REVEJA FEVEREIRO DE 2016

Papa recebe Patriarca etíope: perseguição une os cristãos

Cidade do Vaticano (RV) - A segunda-feira de Francisco, 29 de fevereiro de 2016, foi marcada por um encontro ecumênico. O Papa recebeu em audiência, no Vaticano, o Patriarca da Igreja Ortodoxa  Etíope Tewahido, Sua Santidade Abuna Matthias I.

Em seu discurso, o Pontífice recordou os elos fraternos que unem as duas Igrejas, e os encontros precedentes entre o então Patriarca Abuna Paulos com S. João Paulo II e Bento XVI. Francisco citou ainda o trabalho levado avante pela Comissão Internacional conjunta entre a Igreja Católica e as Igrejas ortodoxas desde 2004. “Como já foi observado várias vezes, disse Francisco, aquilo que nos une é muito maior do aquilo que nos divide.”

Ecumenismo dos mártires

Atualmente, este elo se tornou ainda mais forte com o ecumenismo dos mártires, isto é, a perseguição e o assassinato de cristãos em todo o mundo. “Hoje, o sangue de tantos mártires pertencentes a todas as Igrejas se torna semente de unidade dos cristãos.”

O Papa falou da história da Igreja Ortodoxa etíope, que foi desde o início uma Igrejas de mártires. “E ainda hoje, são testemunhas de uma violência devastadora contra os cristãos e contra outras minorias no Oriente Médio e em algumas partes da África. Não podemos nos eximir de pedir, mais uma vez, aos que detêm o futuro político e econômico do mundo que promovam uma coexistência pacífica baseada no respeito recíproco e na reconciliação, no mútuo perdão e na solidariedade.”

Preservação do meio ambiente

Francisco mencionou ainda os esforços da Etiópia para melhorar as condições de vida da população e para construir uma sociedade sempre mais justa, baseada também no respeito do papel das mulheres. De modo especial, o Papa falou do problema da falta de água, com as suas graves repercussões sociais e econômicas e da possibilidade de fortalecer a cooperação neste campo entre as duas Igrejas.

Nova era

Por fim, Francisco fez votos de que este encontro marque um novo tempo de amizade, pedindo perdão pelas incompreensões do passado. “Que o Espírito Santo continue alimentando em nós a esperança do dia em que estaremos unidos em volta do altar do Sacrifício de Cristo, na plenitude da comunhão eucarística.”

O discurso do Papa foi precedido por um colóquio privado e pela apresentação da delegação etíope. Após os pronunciamentos dos dois líderes, houve a troca de dons.


Papa aos Carabineiros: serviço indispensável em São Pedro

Cidade do Vaticano (RV) - O Papa Francisco recebeu em audiência, nesta segunda-feira (29/02/2016), na Sala Clementina, no Vaticano, os Carabineiros (Polícia Militar Italiana) da Companhia Roma-São Pedro.

O Pontífice agradeceu aos militares pelo serviço desafiador e indispensável que prestam à comunidade, dedicando suas energias na tutela da segurança e da ordem pública, junto com outras forças.

“Graças também a vocês as pessoas são ajudadas a respeitar as leis que regulam a convivência serena e harmoniosa. A sua presença no território se torna um elo da solidariedade concreta de toda a comunidade. Em particular, as pessoas desfavorecidas podem encontrar uma ajuda preciosa em suas dificuldades”, disse o Papa.

Grandes eventos

Francisco destacou que os militares da Companhia Roma-São Pedro colaboram com os organismos competentes da Santa Sé no andamento tranquilo dos eventos que, durante o ano, se realizam na Praça São Pedro e redondezas.

“Agradeço-lhes pelo seu trabalho que se coloca a serviço dos peregrinos e turistas. Trata-se de uma atividade que requer profissionalismo e sentido de responsabilidade, como também atenção às pessoas, muitas das quais idosas, paciência contínua e disponibilidade para com todos. São qualidades não fáceis para as quais é importante contar com a ajuda de Deus”, disse ainda o Pontífice.

“O Ano Santo da Misericórdia abre a todos nós a possibilidade de se renovar, partindo de uma purificação interior que se reflete na maneira de se comportar e também no exercício das atividades cotidianas. Esta dimensão espiritual do evento jubilar impulsiona cada um de nós a se perguntar acerca do compromisso real ao responder às exigências de fidelidade ao Evangelho, ao qual o Senhor nos chama a partir de nosso estado de vida. O Jubileu se torna desta forma uma ocasião propícia de verificação pessoal e comunitária, e o paradigma sobre o qual nos avaliar são as obras de misericórdia corporais e espirituais”, reiterou o Papa.

Acolhida

Francisco recordou aos militares as seguintes palavras de Jesus:  ‘Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram.’

“Que este ensinamento de Jesus sirva de guia também para vocês, responsáveis pela tutela da ordem pública, e lhes ajude a ser em toda circunstância promotores de solidariedade, especialmente com os fracos e indefesos; a serem custódios do direito à vida, através do compromisso com a segurança e incolumidade das pessoas”, frisou o Papa.

“No desempenho desta missão, recordem que toda pessoa é amada por Deus, é sua criatura e merece acolhimento e respeito. Possa a graça do Jubileu Extraordinário da Misericórdia renovar o espirito com o qual vocês se dedicam à sua profissão, conduzindo-os a vivê-la com um suplemento de atenção, dedicação e generosidade”, concluiu Francisco.


Papa: que não haja lugar para o desprezo em nosso coração

Cidade do Vaticano (RV) - O Papa Francisco iniciou a semana celebrando a missa na Casa Santa Marta, nesta segunda-feira, 29.fevereiro.2016. A sua homilia foi inspirada nas leituras do dia, que nos falam da indignação: Naamã, o sírio que se indigna por um leproso e pede ao profeta Eliseu que o cure, mas não aprecia o modo simples com que esta cura pode acontecer. E se indignam também os moradores de Nazaré diante das palavras de Jesus, seu conterrâneo. É a indignação diante do projeto de salvação de Deus que não segue os nossos esquemas. Não é como nós pensamos que seja a salvação, a salvação que todos queremos. Jesus sente o desprezo dos doutores da Lei que buscavam a salvação na casuística da moral e em tantos preceitos, mas o povo não tinha confiança neles:

“Os saduceus que buscavam a salvação nos compromissos com os poderes do mundo, com o Império... uns com grupos de clérigos, outros com grupos de políticos, procuravam assim a salvação. Mas o povo percebia e não acreditava. Sim, acreditava em Jesus porque tinha ‘autoridade’. Mas por que este desprezo? Porque na nossa imaginação, a salvação deve provir de algo de grande, de majestoso; somente os poderosos nos salvam, aqueles que têm dinheiro, que têm poder: eles podem nos salvar. E o plano de Deus é outro! Se indignam porque não podem compreender que a salvação vem somente do pequeno, da simplicidade das coisas de Deus”.

“Quando Jesus faz a proposta do caminho de salvação – prosseguiu o Papa – jamais fala de coisas grandes”, mas “de coisas pequenas”. São “os dois pilares do Evangelho” que se leem em Mateus, as Bem-aventuranças e, no capítulo 25, o Juízo final, “Vem, vem comigo porque você fez isto”:

“Coisas simples. Você não buscou a salvação ou a esperança no poder, nas negociações... não... fez simplesmente isto. E isto indigna a muitos. Como preparação à Páscoa, eu os convido – também eu o farei – a ler as Bem-aventuranças e a ler Mateus 25, e pensar e ver se algo disso me indigna, me tira a paz. Porque o desprezo é um luxo que somente os vaidosos, os orgulhosos podem se permitir. Se… no final das Bem-aventuranças, Jesus diz uma palavra que parece...  mas por que isso? ‘Bem-aventurado aquele que não se escandaliza comigo’, que não despreza isso, que não sente desprezo”.

O Papa Francisco assim conclui a sua homilia:

“Fará bem a nós tomar um pouco de tempo – hoje, amanhã – ler as Bem-aventuranças, ler Mateus 25, e ficarmos atentos ao que acontece em nosso coração: se existe desprezo, e pedir a graça ao Senhor para entender que o único caminho da salvação é a ‘loucura da Cruz’, ou seja, a aniquilação do Filho de Deus, de Deus, e fazer-se pequeno. Representado, aqui, no banho no Jordão ou na pequena aldeia de Nazaré”.



Imagem de Nossa Senhora Aparecida fica intacta em meio a um incêndio



SÃO PAULO, 23.fev.2016 (ACI).- Uma casa em Dracena (SP) foi destruída por um incêndio na segunda-feira, 22. Mas, em meio às cinzas e aos materiais queimados, uma cena comoveu o bombeiro que atuou na ocorrência e logo teve grande circulação na internet: uma imagem de Nossa Senhora Aparecida que ficou intacta.

O caso aconteceu na manhã de ontem em uma residência antiga e não houve nenhuma vítima.

Porém, o que mais chamou a atenção foi o fato de a imagem da Virgem de Aparecida resistir às altas temperaturas. O bombeiro Anderson Batista, que trabalhou com sua equipe para aplacar o incêndio, ao entrar na casa, ficou impressionado e compartilhou a cena que o surpreendeu em seu Facebook.

“Logo após a extinção o bombeiro faz o trabalho de rescaldo e quando entrei no quarto encontrei a imagem de Nossa Senhora Aparecida intacta, sem nenhum trinco e muitos menos derretida”, postou o bombeiro.

Para Anderson Batista, foi realmente “um milagre, pois a temperatura era muito alta para uma simples imagem resistir”.


Mais uma vez intacta: telhado de capela desaba e imagem de Nossa Senhora não cai



SÃO PAULO, 25
.fev.2016 (ACI).- No mesmo dia em que uma imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada intacta após um incêndio em Dracena (SP), em outra cidade do interior paulista, os moradores também ficaram impressionados com um incidente do qual apenas a estátua da padroeira do Brasil saiu ilesa.

O fato aconteceu em Assis (SP), onde o telhado da Capela do Centro Comunitário Santa Edwiges desabou na segunda-feira, 22. No meio de telhas e estruturas de ferro que destruíram o espaço, sobressaiu a imagem da Virgem Aparecida, a qual permaneceu erguida no altar sem sofrer qualquer dano pelo incidente.

Conforme o zelador do Centro Comunitário, Silvério Gandolfo Neto, contou ao site G1, as demais imagens que estavam no local quebraram e a única que resistiu foi a de Nossa Senhora Aparecida.

“Emociona porque a gente é católico e tem fé”, expressou o zelador.

A capela recebe Missas aos domingos e encontros de Catequese aos sábados. A última Missa aconteceu no dia 21 e no momento do desabamento não havia ninguém no local o que, para os moradores, também foi um milagre, pois evitou que houvesse vítimas.

O espaço que tem capacidade para 500 pessoas foi construído há 15 anos com a colaboração da comunidade. Silvério Gandolfo relembrou que no princípio iam de casa em casa pedindo doações, eram realizadas festas, tudo para arrecadar os recursos para a construção. “Foi uma luta para fazer esse barracão, essa igreja”, disse.

O ocorrido, porém, não desanimou a população que novamente pela fé se unirá para reerguer o templo. “Nós não adoramos imagem, mas nós sabemos que Nossa Senhora, Mãe de Jesus, está com a gente nessa luta”, afirmou a aposentada Florinda Gandolfo ao portal de notícias.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, o desabamento do telhado pode ter sido causado por conta de um abalo na estrutura do local, causado pela umidade das chuvas.

O subtenente Antônio Carlos explicou que teria ocorrido uma movimentação do terreno por causa do alto volume de chuvas, o que levou as vigas e colunas do prédio a cederem, levando ao desmoronamento.


Papa no Angelus: "Nunca é tarde demais para se converter. É urgente, é hora!"

Vaticano, 28.fev.2016 (ACI).- O Papa Francisco presidiu a Oração do Angelus neste terceiro domingo de Quaresma, recordou o seu significado e convidou aos fiéis à conversão com o olhar fixo na paciência de Deus.

O Santo Padre explicou que estamos em um “ano de graça”: “o ministério de Cristo, o tempo da Igreja antes da sua volta gloriosa, o tempo de nossa vida, o qual está marcado por uma série de Quaresmas que são oferecidas para nós como uma ocasião de arrependimento e salvação”.

Ao falar sobre a paciência de Deus, o Pontífice assegurou: "Nunca é tarde demais para se converter. É urgente, é hora!"

Francisco, como de costume, comentou as leituras da liturgia do dia e mencionou também os terríveis acontecimentos e tragedias que acontecem. “Cada dia, infelizmente, escutamos notícias tristes: homicídios, incidentes, catástrofes… na passagem do Evangelho de hoje, Jesus menciona dois acontecimentos trágicos que naquele então afetaram as pessoas: uma repressão cruel cometida pelos soldados romanos dentro do templo; e o derrubamento da torre de Siloé, em Jerusalém”.

Em seguida, o Papa explicou que “Jesus sabia que as pessoas interpretavam aquele tipo de evento de modo errado”. Acreditam que "aqueles homens que morreram haviam sido castigados por Deus”.

Entretanto, Jesus “rechaça esta visão porque Deus não permite que as tragédias aconteçam para punir as culpas, e afirma que aquelas pobres vítimas não eram piores do que os outros”. Inclusive lhes disse: “Se vocês não se converterem, morrerão da mesma maneira”.

“Ainda hoje, diante de certas desgraças e acontecimentos tristes, temos por vezes a tentação de ‘desencarregar’ a responsabilidade nas vítimas, inclusive sobre Deus", destacou.

“Mas o Evangelho nos convida a refletir: que ideia temos de Deus?"

O Pontífice recordou ainda que "Jesus nos convida a mudar o coração, a dar uma guinada no caminho de nossas vidas, a deixar de lado os compromissos com o mal e as hipocrisias e percorrer com decisão o caminho do Evangelho”.

Nesse sentido, Francisco voltou a nos pedir para “não julgarmos jamais os outros” e alertou para a “tentação de nos justificarmos, quando acreditamos ser pessoas boas, crentes e suficientemente praticantes”, como destaca a parábola do Evangelho do dia.

“Que a Virgem Maria nos ajude, para que possamos abrir o coração à graça de Deus, a sua misericórdia; e nos ajude a jamais julgar os outros e a fazer um sério exame de consciência e arrepender-nos”.



A liberdade religiosa está sob ataque nos Estados Unidos

“A liberdade religiosa nos Estados Unidos nunca esteve tão sob ataque quanto agora”. O alarme é disparado por Kelly Shackelford, presidente da First Liberty Institute, um grupo de advogados que oferecem assistência jurídica gratuita às vítimas de discriminação religiosa nos EUA. A organização publicou um relatório de 376 páginas que mostra que os atos de intolerância na imprensa, nas escolas, contra as igrejas, no exército e nas ruas foram 1.285 em 2015, o dobro dos casos registrados em 2012.

O relatório menciona exemplos como o caso de um homem de Iowa, demitido do jornal Newton Daily News por ter compartilhado em seu blog alguns trechos da Bíblia que condenam as práticas homossexuais. Destino semelhante coube a um homem Denver, a quem as autoridades impediram a abertura de uma empresa por causa da sua fé religiosa e da sua defesa do casamento entre homem e mulher.

Além das opiniões sobre o casamento, declarar-se cristão nos EUA pode ser suficiente para ser discriminado. Foi o que aconteceu com dois estudantes não admitidos à especialização em radioterapia no Community College de Baltimore porque falaram da sua fé durante as entrevistas. Nas escolas, aliás, são muitos os casos de alunos, professores e até instituições inteiras punidos por expressarem as suas crenças ou forçados a não expressá-las.

Assemelha-se à rígida lei chinesa que regula a construção de igrejas um fato que aconteceu numa casa particular em Phoenix, onde os proprietários tinham organizado encontros regulares para o estudo da Bíblia. Quando o número de participantes ultrapassou 35 pessoas, a prefeitura apelou para leis locais de edificação e passou a exigir que a casa se ajuste às mesmas exigências que valem para os edifícios religiosos.

Os símbolos cristãos parecem desagradar também o exército dos EUA. Em 2013, no Afeganistão, foi retirada a cruz da capela de uma base militar norte-americana a pedido de um soldado. Um veterano chegou a ser afastado pelo departamento militar de Nova Jersey por ter dito em várias ocasiões, durante cerimônias em homenagem aos caídos: “Deus o abençoe e à sua família. Deus abençoe os Estados Unidos da América”.

Se não se pode nem sequer dizer “Deus abençoe os Estados Unidos da América” é porque a situação na “terra da liberdade” é “grave”, como destacou Shackelford. O presidente do First Liberty Institute enfatizou que, quando se discrimina a fé religiosa, mina-se “a base dos outros direitos, como o de liberdade de expressão, de imprensa e de reunião”.
zenit.org



Francisco recorda os 10 anos da primeira Encíclica de Bento XVI

Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco recebeu em audiência no final da manhã desta sexta-feira (26/02), no Vaticano, os participantes do Congresso Internacional sobre os 10 anos da Encíclica Deus caritas est”.

A primeira Encíclica de Bento XVI, disse o Papa em seu discurso, trata de um tema que permite percorrer toda a história da Igreja, que é também uma história de caridade.

“Esta caridade recebida e doada é o fulcro da história da Igreja e de cada um de nós. O ato de caridade, de fato, não é somente dar uma esmola para lavar-se a consciência, mas inclui uma atenção de amor dirigida ao outro.”

O Ano Jubilar que estamos vivendo, reiterou Francisco, é também uma ocasião para voltar a este coração pulsante da nossa vida e do nosso testemunho. Caridade e misericórdia, destacou, estão estreitamente ligadas, porque são o modo de ser e de agir de Deus: a sua identidade e o seu nome.

Bússola

O Pontífice ressaltou dois aspectos da Encíclica. O primeiro por recordar a verdadeira face de Deus: quem é o Deus que podemos encontrar em Cristo e como é fiel e insuperável o seu amor. “Devemos olhar para a caridade divina como a bússola que orienta a nossa vida antes de nos encaminhar para qualquer atividade: ali encontramos a direção, dela aprendemos como olhar os irmãos e o mundo”, destacou o Papa.

O segundo aspecto é que a Encíclica nos recorda que esta caridade deve se espelhar sempre mais na vida da Igreja. “Como gostaria que cada atividade revelasse que Deus ama o homem!”, acrescentou o Papa.  A missão caritativa da Igreja é importante, explicou, não só porque leva os homens a uma vida digna, mas – sobretudo – porque faz com que cada pessoa se sinta concretamente amada por Deus. E Francisco agradeceu a todos aqueles que se empenham diariamente nesta missão, reiterando o convite a colocar em prática, neste Ano Jubilar, as obras de misericórdia corporais e espirituais.

Concretude

“Viver as obras de misericórdia significa conjugar o verbo amar segundo Jesus”, completou o Papa, concluindo: “A Encíclica Deus caritas est conserva intacto o frescor da sua mensagem, com a qual indica a perspectiva sempre atual para o caminho da Igreja”.

O Congresso internacional foi organizado pelo Pontifício Conselho Cor Unum nos dias 25 e 26 deste mês.

A conferência se insere no programa de eventos do Jubileu da Misericórdia e tem como objetivo examinar e aprofundar as perspectivas teológicas e pastorais da Encíclica para o mundo de hoje, sobretudo em relação ao trabalho daqueles que exercem o serviço de caridade da Igreja.

Participam do encontro representantes de vários países das conferências episcopais e de organismos caritativos da Igreja. Do Brasil, participa o Secretário-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Dom Leonardo Steiner.


No congresso internacional promovido pelo Cor Unum o Papa falou sobre a caridade na vida da Igreja - O coração e a bússola

A caridade é o «coração pulsante» da vida da Igreja e a «bússola» que orienta os seus passos: recordou o Papa Francisco no discurso dirigido na manhã de sexta-feira, 26 de fevereiro, aos participantes no congresso internacional organizado pelo Pontifício Conselho Cor Unum dez anos depois da publicação da encíclica de Bento XVI «Deus caritas est».

