sofrimento. Já tive a oportunidade de falar disto e do consequente dano para a comunidade dos fiéis. Estimados sacerdotes e religiosos, aqui desejo simplesmente assegurar-vos a minha proximidade espiritual, enquanto procurais responder com esperança cristã aos contínuos desafios apresentados por esta situação. Uno-me a vós, orando a fim de que este seja um tempo de cura para cada indivíduo, e de purificação para cada uma das Igrejas e comunidades religiosas. Além disso, encorajo-vos a cooperar com os vossos bispos, que continuam a trabalhar eficazmente para resolver este problema. O Senhor Jesus Cristo conceda à Igreja que está na América um renovado sentido de unidade e de decisão, enquanto todos bispos, clero, religiosos, religiosas e leigos caminham na esperança e no amor recíproco e pela verdade.

Caros amigos, estas considerações levam-me a uma última observação a propósito desta grande Catedral onde nos encontramos. Como sabemos, a unidade de uma Catedral gótica não é a unidade estática de um templo clássico, mas sim a unidade nascida da tensão dinâmica de diferentes forças que elevam a arquitetura, orientando-a rumo ao céu. Também aqui podemos ver um símbolo da unidade da Igreja que é unidade como São Paulo nos disse de um corpo vivo, composto de muitos membros diferentes, cada qual com o seu papel e a sua determinação. Também aqui vemos a necessidade de reconhecer e respeitar os dons de cada membro do corpo, como "manifestação do Espírito, para proveito comum" (1 Cor 12, 7). Sem dúvida, na estrutura da Igreja desejada por Deus é necessário distinguir entre os dons hierárquicos e os carismáticos (cf. Lumen gentium, 4). Mas são precisamente a variedade e a riqueza das graças concedidas pelo Espírito que nos convidam constantemente a discernir como estes dons devem ser inseridos de modo justo no serviço da missão da Igreja. Diletos presbíteros, mediante a ordenação sacramental vós fostes conformados com Cristo, Cabeça do Corpo. Vós, prezados diáconos, fostes ordenados para o serviço deste Corpo. Vós, queridos religiosos e queridas religiosas, tanto contemplativos como dedicados ao apostolado, consagrastes a vossa vida ao seguimento do Mestre divino no amor generoso e na plena fidelidade ao seu Evangelho. Todos vós que hoje apinhais esta Catedral, assim como os vossos irmãos e irmãs idosos, enfermos ou aposentados, que unem as suas orações e os seus sacrifícios ao vosso trabalho, sois chamados a constituir forças de unidade no interior do Corpo de Cristo. Através do vosso testemunho pessoal e da vossa fidelidade ao ministério ou ao apostolado que vos foi confiado, preparais o caminho para o Espírito. Uma vez que o Espírito nunca cessa de infundir os seus dons abundantes, de suscitar novas vocações e renovadas missões, e de orientar a Igreja como o Senhor prometeu no trecho evangélico desta manhã para a Verdade completa (cf. Jo 16, 13).

Por conseguinte, elevemos o nosso olhar! E com grande humildade e confiança peçamos ao Espírito que nos torne capazes de crescer todos os dias na santidade que nos há de transformar em pedras vivas no templo que Ele está a erguer precisamente agora, no meio do mundo. Se quisermos ser verdadeiras forças de unidade, então devemos empenhar-nos a fim de sermos os primeiros a buscar uma reconciliação interior mediante a penitência! Perdoemos as injustiças sofridas e sufoquemos todos os sentimentos de raiva e de contenda! Comprometamo-nos em ser os primeiros a demonstrar a humildade e a pureza de coração necessárias para nos aproximar-nos do esplendor da verdade de Deus! Em fidelidade ao depósito da fé confiado aos Apóstolos (cf. 1 Tm 6, 20), empenhemo-nos a ser testemunhas jubilosas da força transformadora do Evangelho!

Estimados irmãos e irmãs, em conformidade com as tradições mais nobres da Igreja neste país, sede também os primeiros amigos dos pobres, dos refugiados, dos estrangeiros, dos doentes e de todos os que sofrem! Agi como faróis de esperança, irradiando a luz de Cristo no mundo e animando os jovens a descobrir a beleza de uma vida doada inteiramente ao Senhor e à sua Igreja! Dirijo este apelo de maneira especial aos numerosos seminaristas e aos jovens religiosos e religiosas aqui presentes. Cada um de vós ocupa um lugar particular no meu coração. Nunca esqueçais que sois chamados a dar continuidade, com todo o entusiasmo e a alegria que vos são concedidos pelo Espírito, a uma obra começada por outros, um patrimônio que um dia também vós tereis que transmitir a uma nova geração. Trabalhai com generosidade e alegria, porque Aquele que vós servis é o Senhor!

Os pináculos das torres da Catedral de São Patrício são amplamente ultrapassadas pelos arranha-céus do perfil de Manhattan; todavia, no coração desta metrópole agitada elas constituem um sinal vivo que recorda a aspiração constante do espírito humano de se elevar a Deus. Nesta celebração eucarística, queremos dar graças ao Senhor porque nos permite reconhecê-lo na comunhão da Igreja e colaborar com Ele, edificando o seu Corpo místico e transmitindo a sua palavra salvífica como boa nova aos homens e às mulheres do nosso tempo. Em seguida, quando sairmos desta grande igreja, iremos como arautos da esperança para o meio desta cidade e a todos os lugares onde a graça de Deus nos colocou. Deste modo, a Igreja na América conhecerá uma nova Primavera do Espírito e indicará o caminho para aquela outra cidade maior, a nova Jerusalém, cuja luz é o Cordeiro (cf. Ap 21, 23), pois Deus está a preparar também agora um banquete de alegria e de vida infinitas para todos os povos.

Amém!

 

Palavras de agradecimento no final da Santa Missa

Neste momento só posso agradecer-vos o vosso amor à Igreja e a nosso Senhor; agradecer-vos porque doais o vosso amor também ao pobre Sucessor de São Pedro. Procurarei fazer tudo o que for possível para ser um digno sucessor do grande Apóstolo, o qual também era um homem com os seus defeitos e pecados, mas que no final permanece a rocha para a Igreja. E assim também eu com toda a minha espiritual pobreza posso ser, por este período, devido à graça do Senhor, o Sucessor de Pedro.

São também as vossas orações e o vosso amor que me dão a certeza de que o Senhor me ajudará neste meu ministério. Portanto, estou profundamente grato pelo vosso amor, pelas vossas orações. A minha resposta neste momento, por tudo o que me doastes durante a minha visita é a bênção que agora vos concedo, no final desta bonita Celebração.

 

ENCONTRO COM UM GRUPO DE DEFICIENTES

PALAVRAS DO PAPA BENTO XVI

Seminário de São José, Nova Iorque
Sábado, 19 de Abril de 2008

 

Eminência D. Walsh
Queridos amigos

Estou muito feliz por ter esta oportunidade de me deter alguns momentos convosco. Agradeço ao Cardeal a sua saudação e sobretudo estou grato aos vossos representantes pelas suas amáveis expressões e pelo dom do vosso relatório. Sabei que para mim é uma grande alegria estar convosco. Peço-vos que transmitais a minha saudação aos vossos pais e familiares, aos vossos professores e assistentes.