«A história da Igreja é também história de caridade» frisou a propósito o Pontífice, explicando que se trata de «uma história de amor recebido de Deus que deve ser levado ao mundo». Precisamente «esta caridade recebida e doada é o centro da história da Igreja e da história de cada um de nós». Por conseguinte, disto deriva que o ato de caridade não pode ser considerado «só uma esmola para limpar a consciência»; ao contrário, ele deve abranger «uma atenção de amor dirigida ao outro, que considera o outro um só consigo mesmo e deseja partilhar a amizade com Deus».

Ao pôr em relevo o estreito vínculo entre caridade e misericórdia o Papa observou que «Deus não tem simplesmente o desejo ou a capacidade de amar; Deus é caridade: a caridade é a sua essência, a sua natureza». Ele «não pode estar sozinho, nem se fechar em si mesmo, porque é comunhão, é caridade, e a caridade pela sua natureza comunica-se, difunde-se». Eis por que «Deus associa à sua vida de amor o homem e, mesmo quando o homem se afastar, ele não fica distante e vai ao encontro do homem». Nisto consiste a sua misericórdia: «é o seu modo de se exprimir a nós, pecadores, o seu rosto que nos observa e cuida de nós». Portanto, caridade e misericórdia «estão tão estreitamente ligadas, porque são o modo de ser e de agir de Deus: a sua identidade e o seu nome».

Eis por que cada forma de solidariedade e de partilha é só «um reflexo da caridade que é Deus» e para a qual «devemos olhar como para a bússola que orienta a nossa vida, antes de iniciar cada atividade: ali encontramos a direção, dela aprendemos como olhar para os irmãos e para o mundo». Uma caridade que, para o Papa Francisco, se deveria refletir cada vez mais na vida da Igreja. «Como gostaria – desejou – que cada um na Igreja, cada instituição, cada atividade revelasse que Deus ama o homem!». Sim, a missão dos organismos caritativos eclesiais «é importante, porque aproximam muitas pessoas pobres a uma vida mais digna, mais humana, mais que nunca necessária; mas esta missão é importantíssima porque, não com palavras, mas com o amor concreto pode fazer sentir que cada homem é amado pelo Pai, seu filho, destinado à vida eterna com Deus». O Pontífice agradeceu «a todos os que se comprometem diariamente nesta missão».

Com a certeza de que a Deus caritas est «conserva intacto o vigor da sua mensagem, com a qual indica a perspetiva sempre atual para o caminho da Igreja».
L'Osservatore Romano



Papa: É uma graça ver o pobre que bate à porta de nosso coração


Cidade do Vaticano (RV) - O Papa Francisco celebrou a missa na Casa Santa Marta, na manhã desta quinta-feira (25/02/2016).

No Evangelho do dia, Jesus conta a parábola do homem rico “que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias” e não percebia que à sua porta havia um pobre, chamado Lázaro, cheio de chagas. O Papa convidou a fazer-se a seguinte pergunta: “Sou um cristão que caminha na estrada da mentira, somente do dizer, ou sou um cristão que segue o caminho da vida, ou seja, das obras, do fazer?” Este homem rico, de fato, ressalta Francisco, “conhecia os mandamentos, certamente todos os sábados ia à sinagoga e uma vez por ano ao templo”. Tinha uma certa religiosidade”:

Bolha de vaidade

“Mas era um homem fechado, fechado em seu pequeno mundo, o mundo dos banquetes, das roupas, da vaidade, dos amigos. Um homem fechado numa bolha de vaidade. Não tinha a capacidade de olhar além, mas somente ao seu próprio mundo. E este homem não percebia o que acontecia fora de seu mundo fechado. Não pensava, por exemplo, nas necessidades de muitas pessoas ou na necessidade de companhia dos doentes, somente pensava nele, em suas riquezas, em sua vida boa: se entregava à boa vida.”

Era, portanto, um religioso aparente, “não conhecia nenhuma periferia, era fechado em si mesmo. Não conhecia a periferia que estava próxima à sua porta de casa. Percorria o caminho da mentira, porque confiava somente em si mesmo, em suas coisas, não confiava em Deus”. Um homem que não deixou herança, não deixou vida, porque somente era fechado em si mesmo. É curioso, sublinha o Papa Francisco, que tinha perdido o nome. O Evangelho não diz como se chamava, somente diz que era um homem rico, e quando o seu nome é somente um adjetivo é porque você perdeu a substância, perdeu a força”:

O pobre é o Senhor que bate à porta

“Este é rico, este é potente, este pode fazer tudo, este é um sacerdote de carreira, um bispo de carreira. Quantas vezes nós nominamos as pessoas com adjetivos, não com os nomes, porque não têm substância. Mas eu me pergunto: “Deus que é Pai, não teve misericórdia deste homem? Não bateu à porta de seu coração para movê-lo? Sim, o Senhor estava ali na porta, na pessoa de Lázaro, que tinha um nome. Este Lázaro com as suas necessidades e suas misérias, suas doenças, era o Senhor que batia à porta para que aquele homem abrisse o coração e a misericórdia pudesse entrar. Mas ele não via, estava fechado: para ele além da porta não havia nada”.

Estrada da vida ou da mentira

Estamos na Quaresma, recorda o Papa, e nos fará bem nos perguntar: qual estrada estamos percorrendo?

“Estou na estrada da vida ou na estrada da mentira? Quantas fechaduras tenho ainda em meu coração? Onde está a minha alegria: no fazer ou no dizer? O sair de mim mesmo para ir ao encontro dos outros é para ajudar? Olha as obras de misericórdia, hein! Ou a minha alegria é ter tudo arrumado, fechado em mim mesmo? Peçamos ao Senhor, enquanto pensamos nisto, em nossa vida, a graça de ver sempre os Lázaros que estão à nossa porta, os Lázaros que batem ao coração, e que possamos sair de nós mesmos com generosidade, numa atitude de misericórdia a fim de que a misericórdia de Deus possa entrar em nosso coração.”

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Após celebrar a Santa Missa, Papa Francisco cancelou seus compromissos de hoje, 25.fevereiro.2016, por uma leve indisposição e um pouco de febre. Rezemos pelo Santo Padre que completou 79 anos em 17 de dezembro de 2015, que Deus, por intercessão do Coração Imaculado de Maria, cuide de sua saúde, mantenha sua vitalidade, ânimo, alegria, fé e misericórdia.


Vaticano: Francisco responde a cartas de crianças

Cidade do Vaticano (Ecclesia) - As respostas do Papa a cartas de crianças de todo o mundo, incluindo o português João, de 10 anos, vão ser lançadas em livro a 1º de março de 2016, com o título ‘Querido Papa Francisco’.

As cartas apresentadas no livro, remetidas por crianças dos seis aos 13 anos, dos cinco continentes, pedem ajuda ao Papa, conselhos, respostas às suas dúvidas e explicações sobre o sentido da fé e da existência, refere a editora.

“O Papa Francisco responde com palavras simples e extraordinariamente íntimas, como um pai extremoso, acolhendo e confiando aos mais pequenos a sua reflexão sobre a vida e sobre a fé”, adianta o texto de apresentação, citado pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

O título da edição italiana, ‘L’amore prima del mondo’, evoca a pergunta sobre o que fazia Deus antes de criar o mundo.

“Amava”, responde o Papa.

A gênese da obra remonta a maio de 2015, quando a Loyola Press, editora dos Jesuítas, propôs a ideia a Francisco, que logo a aceitou, revela a Rádio Vaticano.

Desde então foram recolhidas 259 cartas de 26 países, incluindo: Portugal, Albânia, China, Nigéria, Filipinas e escolas provisórias que acolhem refugiados sírios.

Francisco aborda, entre outro temas, o sofrimento das crianças, em resposta a um rapaz norte-americano de sete anos.

“Ainda não consegui entender porque é que as crianças sofrem. Para mim é um mistério. Não sei dar uma explicação. Interrogo-me sobre isso. Rezo sobre esta pergunta: porque é que as crianças sofrem? É o meu coração que põe a pergunta. Jesus chorou, e chorando compreendeu os nossos dramas. Eu procuro compreender”, escreve.

A distribuição desta obra, inicialmente disponível em inglês e espanhol, está a cargo da Loyola Press; na Itália, é editada pela Rizzoli.

“Do livro”, refere a Rádio Vaticano, “emergem muitos temas e preocupações comuns”, como “o grande amor pelo Papa Francisco, as curiosidades em relação à sua vida e missão, a importância da família e o desejo dos mais novos serem vistos e escutados”.

Numa primeira fase, o livro vai ser lançado na Itália, Espanha, México, Polônia, Indonésia, Filipinas e Índia; ainda não há uma data definida para a publicação em língua portuguesa.


Audiência: Papa pede que poderosos corruptos se convertam

Cidade do Vaticano (RV/Canção Nova) – Cerca de 20 mil fiéis participaram esta quarta-feira (24/02/2016) da Audiência Geral com o Papa Francisco. Ao fazer seu ingresso na Praça S. Pedro a bordo do papamóvel, o Pontífice cumprimentou com afeto os peregrinos, entre eles inúmeros brasileiros.

Em sua catequese, Francisco deu sequência ao ciclo sobre o Jubileu, falando desta vez da misericórdia na Sagrada Escritura.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia.

Prosseguimos as catequeses sobre misericórdia na Sagrada Escritura. Em diversos trechos, fala-se dos poderosos, dos reis, dos homens que estão “no alto”, e também da sua arrogância e de seus abusos. A riqueza e o poder são realidades que podem ser boas e úteis ao bem comum, se colocadas a serviço dos pobres e de todos, com justiça e caridade. Mas quando, como muitas vezes acontece, são vividas como privilégio, com egoísmo e prepotência, transformam-se em instrumentos de corrupção e morte. É o que acontece no episódio da vinha de Nabot, descrito no Primeiro Livro dos Reis, no capítulo 21, sobre o qual nos concentramos hoje.

Neste texto, conta-se que o rei de Israel, Acab, quer comprar a vinha de um homem de nome Nabot, porque esta vinha fica ao lado do palácio real. A proposta parece legítima, até mesmo generosa, mas em Israel as propriedades terrenas eram consideradas quase inalienáveis. De fato, o livro do Levítico prescreve: “A terra não se venderá para sempre, porque a terra é minha e vós estais em minha casa como estrangeiros ou hóspedes” (lv 25, 23). A terra é sagrada, é um dom do Senhor, que como tal deve ser protegido e conservado, enquanto sinal da benção divina que passa de geração em geração e garantia de dignidade para todos. Compreende-se, então, a resposta negativa de Nabot ao rei: “Deus me livre de ceder-te a herança de meus pais!” (1 Re 21, 3).

O rei Acab reage a esta recusa com amargura e desdenho. Sente-se ofendido – ele é o rei, o poderoso – diminuído na sua autoridade de soberano, e frustrado na possibilidade de satisfazer o seu desejo de posse. Vendo-o tão abatido, sua mulher Jezabel, uma rainha pagã, que tinha incrementado os cultos idólatras e fazia matar os profetas do Senhor (cfr 1 Re 18, 4), – não era bruta, era má! – decide intervir. As palavras com que se dirige ao rei são muito significativas. Sintam a maldade que está por trás dessa mulher: “Não és tu, porventura, o rei de Israel? Vamos! Come, não te incomodes. Eu te darei a vinha de Nabot de Jezrael” (v. 7). Ela coloca ênfase sobre o prestígio e sobre o poder do rei que, segundo o seu modo de ver, é questionado pela recusa de Nabot. Um poder que ela, em vez disso, considera absoluto, e pelo qual todo desejo do rei poderoso se torna ordem. O grande Santo Ambrósio escreveu um pequeno livro sobre este episódio. Chama-se “Nabot”. Fará bem a nós lê-lo neste tempo de Quaresma. É muito belo, é muito concreto.

Jesus, recordando essas coisas, nos diz: “Sabeis que os chefes das nações as subjugam e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça escravo vosso. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo” (Mt 20, 25-27). Se se perde a dimensão do serviço, o poder se transforma em arrogância e se torna domínio e opressão. É justamente isso que acontece no episódio da vinha de Nabot. Jezabel, a rainha, de modo não convencional, decide eliminar Nabot e coloca em ação o seu plano. Serve-se da aparência enganadora de uma lei perversa: envia, em nome do rei, cartas aos anciãos e aos notáveis da cidade ordenando que pelos falsos testemunhos acusem publicamente Nabot de ter maldito Deus e o rei, um crime a punir com a morte. Assim, morto Nabot, o rei pode tomar posse de sua vinha. E esta não é uma história de outros tempos, é também história de hoje, dos poderosos que, para ter mais dinheiro, exploram os pobres, exploram as pessoas. É a história do tráfico de pessoas, do trabalho escravo, das pessoas que trabalham na informalidade e com o salário mínimo para enriquecer os poderosos. É a história dos políticos corruptos, que querem mais e mais! Por isso dizia que nos fará bem hoje ler aquele livro de Santo Ambrósio sobre Nabot, porque é um livro da atualidade.

Eis onde leva o exercício de uma autoridade sem respeito pela vida, sem justiça, sem misericórdia. E eis a que coisa leva a sede de poder: torna-se ganância que quer possuir tudo. Um texto do profeta Isaías é particularmente iluminante a respeito. Nisso, o Senhor adverte contra a ganância dos ricos latifundiários que querem possuir sempre mais casas e terrenos. E diz o profeta Isaías:

“Ai de vós que ajuntai casa a casa,
e que acrescentai campo a campo,
até que não haja mais lugar
e que sejais os únicos proprietários da terra” (Is 5, 8).

E o profeta Isaías não era comunista! Deus, porém, é maior que a maldade e que os jogos sujos feitos pelos seres humanos. Na sua misericórdia envia o profeta Elias para ajudar Acab a se converter. Agora voltemos a página, e como segue a história? Deus vê este crime e bate ao coração de Acab e o rei, colocado diante do seu pecado, entende, se humilha e pede perdão. Que belo seria se os poderosos exploradores de hoje fizessem o mesmo! O Senhor aceita o seu arrependimento; todavia, um inocente foi morto e a culpa cometida terá consequências inevitáveis. O mal realizado deixa traços dolorosos e a história dos homens carrega feridas.

A misericórdia mostra também neste caso o caminho mestre que deve ser percorrido. A misericórdia pode curar as feridas e pode mudar a história. Abra o teu coração à misericórdia! A misericórdia divina é mais forte que o pecado dos homens. É mais forte, este é o exemplo de Acab! Nós conhecemos seu poder, quando recordamos a vinda do Inocente Filho de Deus que se fez homem para destruir o mal com o seu perdão. Jesus Cristo é o verdadeiro rei, mas o seu poder é completamente diferente. O seu trono é a cruz. Ele não é um rei que mata, mas, ao contrário, dá a vida. O seu andar em direção a todos, sobretudo aos mais frágeis, derrota a solidão e o destino de morte a que conduz o pecado. Jesus Cristo, com a sua proximidade e ternura, leva os pecadores no espaço da graça e do perdão. E essa é a misericórdia de Deus.


A hipocrisia não é própria do cristão, alerta o Santo Padre

VATICANO, 23.Fev.2016  (ACI).- O Papa Francisco celebrou hoje de manhã a Santa Missa na capela da Casa Santa Marta, onde assegurou que a vida do cristão é fazer a vontade de Deus e dar testemunho. Por sua vez, denunciou os cristãos que “falseiam” seu cristianismo e são hipócritas porque dizem uma coisa e fazem outra.

“Ser cristão significa fazer: fazer a vontade de Deus. E, no último dia – porque todos nós teremos um, né? – naquele dia, o que o Senhor nos pedirá? Dirá: ‘O que disseram de mim?’. Não! Ele nos perguntará sobre as coisas que fizemos”, manifestou o Santo Padre.

O Pontífice afirmou que “Deus é concreto” e denunciou que “muitos cristãos são hipócritas, ao invés de serem testemunho para outros”.

Ao comentar as leituras da liturgia do dia do profeta Isaías e o Evangelho de São Mateus, alertou sobre ‘dizer’ uma coisa e agir de outra maneira.

“O Senhor nos ensina o caminho do fazer. E quantas vezes encontramos pessoas – também nós, eh! – Na Igreja: ‘Oh, sou muito católico!’. ‘Mas o que você faz?’ Quantos pais se dizem católicos, mas nunca têm tempo para falar com os próprios filhos, para brincar com eles, para ouvi-los”, comentou.

“Talvez seus pais estejam num asilo, mas estão sempre ocupados e não podem ir visitá-los e os abandonam. ‘Mas sou muito católico, eh! Eu pertenço àquela associação’. Esta é a religião do dizer: eu digo que sou assim, mas faço mundanidade”, acrescentou.

Portanto, “dizer e não fazer” é uma enganação. As palavras de Isaías, destacou, indicam o que Deus prefere: “Deixai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem”, explicou o Santo Padre.

Em seguida o Papa Francisco disse: “A misericórdia do Senhor vai ao encontro daqueles que têm a coragem de discutir com Ele, mas discutir sobre a verdade, sobre as coisas que fazem ou não fazem, só para corrigir. E este é o grande amor do Senhor, nesta dialética entre o dizer e o fazer”.

Ao finalizar, o Pontífice pediu em sua homilia “que o Senhor nos dê esta sabedoria de entender bem onde está a diferença entre dizer e fazer e nos ensine o caminho do fazer e nos ajude a percorrê-lo, porque o caminho do dizer nos leva ao lugar onde estavam os doutores da lei, os clérigos, que gostavam se vestir e ser como majestades, não? E esta não é a realidade do Evangelho!”.

Leituras do dia:

Primeira Leitura (Isaías 1,10.16-20)

Ouvi a palavra do Senhor, magistrados de Sodoma, prestai ouvidos ao ensinamento do nosso Deus, povo de Gomorra. Lavai-vos, purificai-vos. Tirai a maldade de vossas ações de minha frente. Deixai de fazer o mal! Aprendei a fazer o bem! Procurai o direito, corrigi o opressor. Julgai a causa do órfão, defendei a viúva. Vinde, debatamos — diz o Senhor. Ainda que vossos pecados sejam como púrpura, tornar-se-ão brancos como a neve. Se forem vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como lã. Se consentirdes em obedecer, comereis as coisas boas da terra. Mas se recusardes e vos rebelardes, pela espada sereis devorados, porque a boca do Senhor falou!

Evangelho (Mateus 23:1-12)

Naquele tempo, Jesus falou às multidões e aos seus discípulos e lhes disse: “Os mestres da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, deveis fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam. Amarram pesados fardos e os colocam nos ombros dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo.

Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros. Eles usam faixas largas, com trechos da Escritura, na testa e nos braços, e põem na roupa longas franjas.

Gostam de lugar de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas. Gostam de ser cumprimentados nas praças públicas e de serem chamados de Mestre. Quanto a vós, nunca vos deixeis chamar de Mestre, pois um só é vosso Mestre e todos vós sois irmãos. Na terra, não chameis a ninguém de pai, pois um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. Não deixeis que vos chamem de guias, pois um só é vosso Guia, Cristo. Pelo contrário, o maior dentre vós deve ser aquele que vos serve. Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado”.


Em Missa, Papa celebra Jubileu da Cúria Romana

VATICANO, 22.Fev.2016 (ACI).- O Papa Francisco presidiu hoje uma Missa na Basílica de São Pedro pelo Jubileu da Cúria Romana por ocasião do Ano Santo e explicou a importância da fidelidade e da misericórdia no serviço cotidiano que realizam.

“Deixemos que o Senhor nos livre de qualquer tentação que nos afaste do essencial da nossa missão e redescubramos a beleza de professar a fé no Senhor Jesus. A fidelidade ao ministério conjuga-se bem com a misericórdia que queremos experimentar”, disse o Santo Padre no dia em que a Igreja celebra a festa da Cátedra de São Pedro.

Esta manhã, milhares de pessoas entre leigos, religiosos e sacerdotes participaram antes de uma reflexão na Sala Paulo VI de onde caminharam em procissão até a Basílica, na qual ingressaram cruzando a Porta Santa e onde o Papa celebrou a Missa em latim.

Em sua homilia, o Santo Padre recordou que “nas Sagradas Escrituras, a fidelidade e a misericórdia são um binômio inseparável” e fez aos presentes a mesma pergunta de Jesus: “ ‘Vós, quem dizeis que eu sou?’ Uma pergunta clara e direta, diante da qual não é possível fugir ou abster-se, nem adiar a resposta ou delegá-la a outra pessoa e não há nada de inquisitório” nesta pergunta que “está cheia de amor”.

“Estamos reunidos no túmulo do Apóstolo Pedro para fazer nossa profissão de fé e hoje, a Palavra de Deus ilumina de modo especial os nossos gestos”.

Segundo Francisco, esta profissão de fé dá a cada um a tarefa de corresponder ao chamado de Cristo. “Aos pastores é pedido para que tenham como modelo o próprio Deus que cuida do seu rebanho”.

“O Profeta Ezequiel descreveu a maneira de agir de Deus: Ele vai à procura da ovelha perdida, reconduz a ovelha perdida ao pasto, enfaixa a ovelha ferida e cura a que está doente. Um encorajamento que é sinal do amor que não conhece limite. É uma dedicação fiel, constante e incondicionada para que aos mais fracos possa chegar a misericórdia”.

Em seguida, o Pontífice ressaltou: “Faz bem também a nós, chamados a ser pastores na Igreja, deixar que o rosto do Deus Bom Pastor nos ilumine, nos purifique, nos transforme e nos restitua plenamente renovados à nossa missão”.

“Que também em nossos ambientes de trabalho possamos sentir, cultivar e praticar um forte sentido pastoral, sobretudo com as pessoas que encontramos todos os dias. Que ninguém se sinta transcurado ou maltratado, mas cada um possa experimentar, primeiramente, o cuidado atencioso do Bom Pastor”.

O Papa cita também Santo Agostinho quando escreve que “a Igreja, não obstante agitada e abalada pelas vicissitudes da história, não cai, porque é fundamentada na pedra que é Cristo e sobre este fundamento também Pedro foi edificado”.

Ao finalizar, o Papa Francisco afirmou que os que servem na Cúria do Vaticano são chamados a “ser colaboradores de Deus em uma missão tão fundamental e única como a de testemunhar com nossa existência a força da graça que transforma e a potência do Espírito que renova”.



A grande imprensa e a distorção das entrevistas do Papa

Há um pequeno grupo de jovens juristas e estudantes de direito que eu acompanho. É um grupo pequeno e despretensioso, que se reúne mensalmente numa faculdade de Direito e tenta pensar as questões jurídicas a partir da consideração de uma reta filosofia e dos princípios morais cristãos. A experiência tem uns três anos, e tem sido muito enriquecedora para mim – e creio que para todos os que estão envolvidos. O grupo tem, é claro, um bate-papo numa rede social telefônica, no qual discute os temas candentes relativos à interseção entre fé e direito que não cessam de irromper na imprensa. Muitas vezes, inclusive, quando as polêmicas se acendem, convidamos alguém para falar para nós, para que possamos debater e aprender mais sobre algum aspecto atual e polêmico sobre os debates que atravessam a nossa sociedade e o meio jurídico e acadêmico.

Como não poderia deixar de ser, o dia começou com uma chuva de perguntas dos jovens no “whatzapp” do grupo, a respeito das notícias, publicadas em toda a grande imprensa, de que o Papa teria admitido que os anticoncepcionais seriam um “mal menor” em caso de infecção por “Zika vírus”. Outros órgãos teriam dito que o Papa “admite o uso de anticoncepcionais contra o Zika vírus”, ou que ele “abriu exceção”, ou que declarou “aceitável” o uso de contracepção artificial nestes casos. Muita polêmica foi gerada, principalmente fora do grupo, com reações as mais variadas, desde aqueles que interpelaram nossos jovens para “festejar” o “avanço” do papa em rumo a una igreja “mais aberta”, mais “atual” e livre dos “preconceitos” e dos “resquícios de tradicionalismos”, até aqueles que rasgaram as vestes e maldisseram as entrevistas do papa em aviões. Alguém chegou a me enviar uma mensagem que recebeu, na qual alguém atribui ao Papa a intenção de “mudar tudo” na igreja Católica”, o que ele só não “conseguiu” devido à suposta “resistência”de alguns maldosos cardeais” da Cúria, que, aferrados ao seu medievalismo, estariam sabotando o Papa Francisco na sua suposta “intenção” de “ordenar mulheres”, “casar” pessoas homoafetivas e liberar a comunhão para todos”. A mensagem terminava com o autor anônimo suspirando: “este Papa quase me dá vontade de ser católico…”

Ah, a força irresistível das teorias da conspiração, aliadas ao que meu filho do meio chama de “deboísmo” (aquela postura contemporânea que acredita que é melhor ser “gente boa” do que procurar fazer a coisa certa…). Por que é tão fácil acreditar e seguir estas duas posturas? Limites humanos…

Ora, eu adverti aos jovens que é necessário sempre ler as informações sobre a Igreja nas fontes corretas. No nosso caso, recomendei a leitura da íntegra da entrevista, aqui. Não sem antes alertar que a maioria das manchetes era tão absurda que a sua simples leitura atenta mostraria sua impropriedade: como seria pensável que qualquer pessoa em sã consciência, papa ou não, pudesse jamais “recomendar o uso de anticoncepcionais contra o Zika Vírus”? É claro que nem o Papa, nem ninguém jamais diria isto!

Lendo o texto da entrevista, fica muito claro que a grande maioria das coisas que se atribui ao Papa não saíram de sua boca, mas da pergunta do repórter – que, como não foi impugnada ponto por ponto pelo Papa, fez com que a imprensa presumisse que ele concordava com os pontos não impugnados. Velha técnica jurídica, truque batido nos tribunais, mas que ainda engana muita gente incauta.

Mas da leitura atenta, fica claro que quem introduziu a questão da “ética do proporcionalismo” em relação à epidemia do Zika vírus foi o repórter, em sua pergunta, assim:

“Santo Padre, há algumas semanas há muita preocupação em muitos países latino-americanos, mas também na Europa, sobre o vírus “Zika”. O risco maior seria para as mulheres grávidas: há angústia. Algumas autoridades propuseram o aborto, ou de se evitar a gravidez. Neste caso, a Igreja pode levar em consideração o conceito de “entre os males, o menor”?”

A pergunta tem uma estrutura muito semelhante àquela feita outrora levaram a adúltera a Jesus e o confrontaram com a legislação que lhe previa o apedrejamento: trata-se de constranger o entrevistado à dura alternativa de ter que escolher, na sua resposta, entre renegar a lei ou renegar a compaixão a quem está numa situação concreta de sofrimento. Como sair de algo assim?

O Papa o faz iniciando através da dura refutação ao aborto. Chama-o de “mal absoluto”, de “crime”, de “comportamento mafioso” de quem “descarta um para salvar o outro”.

Neste ponto, uma das pessoas com quem eu dialogava me questionou se o Papa não tinha sensibilidade com aquelas situações em que se aborta, de maneira perfeitamente legal, para salvar a vida da gestante… Eu respondi, simplesmente, que neste caso há a hipótese do chamado “duplo efeito”: não se quer o aborto. Não se pode querer diretamente o aborto jamais. A vontade é dirigida, aí, à remoção daquilo que constitui ameaça à vida de ambos, a mãe e o filho no ventre. Pode-se, no entanto, tolerar que determinada intervenção cause o efeito, não diretamente querido nem diretamente buscado, mas apenas aceitado, de que a intervenção circunstancialmente cause a morte do bebê no processo de salvar a vida da mãe. Esta morte continua objetivamente má, portanto não pode ser jamais objeto de vontade. Muito menos de intervenção médica direta ou quando o pretexto é o “conforto” dos pais. O Papa está dizendo exatamente isto.

No caso da contracepção, o que o Papa está dizendo é apenas que evitar a gravidez é sempre um mal, porque sempre implica ponderar entre o quinto mandamento – que o fechamento à vida consequente ao ato sexual sempre implica – e o sexto mandamento, aquele que trata da incontinência sexual. Mas a regulação da fertilidade, diz ele, não é um mal em si – justifica-se em situações extremas. Isto já dizia a Humanae Vitae, encíclica do Papa Paulo VI, (que o Papa Francisco cognominou, na resposta, de “o Grande”, com toda justiça) que é celebrada como grande marco em ética sexual. Note-se que o Papa, quando tratou de contracepção artificial, deu um exemplo de contracepção que envolve uma situação de violência sexual contra mulheres indefesas, mais especificamente o estupro de freiras na África, como ilustração do que ele está dizendo.

No mais, diante de uma situação de fato, a epidemia de Zika vírus, na qual nem a ciência tem ainda uma resposta clara, o Papa expressamente diz que a solução para o combate a esta epidemia deve ser o desenvolvimento das pesquisas científicas: “exorto os médicos para que façam tudo para encontrar as vacinas contra estes mosquitos que trazem este mal: sobre isto se deve trabalhar.”

No entanto, e com muita prudência, o Papa se recusa a fazer uma ponderação que implicará na substituição das consciências pessoais confrontadas com um caso concreto do qual ele desconhece as circunstâncias. Exatamente o contrário do que faria, digamos, um líder de seita ou um fundamentalista religioso. Ele simplesmente deixou às pessoas o dever de ponderar, com suas retas consciências, sobre como agir no caso concreto, a partir dos critérios da lei natural, dos mandamentos de Deus e da indisponibilidade da vida. Ele reafirma apenas que evitar a gravidez não é um mal absoluto, quando houver justificativas seríssimas, como já havia dito Paulo VI; mas é sempre um mal, e por isso deve ser considerada com toda prudência e em casos concretos análogos ao que citou, das freiras que eram sistematicamente estupradas. O resto são ilações decorrentes do texto da pergunta do repórter, não da resposta do Papa.

Eu tenho um querido amigo que sempre me diz, brincando, que a Igreja tem Magistério, não “entrevistério”. Principalmente quando se busca informações sobre o Papa na grande imprensa. O conselho que este experiente sacerdote me deu, e que compartilhei com os jovens do grupo, foi o seguinte: toda vez que formos confrontados com alguma suposta “fala” do Papa noticiada pela grande imprensa, perguntemos simplesmente: “onde exatamente o Papa está dizendo isto que dizem que ele falou?”

E ele prosseguiu: “O papa Francisco fala às vezes de um modo que a sua misericórdia e noticiada e distorcida de uma maneira que parece implicar a desconsideração do magistério da Igreja. Mas ele não o fará nunca. Duas coisas devemos, portanto, ter em conta: 1) a percepção irrefutável (ou “de jure”, como dizem os advogados) de que o Papa é católico, e que portanto não somente não precisa reafirmar, a cada vez que fala, que tudo o que a igreja crê continua válido; e 2) que jamais poderemos encontrar, no texto mesmo de suas palavras, as conclusões que seus interlocutores de má-fé querem encontrar ali.”

Quando eu sugeri, brincando, que nos cotizássemos para enviar o Papa, em suas viagens, sempre de navio e nunca de avião, para evitar estas polêmicas, o velho sacerdote me deu uma última lição: “Estas ocasiões, estes alvoroços da imprensa, são uma grande oportunidade de evangelização! Desde que, é claro, conheçamos a Bíblia e a verdadeira Tradição da Igreja, amemos a Deus, respeitemos o Papa, teremos nestas oportunidades a possibilidade de esclarecer nosso interlocutor a respeito da verdade cristã que o Papa está sempre anunciando aos nossos contemporâneos – desde que, é claro, conheçamos razoavelmente nossa própria fé e busquemos, pela graça, vivê-la e testemunhá-la sempre!”


Em 20 de fevereiro a Igreja celebrou os Beatos Francisco e Jacinta, videntes da Virgem de Fátima


20 Fev. 16 / 07:00 am (ACI).- “Rezem, rezem muito e façam sacrifícios pelos pecadores, pois muitas almas vão ao inferno porque não há quem se sacrifique e peça por elas”, foi o pediu a Virgem de Fátima a Francisco, Jacinta e Lúcia. E, neste dia 20 de fevereiro, a Igreja recorda a memória de dois desses videntes, os Beatos Francisco e Jacinta.

Francisco nasceu em 1908 e Jacinta, dois anos depois. Desde pequenos aprenderam a tomar cuidado com as más companhias e, por isso, preferiam estar com sua prima Lúcia, que costumava lhes falar sobre Jesus. Os três cuidavam das ovelhas, brincavam e rezavam juntos.

De 13 de maio a 13 de outubro de 1917, a Virgem lhes apareceu em várias ocasiões na Cova de Iria (Portugal). Durante estes ocorridos, suportaram com valentia as calúnias, injúrias, más interpretações, perseguições e a prisão. Eles diziam: “Se nos matarem, não importa; vamos ao céu”.

Logo depois das aparições, Jacinta e Francisco seguiram sua vida normal. Lúcia foi para a escola, tal como pediu a Virgem, e era acompanhada por Jacinta e Francisco. No caminho, passavam pela Igreja e saudavam Jesus Eucarístico.

Francisco, sabendo que não viveria muito tempo, dizia a Lúcia: “Não vocês ao colégio, eu ficarei aqui com o Jesus Escondido”. À saída do colégio, as meninas o encontravam o mais perto possível do Tabernáculo e em recolhimento.

O pequeno Francisco era o mais contemplativo e queria consolar a Deus, tão ofendido pelos pecados da humanidade. Em uma ocasião, Lúcia lhe perguntou: “Francisco, o que prefere, consolar o Senhor ou converter os pecadores?”. Ele respondeu: “Eu prefiro consolar o Senhor”.


 
“Não viu que triste estava Nossa Senhora quando nos disse que os homens não devem ofender mais o Senhor, que já está tão ofendido? Eu gostaria de consolar o Senhor e, depois, converter os pecadores para que eles não ofendam mais ao Senhor”. E continuou: “Logo estarei no céu. E quando chegar, vou consolar muito Nosso Senhor e Nossa Senhora”.

Jacinta participava diariamente da Santa Missa e tinha grande desejo de receber a Comunhão em reparação dos pobres pecadores. Atraía-lhe muito estar com Jesus Sacramentado. “Quanto amo estar aqui, é tanto o que lhe tenho que dizer a Jesus”, repetia.

Certo dia, pouco depois da quarta aparição, Jacinta encontrou uma corda e concordaram reparti-la em três e colocá-la na cintura, sobre a carne, como sacrifício. Isto os fazia sofrer muito, contaria Lúcia depois. A Virgem lhes disse que Jesus estava muito contente com seus sacrifícios, mas que não queria que dormissem com a corda. Assim o fizeram.

A Jacinta, concedeu-lhe a visão de ver os sofrimentos do Sumo Pontífice. “Eu o vi em uma casa muito grande, ajoelhado, com o rosto entre as mãos, e chorava. Fora, havia muita gente; alguns atiravam pedras, outros diziam imprecações e palavrões”, contou ela.

Por isso e outros feitos, as crianças tinham presente o Santo Padre e ofereciam três Ave Maria por ele depois de cada Rosário. Do mesmo modo, as famílias iam a eles para que intercedessem por seus problemas.

Em uma ocasião, uma mãe rogou a Jacinta que pedisse por seu filho que se foi como o filho pródigo. Dias depois, o jovem retornou para casa, pediu perdão e contou a sua família que depois de ter gasto tudo o que tinha, roubado e estado no cárcere, fugiu a uns bosques desconhecidos.

Quando se achou completamente perdido, ajoelhou-se chorando e rezou. Nisso, viu Jacinta que o pegou pela mão e o conduziu até um caminho. Assim, pôde retornar para casa. Logo interrogaram Jacinta se tinha se encontrado com o moço e ela disse que não, mas que sim tinha rogado muito à Virgem por ele.

Em 23 de dezembro de 1918, Francisco e Jacinta adoeceram de uma terrível epidemia de bronco-pneumonia. Francisco foi piorando pouco a pouco durante os meses posteriores. Pediu para receber a Primeira Comunhão e, para isso, confessou-se e guardou jejum. Recebeu-a com grande lucidez e piedade. Depois, pediu perdão a todos.

“Eu vou ao Paraíso; mas de lá pedirei muito a Jesus e à Virgem para que lhes leve também logo lá em cima”, disse para Lúcia e Jacinta. No dia seguinte, em 4 de abril de 1919, partiu para a casa do Pai com um sorriso angelical.

Jacinta sofreu muito pela morte de seu irmão. Mais tarde, sua enfermidade se complicou. Foi levada ao hospital da Vila Nova, mas retornou para casa com uma chaga no peito. Logo confiaria a sua prima: “Sofro muito; mas ofereço tudo pela conversão dos pecadores e para desagravar o Coração Imaculado da Maria”.

Antes de ser levada ao hospital de Lisboa disse a Lúcia: “Já falta pouco para ir ao céu…  Diz a toda a gente que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de Maria. Que as peçam a Ela, que o Coração de Jesus quer que ao seu lado se venere o Imaculado Coração da Maria, que peçam a paz ao Imaculado Coração, que Deus a confiou a Ela”.

Operaram Jacinta, tiraram-lhe duas costelas do lado esquerdo e ficou uma grande chaga como de uma mão. As dores eram espantosas, mas ela invocava a Virgem e oferecia suas dores pela conversão dos pecadores.

Em 20 de fevereiro de 1920, pediu os últimos sacramentos, confessou-se e rogou que a levassem o Viático porque logo morreria. Pouco depois, partiu para a Casa do Pai com dez anos de idade.

Os corpos do Francisco e Jacinta foram transladados ao Santuário de Fátima. Quando abriram o sepulcro de Francisco, viram que o Rosário que lhe colocaram sobre seu peito estava envolvido entre os dedos de suas mãos. Enquanto o corpo de Jacinta, 15 anos depois de sua morte, estava incorrupto.

No dia 13 de maio de 2000, o Papa João Paulo II esteve em Fátima, e do ‘Altar do Mundo’ beatificou Francisco e Jacinta, os mais jovens beatos cristãos não-mártires.


Angelus: no México uma experiência de “transfiguração”

Domingo, 21 de fevereiro de 2016 – Angelus com o Papa Francisco na Praça de S. Pedro que neste segundo domingo da Quaresma referiu-se ao Evangelho que nos apresenta a Transfiguração de Jesus.

O Santo Padre tomando como estímulo da sua mensagem o Evangelho deste domingo falou sobre a sua Viagem Apostólica ao México considerando ter sido uma experiência de transfiguração. “O Senhor mostrou-nos a luz da Sua glória através do corpo da sua Igreja, o seu Povo santo que vive naquela terra. Um corpo tantas vezes feridos, um povo tão frequentemente oprimido, desprezado, violado na sua dignidade” – disse o Papa que considerou ainda terem sido encontros “cheios de luz: a luz da fé que transforma o rosto e ilumina o caminho” àqueles que vivem no México e que teve como “centro de gravidade espiritual” a peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe:

“O "centro de gravidade espiritual" da minha peregrinação foi o Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe. Permanecer em silêncio diante da imagem da Mãe era aquilo que em primeiro lugar me propunha. E agradeço a Deus que me concedeu. Contemplei e, deixei-me olhar por Aquela que traz gravada nos seus olhos os olhos de todos os seus filhos, e recolhe as dores pela violência, os sequestros, os assassinatos, os abusos em detrimento de muitas pessoas pobres, de muitas mulheres. Guadalupe é o santuário mariano mais visitado do mundo. De toda a América vão rezar onde a Virgem Morenita mostrou-se ao índio S. Juan Diego, dando início à evangelização do continente e à sua nova civilização, fruto de encontro entre as diferentes culturas.”