Deus abençoou-vos com o dom da vida e concedeu-vos também outros talentos e qualidades. Através destas dádivas, podeis servir Deus e a sociedade de muitos modos. Embora a contribuição de alguns possa parecer grande e a de outros mais modesta, o valor do testemunho dos nossos esforços constitui sempre um sinal de esperança para todos.

Às vezes é difícil encontrar uma razão para aquilo que parece somente uma dificuldade a superar, ou uma dor a enfrentar. Não obstante isto, a fé ajuda-nos a abrir de par em par o horizonte para além de nós mesmos e ver a vida como Deus a vê. O amor incondicionado de Deus, que alcança todos os indivíduos, é um indicador de significado e de finalidade para cada homem. Através da sua Cruz, Jesus faz-nos verdadeiramente entrar no seu amor salvífico (cf. Jo 12, 32) e, agindo assim, indica-nos a direção o caminho da esperança que nos transfigura de tal maneira que, por nossa vez, nos tornemos portadores de esperança e de amor para os outros.

Caros amigos, encorajo-vos a rezar todos os dias pelo nosso mundo. Existem muitas intenções e numerosas pessoas pelas quais poder rezar, inclusivamente por aqueles que ainda devem conhecer Jesus. E peço-vos que oreis também por mim. Como sabeis, acabei de completar mais um ano. O tempo passa!

Mais uma vez, obrigado a todos vós, incluindo os jovens cantores da Catedral de São Patrício e os membros do coro dos surdos da Arquidiocese. Em sinal de vigor e de paz, e com grande afeto no Senhor concedo-vos, assim como às vossas famílias, aos vossos professores e aos assistentes, a minha Bênção apostólica.

 

ENCONTRO COM OS JOVENS E OS SEMINARISTAS

DISCURSO DE SUA SANTIDADE BENTO XVI

Seminário de St. Joseph, Yonkers, New York
Sábado, 19 de abril de 2008

Discurso do Santo Padre
Eminência,
Queridos Irmãos no Episcopado,
Queridos jovens amigos,

Proclamem o Cristo Senhor, “sempre prontos a dar a razão de sua esperança a todo aquele que a pede a vocês” (1 Pt 3, 15). Com estas palavras, da Primeira Carta de Pedro saúdo cada um de vocês com cordial afeto. Agradeço o Cardeal Egan por suas cordiais palavras de boas-vindas e agradeço também os representantes escolhidos por vocês por seus gestos e esta calorosa acolhida. Ao Bispo Walsh, Reitor do Seminário São José, ao pessoal e aos seminaristas, dirijo minhas saudações especiais e expresso minha gratidão

Jovens amigos, estou muito feliz pela ocasião de falar com vocês. Levem, por favor, minhas cordiais saudações aos membros de suas famílias e seus parentes, assim como aos professores e ao pessoal de todas as várias escolas, colégios e universidades das quais pertencem. Sei que muitos trabalharam intensamente para garantir a realização deste nosso encontro, e a eles, estou reconhecido. Desejo também expressar o meu apreço pelo canto de ‘Feliz Aniversário’. Obrigado por este gesto comovente. Dou a todos um “10” por sua pronúncia alemã! Hoje à tarde, gostaria de compartilhar com vocês algumas reflexões sobre o ser discípulos de Jesus Cristo - em caminho nas pegadas do Senhor, nossas vidas se tornam uma viagem da esperança.

Aqui na frente, vemos imagens de seis homens e mulheres crescidos para conduzir vidas extraordinárias. A Igreja os honra como Veneráveis, Bem-aventurados ou Santos: cada um deles respondeu ao chamado de Deus por uma vida de caridade e cada um deles O serviu aqui nas ruelas, estradas e subúrbios de Nova York. Estou surpreso com a heterogeneidade de seu grupo: pobres e ricos, homens e mulheres, sacerdotes e religiosas, imigrantes que vêm de longe, a filha de um guerreiro Mohawk e uma mãe Algonquin, um escravo haitiano e um intelectual cubano.

Santa Elizabeth Anna Seton, santa Francisca Xavier Cabrini, São João Neumann, a bem-aventurada Kateri Tekakwitha, o venerável Pierre Toussaint e o Padre Felix Varela: cada um de nós pode ser incluído entre eles, porque não existe um estereótipo para este grupo; nenhum modelo uniforme. Mas um olhar mais de perto revela que existem elementos comuns. Inflamadas pelo amor de Deus, suas vidas se tornaram extraordinários trajetos de esperança. Para alguns, isto significou deixar sei país e embarcar em uma peregrinação de milhares de quilômetros. Para cada um, foi um ato de abandono em Deus na confiança que Ele é o destino final de todo peregrino. Todos estendiam ‘uma mão’ de esperança às pessoas que encontravam nas ruas, muitas vezes despertando nelas uma vida de fé. Através de orfanatos, escolas e hospitais, assistindo os pobres, os doentes e os marginalizados, e mediante o testemunho convincente que deriva do caminhar humildemente seguindo o exemplo de Jesus, estas seis pessoas abriram o caminho da fé, da esperança e da caridade a inúmeras pessoas, incluindo seus próprios ancestrais.
 

E hoje? Quem leva o testemunho da Boa Nova de Jesus às ruas de Nova York, nos subúrbios inquietos às margens das grandes cidades, aos lugares nos quais os jovens se reúnem em busca de alguém em quem confiar? Deus é nossa origem e nosso destino, e Jesus é o caminho. O percurso desta viagem se articula – como o dos nossos santos – entre alegrias e provações da normal vida cotidiana: em suas famílias, nas escolas e nos colégios, durante suas atividades no tempo livre e em suas comunidades paroquiais. Todos estes lugares são marcados pela cultura na qual crescem. Como jovens americanos, lhes são oferecidas muitas possibilidades para seu desenvolvimento pessoal, e vocês foram educados com um espírito de generosidade, serviço e imparcialidade. Mas não precisam que eu lhes diga que existem também dificuldades: comportamentos e modos de pensar que sufocam a esperança caminhos que conduzem à felicidade e à satisfação, mas que conduzem somente à confusão e angústia.

Meus anos de adolescência foram estragados por um regime infausto que acreditava possuir todas as respostas; sua influência cresceu – penetrando inclusive nas escolas e organismos civis, assim como na política e até mesmo na religião – antes de ser plenamente reconhecido como um verdadeiro monstro. Ele colocou Deus de fora, e assim, o tornou inacessível a todas as coisas verdadeiras e boas. Muitos de seus pais e avós lhes contaram da destruição que houve, a seguir. Alguns deles, de fato, vieram aos Estados Unidos justamente para fugir daquele terror.