E esta é a herança que o Senhor deu ao México – afirmou o Papa – “valorizar a riqueza da diversidade e, ao mesmo tempo, mostrar a harmonia da fé comum, uma fé sincera e forte, acompanhada de uma grande carga de vitalidade e de humanidade” – declarou o Santo Padre que se referiu ainda aos testemunhos de fé que encontrou, em particular das famílias mexicanas mas também os jovens, as pessoas consagradas, os sacerdotes, os trabalhadores, os presos, não esquecendo Presidente do México e as autoridades do país.

Neste momento o Papa Francisco recordou com particular emoção o encontro em Cuba com o Patriarca de Moscovo Kirill:

“Um louvor especial elevamos à Santíssima Trindade por ter querido que, nesta ocasião, acontecesse em Cuba o encontro entre o Papa e o Patriarca de Moscovo e de Toda a Rússia, o caro irmão Kirill; um encontro muito desejado também pelos meus Predecessores. Este evento é uma luz profética da Ressurreição, da qual o mundo de hoje tem mais do que nunca necessidade. A Santa Mãe de Deus vai continuar a orientar o caminho da unidade.”

Após a recitação da oração do Angelus o Papa Francisco referiu-se à conferência internacional que terá lugar nesta segunda-feira dia 22 em Roma intitulada “Por um mundo sem pena de morte”, promovida pela Comunidade de Santo Egídio. Declarou esperar que este evento possa dar um novo impulso ao compromisso com a abolição da pena capital.

Em particular o Santo Padre destacou os sinais de esperança que se têm desenvolvido, na opinião pública, de uma crescente oposição à pena de morte, recordando que as sociedades modernas têm a capacidade de lidar com o crime sem remover permanentemente a quem o tenha cometido uma ‘chance’ de se redimir.

“Um problema” – continuou o Papa – que “deve ser visto no contexto de um sistema de justiça penal cada vez mais em linha com a dignidade humana e ao plano de Deus para o homem e a sociedade. O mandamento "não matarás" tem um valor absoluto e abrange tanto os inocentes como o culpado” – declarou Francisco tendo apelado aos governantes para um consenso internacional sobre a abolição da pena de morte, em particular, aos governantes católicos, para não executarem nenhuma sentença durante este Ano Santo da Misericórdia:

“O Jubileu especial da Misericórdia é uma ocasião propícia para promover no mundo formas sempre mais maduras de respeito pela vida e pela dignidade de cada pessoa. Mesmo o criminoso mantém o direito inviolável à vida, dom de Deus. Faço um apelo à consciência dos governantes, de modo que se possa alcançar um consenso internacional para a abolição da pena de morte. E proponho àqueles que de entre esses sejam católicos a cumprirem um gesto corajoso e exemplar: que nenhuma sentença seja executada neste Ano Santo da Misericórdia.”

Todos os cristãos e pessoas de boa vontade são chamados hoje a trabalhar não só para a abolição da pena de morte, mas também com o fim de melhorar as condições das prisões, no respeito pela dignidade humana das pessoas privadas de liberdade – disse ainda ao Papa Francisco.

Ainda neste Angelus uma saudação especial do Santo Padre para a Comunidade Papa João XXIII, fundada pelo Servo de Deus Padre Oreste Benzi, que na próxima sexta-feira irá promover através das ruas do centro de Roma, uma ‘Via Sacra’ de solidariedade e oração pelas mulheres vítimas de tráfico.

No final do Angelus deste segundo domingo da Quaresma o Santo Padre afirmou que este tempo da Quaresma é um tempo favorável para fazer um caminho de conversão que tenha como centro a misericórdia. E para isso, a exemplo do que já aconteceu no passado, o Papa entregou aos fiéis a “Misericordina” um remédio para promover a misericórdia, o amor, o perdão e a fraternidade. A entregar este medicamento espiritual estavam pobres, pessoas sem-abrigo, refugiados e religiosas:

“Por isso, hoje, eu pensei de oferecer a vós que estão aqui na praça um "remédio espiritual" chamado “Misericordina”. Uma caixa contendo o Rosário e uma pequena imagem de Jesus Misericordioso.”

O Papa a todos desejou um bom domingo e bom almoço.
Radio Vaticano


Segunda Audiência Jubilar: misericórdia é empenho concreto

Na segunda audiência jubilar neste sábado, 20.fevereiro.2016, dedicada ao tema “misericórdia e empenho” o Papa Francisco, dirigindo-se aos milhares de fiéis e peregrinos presentes, falou do Jubileu da Misericórdia como uma verdadeira oportunidade para entrar em profundidade no mistério da bondade e do amor de Deus. Neste tempo de Quaresma, disse o Papa, somos convidados a viver de maneira coerente a nossa fé com um estilo de vida que exprima a misericórdia do Pai, um empenho que somos chamados a assumir para oferecermos a todos os que encontramos o sinal concreto da proximidade com Deus. Sobre o significado do empenho na vida do cristão, disse Francisco:

“O que é o empenho? E o que significa comprometer-se? Quando me comprometo, isso significa que assumo uma responsabilidade, uma tarefa para com alguém; e significa também o estilo, a atitude de fidelidade e dedicação, de atenção particular com a qual eu realizo esta tarefa. Todos os dias somos convidados a realizar com empenho as coisas que fazemos: na oração, no trabalho, no estudo, mas também no desporto, nas atividades livres ...”

Também Deus empenhou-se conosco – prosseguiu o Papa – antes de tudo criando o mundo e mantendo-o vivo apesar das nossas tentativas de arruiná-lo; mas sobretudo empenhou-se dando-nos Jesus, que é o empenho extremo que Deus assumiu conosco, pois (como diz S. Paulo) "não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós".

E no Evangelho vemos como se manifesta o empenho de Deus para com a humanidade, explicou o Papa:

“Em Jesus, Deus empenhou-se de maneira completa para restituir esperança aos pobres, àqueles que não tinham dignidade, aos estrangeiros, os doentes, os prisioneiros, e aos pecadores que Ele acolhia  com bondade. Em tudo isto, Jesus era uma expressão viva da misericórdia do Pai. Jesus acolhia com bondade os pecadores, amava-os e mudava-lhes o coração”.

Partindo deste amor misericordioso com que Jesus exprimiu o empenho de Deus, disse ainda Francisco, também nós podemos e devemos corresponder ao seu amor com o nosso empenho, sobretudo nas situações de maior necessidade e onde há mais sede de esperança, como por exemplo, com as pessoas abandonadas, os que trazem graves deficiências, os doentes mais graves, os moribundos, os que não são capazes de exprimir a sua gratidão ... Em todas estas realidades nós trazemos a misericórdia de Deus através de um empenho de vida, que é testemunho da nossa fé em Cristo – sublinhou Francisco.

E o Papa terminou com a esperança de que este Jubileu possa ajudar a nossa mente e o nosso coração a tocar com a mão o empenho de Deus com cada um de nós, para podermos transformar a nossa vida num empenho de misericórdia para com todos.

Aos peregrinos de língua portuguesa o Papa dirigiu as seguinte palavras:

“Amados peregrinos de língua portuguesa, a minha saudação fraterna para todos vós. Ao realizardes esta peregrinação jubilar, que Deus vos abençoe com uma grande coragem para abraçardes diariamente a vossa cruz e um vivo anseio de santidade para iluminardes com a esperança a cruz dos outros irmãos. Conto com as vossas orações por mim. Bom caminho da Quaresma”

Em seguida o Papa saudou cordialmente, entre outros, os membros da Federação Italiana das Associações de Doadores de Sangue e a Associação das sociedades de mútuo socorro, com o augúrio de que  o Jubileu da misericórdia seja para todos uma oportunidade para redescobrir a importância da fé e difundir  na vida quotidiana  a beleza do amor de Deus por cada um de nós.

A concluir o Santo Padre dirigiu um pensamento particular aos jovens, aos doentes e recém-casados, tendo acrescentado:

“Próxima segunda-feira é a festa da Cátedra do Apóstolo Pedro, dia de comunhão especial dos crentes com o Sucessor de São Pedro e com a Santa Sé. Este evento, neste Ano Santo, será também dia de jubileu para a Cúria Romana, que trabalha diariamente ao serviço do povo cristão. Exorto-vos a perseverar na oração pelo meu ministério universal, e agradeço-vos pelo vosso empenho na edificação diária da comunidade eclesial”.

E a todos o Papa Francisco deu a sua bênção.
Radio Vaticano


Ainda nesta quinta-feira, o Santo Padre twittou sobre sua viagem ao Mexico
:

18/02/2016
Obrigado ao México e a todos os mexicanos. Que o Senhor e a Virgem de Guadalupe nos acompanhe sempre.
18/02/2016
Senti-me acolhido, recebido pelo carinho, a esperança desta grande família mexicana: obrigado por me terem aberto as portas da vossa vida
18/02/2016
São as lágrimas que podem gerar uma ruptura capaz de nos abrir à conversão.


Papa Francisco chega a Roma


Cidade do México (RV) - O Papa Francisco chegou a Roma, nesta quinta-feira (18/02/2016), às 14h57 locais, de retorno do México, onde realizou sua 12ª viagem apostólica internacional. O avião B787 de Aero Mexico aterrissou no Aeroporto romano de Ciampino, doze horas depois da partida de Ciudad Juarez, última etapa da visita do pontífice.

Na viagem o Papa encontrou os jornalistas, onde na coletiva respondeu às perguntas sobre diversos temas. Ao final, foi prestada uma homenagem ao Dr. Alberto Gasbarri, que se despede da missão de organizar as viagens pontifícias.

Como costuma fazer ao concluir suas viagens internacionais, Francisco foi até a Basílica Santa Maria Maior, centro de Roma, para agradecer a Salus Popoli Romani o bom êxito de sua viagem. O Papa depositou um buquê de rosas diante do ícone mariano, detendo-se por alguns minutos em oração silenciosa. Após, seguiu para o Vaticano.


Papa Francisco no avião de volta a Roma conversa por uma hora com 76 jornalistas sobre temas variados e sai em defesa da memória de São João Paulo II

Cidade do Vaticano (RV) – Logo após decolar de Ciudad Juárez, nesta quarta-feira (17/02), o Papa manteve a tradicional coletiva de imprensa com os jornalistas a bordo do avião papal.

Francisco respondeu aos questionamentos que foram desde os “desaparecidos” mexicanos, passando pelos casos de pedofilia – ponto em que recordou a coragem de Bento XVI –, sobre o aborto em caso de contágio por Zika vírus, a Declaração comum com o Patriarca russo, além de abordar a questão da comunhão aos divorciados recasados, falar sobre as suas próximas viagens e confidenciar o que lhe levou a aceitar um prêmio pela primeira vez.

O Pontífice ainda respondeu a perguntas sobre a votação no Parlamento italiano da lei sobre as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo; disse que proibiu na Argentina os "casamentos em apuros" e promoveu uma reflexão aos jornalistas sobre como uma notícia deve ser dada e interpretada. Falando sobre as correspondências entre João Paulo II e a filósofa polonesa, Francisco disse gosta sempre de ouvir o parecer das mulheres.

Abaixo, a íntegra da entrevista, em tradução livre e com grifos da redação:

***

Padre Lombardi: Santo Padre, obrigado por estar aqui, como ao final de cada viagem, para a conversa sintética, um grande apanhado sobre a viagem, e por sua disponibilidade em responder a tantas perguntas da  nossa comunidade internacional. Pedimos, como sempre, aos diversos grupos linguísticos que se organizassem e apresentassem algumas perguntas. Começamos com os colegas mexicanos, naturalmente. Portanto, pedimos que responda em espanhol às duas primeiras perguntas e, a seguir, em italiano, porque muitos colegas entendem melhor.

(Maria Eugenia Jimenez – “Milenio”)

Santo Padre, no México existem milhares de desaparecidos, todavia o caso dos 43 de Ayotzinapa, é um caso emblemático. Gostaria de pedir-lhe porque não encontrou seus familiares e também uma mensagem para os familiares dos milhares de desaparecidos.

Papa Francisco: Se leres as mensagens, há referências contínuas aos assassinatos, às mortes, à vida tomada por todas estas gangues do narcotráfico, dos traficantes de seres humanos. Ou seja, o problema é apresentado. Falei das chagas que o México está sofrendo, não? Houve tentativas de receber alguns. Eram tantos grupos, mesmo opostos entre eles, com lutas internas. Portanto, prefiro dizer que na Missa se veem todos, na Missa de Juárez, se preferirem, ou em qualquer outra. Todavia, teria tido esta disponibilidade. Era praticamente impossível receber todos os grupos, que, de um lado, eram opostos entre eles.

É uma situação difícil de entender, para mim claramente que sou estrangeiro, verdade? Mas creio que, também a sociedade mexicana seja vítima de tudo isso: dos crimes, deste fazer desaparecer as pessoas, de descartar as pessoas. Sobre isso eu falei. Sendo um discurso público, podes constatar ali. É uma dor muito grande que trago, porque este povo não merece um drama como este.

(Javier Solorzano – “Canal 11”)

Muito obrigado, Papa Francisco, muito obrigado. O tema da pedofilia, como sabe, tem raízes muito perigosas no México, muito dolorosas. O caso de Padre Maciel deixou fortes sinais, sobretudo nestas vítimas. As vítimas continuam a sentir-se não protegidas da Igreja; muitos deles continuam a ser homens de fé, e alguns até mesmo seguiram o sacerdócio. Pergunto o que pensa deste tema, se em qualquer momento pensou em encontrar as vítimas e, em geral, esta ideia que aos sacerdotes, quando são descobertos por um caso desta natureza, sejam somente trocados de paróquia e nada mais. Como vê este tema? E muito obrigado.

Papa Francisco: Bem, começo da segunda. Um bispo que troca um sacerdote de paróquia quando se reconhece um caso de pedofilia, é um inconsciente, e o melhor que pode fazer é apresentar sua renúncia. Claro? Segundo, voltando ao caso Maciel. E aqui, me permito de prestar homenagem ao homem que lutou em momentos em que não tinha a força para se impor, até que não conseguiu se impor: Ratzinger. O Cardeal Ratzinger – um aplauso para ele! É um homem que teve toda a documentação. Quando era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teve tudo em suas mãos, fez investigações, obteve, obteve, obteve... mas não pode guiar a execução. Porém, se vocês recordarem, dez dias antes de morrer, São João Paulo II – naquela Via Sacra da Sexta-feira Santa – disse a toda a Igreja que era preciso limpar as “porcarias” da Igreja, as imundícies. E a Missa Pro Eligendo Pontefice – não é um bobo, sabia que era um candidato – não usou máscaras e disse exatamente a mesma coisa. Ou seja, foi o corajoso que ajudou tantos a abrir esta porta. Assim quero que vocês recordem dele porque, às vezes, nos esquecemos deste trabalho escondido, daqueles que prepararam a estrada para desvelar esta página. Terceiro, estamos trabalhando bastante. Com o Cardeal Secretário de Estado, estamos conversando, e também com o grupo dos nove Cardeais Conselheiros que, podem ouvir, decidiram nomear um terceiro Secretário adjunto à Doutrina da Fé, para que se ocupe somente destes casos. A Congregação, de fato, não é suficiente com tudo aquilo que tem que se feito. Portanto, que saiba administrar isto. Além disso, foi constituída a Corte de Apelação, presidida por Mons. Scicluna, que se está ocupando dos casos em segunda instância, quando se recorrer. O primeiro recurso, de fato, é feito pela “feria quarta” da Doutrina da Fé – líamos – reúne-se na quarta-feira. Quando há o recurso, volta-se à primeira instância e isto não é justo. Então, o segundo recurso, perfeitamente legal, já com o advogado de defesa. Mas é preciso apurar porque temos tantos atrasos nos casos, porque aparecem casos. Quarto, sobre outra coisa sobre a qual se está trabalhando muito bem é a Comissão para a Tutela de Menores. Não é rigorosamente fechada aos casos de pedofilia, mas à tutela dos menores. Ali, me reuni com uma inteira manhã com seis dos integrantes – dois alemães, dois irlandeses e dois ingleses: homens e mulheres, abusados, vítimas, não, e me reuni conta tantas vítimas... onde foi? No Equador? (Em Filadélfia). Em Filadélfia, me desculpem! Em Filadélfia! Também lá, uma manhã, tive um encontro com as vítimas e sei que se está trabalhando. Mas eu agradeço a Deus que esta página tenha sido revelada, e é preciso continuar a revelá-la, e tomar consciência. E, por fim, quero dizer que é uma monstruosidade, porque um sacerdote é consagrado para levar uma criança a Deus e lá se “aproveita” dela como em um sacrifício diabólico, destruindo-a.

Bem, no que diz respeito a Maciel, voltando à Congregação, foi feito uma intervenção, e hoje a Congregação, o governo da Congregação, fez uma “semi-intevenção”. O Superior Geral é eleito pelo Conselho, pelo Capítulo Geral, mas o Vigário é eleito pelo Papa. Dois Conselheiros Gerais são eleitos pelo Capítulo Geral e outros dois são eleitos pelo Papa, de modo tal que se ajude a controlar a história precedente.

Papa Francisco: Quem não entendeu, peça a um espanhol que lhe explique o que eu disse...

(Phil Pulella, “Reuters”)

Boa noite, Santidade. Hoje falou com muita eloquência dos problemas dos migrantes. Do outro lado da fronteira, todavia, existe uma campanha eleitoral muito acirrada. Um dos candidatos à Casa Branca, o republicano Donald Trump, em uma entrevista recentemente disse que o senhor é um homem político e inclusive disse que talvez o senhor seja também uma peça de xadrez, um instrumento do governo mexicano para a política de imigração... Ele declarou que, se eleito, quer construir 2,5 mil quilômetros de cercas ao longo da fronteira, quer deportar 11 milhões de imigrantes ilegais, separando assim famílias, etc. Então, queria perguntar, antes de tudo, o que pensa sobre estas acusações contra o senhor e se um católico estadunidense pode votar em uma pessoa assim.

Papa Francisco: Graças a Deus que disse que sou um político, porque Aristóteles define a pessoa humana como animal politicus: ao menos sou uma pessoa humana, eh? E que sou uma peça de xadrez, mas, talvez, não sei... deixo isso a seu juízo, a juízo das pessoas. E, depois, uma pessoa que pensa somente em levantar muros, seja onde seja,  e não a fazer pontes, não é cristã. Isso não está no Evangelho. Depois, aquilo que me dizias, o que aconselharia, votar ou não votar: não me envolvo. Somente digo: este homem não é cristão, se diz isto assim. É preciso ver se ele disse assim as coisas, não? E por isso dou o benefício da dúvida.

(Jean-Louis de la Vaissière, “France Presse”)

O encontro com o Patriarca russo Kirill e a assinatura da Declaração comum foi visto no mundo inteiro como um passo histórico. Mas agora, hoje já, na Ucrânia os greco-católicos sentem-se traídos e falam de um “documento político”, de apoio à política russa. Em campo, a guerra das palavras se acendeu novamente. Pensa de poder ir a Moscou? Foi convidado pelo Patriarca? Ou talvez de ir a Creta para saudar o Concilio pan-ortodoxo, na primavera?

Papa Francisco: Começo pelo final. Estarei presente, espiritualmente e com uma mensagem – gostaria de saudá-los pessoalmente no Concílio pan-ortodoxo: são irmãos; mas devo respeitar. Mas sei que eles querem convidar observadores católicos: e isto é uma bela ponte. Mas por trás dos observadores católicos estarei eu, rezando com os melhores augúrios que os ortodoxos sigam adiante, adiante porque são irmãos e os seus bispos são bispos como nós. Depois: Kirill. O meu irmão. Nos saudamos, nos abraçamos e tivemos um colóquio de uma hora…

Padre Lombardi: … duas horas!

Papa Francisco: … duas horas! – mais de uma hora… a velhice não vem sozinha, eh? Duas oras, nas quais falamos como irmãos, sinceramente e ninguém sabe sobre o que se falou, somente aquilo que dissemos ao final, publicamente, do que provamos no conversar. Terceiro: aquele artigo, aquelas declarações na Ucrânia. Quando eu o li, fiquei um pouco preocupado, porque era Svjatoslav Ševčuk que disse que o povo ucraniano, ou alguns ucranianos ou tantos ucranianos, sentiram-se profundamente desiludidos e traídos. Antes de tudo, conheço bem Svjatoslav: em Buenos Aires, por quatro anos, trabalhamos juntos.

Quando ele foi eleito – aos 42 anos, eh? Um homem bom! – foi eleito Arcebispo Maior, voltou a Buenos Aires para pegar suas coisa. Veio até mim e me deu de presente um ícone – pequeno assim – de Nossa Senhora da Ternura e me disse: “Esta me acompanhou por toda a vida: quero deixa-la a ti, que me acompanhou nestes quatro anos”. É uma das poucas coisas que fiz trazer de Buenos Aires e que está na minha escrivaninha.

Ou seja, é um homem pelo qual tenho respeito e familiaridade, nos tratamos de “você”, e assim... Segundo: por isso me pareceu um pouco estranho. E recordei uma coisa que disse aqui, a vocês: para entender uma notícia, uma declaração, é preciso procurar a hermenêutica de tudo. Mas, quando disseste isso? Em uma declaração de 14 de fevereiro passado, domingo: domingo passado.

Uma entrevista que fez, selecionada pelo padre… não recordo, um sacerdote ucraniano. Na Ucrânia, selecionada, e publicada. Aquela notícia, a entrevista é de uma página, duas e um pouco a mais: mais ou menos. Aquela notícia está no terceiro e último parágrafo, assim pequeno.

Eu li a entrevista, e direi isto: Ševčuk é a parte dogmática, se declara filho da Igreja, em comunhão com o Bispo de Roma, com a Igreja; fala do Papa, da proximidade do Papa, e dele, da sua fé, não?, e da fé também do povo ortodoxo: na parte dogmática, nenhuma dificuldade, é ortodoxa no bom sentido da palavra, ou seja, Doutrina católica, não?

Depois, como em todas as entrevistas – esta, por exemplo – cada um tem o direito de dizer as suas coisas, e isto não o fez sobre o encontro, porque sobre o encontro, diz: “Mas, é uma coisa boa e devemos seguir em frente”. Neste segundo capítulo, as ideias pessoais que tem uma pessoas. Por exemplo, isto que eu disse sobre os bispos que transferem os padres pedófilos, o melhor que podem fazer é demitir-se, é uma coisa... não é dogmática, mas é aquilo que eu penso. E assim ele tem as suas ideias pessoas que são para dialogar, e tem o direito de haver.

Tudo aquilo que ele diz é sobre o documento: este é o problema. Sobre o encontro... “mas, este é o Senhor, o Espírito que segue adiante, o abraço...”: tudo vai bem. O Documento? É um documento discutível, e também há um acréscimo: que a Ucrânia vive um momento de guerra, de sofrimento, com tantas interpretações. Eu citei o povo ucraniano pedindo orações e proximidade tantas vezes, seja no Angelus como nas Audiências de quarta-feira. Mas o fato histórico de uma guerra vivida como... cada um tem sua ideia, como é esta guerra, quem a começou, como se faz, como não se faz... É evidente que este é um problema histórico mas também um problema pessoal, existencial daquela País e fala do sofrimento. E ali, eu insiro este parágrafo: se entende os fiéis, porque Svjatoslav diz: “Tantos fiéis me chamaram ou escreveram dizendo que estão profundamente desiludidos e traídos por Roma”: se entende que um povo naquela situação sinta isso, não: Mas, o Documento é discutível sobre esta questão da Ucrânia, mas lá se diz que se termine a guerra e que se caminhe a acordos; eu, pessoalmente, defendi que os Acordos de Minsk prossigam, e não se apague com o cotovelo aquilo que foi escrito com as mãos, eh? A Igreja de Roma, o Papa sempre disse: “Procurem a paz”.

Recebi ambos os Presidentes – paridade, não? E por isso, quando ele diz que ouviu isso do seu povo, eu o entendo: o entendo. Mas não é “a” notícia. “A notícia” é tudo. Se vocês lerem toda a entrevista, verão que existem coisas dogmáticas sérias, que permanecem, há um desejo de unidade, de ir adiante, ecumênico, ele é um homem ecumênico... Existem algumas opiniões... Ele me escreveu, quando soube da viagem, do encontro, mas como um  irmão, dando as suas opiniões de irmão... Não me desagrada o Documento, assim; não me desagrada no sentido que devemos respeitar as coisas que cada um tem a liberdade de pensar e naquela situação tão difícil. E de Roma... agora o núncio está na fronteira onde se combate, ajudando os soldados, os feridos; a Igreja de Roma enviou tantas ajudas, tantas ajudas lá; e sempre paz, acordos, se respeite o Acordo de Minsk... e assim. Este é o todo. Mas, não se assustem com aquela frase: esta é uma lição, que uma notícia deve ser interpretada com a hermenêutica do todo, não da parte.

(Jean-Louis de la Vaissière)

O Patriarca Kirill lhe convidou a ir a Moscou ?

Papa Francisco: O Patriarca Kirill… eu preferiria… porque se digo uma coisa devo dizer uma outra e outra e outra: preferiria que aquilo sobre o que falamos nós, sozinhos, seja somente aquilo que dissemos em público. Este é um dado. E se digo isto, deverei dizer mais... não! Aquilo que eu disse em público, aquilo que ele disse em público, isto é aquilo que se pode dizer do colóquio privado. Do contrário, não seria privado. Mas posso dizer: saí feliz. E ele também.

(Carlo Marroni, “Il Sole 24 Ore”)

Santo Padre, a minha pergunta é sobre a família, tema que o senhor afrontou nesta viagem. No Parlamento italiano está em discussão a lei sobre as uniões civis, tema que tem levado a fortes embates políticos, mas também a um forte debate na sociedade e entre os católicos. Neste particular, gostaria de saber o seu pensamento sobre o tema da adoção da parte das uniões civis, e portanto, sobre os direitos das crianças e dos filhos em geral... Obrigado.

Papa Francisco: Antes de tudo, não sei como estão as coisas no Parlamento italiano... O Papa não se envolve na política italiana. Na primeira reunião que tive com os bispos, em maio de 2013, uma das três coisas que disse: “Com o governo italiano, se virem vocês”. Porque o Papa é para todos, e não pode se meter na política concreta, interna de um país: este é o papel do Papa, não? E aquilo que penso é aquilo que pensa a Igreja e disse em tantas... porque este não é o primeiro país que faz esta experiência: são tantos. Eu penso aquilo que a Igreja sempre disse sobre...

(Paloma Garcia Ovejero, “Cope”)

Santo Padre, há algumas semanas há muita preocupação em muitos países latino-americanos, mas também na Europa, sobre o vírus “Zika”. O risco maior seria para as mulheres grávidas: há angustia. Algumas autoridades propuseram o aborto, ou de se evitar a gravidez. Neste caso, a Igreja pode levar em consideração o conceito de “entre os males, o menor”?

Papa Francisco: O aborto não é um “mal menor”. É um crime. É descartar um para salvar o outro. É aquilo que a máfia faz, eh? É um crime. É um mal absoluto. Sobre “mal menor”: mas, evitar a gravidez é – falemos em termos de conflito entre o quinto e o sexto Mandamento. Paulo VI, o Grande!, em uma situação difícil, na África, permitiu às religiosas de usar anticoncepcionais par aos casos de violência. Não confundir o mal de evitar a gravidez, sozinho, com o aborto. O aborto não é um problema teológico: é um problema humano, é um problema médico. Mata-se uma pessoa para salvar uma outra – nos melhores dos casos. Ou por conforto, não? Vai contra o Juramento de Hipócrates que os médicos devem fazer. É um mal em si mesmo, mas não é um mal religioso, ao início: não, é um mal humano. Além disso, evidentemente, já que é um mal humano – como todos assassinatos – é condenado. Ao invés, evitar a gravidez não é um mal absoluto: e, em certos casos, como neste, como naquele que mencionei do Beato Paulo VI, era claro. Ainda, eu exortaria os médicos para que façam tudo para encontrar as vacinas contra estes dois mosquitos que trazem este mal: sobre isto se deve trabalhar. Obrigado.

(Ludwig Ring-Eifel, “Kna”)

Santidade, dentro de poucas semanas, o senhor vai receber o Prêmio Carlos Magno, um dos prêmios mais prestigiosos da Comunidade Europeia. Também o seu predecessor, São João Paulo II, recebeu este prêmio: fazia questão. E fazia questão também de promover a unidade europeia, que agora parece um pouco aos pedaços, primeiro com a crise do euro e agora com a crise dos refugiados: o senhor tem talvez uma palavra para nós, nesta situação de crise europeia?

Papa Francisco: Primeiro, sobre o Prêmio Carlos Magno. Eu tinha o hábito de não aceitar honorificências ou doutorados, desde sempre: não por humildade, mas porque não gosto destas coisa. Um pouco de loucura é bom ter, e não gosto. Mas neste caso, não digo “forçado”, mas “convencido” com a santa e teológica teimosia do cardeal Kasper, que foi eleito por Aachen (Alemanha) para me convencer. E eu disse: “Sim, mas no Vaticano”. E... disse isso; e ofereço o prêmio para a Europa: que seja uma condecoração, um prêmio para que a Europa possa fazer aquilo que eu desejei em Estrasburgo: mais fácil que não seja a “avó-Europa”, mas a “mãe-Europa”. Segundo. Outro dia, lendo as notícias sobre esta crise e isto: eu leio pouco, folheio somente um jornal – não digo o nome para não provocar ciumeiras, mas sabe-se... leio quinze minutos e depois peço informações à Secretaria de Estado.

Uma palavra que me agradou, e me agradou – não sei quem a aprova, quem não – “a refundação da União Europeia”. E pensei aos grandes pais, eh? Mas, hoje, onde há um Schuman, um Adenauer? E estes grandes, que no pós-guerra “fundaram” a União Europeia… E eu gosto, esta ideia da refundação: oxalá se se pudesse fazer! Porque a Europa, não diria que é “única”, mas tem uma força, uma cultura, uma história que não pode ser desperdiçada, e devemos fazer tudo para que a União Europeia tenha a força e também a inspiração de fazer ir adiante. Não sei: é isso que eu penso.

(Anne Thompson, “Nbc News”)

Santo Padre, o senhor falou muito de família e do Ano da Misericórdia, nesta viagem. Alguns se perguntam, como uma Igreja que se diz “misericordiosa” pode perdoar mais facilmente um assassino do que quem se divorcia e casa novamente...?

Papa Francisco: Mas, gostei da pergunta! Sobre a família, falaram dois Sínodos e o Papa falou durante todo o ano na catequese das quartas-feiras. E a pergunta é verdadeira, me agrada, porque você a fez plasticamente bem, eh! No documento pós-sinodal que sairá – talvez antes da Páscoa – se retoma tudo aquilo que o Sínodo – em um dos capítulos, porque existem muitos –  fala sobre os conflitos ou sobre famílias feridas, e a pastoral das famílias feridas... É uma das preocupações. Assim como outra é a preparação ao matrimônio. Pense você, que para se tornar padre, são oito anos de estudo, de preparação, e depois, depois de um certo tempo, não consegue mais, pede a dispensa e vai embora e está tudo certo. Pelo contrário, para receber um Sacramento que é para toda a vida, três quatro palestras... A preparação ao matrimônio é muito importante: é muito, muito importante, porque acredito que seja uma coisa que a Igreja, na pastoral comum – ao menos no meu país, na América do Sul -  não valorizou muito. Por exemplo – agora não tanto, mas há alguns anos – na minha Pátria, havia o costume de... se chamava “casamento em apuros”: casar rapidamente, porque vem um filho. E para cobrir socialmente a honra da família.... Ali, não eram livres, e tantas vezes estes matrimônios são nulos. E eu, como bispo, proibi os sacerdotes de fazerem isto... Que nasça a criança, que continuem namorados, e quando sentem que é para toda a vida, que sigam em frente. Mas existe uma ausência do matrimônio. Depois, outro capítulo muito interessante: a educação dos filhos. As vítimas dos problemas da família são os filhos: os filhos. Mas também vítimas dos problemas da família que nem marido nem a mulher querem: por exemplo, a necessidade de trabalho. Quando o pai não tem tempo livre para falar com os filhos, quando a mãe não tem tempo livre para falar com os filhos.... Quando eu confesso um casal que tem filhos, um matrimônio, pergunto: “Quantos filhos vocês tem?”. E alguns se assustam dizendo: “Mas, o Padre me perguntará porque não tenho mais...”. E eu direi: “Farei para você uma segunda pergunta: você brinca com seus filhos?”, e a maioria – quase todos! -  dizem: “Mas, Padre, não tenho tempo: trabalho o dia todo”. E os filhos são vítimas de um problema social que fere a família. É um problema... gosto da sua pergunta. E uma terceira coisa interessante, no encontro com as famílias em Morelia – não: foi em Morelia?” Não... em Tuxtla, em Tuxtla – havia um casal de recasados em segunda-união, integrantes da pastoral da Igreja... E a palavra-chave que usou o Sínodo – e eu a peguei – é “integrar na vida da Igreja as famílias feridas, as famílias de recasados”, e tudo isto. Mas não esquecer as crianças no centro, eh! São as primeira vítimas, quer pelas feridas quer pelas condições de pobreza, de trabalho, de tudo isto.....

(Anne Thompson, “Nbc News”)

Significa que poderão comungar?

Papa Francisco: Esta é uma coisa....é a última. Integrar na Igreja não significa “comungar”, porque eu conheço católicos recasados que vão à igreja uma vez por ano, duas vezes: “Mas, eu quero comungar!”, como se a comunhão fosse uma honorificência, não? Um trabalho de integração... todas as portas estão abertas. Mas não se pode dizer, (...) “podem comungar”. Isto seria uma ferida também aos matrimônios, ao casal, porque não fará com que eles sigam por este caminho de integração. E estes dois eram felizes! E usaram uma expressão muito bonita: “Nós não fazemos a comunhão eucarística, mas fazemos comunhão na visita ao hospital, nisto e naquilo....”. A integração deles permaneceu ali. Se há alguma coisa a mais, o Senhor dirá a eles, mas.....é um caminho, é uma estrada....”.

(Antone-Marie Izoard, “Imedia”)

Santidade, boa noite. Permita-me antes, um pouco na brincadeira, de dizer o quanto nós vaticanistas somos um pouco reféns da agenda do Santo Padre, e não podemos brincar com nossos filhos.... Sábado tem a audiência jubilar, domingo tem o Angelus, e de segunda a sexta-feira se voa para trabalhar. Depois, um abraço ao Alberto que, com Padre Lombardi, me fez entrar na Rádio Vaticano, há 20 anos – estamos em família....

Papa Francisco: … ele foi muito bom …

(Antone-Marie Izoard)

Santidade: muitas mídias evocaram, de forma clamorosa, a “intensa correspondência” entre João Paulo II e a filósofa estadunidense Anna Tymieniecka, que nutria – diz-se – um grande afeto pelo Papa polonês. Na sua opinião, um Papa pode ter uma relação tão íntima com uma mulher? E depois, se me permite, o senhor tem alguma importante correspondência, conhece – ou conheceu – este tipo de experiência.....

Papa Francisco: “Isto eu sabia, esta relação de amizade entre São João Paulo II e esta filósofa, quando estava em Buenos Aires: uma coisa que se sabia, também os livros dela são conhecidos, e João Paulo II era um homem inquieto.... Depois, eu diria que um homem que não sabe ter uma boa relação de amizade com uma mulher – não falo dos misóginos, eles são doentes – falta a ele alguma coisa. E eu, por experiência própria, também quando peço um conselho, peço a um colaborador, a um amigo, um homem, mas também gosto de ouvir o parecer de uma mulher: e te dão tanta riqueza! Olham as coisas de um outro modo. Gosto de dizer que a mulher é aquela que constrói a vida no ventre e tem – mas esta é uma comparação que eu faço, não? – e tem este carisma de te dar coisas para construir. Uma amizade com uma mulher não é pecado: uma amizade. Uma relação amorosa com uma mulher que não seja tua mulher, é pecado. O Papa é um homem, o Papa tem necessidade também do pensamento das mulheres. E também o Papa tem um coração que pode ter uma amizade sadia, santa com uma mulher. Existem santos amigos – Francisco, Clara, Teresa, João da cruz....Não se assustem...Mas, as mulheres ainda são um pouco....não bem consideradas, não totalmente....não entendemos o bem que uma mulher pode fazer á vida do padre e da Igreja, no sentido de um conselho, da ajuda, de uma amizade saudável. Obrigado!”

(Franca Giansoldati, “Il Messaggero”)

Boa noite, santidade. Eu volto para o tema da lei que está para ser votada no Parlamento italiano: é uma lei que, no final das contas, diz respeito também a outros Estados, porque outros Estados têm leis que tratam da união entre pessoas do mesmo sexo. Existe um documento da Congregação da Fé, de 2003, que dedica um amplo espaço a isto e também dedica um capítulo ao comportamento que os parlamentares católicos devem ter diante desta lei, e se diz expressamente que os parlamentares católicos não devem votar esta lei. Visto que existe muita confusão sobre isto, gostaria de pedir ao senhor, antes de tudo, se este documento de 2003 ainda tem valor, e efetivamente qual o comportamento que um parlamentar católico deve ter? E depois, uma outra coisa: depois de Moscou, o Cairo: existe algum outro desgelo que se vislumbra no horizonte? Isto é, me refiro à audiência que o senhor deseja com o “Papa dos sunitas” – podemos chamá-lo assim -, com o Imame de al-Azhar?

Papa Francisco: Sobre isto, foi Dom Ayuso ao Cairo, na semana passada, para encontrar o segundo dos Imans e também saudar o Imam. Dom Ayuso, é Secretário do Cardeal Tauran, do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Eu quero encontrá-lo, sei que ele gostaria, e estamos buscando a melhor maneira: sempre através do Cardeal Tauran, porque este é o caminho, não? Mas, conseguiremos. Sobre o primeiro tema: eu não recordo bem este documento de 2003 da Congregação para a Doutrina da Fé. Mas um parlamentar católico deve votar segundo a própria consciência “bem formada”, porque não é a consciência aquilo que me pareça... eu me recordo quando foi votado o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo em Buenos Aires, que houve ali um empate, e no final alguém disse, aconselhou ao outro: “Mas, tens isto claro?” – “Não” – “Nem eu” – “Então vamos embora” – “Se sairmos, não alcançarão o quórum”. E o outro disse: “Mas se chegarmos ao quórum, damos o voto a Kirchner!”, e o outro: “Mas, prefiro dá-lo a Kirchner e não a Bergoglio!”..... e em frente... Esta não é uma consciência bem formada, eh! E em relação às pessoas do mesmo sexo, repito aquilo que disse na viagem do Rio de Janeiro e que está no catecismo da Igreja Católica”.

(Javier Martínez Brocal, “Rome Reports”)

Santo Padre, muito obrigado por esta viagem ao México: foi uma honra acompanhá-lo e ter visto o que vimos (em espanhol). Passo ao italiano: ainda não chegamos em Roma e já estamos pensando nas futuras viagens, em fazer as malas novamente. Santo Padre, quando irás à Argentina, onde esperam pelo senhor há tanto tempo, e, quando retornarás à América Latina ou irás à China... Depois, durante esta viagem, o senhor falou muitas vezes em “sonhar”: O que o senhor sonha?

E, sobretudo, qual é o seu pesadelo?