Agradecemos a Deus porque hoje, muitos de sua geração podem gozar das liberdades surgidas graças à difusão da democracia e do respeito dos direitos humanos. Agradecemos a Deus por todos os que lutam para garantir que vocês possam crescer em um ambiente que cultiva coisas bonitas, boas e verdadeiras. Seus pais e avós, seus professores e sacerdotes, as autoridades civis que buscam coisas corretas e justas.

O poder destruidor, todavia, persiste. Afirmar o contrário seria enganar a si mesmos. Mas ele não triunfará jamais; ele foi derrotado. É esta a essência da esperança que nos distingue, como cristãos; a Igreja o recorda de modo muito dramático durante o tríduo pascal e o celebra com grande alegria no tempo pascal! Aquele que nos indica o caminho após a morte é aquele que nos mostra como superar destruição e angústia. Assim, é Jesus o grande Mestre de vida (cfr Spe salvi, 6). Sua morte e ressurreição significam que podemos dizer ao Pai celeste: “O Senhor renovou o mundo” (6ª feira Santa, Oração depois da comunhão). Assim, apenas algumas semanas atrás, durante a belíssima liturgia da Vigília Pascal, não foi por desespero ou angústia, mas com uma confiança repleta de esperança, que gritamos a Deus em favor de nosso mundo: Dispersai as trevas de nosso coração! Dispersai as trevas de nosso espírito! (cfr Oração durante a ascensão do círio pascal).

O que podem ser estas trevas? O que acontece quando as pessoas, sobretudo as mais vulneráveis, encontram o pulso forte da repressão ou da manipulação, ao invés da mão estendida, da esperança? O primeiro grupo de exemplos pertence ao coração, onde os sonhos e desejos que os jovens perseguem podem ser tão facilmente rompidos ou destruídos. Penso naqueles que são vítimas do abuso da droga e dos estupefacientes, da falta de uma moradia, da pobreza, do racismo, da violência e do degrado – especialmente moças e mulheres. Enquanto as causas destas situações problemáticas são complexas, todas têm em comum uma atitude mental envenenada, que se manifesta ao tratar as pessoas como meros objetos. Assim, afirma-se uma insensibilidade de coração que inicialmente ignora e enfim, denigre a dignidade dada por Deus a toda pessoa humana. Tragédias semelhantes demonstram também o que poderia ter acontecido e o que pode acontece agora, se outras mãos – as suas mãos – tivessem sido estendidas ou se estendem a eles. Encorajo-os a convidar outras pessoas, sobretudo vulneráveis e inocentes, a associarem-se a vocês no caminho da bondade e da esperança.

A segunda área de trevas – que atinge o espírito – muitas vezes não se sente, e por isso, é particularmente funesta. A manipulação da verdade distorce a nossa percepção da realidade e obscurece nossas aspirações. Já mencionei as várias liberdades de que os senhores podem usufruir. A importância fundamental da liberdade deve ser rigorosamente salvaguardada. Assim, não surpreende que numerosos indivíduos e grupos reivindiquem em voz alta, em público, suas liberdades. Mas a liberdade é um valor delicado. Pode ser mal-entendida ou mal utilizada, de modo que não conduz à felicidade que todos esperamos dela, mas a um cenário escuro de manipulação, no qual a nossa compreensão de nós mesmos e do mundo se faz confusa ou é até mesmo distorcida por quem tem um projeto escondido.

Vocês notaram quantas vezes a reivindicação da liberdade é feita, sem jamais referir-se à verdade da pessoa humana? Existem pessoas que defendem que o respeito da liberdade do cidadão torne injusta a busca da verdade, incluindo a verdade sobre o que é o bem. Em alguns lugares, falar da verdade é considerado como fonte de discussão ou de divisões, e portanto, deve ser reservado à esfera pessoal. E no lugar da verdade – ou melhor, da ausência da verdade – difundiu-se a idéia de que, dando valor indiscriminadamente a tudo, assegura-se a liberdade e se liberta a consciência. É o que definimos relativismo. Mas qual é o objetivo da ‘liberdade’ que, ignorando a verdade, persegue o que é falso ou injusto? A quantos jovens foi oferecida uma mão que, em nome da liberdade ou da experiência, os guiou ao vício das drogas, à confusão moral ou intelectual, à violência, à perda de respeito por si mesmos, ao desespero, e até, tragicamente, ao suicídio? Queridos amigos, a verdade não é uma imposição. Nem é simplesmente um conjunto de regras. É a descoberta de Um, que nunca nos trai; de Um no qual podemos sempre confiar. Ao procurar a verdade, chegamos a viver com base na fé porque, definitivamente, a verdade é uma pessoa; Jesus Cristo. É esta a razão pela qual a autêntica liberdade não é uma escolha de se ‘desvincular’ de algo. É uma decisão pelo ‘empenho por’; nada mais do que sair de si mesmos e deixar-se envolver no ‘ser pelos outros’ de Cristo (cfr Spe salvi, 28).

Como podemos então, como fiéis, ajudar os outros a caminhar no caminho da liberdade que leva à satisfação plena e à felicidade duradoura? Mas voltamos agora aos santos. De que forma seu testemunho libertou realmente das trevas do coração e do espírito? A resposta se encontra no fulcro de sua fé – de nossa fé. A encarnação, o nascimento de Jesus nos diz que Deus procura, realmente, um lugar entre nós. O hotel está cheio, mas apesar disso, Ele entra na manjedoura, e algumas pessoas vêem a sua luz. Reconhecem o mundo escuro e fechado de Herodes e seguem, ao contrário, o brilho da estrela que os guia no céu escuro. O que irradia? A este ponto, podem se lembrar da oração pronunciada na santíssima noite de Páscoa: “Oh Pai, que por meio de teu Filho, luz do mundo, nos comunicou a luz da tua glória, acende em nós a chama viva de tua esperança!” (cfr Benção do fogo). E assim, em uma procissão solene com as nossas velas acesas, passamos de um ao outro a luz de Cristo. É a luz que “derrota o mal, lava as culpas, restitui a inocência aos pecadores, a alegria aos aflitos, dissipa o ódio, nos traz a paz e humilha a soberba do mundo” (Exsultet). É esta a luz de Cristo, à obra. É este o caminho dos santos. É a magnífica visão da esperança – a luz de Cristo lhes convida a ser estrela-guia para os outros, caminhando no caminho de Cristo que é caminho de perdão, de reconciliação, humildade, alegria e paz.
  Por vezes, porém, somos tentados em fechar-nos em nós mesmos, duvidar da força do esplendor de Cristo, limitar o horizonte da esperança. Tomem coragem! Fixem o olhar em nossos santos! A diversidade de suas experiências da presença de Deus nos sugere para descobrir novamente a amplidão e a profundidade do cristianismo. Deixem que a sua fantasia se expanda livremente ao longo do discipulado cristão. Por vezes, somos consideradas pessoas que falam apenas de proibições. Nada pode ser mais distante da verdade! Um autêntico discipulado cristão é caracterizado pela sensação de surpresa. Estamos diante daquele Deus que conhecemos e amamos como um amigo, diante da vastidão de sua criação e da beleza de nossa fé cristã.

Queridos amigos, o exemplos dos santos nos convida também a considerar quatro aspectos essenciais do tesouro de nossa fé: oração pessoal e silêncio, oração litúrgica, caridade praticada e vocações.

A coisa mais importante é que desenvolva uma relação pessoal com Deus. Esta relação se expressa na oração. Em virtude de sua natureza, Deus fala, escuta, e responde. Com efeito, São Paulo nos recorda que nós podemos e devemos “rezar incessantemente” (cfr 1 Ts 5, 17). Longe de fechar-nos em nós mesmos ou de fugir dos altos e baixos da vida, por meio da oração nos dirigimos a Deus, e através d’Ele, nos dirigimos a todos, inclusive aos marginalizados e àqueles que seguem caminhos diversos dos de Deus (cfr Spe salvi, 33). Como os santos nos ensinam de modo tão vivo, a oração se torna esperança concreta. Cristo era seu companheiro constante, com o qual conversavam em seu caminho a serviço dos outros.

Há outro aspecto da oração que nós devemos recordar: a contemplação no silêncio. São João, por exemplo, nos diz que para colher a revelação de Deus, é preciso antes de tudo ouvir, e depois responder, anunciando aquilo que ouvimos e vimos (cfr 1 Gv 1, 2-3; Cost. Dei Verbum, 1). Por acaso perdemos um pouco a arte do ouvir? Deixem algum espaço para ouvir o sussurro de Deus que lhes chama rumo à bondade? Amigos, não tenham medo do silêncio e da quietude, ouçam Deus, adorem-no na Eucaristia! Deixem que sua palavra forje o seu caminho como desenvolvimento da santidade.

Na liturgia, encontramos toda a Igreja na oração. A palavra “liturgia” significa a participação do Povo de Deus na obra de Cristo sacerdote e de seu Corpo, que é a Igreja (Sacrosanctum Concilium, 7). Em que consiste esta obra? Antes de tudo, se refere à Paixão de Cristo, à sua morte e ressurreição e à sua ascensão - aquilo que chamamos ‘Mistério Pascal’. Refere-se também à própria celebração da liturgia. De fato, os dois significados são inseparavelmente relacionados, porque esta ‘obra de Jesus’ é o verdadeiro conteúdo da liturgia. Mediante a liturgia, a ‘obra de Jesus’ é continuamente em contato com a história; com a nossa vida, para forjá-la. Aqui, captamos mais uma idéia da grandeza de nossa fé cristã. Cada vez que vocês se reúnem para a Santa Missa, quando se confessam, cada vez que celebram um dos Sacramentos, Jesus está em ação. Através do Espírito Santo, os atrai a si, dentro de seu amor sacrifical pelo Pai, que se torna amor para todos. Assim, vemos que a liturgia da Igreja é um ministério de esperança para a humanidade. A sua participação plena de fé é uma esperança ativa que ajuda a manter o mundo – santos e pecadores – abertos a Deus; é esta a verdadeira esperança humana, que nós oferecemos a todos (cfr Spe salvi, 34).

Sua oração pessoal, seus tempos de contemplação silenciosa e sua participação na liturgia da Igreja lhes aproxima de Deus e os prepara também a servir os outros. Os santos que nos acompanham esta tarde nos mostram que a vida de fé e de esperança é também uma vida de caridade. Contemplando Jesus na Cruz, vemos o amor em sua forma mais radical. Podemos começar a imaginar o caminho do amor que devemos percorrer. (cfr Deus caritas est, 12). As ocasiões para fazer este caminho são muitas. Olhem a seu redor com os olhos de Cristo, ouçam com seus ouvidos, intuam com o seu coração e seu espírito. Os senhores estão prontos a dar tudo pela verdade e a justiça, como Ele fez? Muitos exemplos de sofrimento aos quais nossos santos responderam com compaixão encontram-se ainda hoje nesta cidade e arredores. E emergiram novas injustiças: algumas são complicadas e derivam da manipulação do espírito. Até o nosso meio-ambiente de vida, a própria terra, geme sob o peso da avidez de consumo e da exploração irresponsável dos recursos. Devemos escutar profundamente. Devemos responder com uma ação social renovada, que nasça do amor universal, que não conhece limites. Desta forma, estamos certos de que nossas obras de misericórdia e justiça se tornem esperança concretas para os outros.

Queridos jovens, enfim... gostaria ainda de dizer algo sobre as vocações. Antes de tudo, meu pensamento se dirige a seus pais, avós, padrinhos, que foram seus primeiros educadores na fé. Apresentando-os ao batismo, eles lhes deram a chance de receber o maior dom de suas vidas. Naquele dia, entraram na santidade do próprio Deus. Tornaram-se filhas e filhos adotivos do Pai. Foram incorporados em Cristo. Se transformaram em moradia de seu Espírito. Rezamos pelas mães e pais em todo o mundo, especialmente por aqueles que estão lutando, de todas as formas, socialmente, materialmente, espiritualmente. Honremos a vocação do matrimônio e da vida familiar. Queremos sempre reconhecer que o local onde nascem as vocações são as famílias.

Reunidos aqui, no Seminário São José, saúdo os seminaristas presente, e encorajo, de fato, todos os seminaristas em todos os lugares dos EUA. Estou feliz em saber que seu número está aumentando! O povo de Deus espera que vocês sejam sacerdotes santos, num caminho cotidiano de conversão, inspirando nos outros o desejo de entrar na vida eclesial dos fiéis com profundidade. Exorto-os a aprofundar a sua amizade com Jesus, Bom Pastor. Falem com Ele de coração para coração. Rejeitem toda tentação de ostentação, carreirismo e vaidade. Tendam a um estilo de vida caracterizado pela caridade, castidade e humildade, imitando Cristo, eterno Sumo Sacerdote, de quem devem se tornar imagem viva (cfr Pastores dabo vobis, 33). Queridos seminaristas, rezo por vocês todos os dias. Recordem-se de que aquilo que conta para o Senhor é habitar em seu amor e irradiar seu amor pelos outros.
Irmãs, irmãos e sacerdotes das Congregações religiosas contribuem amplamente à missão da Igreja. O seu testemunho profético é caracterizado por uma profunda convicção da primazia com a qual o Evangelho plasma a vida cristã e transforma a sociedade. Hoje gostaria de chamar a atenção de vocês para a positiva renovação espiritual que as Congregações estão realizando em relação a seu carisma. A palavra “carisma” significa um dom oferecido livremente e gratuitamente.
Os carismas são concedidos pelo Espírito Santo que inspira fundadores e fundadoras e forma as Congregações com um patrimônio espiritual. A maravilhosa série de carismas de cada Instituto Religioso é um tesouro espiritual extraordinário. A história da Igreja, de fato, é talvez ilustrada na maneira mais sublime através da história de suas escolas de espiritualidade, a maioria das quais procedem de vidas santas de fundadores e fundadoras. Acredito que, mediante a descoberta dos carismas que produzem uma vastidão de sabedoria espiritual, alguns de vocês jovens serão atraídos para uma vida de serviço apostólico e contemplativo. Não sejam tímidos em conversar com os freis, religiosas ou sacerdotes religiosos sobre o carisma e sobre a espiritualidade de sua Congregação. Não existe comunidade perfeita, mas é o discernimento de fidelidade a um carisma fundador, não a uma pessoa em particular, que o Senhor pede a vocês. Tenham coragem! Vocês podem fazer de suas vidas uma auto-doação por amor ao Senhor Jesus e, n’Ele, por todo membro da família humana (cfr Vita consecrata, 3).
Amigos, pergunto novamente a vocês: o que dizer do momento presente? O que vocês procuram? O que Deus sugere a vocês? A esperança que não decepciona é Jesus Cristo. Os santos nos mostram o amor desinteressado de seu caminho. Como discípulos de Cristo, seus percursos extraordinários se desenvolveram dentro de uma comunidade de esperança que é a Igreja. É dentro da Igreja que também vocês encontrarão a coragem e o amparo para caminhar na estrada do Senhor. Nutridos pela oração pessoal, preparados no silêncio, plasmados pela liturgia da Igreja, vocês descobrirão a vocação particular que o Senhor reserva para vocês. Abracem-na com alegria. Hoje os discípulos de Cristo são vocês. Irradiem a sua luz sobre esta grande cidade e além dela. Mostrem ao mundo a razão da esperança a todo aquele que a pedir a vocês. Falem com os outros da verdade que lhes torna livres. Com estes sentimentos de grande esperança, que deposito em vocês, saúdo cada um com um “até breve” na expectativa de encontrá-los novamente em Sydney, em julho, para o Dia Mundial da Juventude! E como garantia de meu afeto por vocês e por suas famílias, concedo a todos, com alegria, a minha Benção Apostólica.