Papa Francisco: A China…. (riem) ir até lá: gostaria muito! Quero dizer uma coisa, uma coisa certa sobre o povo mexicano. É um povo de uma riqueza, de uma riqueza tão grande, é um povo que surpreende... Tem uma cultura, uma cultura milenar... Vocês sabem que hoje, no México, são faladas 65 línguas, contando os indígenas... 65! É um povo de uma grande fé, também sofreu perseguições religiosas, existem mártires – agora vou canonizar dois, ... dois ou três... É um povo ... não se pode explicar simplesmente porque a palavra “povo” não é uma categoria lógica, é uma categoria mítica. E o povo mexicano, não é possível explicá-lo, esta riqueza, esta história, esta alegria, esta capacidade de festa e estas tragédias das quais vocês perguntaram. Eu não posso dizer outra coisa, que esta unidade, também que este povo tenha conseguido não fracassar, não acabar com tantas guerras, e coisas que acontecem agora... Mas ali, em Ciudad Juárez, havia um pacto de 12 horas de paz para a minha visita, depois continuarão lutando entre eles, os traficantes... Mas um povo que tem ainda esta vitalidade, somente pode ser explicado por Guadalupe. E eu vos convido a estudar seriamente o “acontecimento Guadalupe”. Nossa Senhora está lá. Eu não encontro outra explicação. E seria bonito se vocês, como jornalistas, existem alguns bons livros que explicam, também explicam a pintura, como é, o que significa... E assim se poderá entender um pouco este povo tão grande, tão bonito”.

(Caroline Pigozzi do “Paris Match”)

Sim, Santo Padre, boa noite. Duas coisas. Gostaria de saber algo. Gostaria de saber o que o senhor pediu à Guadalupe, porque permaneceu muito tempo na igreja rezando para ela; depois, a segunda coisa, se o senhor sonha em italiano ou espanhol?

Papa Francisco: “Sim, eu diria que sonho em esperanto...... (risos). Não sei como responder isto, realmente. Algumas vezes sim, recordo, algum sonho em outra língua, mas sonhar em língua não, mas com figuras, sim; eh, a minha psicologia é assim. Com palavras sonho pouco, não?

E a primeira era?

(Caroline Pigozzi )

A primeira pergunta, Santidade, o Senhor esteve muito tempo rezando para Nossa Senhora...

Papa Francisco: “Pedi pelo mundo, pela paz…mas, tantas coisas…. A pobrezinha ficou com a cabeça assim.... Pedi perdão, pedi para que a Igreja cresça saudável, pedi pelo povo mexicano....também, uma coisa que pedi muito é que os padres sejam verdadeiros padres e as irmãs, verdadeiras irmãs e os bispos, verdadeiros bispos: como o Senhor nos quer. Isto pedi muito a ela, não? Mas depois, as coisas que um filho diz à Mãe são um pouco secretas.....Obrigado, Carolina...”


Testemunhos anunciam esperança: o Papa despediu-se do México

No final da celebração em Ciudad Juarez o Papa Francisco despediu-se de todos os mexicanos dizendo ter-se sentido acolhido com carinho, e todos confiou à Virgem de Guadalupe para serem testemunhas de misericórdia. Publicamos o texto integral da despedida do Papa Francisco da sua visita ao México, naquela que foi a 12ª Viagem Apostólica do seu pontificado:

“Muito obrigado, Senhor Bispo, pelas suas sentidas palavras de despedida. É o momento de dar graças a Nosso Senhor por me ter permitido esta visita ao México.

Não quero partir sem agradecer o esforço de quantos tornaram possível esta peregrinação. Agradeço a todas as autoridades federais e locais o interesse e a solícita ajuda com que contribuíram para o bom andamento dos eventos destes dias. Ao mesmo tempo, gostaria de agradecer, cordialmente, a todos aqueles que colaboraram, de várias maneiras, para esta visita pastoral. A tantos servidores anónimos, que, no silêncio, deram o seu melhor para que estes dias fossem uma festa de família, obrigado! Senti-me acolhido, recebido pelo carinho, a festa, a esperança desta grande família mexicana: obrigado por me terem aberto as portas da vossa vida, da vossa nação.

No seu poema Irmandade, assim se expressa o vosso escritor Octávio Paz:

«Sou homem: duro pouco e é enorme a noite.

Mas olho para o alto: as estrelas escrevem.

Sem entender, compreendo: também sou escritura

e, neste mesmo instante, alguém me está decifrando»

(«Un sol más vivo»: Antología poética, México 2014, 268).

Valendo-me destas estupendas palavras, ouso sugerir que aquele que nos decifra e traça o caminho é a presença misteriosa mas real de Deus na carne concreta de todas as pessoas, especialmente dos mais pobres e necessitados do México. A noite pode parecer-nos enorme e muito escura, mas, nestes dias, pude constatar que, no povo mexicano, há tantas luzes que anunciam esperança; pude ver, em muitos dos seus testemunhos, em muitos dos seus rostos, a presença de Deus que continua a caminhar nesta terra guiando-os e sustentando a esperança; muitos homens e mulheres, com o seu esforço de cada dia, tornam possível que esta sociedade mexicana não fique às escuras. São profetas do amanhã, são sinal dum novo amanhecer.

Que Maria, a Mãe de Guadalupe, continue a visitar-vos, continue a caminhar por estas terras, ajudando-vos a ser missionários e testemunhas de misericórdia e reconciliação.

Mais uma vez, muito obrigado!”


Homilia do Papa na Missa em Ciudad Juarez – texto integral

17 de fevereiro de 2016, último dia do Papa Francisco no México. O Santo Padre celebrou Missa no espaço da Feira de Ciudad Juarez no norte do México num altar montado a 80 metros da fronteira internacional entre México e EUA. Na sua homilia lembrou as vítimas da migração forçada, da violência, da droga e do tráfico humano. Publicamos aqui a versão integral da sua homilia:

“A glória de Deus é a vida do homem: dizia Santo Ireneu, no século II; uma afirmação, que continua a ressoar no coração da Igreja. A glória do Pai é a vida dos seus filhos. Não há maior glória para um pai do que ver a realização dos seus; não há maior satisfação do que vê-los avançar, vê-los crescer e desenvolver-se. Assim o atesta a primeira Leitura que escutámos e nos falava de Nínive, uma grande cidade que se estava auto-destruindo em consequência da opressão e degradação, da violência e injustiça. A grande capital tinha os dias contados, pois não era mais tolerável a violência nela gerada. Então aparece o Senhor movendo o coração de Jonas; aparece o Pai convidando e enviando o seu mensageiro. Jonas é chamado para receber uma missão: Vai lá! Porque, «dentro de quarenta dias, Nínive será destruída» (Jn 3, 4). Vai! Ajuda-os a compreender que, com esta forma de comportar-se, regular-se, organizar-se, a única coisa que estão a gerar é morte e destruição, sofrimento e opressão. Faz-lhes ver que não há vida para ninguém, nem para o rei nem para o súbdito, nem para os campos nem para o gado. Vai e anuncia que eles se habituaram de tal maneira à degradação, que perderam a sensibilidade perante o sofrimento. Vai e diz-lhes que a injustiça se apoderou do seu olhar. Por isso, Jonas parte; Deus envia-o para pôr em evidência o que estava a acontecer; envia-o para despertar um povo inebriado de si mesmo.

Neste texto, encontramo-nos perante o mistério da misericórdia divina. A misericórdia sempre rejeita o mal, tomando muito a sério o ser humano; sempre faz apelo à bondade adormecida, anestesiada, de cada pessoa. Longe de aniquilar, como muitas vezes pretendemos ou queremos fazê-lo, a misericórdia aproxima-se de cada situação para a transformar a partir de dentro. Isto é precisamente o mistério da misericórdia divina: aproxima-se e convida à conversão, convida ao arrependimento; convida a ver o dano que está a ser causado a todos os níveis. A misericórdia sempre entra no mal para o transformar.

O rei ouviu, os habitantes da cidade reagiram e foi decretado o arrependimento. A misericórdia de Deus entrou no coração, revelando e manifestando algo que será a nossa certeza e a nossa esperança: há sempre a possibilidade de mudar, estamos a tempo de reagir e transformar, modificar e alterar, converter aquilo que nos está a destruir como povo, o que nos está a degradar como humanidade. A misericórdia anima-nos a olhar o presente e confiar naquilo que, de são e bom, está escondido em cada coração. A misericórdia de Deus é o nosso escudo e a nossa fortaleza.

Jonas ajudou a ver, a tomar consciência. Que se passa depois? O seu apelo encontra homens e mulheres capazes de se arrependerem, capazes de chorar: deplorar a injustiça, deplorar a degradação, deplorar a opressão. São as lágrimas que podem abrir o caminho à transformação; são as lágrimas que podem abrandar o coração, são as lágrimas que podem purificar o olhar e ajudar a ver a espiral de pecado em que muitas vezes se está enredado. São as lágrimas que conseguem sensibilizar o olhar e a atitude endurecida, e sobretudo adormecida, perante o sofrimento alheio. São as lágrimas que podem gerar uma ruptura capaz de nos abrir à conversão.

Hoje esta palavra ressoa vigorosamente no meio de nós; esta palavra é a voz que clama no deserto e nos convida à conversão. Neste Ano da Misericórdia, quero implorar convosco neste lugar a misericórdia divina, quero pedir convosco o dom das lágrimas, o dom da conversão.

Aqui em Ciudad Juarez, como noutras áreas fronteiriças, concentram-se milhares de migrantes da América Central e doutros países, sem esquecer tantos mexicanos que procuram também passar para «o outro lado». Uma passagem, um caminho carregado de injustiças terríveis: escravizados, sequestrados, objectos de extorsão, muitos irmãos nossos acabam vítimas do tráfico humano.

Não podemos negar a crise humanitária que, nos últimos anos, levou à migração de milhares de pessoas, quer por via ferroviária ou rodoviária quer mesmo a pé atravessando centenas de quilómetros de montanhas, desertos, caminhos inóspitos. Hoje, esta tragédia humana que é a migração forçada, tornou-se um fenómeno global. Esta crise que se pode medir em números, queremos medi-la por nomes, por histórias, por famílias. São irmãos e irmãs que partem, forçados pela pobreza e a violência, pelo narcotráfico e o crime organizado. No meio de tantas lacunas legais, estende-se uma rede que apanha e destrói sempre os mais pobres. À pobreza que já sofrem, vem juntar-se o sofrimento destas formas de violência. Uma injustiça que se radicaliza ainda mais contra os jovens: como «carne de canhão», eles vêem-se perseguidos e ameaçados quando tentam sair da espiral de violência e do inferno das drogas.

Peçamos ao nosso Deus, o dom da conversão, o dom das lágrimas. Peçamos-Lhe a graça de ter o coração aberto, como os Ninivitas, ao seu apelo no rosto sofredor de tantos homens e mulheres. Não mais morte nem exploração! Há sempre tempo para mudar, há sempre uma via de saída e uma oportunidade, é sempre tempo para implorar a misericórdia do Pai.

Hoje, como sucedeu no tempo de Jonas, também apostamos na conversão; há sinais que se tornam luz no caminho e anúncio de salvação. Conheço o trabalho de muitas organizações da sociedade civil em favor dos direitos dos migrantes. Estou a par também do trabalho generoso de muitas irmãs religiosas, de religiosos e sacerdotes, de leigos votados ao acompanhamento e à defesa da vida. Prestam ajuda na vanguarda, muitas vezes arriscando a própria vida. Com a sua vida, são profetas de misericórdia, são o coração compreensivo e os pés da Igreja que acompanha, que abre os seus braços e apoia.

É tempo de conversão, é tempo de salvação, é tempo de misericórdia. Por isso, juntamente com o sofrimento de tantos rostos, digamos: «Pela vossa imensa compaixão e misericórdia, Senhor, tende piedade de nós (...), purificai-nos dos nossos pecados e criai em nós um coração puro, um espírito novo» (cf. Sal 51/50, 3.4.12).”


Alerta do papa: “Quem explora os trabalhadores terá que prestar contas a Deus”

Uma aliança entre empresa e trabalho, alicerçada na Doutrina Social da Igreja, foi proposta pelo papa Francisco a cerca de 3000 empregadores e trabalhadores mexicanos reunidos no pavilhão desportivo de Ciudad Juárez.

Discurso do Papa Francisco:

Queridos irmãos e irmãs!

Quis encontrar-me convosco nesta terra de Juárez, devido à relação especial que esta cidade tem com o mundo do trabalho. Agradeço-vos não só a saudação de boas-vindas e os vossos testemunhos que revelaram as ânsias, as alegrias e as esperanças que sentis na vossa vida, mas gostaria também de vos agradecer esta oportunidade de intercâmbio e reflexão. Tudo o que pudermos fazer para dialogar, para nos encontrar, para procurar melhores alternativas e oportunidades já é uma conquista que merece apreço e destaque. E há duas palavras que quero sublinhar: diálogo e encontro. Não vos canseis de dialogar. A gestação das guerras dá-se pouco a pouco por causa da mudez e dos desencontros. Obviamente não é suficiente dialogar e encontrar-se, mas hoje não podemos permitir-nos o luxo de cortar qualquer possibilidade de encontro, qualquer instância de discussão, confronto, pesquisa. Esta é a única maneira que temos de poder construir o amanhã: ir tecendo relações duradouras, capazes de gerar a estrutura necessária para, pouco a pouco, se reconstruir os vínculos sociais consumidos pela falta do mínimo de respeito requerido para uma sadia convivência. Obrigado e que esta instância sirva para construir futuro, seja uma oportunidade boa para forjar o México que o seu povo e os seus filhos merecem.

Quereria debruçar-me sobre este último aspecto. Hoje encontram-se aqui várias organizações de trabalhadores e representantes de câmaras e associações empresariais. À primeira vista, poderiam considerar-se antagonistas, mas une-os a responsabilidade comum: procurar criar oportunidades de trabalho digno e verdadeiramente útil para a sociedade e sobretudo para os jovens desta terra. Um dos maiores flagelos a que estão expostos os jovens é a falta de oportunidades de instrução e trabalho sustentável e rentável, que lhes permitam lançar-se na vida; isso gera em muitos casos – tantos casos – situações de pobreza e marginalização. E esta pobreza e marginalização tornam-se o terreno favorável para cair na espiral do narcotráfico e da violência. Um luxo que hoje não nos podemos conceder é deixar só e abandonado o presente e o futuro do México e, para isso, são precisos diálogo, confrontação, fontes de trabalho que vão criando esta senda construtiva.

Infelizmente, o tempo em que vivemos impôs o paradigma da utilidade económica como princípio das relações pessoais. A mentalidade dominante, por todo o lado, pretende a maior quantidade possível de lucro, a todo o custo e imediatamente. Não só provoca a perda da dimensão ética das empresas, mas esquece também que o melhor investimento que se pode fazer é investir no povo, nas pessoas, nas famílias. O melhor investimento é criar oportunidades. A mentalidade dominante coloca o fluxo de pessoas ao serviço do fluxo de capitais, provocando em muitos casos a exploração dos trabalhadores, como se fossem objectos para usar e jogar fora e descartar (cf. Enc. Laudato si’, 123). Deus pedirá contas aos esclavagistas dos nossos dias, e nós devemos fazer todo o possível para que estas situações não ocorram mais. O fluxo do capital não pode determinar o fluxo e a vida das pessoas. Por isso, me comprazo com o anseio expresso de diálogo, de confrontação.

Sucede, não raramente, que a Doutrina Social da Igreja veja as suas propostas colocadas em questão com estas palavras: «Estes pretendem que sejamos organizações de beneficência ou que transformemos as nossas empresas em instituições filantrópicas». Temos ouvido esta crítica. Mas a única pretensão que tem a Doutrina Social da Igreja é velar pela integridade das pessoas e das estruturas sociais. Sempre que esta integridade, por várias razões, é ameaçada ou reduzida a bem de consumo, a Doutrina Social da Igreja há-de ser uma voz profética que nos ajudará a todos a não nos perdermos no mar sedutor da ambição. Sempre que a integridade duma pessoa é violada, de certa forma a sociedade inteira começa a deteriorar-se. E isto que diz a Doutrina Social da Igreja não é contra ninguém, mas a favor de todos. Cada sector tem a obrigação de preocupar-se pelo bem de todos; estamos todos no mesmo barco. Todos devemos lutar para que o trabalho seja uma instância de humanização e de futuro; seja um espaço para construir sociedade e cidadania. Esta atitude não só cria uma melhoria imediata, mas, a longo prazo, tornar-se-á uma cultura capaz de promover espaços dignos para todos. Esta cultura, nascida muitas vezes de tensões, vai gerando um novo estilo de relações, um novo tipo de nação.

Que mundo queremos deixar aos nossos filhos? Nisto, julgo que a grande maioria está de acordo. Eles são precisamente o nosso horizonte, são a nossa meta: por eles, hoje, devemos unir-nos e trabalhar. Se é sempre bom pensar no que gostaria de deixar aos meus filhos, também é uma boa medida pensar nos filhos dos outros. Que quer o México deixar aos seus filhos? Quer deixar-lhes uma recordação de exploração, de salários insuficientes, de pressão laboral ou de tráfico de trabalho escravo? Ou deixar-lhes na memória a cultura de um trabalho digno, um tecto decente e terra para trabalhar? Os três «tês»: trabalho, tecto e terra. Em qual cultura queremos ver nascer aqueles que virão depois de nós? Que atmosfera vão respirar? Um ar contaminado pela corrupção, a violência, a insegurança e desconfiança ou, pelo contrário, um ar capaz de gerar – é uma palavra-chave –, gerar alternativas, gerar renovação ou mudança? Gerar é ser co-criadores com Deus. Claro, isto custa.

Sei que aquilo que proponho não é fácil, mas sei também que é pior deixar o futuro nas mãos da corrupção, da brutalidade e da falta de equidade. Sei que muitas vezes, numa negociação, não é fácil harmonizar todas as partes, mas sei também que é pior e acaba por fazer um dano maior a falta de negociação e a falta de avaliação. Um dirigente operário já de idade – honesto como mais ninguém, viveu até à morte com o seu salário, nunca se aproveitou – disse-me uma vez: «Sempre que nos tínhamos de sentar a uma mesa de negociação, eu sabia que tinha que perder alguma coisa para ganharmos todos». Linda a filosofia deste homem de trabalho! Quando se vai negociar, sempre se perde algo, mas ganham todos.Sei que não é fácil viver de acordo num mundo cada vez mais competitivo, mas é pior deixar que o mundo competitivo acabe por determinar o destino dos povos… escravos. O lucro e o capital não são um bem superior ao homem, mas estão ao serviço do bem comum. E, quando o bem comum é forçado a estar ao serviço do lucro e o único a ganhar é o capital, isto tem um nome, chama-se exclusão. E, assim, se vai consolidando a cultura do descarte: Descartado! Excluído!

Comecei por vos agradecer a oportunidade de estar juntos. Ontem, um dos jovens que testemunhou no Estádio de Morelia disse que este mundo tira a capacidade de sonhar, e é verdade! Às vezes tira-nos a capacidade de sonhar, a capacidade da gratuidade. Quando um menino ou uma menina vê o pai e/ou a mãe apenas ao fim de semana, porque vão para o trabalho antes que ele(a) acorde e regressam quando já está a dormir, esta é a cultura do descarte. Quero convidá-los a sonhar, a sonhar com um México, onde o pai possa ter tempo para brincar com o seu filho, onde a mãe possa ter tempo para brincar com os seus filhos. E isto haveis consegui-lo vós dialogando, confrontando, negociando, perdendo para ganhem todos. Convido-vos a sonhar o México que os vossos filhos merecem; um México, onde não haja pessoas de primeira, segunda ou quarta classe, mas um México que saiba reconhecer no outro a dignidade de filho de Deus. A Guadalupana, que Se manifestou a São Juan Diego demonstrando como os que aparentemente não contam sejam as suas testemunhas privilegiadas, vos ajude a todos, independentemente da profissão ou do trabalho que tiverdes, a todos, nesta terra de diálogo, confrontação e encontro. Obrigado.
zenit.org


Wojtyla e Anna-Teresa Tymieniecka, uma amizade de mais de 30 anos e “sem nada de malicioso”, afirma o ex-secretário Dziwisz


Vaticano: “Não é de admirar: o papa era amigo de muitas pessoas”. Vicariato: “Cada escrito foi levado em conta no processo de canonização”

A redação da BBC resolveu “perturbar” João Paulo II onze anos depois da sua morte e quase dois desde a sua canonização. A rede britânica fez barulho em torno da correspondência intercambiada entre o papa e a filósofa norte-americana de origem polonesa Anna-Teresa Tymieniecka.