SAUDAÇÃO FINAL EM ESPANHOL

Queridos seminaristas, queridos jovens,

Para mim é uma grande alegria poder encontrá-los neste dia de meu aniversário (3° de pontificado). Obrigado pelo acolhimento e pela gentileza que vocês me demonstraram.

Peço-lhes que abram os seus corações ao Senhor, para que Ele encha plenamente seus corações e com fogo de seu amor vocês possam levar o Evangelho a todos os bairros de Nova York.

A luz da fé ajudará vocês a responder ao mal com o bem e com a santidade da vida, como fizeram as grandes testemunhas do Evangelho no decorrer dos séculos. Vocês são chamados a continuar essa corrente de amigos de Cristo, que encontraram em seu amor o grande tesouro de suas vidas. Cultivem esta amizade através da oração, tanto pessoal, quanto litúrgica, e através das obras de caridade e no compromisso de ajudar aqueles que estão em dificuldades. Se ainda não o fizeram, pensem seriamente se o Senhor não lhes pede para segui-lo de maneira radical no ministério sacerdotal ou na vida consagrada. Não é suficiente uma relação esporádica com Cristo. Uma amizade assim não é verdadeira. Cristo quer que vocês sejam seus amigos íntimos, fiéis e perseverantes.
Ao renovar o meu convite a participar do Dia Mundial da Juventude em Sydney, lembrarei de vocês em minhas orações, e peço a Deus que faça de vocês discípulos autênticos de Cristo ressuscitado. Obrigado de coração!

VISITA AO GROUND ZERO

ORAÇÃO DE SUA SANTIDADE BENTO XVI

Ground Zero, NEW York
Domingo, 20 de abril de 2008

Oh Deus do amor, da compaixão e da reconciliação,
Dirigi vosso olhar sobre nós, povo de muitas crenças e
De tradições diversas,
Que estamos reunidos aqui, hoje, neste lugar,
Cenário de incrível violência e dor.

Rogamos que, na vossa bondade
Concedei luz e paz eterna
A todos aqueles que morreram neste local
Os primeiros heróicos socorredores:
Os nossos bombeiros, agentes da polícia,
Equipes de emergência e funcionários Polícia Portuária
E juntos, todos os homens e mulheres inocentes
Vítimas desta tragédia
Somente porque seu trabalho e espírito de serviço
Os trouxe aqui em 11 de setembro de 2001.

Rogamos que, em vossa compaixão
Leveis conforto àqueles
Que por causa de sua presença aqui, naquele dia,
Ainda sofrem com feridas e doenças.
Curai também o sofrimento das famílias ainda em luto
E daqueles que perderam pessoas queridas nesta tragédia
Concedei-lhes a força de continuar a viver com coragem e esperança.

Recordamos também aqueles
Que encontraram a morte, os feridos e aqueles que perderam seus entes queridos
Naquele mesmo dia no Pentágono, em Shanksville, na Pensilvânia.
Nossos corações se unem aos seus
Nossa oração abraça sua dor e seu sofrimento.

Deus da paz
Trazei a paz ao nosso mundo violento:
Paz nos corações de todos os homens e mulheres
E paz entre as Nações da terra.
Conduzi a teu caminho de amor
Aqueles que têm seus corações e mentes
Consumidos pelo ódio.

Deus da compreensão,
Abalados com a dimensão desumana desta tragédia,
Buscamos a vossa luz e vossa orientação
Aqui, quando estamos diante de eventos tão assustadores.
Concedei àqueles cujas vidas foram poupadas
Que consigam viver, a fim de que as vidas perdidas aqui
Não tenham sido perdidas em vão.

Confortai-nos e consolai-nos
Reforçai-nos na esperança
E concedei-nos a sabedoria e a coragem
Para trabalhar incansavelmente por um mundo
No qual paz e amor autênticos reinem
Entre as Nações e nos corações de todos.

 

CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA

HOMILIA DE SUA SANTIDADE BENTO XVI

Yankee Stadium, Bronx, New York
V Domingo de Páscoa, 20 de abril de 2008

Amados Irmãos e Irmãs em Cristo!

No Evangelho que acabamos de ouvir, Jesus diz aos seus Apóstolos que depositem n'Ele a sua confiança, porque Ele é "o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14, 6). Cristo é o caminho que conduz ao Pai, a verdade que dá significado à existência humana, e a fonte daquela vida que é alegria eterna com todos os Santos no Reino dos céus. Levemos a sério o Senhor! Renovemos a fé n'Ele e coloquemos todas as nossas esperanças nas suas promessas!

Com este encorajamento a perseverar na fé de Pedro (cf. Lc 22, 32; Mt 16, 17), saúdo-vos a todos com grande afeto. Agradeço ao Cardeal Egan as cordiais palavras de boas-vindas que pronunciou em vosso nome. Nesta Missa a Igreja que está nos Estados Unidos celebra o bicentenário da criação das sedes de Nova Iorque, Boston, Filadélfia e Louisville com o desmembramento da sede-mãe de Baltimore. A presença, em volta deste altar, do Sucessor de Pedro, dos seus irmãos Bispos, dos sacerdotes, dos diáconos, dos consagrados e das consagradas, assim como dos fiéis leigos provenientes dos 50 Estados da União, manifesta de modo eloquente a nossa comunhão na fé católica que nos foi transmitida pelos Apóstolos.

A celebração de hoje é também um sinal do crescimento impressionante que Deus concedeu à Igreja no vosso País nos passados duzentos anos. De pequeno rebanho como o descrito na primeira leitura, a Igreja na América foi edificada na fidelidade aos dois mandamentos do amor a Deus e do amor ao próximo. Nesta terra de liberdade e de oportunidades, a Igreja uniu rebanhos muito diferentes na profissão de fé e, através das suas numerosas obras educativas, caritativas e sociais, contribuiu de modo significativo também para o crescimento da sociedade americana no seu conjunto.

Este grande resultado não se obteve sem desafios. A primeira leitura de hoje, dos Atos dos Apóstolos, fala de tensões linguísticas e culturais presentes já no interior da primitiva comunidade eclesial. Ao mesmo tempo, ela mostra o poder da Palavra de Deus, proclamada eficazmente pelos Apóstolos e recebida na fé, para criar uma unidade capaz de transcender as divisões provenientes dos limites e das debilidades humanas. É-nos aqui recordada uma verdade fundamental: que a unidade da Igreja não tem outro fundamento a não ser o da Palavra de Deus, que se tornou carne em Jesus Cristo nosso Senhor. Todos os sinais externos de identidade, todas as estruturas, associações ou programas, por muito válidos ou até essenciais que sejam, existem em última análise apenas para apoiar e promover a unidade mais profunda que, em Cristo, é dom indefectível de Deus à sua Igreja.

Além disso, a primeira leitura mostra como vemos na imposição das mãos sobre os primeiros diáconos, como a unidade da Igreja é "apostólica", isto é, uma unidade visível fundada sobre os Apóstolos, que Cristo escolheu e constituiu como testemunhas da sua ressurreição, e disto nasceu aquilo a que a Escritura chama "a obediência da fé" (Rm 1, 5; Act 6, 7).

"Autoridade", "obediência". Para ser francos, estas não são palavras que se pronunciam facilmente hoje. Palavras como estas representam uma "pedra de tropeço" para muitos contemporâneos, sobretudo numa sociedade que justamente dá grande valor à liberdade pessoal. Mas, à luz da nossa fé em Jesus Cristo "o caminho, a verdade e a vida" chegamos a ver o sentido mais pleno, o valor e até a beleza, destas palavras. O Evangelho ensina-nos que a verdadeira liberdade, a liberdade dos filhos de Deus, pode ser encontrada apenas na perda de si que é parte do mistério do amor. Só com a perda de si, diz-nos o Senhor, nos reencontramos verdadeiramente a nós mesmos (cf. Lc 17, 33). A verdadeira liberdade floresce quando nos afastamos do jugo do pecado, que ofusca as nossas percepções e enfraquece a nossa determinação, e vê a fonte da nossa felicidade definitiva nele, que é amor infinito, liberdade infinita, vida sem fim. "Na sua vontade está a nossa paz".

A verdadeira liberdade por isso é um dom gratuito de Deus, o fruto da conversão à sua verdade, aquela verdade que nos torna livres (cf. Jo 8, 32). E esta liberdade na verdade tem no seu seguimento um novo e liberatório modo de olhar para a realidade. Quando nos colocamos no "pensamento de Cristo" (cf. Fl 2, 5), abrem-se-nos novos horizontes! À luz da fé, dentro da comunhão da Igreja, encontramos também a inspiração e a força para nos tornarmos fermento do Evangelho neste mundo. Tornamo-nos luz do mundo, sal da terra (cf. Mt 5, 13-14), ao qual está confiado o "apostolado" de conformar as nossas vidas e o mundo no qual vivemos cada vez mais plenamente com o plano salvífico de Deus.

A visão magnífica de um mundo transformado pela verdade libertadora do Evangelho está refletida na descrição da Igreja que encontramos na segunda leitura de hoje. O Apóstolo diz-nos que Cristo, ressuscitado dos mortos, é a pedra angular de um grande templo que é edificado ainda hoje no Espírito. E nós, membros do seu corpo, mediante o Batismo tornamo-nos "pedras vivas" daquele templo, participando por graça na vida de Deus, abençoados com a liberdade dos filhos de Deus, e tornados capazes de oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Ele (cf. 1 Pd 2, 5). Qual é esta oferta que somos chamados a fazer, a não ser a de dirigir todos os pensamentos, palavras ou atos para a verdade do Evangelho e colocar todas as nossas energias ao serviço do Reino de Deus? Só assim podemos construir com Deus, sobre o fundamento que é Cristo (cf. 1 Cor 3, 11). Só assim podemos edificar algo que seja realmente duradouro. Só assim a nossa vida encontra o significado último e dá frutos duradouros.

Recordamos hoje os duzentos anos de um lavacro na história da Igreja nos Estados Unidos: o seu primeiro grande capítulo do crescimento. Nestes 200 anos o rosto da comunidade católica no vosso País mudou em grande medida. Pensemos nas seguintes ondas de emigrantes cujas tradições tanto enriqueceram a Igreja na América. Pensemos na fé forte que edificou a rede de igrejas, de instituições educativas, de saúde e sociais que há muito tempo são os sinais distintivos da Igreja nesta terra. Pensamos também nos numerosos pais e mães que transmitiram a fé aos filhos, no ministério quotidiano dos numerosos sacerdotes que empregaram a própria vida no cuidado das almas, na contribuição incalculável de numerosos consagrados e consagradas, os quais não só ensinaram às crianças a ler e a escrever, mas inspiraram também neles um desejo de conhecer Deus para toda a vida, amá-lo e servi-lo. Quantos "sacrifícios espirituais agradáveis a Deus" foram oferecidos nos dois séculos transcorridos! Nesta terra de liberdade religiosa os católicos encontraram não só a liberdade de praticar a própria fé mas também de participar plenamente na vida civil, levando consigo as próprias convicções morais na arena pública, cooperando com os vizinhos para forjar uma sociedade democrática vibrante. A celebração hodierna é mais do que uma ocasião de gratidão pelas graças recebidas: é uma chamada a prosseguir com determinação firme a usar sabiamente as bênçãos da liberdade, para edificar um futuro de esperança para as gerações futuras.

"Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido, a fim de anunciardes as [Suas] virtudes" (1 Pd 2, 9). Estas palavras do apóstolo Pedro não nos recordam apenas a dignidade que nos é própria por graça de Deus, mas são também um desafio a uma fidelidade cada vez maior à herança gloriosa recebida em Cristo (cf. Ef 1, 18). Desafiam-nos a examinar as nossas consciências, a purificar os nossos corações, a renovar o compromisso batismal, a rejeitar satanás e todas as suas promessas vazias. Desafiam-nos a ser um povo da alegria, arautos da esperança que não perece (cf. Rm 5, 5) nascida da fé na palavra de Deus e da confiança nas suas promessas.
Todos os dias nesta terra vós e muitos dos vossos vizinhos rezais ao Pai com as mesmas palavras do Senhor: "Venha a nós o Vosso Reino". Esta oração deve forjar a mente e o coração de cada cristão nesta Nação. Deve dar fruto no mundo em que viveis a vossa existência e no modo em que construís a vossa família e a vossa comunidade. Deve criar novos "lugares de esperança" (cf. Spe salvi 32 ss.) nos quais o Reino de Deus se faz presente em todo o seu poder salvífico.