Wojtyla sempre manteve correspondência com velhos e novos amigos, incluindo mulheres. Uma delas foi a psiquiatra Wanda Poltawska, de Cracóvia, a quem o Santo Padre estava ligado por uma amizade tão profunda que ambos se chamavam de irmão e irmã, como ela revelou no livro “Diário de uma amizade”, publicado após a morte de São João Paulo II.

O jornalista Edward Stourton, da BBC, examinou a correspondência entre o papa e Anna-Teresa Tymieniecka na Biblioteca Nacional da Polônia – que adquiriu o material por uma grande soma de dinheiro. A emissora britânica pretende produzir um documentário chamado “As cartas secretas do papa João Paulo II” (como se elas fossem mesmo secretas).

O material examinado demonstra uma amizade que durou cerca de 30 anos e uma proximidade especial entre o papa e a filósofa, que foi definida pelo próprio papa como “um dom de Deus”.

As primeiras cartas datam de 1973, quando Wojtyla já era arcebispo de Cracóvia. São mais “formais”. Ao longo dos anos (a última é de 2005, poucos meses antes da morte do papa), tornaram-se mais confidenciais. “Minha querida Teresa, você fala de estar separados, mas eu não sei como encontrar resposta para estas palavras”, lê-se, por exemplo, em uma das cartas.

Em outra, de 1978, ano de sua eleição ao trono de Pedro, ele escreve: “Estou escrevendo após o evento, para que a correspondência entre nós possa continuar. Prometo que me lembrarei de tudo nesta nova etapa da minha jornada”. Antes, em uma carta de 1976, Wojtyla tinha escrito: “Já no ano passado eu estava procurando uma resposta para essas palavras ‘eu te pertenço’, e, finalmente, antes de deixar a Polônia, encontrei a maneira: um escapulário”, como sinal da “dimensão em que te aceito e te sinto em todos os lugares e em todo tipo de situação, quando estás perto e quando estás longe”.

São frases que, se mal interpretadas, podem dar lugar a malícia e ambiguidade. A própria BBC teve de estabelecer em seu site que “não há nenhum sinal de que o papa tenha quebrado o seu voto de castidade” e que a amizade consistia mais num “vínculo platônico”. Stourton fez sua interpretação: “Eu diria que eles eram mais do que amigos, mas menos do que amantes”, sugerindo que a mulher abrigava “sentimentos intensos” pelo seu correspondente, enquanto o papa teria tentado dar uma direção de amizade à sua relação.

Nada disso era novidade para o Vaticano, como contou à agência ANSA o relator da causa de beatificação de São João Paulo II, o padre Daniel Ols. O Vicariato de Roma declarou a ZENIT: “Tudo o que é exigido pelo direito canônico foi cuidadosamente seguido. Neste caso, no início do processo de beatificação e canonização de São João Paulo II, todas as pessoas em posse de escritos atribuídos ao Servo de Deus foram convidadas, por meio de um edito e de várias publicações, a transmitir tais escritos ao tribunal competente caso ainda não constassem na postulação, e todos os escritos entregues foram examinados durante o processo”.

O cardeal Stanislaw Dziwisz, que durante 40 anos esteve ao lado de Karol Wojtyla como colaborador fiel e, depois, foi seu secretário particular durante todo o longo pontificado de João Paulo II, declarou em uma carta divulgada ontem: “Qualquer um que tenha vivido ao lado de João Paulo II sabe muito bem que não espaço algum para qualquer interpretação maliciosa. Ele era livre e transparente e não tinha nenhum complexo, pois era um homem puríssimo, capaz de respeitar cada pessoa e cada situação da vida. Esta é a única chave de leitura com a qual interpretar toda a sua vida exemplar e santa”.

Greg Burke, vice-diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, declarou aos jornalistas que “não é de admirar que o papa João Paulo II tenha mantido estreitas amizades com várias pessoas, tanto homens quanto mulheres. Ninguém pode se dizer chocado com esta notícia”.

Karol Wojtyla conheceu Tymieniecka quase por acaso, em 1973, quando ela procurou o então cardeal de Cracóvia por conta de um livro de filosofia que ele tinha escrito. Foi assim que começou uma intensa correspondência. Tymieniecka, que tinha se casado em solo norte-americano depois de sofrer a ocupação nazista, decidiu viajar dos Estados Unidos à Polônia para discutir a revisão de um dos textos escritos por Wojtyla. Ao longo dos anos, houve vários outros encontros: às vezes particulares, às vezes na presença do cardeal Dziwisz. Diversas fotografias retratam os dois esquiando nas montanhas durante uma das tão amadas viagens do Santo Padre, ou em Roma e nos corredores do Vaticano, conversando tranquilamente. Sem nada para esconder.
zenit.org


O Santo Padre tem escrito muito em seu Twitter nestes dias de Mexico:

18/02/2016
Não esqueçais que a misericórdia de Deus é o nosso escudo e a nossa fortaleza contra a injustiça, a degradação e a opressão.
17/02/2016
O lucro e o capital não são um bem superior ao homem, mas estão ao serviço do bem comum.
17/02/2016
Todos devemos lutar para que o trabalho seja uma instância de humanização e de futuro.
17/02/2016
Queridos presos, conhecestes o máximo do sofrimento, podeis tornar-vos profetas de uma sociedade que não gere mais violência e exclusão.
17/02/2016
Celebrar o Jubileu da Misericórdia é aprender a não ficar prisioneiros do passado, é acreditar que as coisas podem tomar outro rumo.
17/02/2016
A misericórdia de Jesus abraça a todos, em todos os cantos da terra: abri o vosso coração!
17/02/2016
Jesus nunca nos convidaria para ser sicários, mas chama-nos discípulos. Nunca nos mandaria à morte, mas tudo n’Ele é convite à vida.
17/02/2016
Pedistes-me uma palavra de esperança... A que tenho para vos dar, chama-se Jesus Cristo.
16/02/2016
Em Jesus encontrei Aquele que é capaz de estimular o melhor de mim mesmo.

16/02/2016
A nossa primeira chamada é para aprender a dizer «Pai Nosso»: Não nos deixeis cair na tentação da resignação.

16/02/2016
Aprende-se a rezar, como se aprende a caminhar, a falar, a escutar. Diz-me como rezas e dir-te-ei como vives.

15/02/2016
Prefiro uma família com rosto cansado pelos sacrifícios aos rostos maquiados que não sabem o que é ternura ou compaixão.

15/02/2016
Entre os pobres mais maltratados, há a nossa terra. Não podemos permanecer indiferentes perante esta grande crise ambiental da história.

15/02/2016
No coração do homem há um anseio de viver em liberdade, em uma terra em que seja possível mudar, na fraternidade, na solidariedade.



Francisco: Prisões, sintoma de como estamos na sociedade


Ciudad Juárez (RV) - O Papa Francisco visitou em Ciudad Juárez, no México, nesta quarta-feira (17/02/2016), último dia de sua 12ª viagem Apostólica internacional, o Centro de Readaptação Social nº 3 (CeReSo).

A seguir, a íntegra do discurso

***

Queridos irmãos e irmãs!

Estou a concluir a minha visita ao México e não queria ir embora sem vos saudar, sem celebrar o Jubileu da Misericórdia convosco.

De coração agradeço as palavras de saudação que me dirigistes, nelas manifestando tanta esperança e tantas aspirações, mas também tantas amarguras, medos e dúvidas.

Durante a viagem à África, na cidade de Bangui, pude abrir a primeira Porta da Misericórdia para o mundo inteiro. Hoje, no vosso meio e convosco, quero reafirmar uma vez mais a confiança a que Jesus nos impele: a misericórdia que abraça a todos, em todos os cantos da terra. Não há lugar onde a sua misericórdia não possa chegar, não há espaço nem pessoa que ela não possa tocar.

Celebrar o Jubileu da Misericórdia convosco é lembrar o caminho que devemos urgentemente empreender para romper o ciclo vicioso da violência e da delinquência. Já se perderam várias décadas pensando e crendo que tudo se resolve isolando, separando, encarcerando, livrando-nos dos problemas, acreditando que estas medidas resolvem verdadeiramente os problemas. Esquecemo-nos de concentrar-nos naquilo que realmente deve ser a nossa preocupação: a vida das pessoas; as suas vidas, as das suas famílias, as daqueles que também sofreram por causa deste ciclo vicioso da violência.

A misericórdia divina lembra-nos que as prisões são um sintoma de como estamos na sociedade; em muitos casos são um sintoma de silêncios e omissões provocadas pela cultura do descarte. São sintoma duma cultura que deixou de apostar na vida, duma sociedade que foi abandonando os seus filhos.

A misericórdia lembra-nos que a reinserção não começa aqui dentro destes muros; começa antes, começa lá fora nas ruas da cidade. A reinserção ou reabilitação começa criando um sistema que poderíamos chamar de saúde social, isto é, uma sociedade que procure não adoecer contaminando as relações no bairro, nas escolas, nas praças, nas ruas, nos lares, em todo o espectro social. Um sistema de saúde social que vise gerar uma cultura que seja eficaz procurando prevenir aquelas situações, aqueles caminhos que acabam por ferir e deteriorar o tecido social.

Às vezes parece que as prisões se proponham mais colocar as pessoas em condição de continuar a cometer delitos do que promover processos de reabilitação que permitam enfrentar os problemas sociais, psicológicos e familiares que levaram uma pessoa a determinada atitude. O problema da segurança não se resolve apenas encarcerando, mas é um apelo a intervir para enfrentar as causas estruturais e culturais da insegurança que afetam todo o tecido social.

A preocupação de Jesus pelos famintos, os sedentos, os sem-abrigo ou os presos (Mt 25, 34-40) pretendia expressar as entranhas de misericórdia do Pai, que se tornam um imperativo moral para toda a sociedade que deseje possuir as condições necessárias para uma convivência melhor. Na capacidade que uma sociedade tem de integrar os seus pobres, doentes ou presos, reside a possibilidade de estes curarem as suas feridas e serem construtores duma boa convivência. A reinserção social começa com a frequência da escola por todos os nossos filhos e com um emprego digno para as suas famílias, com a criação de espaços públicos para os tempos livres e a recreação, com a habilitação das instâncias de participação cívica, os serviços de saúde, o acesso aos serviços básicos… para citar apenas algumas medidas.

Celebrar o Jubileu da Misericórdia convosco é aprender a não ficar prisioneiros do passado, de ontem; é aprender a abrir a porta para o futuro, para o amanhã; é acreditar que as coisas podem tomar outro rumo. Celebrar o Jubileu da Misericórdia convosco é convidar-vos a levantar a cabeça e empenhar-vos para obter o tão ansiado espaço de liberdade.

Sabemos que não se pode voltar atrás, sabemos que o que foi feito, feito está. Mas isto não significa que não haja a possibilidade de escrever uma página nova daqui para a frente; por isso, quis celebrar convosco o Jubileu da Misericórdia. Vós sofreis a angústia da queda, sentis o arrependimento pelos vossos actos e sei que em muitos casos, por entre grandes limitações, a partir da vossa solidão procurais refazer a vossa vida. Conhecestes a força do sofrimento e do pecado; não vos esqueçais, porém, que tendes ao vosso alcance também a força da ressurreição, a força da misericórdia divina que faz novas todas as coisas. Agora é possível que vos toque a parte mais dura, mais difícil, mas talvez seja a que produz mais fruto; a partir daqui de dentro, lutai para inverter as situações que geram mais exclusão. Falai com os vossos queridos, contai-lhes a vossa experiência, ajudai a travar o ciclo vicioso da violência e da exclusão. Quem sofreu o máximo da amargura a ponto de poder afirmar que «experimentou o inferno», pode tornar-se um profeta na sociedade. Trabalhai para que esta sociedade que usa e joga fora não continue a fazer mais vítimas.

Quereria também encorajar o pessoal que trabalha neste Centro ou noutros semelhantes: os directores, os agentes da Polícia penitenciária, todos os que realizam qualquer tipo de assistência neste Centro. E agradeço o esforço dos capelães, das pessoas consagradas e dos leigos que se dedicam a manter viva a esperança do Evangelho da Misericórdia na prisão. Todos vós – não vos esqueçais! – podeis ser sinal das entranhas de misericórdia do Pai. Precisamos uns dos outros para continuar em frente.

Antes de vos dar a bênção, gostaria que rezássemos um pouco em silêncio. Cada um, na intimidade do seu coração, peça a Deus que nos ajude a acreditar na sua misericórdia.

E peço que não vos esqueçais de rezar por mim.


Papa Francisco fala aos jovens em Estádio no México

No encontro com jovens, em Estádio no México, Papa Francisco disse que os jovens são a riqueza do país e da Igreja

Nesta terça-feira, 16.fevereiro.2016, às 20h15 (horário de Brasília), Papa Francisco encontrou-se com milhares de jovens no Estádio José María Morelos y Pavón e falou que eles são, não a esperança, mas a riqueza do México e da Igreja.

O Santo Padre foi recebido de forma calorosa pelos jovens com músicas e danças que fazem parte da cultura e do rico folclore da cidade de Michoacan, que é uma terra de pescadores.

Após as apresentações, Francisco ouviu atentamente o testemunho de alguns jovens que falaram sobre a realidade por eles vivida como violência, mercado de trabalho e sexualidade.

Roberto, um dos jovens que testemunharam, salientou que eles querem vencer os medos e se comprometerem a pensar além das questões individuais.

Carmem Daniela, jovem mexicana, disse: “Só Jesus é fonte de verdadeira esperança, Ele é nosso amigo, irmão, o Deus conosco, nosso caminho e vida plena”.

Discurso do Papa Francisco:

Queridos jovens, boa tarde!

Quando cheguei a esta terra, fui recebido com boas-vindas calorosas, podendo assim constatar algo que já intuíra há tempos: a vitalidade, a alegria, o espírito festoso do povo mexicano. Agora mesmo, depois de vos ouvir e sobretudo depois de vos ver, constato de novo outra certeza, algo que disse ao Presidente da nação, na minha primeira saudação: um dos maiores tesouros desta terra mexicana tem um rosto jovem, são os seus jovens. É verdade! Sois vós a riqueza desta terra. Eu não disse a esperança desta terra, mas a sua riqueza.

Não se pode viver a esperança, pressentir o amanhã, se antes a pessoa não consegue estimar-se, se não consegue sentir que a sua vida, as suas mãos, a sua história têm valor. A esperança nasce, quando se pode experimentar que nem tudo está perdido, mas para isso é necessário exercitar-se começando «por casa», começando por si mesmo. Nem tudo está perdido. Não estou perdido, valho… e muito! A principal ameaça à esperança são os discursos que te desvalorizam, fazem sentir-te um ser de segunda classe. A principal ameaça à esperança é quando sentes que não interessas a ninguém, ou que te puseram de lado. A principal ameaça à esperança é quando sentes que tanto vale estares como não estares. Isto mata, isto aniquila-nos e é porta de entrada para tanta amargura. A principal ameaça à esperança é fazer-te crer que começas a valer qualquer coisa, quando te mascaras com roupas de marca, do último grito da moda, ou que ganhas prestígio, te tornas importante por teres dinheiro, mas, no fundo do teu coração, não crês ser digno de carinho, digno de amor. A principal ameaça é quando uma pessoa sente que tudo aquilo de que precisa é ter dinheiro para comprar tudo, inclusive o carinho dos outros. A principal ameaça é crer que, pelo facto de ter um grande «carro», és feliz.

Vós sois a riqueza do México, vós sois a riqueza da Igreja. Compreendo que muitas vezes se torna difícil sentir-se tal riqueza, quando estamos continuamente sujeitos à perda de amigos ou familiares nas mãos do narcotráfico, das drogas, de organizações criminosas que semeiam o terror. É difícil sentir-se a riqueza duma nação, quando não se tem oportunidades de trabalho digno, possibilidades de estudo e formação, quando não se sentem reconhecidos os direitos levando-vos a situações extremas. É difícil sentir-se a riqueza dum lugar, quando, por serdes jovem, vos usam para fins mesquinhos, seduzindo-vos com promessas que, no fim, se revelam vãs.

Mas, apesar de tudo isto, não me cansarei de dizer: vós sois a riqueza do México.

Não penseis que vos digo isto, porque sou bom ou porque já vejo tudo claro! Não, queridos amigos, não é por isso. Digo-vos isto, e digo-o convencido, sabeis porquê? Porque, como vós, creio em Jesus Cristo. E é Ele que renova continuamente em mim a esperança, é Ele que renova continuamente o meu olhar. É Ele que me convida continuamente a converter o coração. Sim, meus amigos! Digo-vos isto, porque em Jesus encontrei Aquele que é capaz de estimular o melhor de mim mesmo. E é graças a Ele que podemos abrir caminho; é graças a Ele que sempre podemos recomeçar; é graças a Ele que podemos ganhar coragem para dizer: não é verdade que a única forma possível de viver, de poder ser jovem seja deixar a vida nas mãos do narcotráfico ou de todos aqueles que a única coisa que fazem é semear destruição e morte. É graças a Ele que podemos dizer que não é verdade que a única forma que os jovens têm de viver aqui seja na pobreza e na marginalização: marginalização de oportunidades, marginalização de espaços, marginalização da formação e educação, marginalização da esperança. Jesus Cristo é Aquele que desmente todas as tentativas de vos tornar inúteis, ou meros mercenários de ambições alheias.

Pedistes-me uma palavra de esperança… A que tenho para vos dar, chama-se Jesus Cristo. Quando tudo vos parecer pesado, quando parecer que o mundo vos cai em cima, abraçai-vos à sua cruz, abraçai-vos a Ele e, por favor, nunca largueis a sua mão; por favor, nunca vos afasteis d’Ele. Com efeito, juntamente com Ele é possível viver plenamente, juntamente com Ele é possível crer que vale a pena dar o melhor de vós mesmos, ser fermento, sal e luz no meio dos vossos amigos, no vosso bairro, na vossa comunidade. Por isso, queridos amigos, em nome de Jesus peço que não vos deixeis excluir, não vos deixeis desvalorizar, não vos deixeis tratar como mercadoria. Claro, é provável que não tenhais à porta o último modelo de carro, que não tenhais a carteira cheia de dinheiro, mas tereis algo que ninguém vos poderá jamais roubar: a experiência de vos sentirdes amados, abraçados e acompanhados; a experiência de vos sentirdes família, de vos sentirdes comunidade.

Hoje o Senhor continua a chamar-vos, continua a convocar-vos como fez com o índio Juan Diego. Convida-vos a construir um santuário; um santuário que não é um lugar físico, mas uma comunidade: um santuário chamado paróquia, um santuário chamado nação. A comunidade, a família, o sentir-vos cidadãos são alguns dos principais antídotos contra tudo o que nos ameaça, porque nos faz sentir parte desta grande família de Deus. E não para nos refugiarmos, não para nos fecharmos; antes, pelo contrário, para sairmos a convidar outros, para sairmos a anunciar a outros que ser jovem no México é a maior riqueza e, por conseguinte, não pode ser sacrificada.

Jesus nunca nos convidaria para ser sicários, mas chama-nos discípulos. Nunca nos mandaria à morte, mas tudo n’Ele é convite à vida: uma vida em família, uma vida em comunidade; uma família e uma comunidade a favor da sociedade.