Rezar com fervor pela vinda do Reino significa também estar constantemente alerta aos sinais da sua presença, trabalhando pelo seu crescimento em cada sector da sociedade. Significa enfrentar os desafios do presente e do futuro confiantes na vitória de Cristo e empenhando-se pela difusão do seu Reino. Isto significa não perder a confiança face a resistências, adversidades ou escândalos. Significa superar qualquer separação entre fé e vida, opondo-se aos falsos evangelhos de liberdade e de felicidade. Significa ainda rejeitar a falsa dicotomia entre fé e vida política, porque como afirmou o Concílio Vaticano II, "nenhuma atividade humana, nem sequer as coisas temporais, pode subtrair-se ao domínio de Deus" (Lumen gentium, 36). Isto significa agir para enriquecer a sociedade e a cultura americana com a beleza e com a verdade do Evangelho, sem nunca perder de vista a grande esperança que dá significado e valor a todas as outras esperanças que inspiram a nossa vida.

É este, queridos amigos, o desafio que o Sucessor de Pedro hoje vos apresenta. Como "raça eleita, sacerdócio real, nação santa", segui com fidelidade as pegadas de quantos vos precederam! Apressai a vinda do Reino de Deus nesta terra! As gerações passadas deixaram-vos uma herança extraordinária. Também nos nossos dias a comunidade católica desta Nação foi grande no testemunho profético em defesa da vida, na educação dos jovens, na solicitude pelos pobres, pelos doentes e pelos estrangeiros. Sobre estas bases sólidas o futuro da Igreja na América deve também hoje iniciar a surgir.

Ontem, não distante daqui, fiquei comovido pela alegria, pela esperança e pelo amor generoso por Cristo que vi no rosto de tantos jovens reunidos em Dunwoodie. Eles são o futuro da Igreja e têm direito a todas as orações e apoio que lhe possamos dar. Assim, desejo concluir acrescentando uma palavra de encorajamento para eles. Queridos jovens amigos, como os sete homens "cheios de Espírito e de sabedoria" aos quais os Apóstolos confiaram o cuidado da jovem Igreja, que também vós vos possais levantar e assumir a responsabilidade que a fé em Cristo vos apresenta! Espero que encontreis a coragem de proclamar Cristo "o mesmo ontem, hoje e sempre" e as verdades perenes que têm fundamento n'Ele (cf. Gaudium et spes, 10; Hb 13, 8): são verdades que nos tornam livres! Trata-se das únicas verdades que podem garantir o respeito da dignidade e dos direitos de cada homem, mulher e criança no mundo, incluídos os mais indefesos entre os seres humanos, as crianças que ainda estão no seio materno para nascer. Num mundo em que, como o Papa João Paulo II falando neste mesmo lugar nos recordou, Lázaro continua a bater à nossa porta (Homilia no Yankee Stadium, 2 de Outubro 1979, n. 7) fazei de modo que a vossa fé e o vosso amor dêem fruto ao socorrer os pobres, os necessitados e os sem voz. Homens e mulheres jovens da América, insisto convosco: abri os corações à chamada de Deus a segui-lo no sacerdócio e na vida religiosa. Pode haver um sinal de amor maior do que este: seguir as pegadas de Cristo, que se disponibilizou para dar a própria vida pelos seus amigos (cf. Jo 15, 13)?

No Evangelho de hoje o Senhor promete aos discípulos que farão obras ainda maiores que as suas (cf. Jo 14, 12). Queridos amigos, só Deus na sua providência sabe aquilo que a sua graça ainda deve realizar nas vossas vidas e na vida da Igreja nos Estados Unidos. Entretanto, a promessa de Cristo enche-nos de esperança certa. Por isso, unamos a nossa oração à sua, como pedras vivas daquele templo espiritual que é a sua Igreja una, santa, católica e apostólica. Elevemos os olhos para ele, porque também agora está a preparar um lugar para nós na casa de seu Pai. E fortalecidos pelo Espírito Santo, trabalhemos com renovado zelo pela difusão do seu Reino.

"Bem-aventurados quantos acreditarem" (cf. 1 Pd 2, 7). Dirijamo-nos a Jesus! Só Ele é o caminho que conduz à felicidade eterna, a verdade que satisfaz os desejos mais profundos de cada coração, e a vida que oferece alegria e esperança sempre nova a nós e ao nosso mundo. Amém.

Amados irmãos e irmãs no Senhor!

Saúdo-vos com afeto e alegro-me por celebrar esta Santa Missa para agradecer a Deus a celebração bicentenária do momento em que a Igreja Católica começou a desenvolver-se nesta Nação. Olhando para o caminho de fé, não sem dificuldades, percorrido nestes anos, louvamos ao Senhor pelos frutos que a sua Palavra produziu nestas terras e manifestamos-lhe o nosso desejo que Cristo, Caminho, Verdade e Vida, seja sempre mais conhecido e amado.

Aqui, neste País de liberdade, desejo proclamar com vigor que a Palavra de Cristo não elimina as nossas aspirações por uma vida plena e livre, mas revela-nos a nossa verdadeira dignidade de Deus e encoraja-nos a lutar contra tudo o que nos escraviza, começando pelo nosso egoísmo e pelas nossas paixões. Ao mesmo tempo, anima-nos a manifestar a nossa fé mediante a nossa vida de caridade e a fazer com que as nossas comunidades eclesiais sejam todos os dias mais acolhedoras e fraternas.

Sobretudo aos jovens confio a tarefa de fazer seu o grande desafio que crer em Cristo exige, e comprometer-se para que esta fé se manifeste numa proximidade efetiva aos pobres, assim como numa resposta generosa às chamadas que Ele continua a propor para que se deixe tudo e se inicie uma vida de total consagração a Deus e à Igreja, no estado sacerdotal ou religioso.

Queridos irmãos e irmãs, convido-vos a olhar para o futuro com esperança, permitindo que Jesus entre nas vossas vidas. Só Ele é o Caminho que conduz à felicidade que não termina, a Verdade que satisfaz as mais nobres aspirações humanas e a Vida cheia de alegria pelo bem da Igreja e do mundo. Deus vos abençoe!

Cidade do Vaticano, 20 abr (Rádio Vaticano) - O papa Bento XVI concluiu hoje sua primeira visita aos Estados Unidos com uma missa no estádio do time de beisebol New York Yankees, onde foi aclamado por cerca de 57 mil pessoas.

Como pôde ser visto nesses seis dias de viagem do pontífice, os católicos americanos responderam com entusiasmo e carinho a Bento XVI, um Papa que não conheciam profundamente.

No estádio do Yankees, e cercado por uma produção espetacular, o líder da Igreja Católica voltou a sentir o calor dos fiéis, entre os quais havia muitos hispânicos.

Este carinho ficou evidente quando, após a cerimônia, o papa desfilou entre aplausos por uma passarela sob as notas da "Ode à Alegria" de Ludwig van Beethoven e gritos de "Nós te amamos" dos fiéis.

A missa foi um claro exemplo da força da língua espanhola que é vista em muitas cidades dos EUA, mas também no seio da Igreja Católica desse país.

Entre os católicos dos Estados Unidos, 29% são latinos, e essa participação aumenta para 44,5% entre os que têm 18 e 39 anos. Por isso, o arcebispo de Nova York, o cardeal Edward Egan, também leu uma mensagem de boas-vindas para o Papa em espanhol em nome de "grande comunidade do Centro e do Sul da América e do Caribe".

As leituras, cânticos e rezas também se alternaram em inglês e em espanhol, e o Papa, como sempre fez nas grandes cerimônias dessa viagem, pronunciou uma pequena parte da homilia em espanhol.

"O rosto da comunidade católica em vosso País mudou consideravelmente. Pensemos nas contínuas ondas de emigrantes, cujas tradições enriqueceram muito a Igreja nos EUA", declarou o Papa.

Os 57 mil fiéis que conseguiram um dos disputados ingressos para assistir à missa de Bento XVI esperaram durante horas sua chegada, período que foi amenizado por um show que contou com a presença de cantores como o porto-riquenho José Feliciano, do tenor Marcello Giordano e de Harry Connick Jr.

O Papa aproveitou essa missa para levantar novamente uma de suas principais bandeiras nessa viagem, a necessidade de defender a vida e condenar o aborto.

Ele convidou os presentes a "garantirem o respeito da dignidade e dos direitos humanos de todo homem, mulher e criança no mundo, incluído o dos mais indefesos, como as crianças que ainda estão no seio materno".

A defesa da vida, a educação dos jovens e a atenção a pobres, doentes e estrangeiros têm que ser a base da Igreja nos EUA, declarou. Além disso, convidou a política a abraçar a fé em todas suas decisões, pois "nenhuma atividade humana, nem sequer nos assuntos temporários, pode descartar a soberania de Deus".

Por isso, o pontífice elogiou um país no qual "os católicos encontraram não apenas a liberdade para praticar sua fé, mas também para participar plenamente na vida civil, levando consigo suas convicções morais para a esfera pública e cooperando com seus vizinhos para forjar uma vibrante sociedade democrática".

Em sua homilia, interrompida em várias ocasiões pelos aplausos, o líder da Igreja Católica destacou o valor da "autoridade" e da "obediência", consideradas "um obstáculo para muitos atualmente, especialmente em uma sociedade que justamente dá mais valor à liberdade pessoal".

Para Joseph Ratzinger, a "autêntica liberdade é encontrada apenas quando se afasta do jugo do pecado, que nubla a percepção e enfraquece a determinação".

Na mensagem que leu em espanhol, como realizou sempre nas grandes cerimônias dessa viagem, o pontífice também convidou os fiéis a lutarem contra tudo aquilo que os escraviza, começando por seu próprio egoísmo e caprichos. (FONTE: http://noticias.terra.com.br)

 

CERIMÔNIA DE DESPEDIDA

DISCURSO DO SANTO PADRE BENTO XVI

Aeroporto internacional John Fitzgerald Kennedy, New York
Domingo, 20 de abril de 2008

Senhor Vice-Presidente,
Ilustres autoridades
Queridos Irmãos no Episcopado,
Queridos Irmãos e Irmãs,

Chegou o momento de me despedir de seu país. Os dias que passei nos EUA foram ricos de muitas e memoráveis experiências, mediante as quais pude sentir a hospitalidade dos norte-americanos. Desejo expressar a todos vocês a minha profunda gratidão pela gentil acolhida. Foi uma grande alegria testemunhar a fé e a devoção da comunidade católica desta nação. Também foi encorajador encontrar líderes e representantes de outras comunidades cristãs e religiões, e neste sentido, renovo-lhes a certeza de minha consideração e estima. Estou grato ao Presidente Bush por ter vindo saudar-me no início de minha visita, e agradeço o Vice-Presidente Cheney por sua presença aqui, agora, no momento de minha partida. Obrigado também às autoridades civis, aos encarregados e voluntários que em Washington e Nova York sacrificaram generosamente tempo e energias para assegurar o tranqüilo andamento de todas as fases de minha visita. Agradeço igualmente os Prefeitos de Washington, Adrian Fendy, e de Nova York, Michael Bloomberg.
Renovo meus cumprimentos e minha oração aos representantes da Sede de Baltimore, a primeira Arquidiocese, e de Nova York, Boston, Filadélfia e Louisville, neste ano jubilar. Que o Senhor possa continuar a abençoá-los no futuro.
A todos os meus irmãos no Episcopado, a Dom Di Marzio, Bispo de Brooklin, aos oficiais e funcionários da Conferência Episcopal que contribuíram em todas as maneiras a preparar esta visita, renovo minha gratidão por seu árduo empenho e dedicação. Com grande afeto, saúdo mais uma vez os sacerdotes e religiosos, diáconos, seminaristas e jovens, todos os fiéis dos EUA, encorajando-os a perseverar no testemunho de Cristo nossa esperança, nosso Senhor e Salvador Ressuscitado, que renova todas as coisas e nos doa a vida em abundância.
Um dos momentos mais significativos de minha visita foi a oportunidade de dirigir a palavra à Assembléia das Nações Unidas. Agradeço o Secretário Geral, Ban Ki-moon por seu gentil convite e acolhida. Em relação aos sessenta anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem, agradeço por tudo o que a Organização conseguiu realizar na defesa e na promoção dos direitos fundamentais de todos os homens, mulheres e crianças, em toda parte do mundo, e convido todos os homens de boa-vontade a continuar a atuar, constantemente, na promoção da justa e pacífica coexistência entre povos e nações.
A visita que realizei esta manhã ao Ground Zero ficará profundamente impressa em minha memória, e continuarei a rezar por todos os que morreram e por aqueles que ainda sofrem as conseqüências daquela tragédia, ocorrida em 2001.
Rezo por todos nos Estados Unidos, e na verdade, por todo o mundo, a fim de que o futuro traga mais fraternidade e solidariedade, mais respeito recíproco e mais confiança e certeza em Deus, nosso Pai que está no céu.
Com estas expressões e saudações, peço-lhes que me recordem em suas orações, e da minha parte, garanto-lhes meu carinho e amizade no Senhor. Deus abençoe a América.

 

Cidade do Vaticano, 21 abr (Rádio Vaticano) - Bento XVI já se encontra no Vaticano, onde chegou na manhã de hoje às 10h45, hora de Roma, concluindo, assim, sua oitava viagem apostólica internacional que o levou aos Estados Unidos. A visita teve como tema "Cristo, nossa esperança".



 

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