Vós sois a riqueza deste país e, quando tiverdes dúvidas sobre isto, olhai para Jesus Cristo, Aquele que desmente todas as tentativas de vos tornar inúteis ou meros mercenários de ambições alheias.
Canção Nova



Visita à Catedral de Morelia

PALAVRAS DO PAPA ÀS CRIANÇAS DO CATECISMO

Terça-feira 16 de fevereiro de 2016

Sente-se! Boa tarde! Eu sei que vêm de todas as paróquias da cidade e as dioceses coligadas e algumas escolas. Muito obrigado pela visita.

Vou pedir a Jesus para fazê-los crescer com muito amor, com muito amor, como Ele tinha. Com muito amor para serem cristãos a sério, para cumprir o mandamento que Jesus nos deu: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como Jesus amava, como a nós mesmos ou mais, como Ele nos amou.

E peçamos à Nossa Senhora também, para cuidar de nós, para nos abençoar. Acima de tudo, cada um de vocês, agora, pensem em seu coração na família que tem e nos amigos, e se estão brigados com algum também pensem nele, e vamos pedir a Nossa Senhora que também cuide dele: é uma maneira para fazermos amigos e não muitos inimigos, porque a vida não é bonita com inimigos, e os verdadeiros amigos é Deus quem faz em nossos corações.

Então, em silêncio, pensemos na família, em nossos amigos, naqueles com os quais estamos brigados, para que  Deus os abençoe e por  todas as pessoas que nos ajudam – as freiras, os párocos, os professores na escola, todos aqueles que estão nos ajudando a crescer. E uma bênção especial também para o papai, a mamãe e os avós. Silêncio, fechamos os olhos e peçamos tudo isso.

(Ave Maria…)

E peço-lhes que por favor, rezem por mim. Vocês vão rezar? (Resposta: "Sim!"). Assim que eu gosto!

Saúdo o coro tem dedicado uma canção

Quero parabenizá-lo, felicitá-los de verdade. A arte, o esporte expandem a alma e a fazem crescer bem, com ar fresco e não deprimem a vida. Continuem a ser criativos, continuem assim, buscando a beleza, as coisas belas, as coisas que duram para sempre e nunca se deixem pisotear por nada. Está claro, lhes dou a bênção? (Resposta: "Sim!")

(Bênção Apostólica)

E por favor, peço-lhes que rezem por mim, e de vez em quando também me cantem uma canção embora esteja longe. Ciao! Até logo. Que Deus os abençoe.
tradução "Duc in altum!"



Aos sacerdotes e aos religiosos o Papa pediu para não permanecerem fechados nas sacristias e recordou a figura do primeiro bispo de Michoacán - Fora da trincheira da resignação

A maior tentação é a resignação, a «resignação que nos paralisa», «que nos entrincheira nas nossas “sacristias” e aparentes seguranças», «que não só nos impede de anunciar, mas também nos impede de louvar». Ressaltou o Papa durante a missa celebrada na manhã de terça-feira, 16 de Fevereiro de 2016, para os sacerdotes, religiosos, religiosas e seminaristas do México, no estádio Venustiano Carranza de Morelia.

HOMILIA DO SANTO PADRE

Há um dito entre nós que recita assim: «Diz-me como rezas e dir-te-ei como vives, diz-me como vives e dir-te-ei como rezas»; porque, mostrando-me como rezas, aprenderei a descobrir o Deus vivo e, mostrando-me como vives, aprenderei a acreditar no Deus a quem rezas, pois a nossa vida fala da oração e a oração fala da nossa vida. Aprende-se a rezar, como se aprende a caminhar, a falar, a escutar. A escola da oração é a escola da vida, e a escola da vida é o lugar onde fazemos escola de oração.

E Paulo, quando ensinava ou exortava o seu discípulo predilecto Timóteo a viver a fé, dizia-lhe: «Lembra-te da tua mãe e da tua avó». E, quando os seminaristas entravam no Seminário, muitas vezes perguntavam-me: «Padre, eu gostava de ter uma oração mais profunda, mais mental». «Olha, continua a rezar como te ensinaram na tua casa e depois, pouco a pouco, a tua oração irá crescendo, como cresceu a tua vida». Aprende-se a rezar, como tudo na vida.

Jesus quis introduzir os seus no mistério da Vida: no mistério da vida d’Ele. Mostrou-lhes – comendo, dormindo, curando, pregando, rezando – o que significa ser Filho de Deus. Convidou-os a partilhar a sua vida, a sua intimidade e, enquanto estavam com Ele, fez-lhes tocar na sua carne a vida do Pai. No seu olhar, no seu caminhar, fê-los experimentar a força, a novidade de dizer: «Pai Nosso». Em Jesus, esta expressão «Pai Nosso» não tem o sabor velho da rotina ou da repetição; pelo contrário, sabe a vida, a experiência, a autenticidade. Ele soube viver rezando e rezar vivendo, ao dizer: Pai Nosso.

E convidou-nos a fazer o mesmo. A nossa primeira chamada é para fazer experiência deste amor misericordioso do Pai na nossa vida, na nossa história. A primeira chamada que Jesus nos fez foi para nos introduzir nesta nova dinâmica do amor, da filiação. A nossa primeira chamada é para aprender a dizer «Pai Nosso», como insiste Paulo: Abbá.

A propósito da sua chamada, diz São Paulo: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» Ai de mim, porque evangelizar «não é para mim – explica – motivo de glória, é antes uma obrigação que me foi imposta» (1 Cor 9, 16). Pois bem! Jesus chamou-nos para participar na sua vida, na vida divina: Ai de nós – consagrados, consagradas, seminaristas, sacerdotes, bispos – ai de nós se não a compartilharmos! Ai de nós, se não formos testemunhas do que vimos e ouvimos! Ai de nós! Não queremos ser funcionários do divino; não somos, nem o queremos ser jamais, empregados da empresa de Deus, porque fomos convidados a participar na sua vida, fomos convidados a encerrar-nos no seu coração, um coração que reza e vive dizendo: Pai Nosso. Em que consiste a missão senão em dizer com a nossa vida – desde o princípio até ao fim, como o nosso irmão bispo que faleceu esta noite –, em que consiste a missão senão em dizer com a nossa vida: Pai Nosso?

É a este Pai Nosso que nos dirigimos todos os dias. E que Lhe dizemos numa das súplicas? Não nos deixeis cair em tentação. Fê-lo o próprio Jesus. Rezou para que nós, seus discípulos – de ontem e de hoje –, não caíssemos em tentação. E uma das tentações que nos assalta, uma das tentações que surge não só de contemplar a realidade, mas também de viver nela… sabeis qual pode ser? Qual é a tentação que nos pode vir de ambientes dominados muitas vezes pela violência, a corrupção, o tráfico de drogas, o desprezo pela dignidade da pessoa, a indiferença perante o sofrimento e a precariedade? À vista de tudo isto, à vista desta realidade que parece ter-se tornado um sistema irremovível, qual é a tentação que repetidamente podemos ter nós, os chamados à vida consagrada, ao presbiterado, ao episcopado?

Acho que a poderemos resumir numa só palavra: resignação. À vista desta realidade, pode vencer-nos uma das armas preferidas do demónio: a resignação. «E que podes tu fazer? A vida é assim». Uma resignação que nos paralisa e impede não só de caminhar, mas também de abrir caminho; uma resignação que não só nos atemoriza, mas também nos entrincheira nas nossas «sacristias» e seguranças aparentes; uma resignação que não só nos impede de anunciar, mas impede-nos também de louvar, tira-nos a alegria, o prazer do louvor. Uma resignação que nos impede não só de projectar, mas também nos trava na hora de arriscar e transformar.

Por isso, Pai Nosso, não nos deixeis cair em tentação.

Nos momentos de tentação, faz-nos muito bem apelar para a nossa memória. Ajuda-nos muito considerar a «madeira» de que fomos feitos. Não começou tudo connosco, e tão-pouco acabará tudo connosco; por isso, por isso faz-nos bem recuperar a recordação da história que nos trouxe até aqui.

E, revisitando a memória, não podemos esquecer-nos de alguém que amou tanto este lugar, que se fez filho desta terra. Alguém que pôde dizer de si mesmo: «Tiraram-me da magistratura para me porem na plenitude do sacerdócio por mérito dos meus pecados. A mim, inútil e completamente inábil para a execução de tão grande empreendimento; a mim, que não sabia remar, elegeram-me primeiro bispo de Michoacán» (Vasco Vásquez de Quiroga, Carta pastoral, 1554).

Permiti-me aqui um parêntesis! Agradeço ao Senhor Cardeal Arcebispo por ter querido que se celebrasse esta Eucaristia com o báculo deste homem e o seu cálice. Convosco quero lembrar este evangelizador, conhecido também como Tato Vasco, como «o espanhol que se fez índio».

A realidade vivida pelos índios Purhépechas – que ele descreve como «vendidos, vexados e errando pelos mercados a recolher os restos que se deitavam fora» –, longe de o fazer cair na tentação da acédia e da resignação, moveu a sua fé, moveu a sua vida, moveu a sua compaixão e estimulou-o a realizar várias iniciativas que permitissem «respirar» no meio desta realidade tão paralisante e injusta. A amargura do sofrimento dos seus irmãos fez-se oração e a oração fez-se resposta concreta. E isto valeu-lhe, entre os índios, o nome de «Tata Vasco» que, na língua purhépechas, significa «papá».

Pai, Papá, Tata, Abbá.... Esta é a oração, esta é a palavra que Jesus nos convidou a dizer.

Pai, Papá, Abbá, não nos deixeis cair na tentação da resignação, não nos deixeis cair na tentação da acédia, não nos deixeis cair na tentação da perda da memória, não nos deixeis cair na tentação de nos esquecermos dos nossos maiores que nos ensinaram, com a sua vida, a dizer: Pai Nosso.
L'Osservatore Romano/Boletim da Santa Sé



Papa: prefiro uma família ferida a uma sociedade narcisista

Na tarde de dia 15 de fevereiro de 2016 o Papa Francisco esteve com as famílias do México na cidade de Tuxtla Gutiérrez, capital do Estado de Chiapas.

Foi um encontro de grande alegria, aquele que o Santo Padre teve com as famílias mexicanas no repleto Estádio ‘Victor Manuel Reyna’. Testemunhos e vários acontecimentos fora do programa marcaram este momento de partilha com as milhares de famílias presentes.

Neste particular foi comovente no final da intervenção do Papa a atitude de uma menina que surpreendentemente correu para o Santo Padre e ali esteve um pouco no colo de Francisco. Um outro momento inesperado foi quando a multidão levou uma criança com deficiência até ao palco, onde estava o Papa, que logo a abraçou e saudou.


DISCURSO DO SANTO PADRE


Queridos irmãos e irmãs!

Dou graças a Deus por estar hoje nesta terra de Chiapas. É bom estar neste solo, é bom estar nesta terra, é bom estar neste lugar que, graças a vós, tem sabor de família, de lar. Dou-Lhe graças pelos vossos rostos e pela vossa presença; agradeço a Deus pelo palpitar da sua presença nas vossas famílias. Obrigado também a vós, famílias e amigos, que nos oferecestes o vosso testemunho, abristes-nos as portas das vossas casas e as portas das vossas vidas; permitistes-nos sentar à vossa «mesa» onde partilhais o pão que vos alimenta e o suor perante as dificuldades diárias: o pão das alegrias, da esperança, dos sonhos, e o suor perante as amarguras, as decepções e as quedas. Obrigado por nos terdes permitido entrar nas vossas famílias, sentar à vossa mesa, conhecer o vosso lar.

Manuel, antes de te agradecer a ti pelo testemunho dado, quero agradecer aos teus pais, às duas pessoas que estão de joelhos diante de ti a segurar-te o papel. Vedes como é bela esta imagem? Os pais de joelhos diante do filho, que está enfermo. Não vos esqueçais desta imagem. É possível que uma vez ou outra os dois se peguem. Qual é o marido e qual é a esposa que não se pega? Pior ainda quando a sogra mete bedelho…, mas deixemos isso! A verdade é que se amam e provaram-nos que se amam e, pelo amor que se têm, são capazes de se pôr de joelhos diante do seu filho enfermo. Obrigado, amigos, por este testemunho que deram e continuem. Obrigado! E a ti, Manuel, obrigado pelo teu testemunho e sobretudo pelo teu exemplo. Gostei da expressão – «encher-se de vontade» – que usaste para descrever a atitude assumida depois de teres falado com os teus pais. Começaste a encher-te de vontade para a vida, encher de vontade a tua família, encher de vontade os teus amigos e encheste-nos de vontade a todos nós aqui reunidos. Obrigado! Acho que isto é o que o Espírito Santo quer fazer sempre no meio de nós: encher-nos de vontade, dar-nos motivos para continuar a apostar na família, sonhar, construir uma vida com sabor a casa e a família. Enchemo-nos de vontade? [respondem: sim]. Obrigado!

E isto é o que Deus Pai sempre sonhou e, por isto, Deus Pai lutou desde os tempos antigos. Naquela tarde, quando tudo parecia perdido no jardim do Éden, Deus Pai encheu de vontade aquele jovem casal e mostrou-lhes que nem tudo estava perdido. E quando o povo de Israel sentia que não podia resistir mais na travessia do deserto, Deus Pai incitou-o a encher-se de vontade com o maná. E quando chegou a plenitude dos tempos, Deus Pai encheu de vontade a humanidade para sempre mandando-nos o seu Filho.

Da mesma forma, todos nós aqui presentes experimentamos, muitas vezes e de variados modos, que Deus Pai encheu de vontade a nossa vida. Mas porquê? – podemos perguntar-nos. Porque não pode proceder diversamente. O nosso Pai Deus não pode deixar de nos querer bem e encher-nos de vontade, impelindo-nos e levando-nos para diante, não pode proceder diversamente, porque o seu nome é amor, o seu nome é dom gratuito, o seu nome é dedicação, o seu nome é misericórdia. Tudo isto no-lo deu a conhecer, em toda a sua força e clareza, no seu Filho Jesus, que gastou a sua vida até à morte para tornar possível o Reino de Deus; um Reino que nos convida a participar naquela lógica nova que põe em movimento uma dinâmica capaz de abrir os céus, capaz de abrir os nossos corações, as nossas mentes, as nossas mãos, desafiando-nos para novos horizontes; um Reino que tem sabor de família, que tem sabor de vida partilhada. Este Reino, em Jesus e com Jesus, é possível; é capaz de transformar em vinho de festa as nossas perspectivas, atitudes e sentimentos frequentemente anaguados; é capaz de curar os nossos corações, convidando-nos repetidamente – chegando a setenta vezes sete – a recomeçar; é capaz de fazer sempre todas as coisas novas.

Manuel, pediste-me para rezar por tantos adolescentes que vivem desanimados e andam por maus caminhos. Quem o não sabe? Muitos adolescentes sem audácia, sem força, nem vontade. E muitas vezes, como disseste justamente Manuel, assumem este comportamento porque se sentem sozinhos, não têm ninguém com quem conversar. Pensai, pais; pensai, mães: conversais com vossos filhos e vossas filhas? Ou estais sempre ocupados, apressados? Jogais com vossos filos e vossas filhas? Isto fez-me lembrar o testemunho que nos deu Beatriz. Beatriz, tu disseste-nos: «A luta sempre foi difícil por causa da precariedade e da solidão». Quantas vezes te sentiste apontada, condenada, não foi? Pensemos em todas as pessoas, todas as mulheres que passam pelo que passou Beatriz. Pode-nos desesperar a precariedade, a escassez, ver-se privado muitas vezes do mínimo indispensável; pode fazer-nos sentir uma forte ansiedade, por não sabermos o que fazer para continuar… e mais ainda, quando há filhos para criar. A precariedade ameaça não só o estômago (e isto é já muito!), mas pode ameaçar também a alma, pode desmotivar-nos, tirar-nos a força e tentar-nos para caminhos ou alternativas com solução só aparente que, no fim de contas, não resolve nada. Mas tu foste corajosa, Beatriz. Obrigado! Há uma precariedade que pode ser muito perigosa e pode insinuar-se em nós sem nos darmos conta: é a precariedade que nasce da solidão e do isolamento; e o isolamento é sempre um mau conselheiro.

Sem vos dardes conta, Beatriz e Manuel, usastes ambos a mesma expressão; ambos nos mostrastes como muitas vezes a maior tentação que nos assalta é a de nos fecharmos em nós mesmos mas esta atitude, longe de encher-nos de vontade, acaba, como a traça, por nos corroer a alma, deixar a alma deserta.

O combate contra esta precariedade e isolamento, que nos tornam vulneráveis a muitas soluções aparentes – como as que mencionava Beatriz –, deve concretizar-se sob distintas formas e a diferentes níveis. Uma das formas é por meio de leis que protejam e garantam o mínimo necessário para cada família e cada pessoa poderem crescer através do estudo e dum trabalho digno. A outra forma é o compromisso pessoal, como sublinharam os testemunhos de Humberto e Cláudia, quando nos disseram que estavam a procurar transmitir-nos o amor de Deus que experimentaram no serviço e assistência aos outros. Leis e compromisso pessoal são um binómio muito útil para romper a espiral de precariedade. E vós enchestes-vos de coragem, e vós rezais, e vós estais com Jesus, e vós estais integrados na vida da Igreja. Vós usastes uma frase linda: «comungamos com o irmão frágil, o doente, o necessitado, o prisioneiro». Obrigado! Obrigado!

Hoje vemos e experimentamos, em várias frentes, como a família está a ser fragilizada e está a ser posta em discussão. Julgando-a um modelo já ultrapassado e sem lugar nas nossas sociedades, e, a pretexto de modernidade, favorece-se cada vez mais um sistema baseado no modelo do isolamento. E vão-se inoculando nas nossas sociedades – e dizem-se sociedades livres, democráticas, soberanas! – vão-se inoculando colonizações ideológicas que as destroem e acabamos por ser colónias de ideologias destruidoras da família, da célula da família, que é a base de toda a sociedade sã.

Sem dúvida, viver em família não é sempre fácil e, muitas vezes, é doloroso e árduo. Contudo, como disse já mais de uma vez (referindo-me à Igreja, mas penso que se possa aplicar também à família), prefiro uma família ferida que cada dia procura harmonizar o amor, a uma família e sociedade enfermiça pelo confinamento e ou a comodidade do medo de amar. Prefiro uma família que procura uma vez e outra recomeçar a uma família e sociedade narcisista e obcecada com o luxo e o conforto. «Quantos filhos tendes?» «Nenhum; não temos porque, claro, gostamos de sair nas férias, fazer turismo, queremos comprar uma quinta». O luxo e a comodidade; e os filhos ficam para trás. E, quando quisestes ter um…, já o tempo tinha passado. Que grande dano faz isto? Prefiro uma família com o rosto cansado pelos sacrifícios à família com rostos maquilhados que não se entendem de ternura e compaixão. Prefiro um homem e uma mulher, como o senhor Aniceto e a esposa, com o rosto enrugado pelas lutas de todos os dias, que, passados mais de cinquenta anos, continuam a amar-se, como se vê; e o filho aprendeu a lição pois fazem vinte e cinco anos de casados. Estas são as famílias! Há pouco perguntei ao senhor Aniceto e à sua senhora, quem teve mais paciência nestes cinquenta e tantos anos: «Os dois, padre». Com efeito na família, para se chegar ao que eles chegaram, é preciso ter paciência, amor, é preciso perdoar-se. «Mas, padre, uma família perfeita nunca discute!» Mentira! Até é conveniente que discutam de vez em quando, e, se voar algum prato, não tenham medo. O único conselho é que não terminem o dia sem fazer a paz; porque, se acabam o dia em guerra, vão acordar já em guerra fria, e a guerra fria é muito perigosa na família, porque vai escavando por debaixo das rugas da fidelidade conjugal. Obrigado pelo testemunho de se amarem durante mais de cinquenta anos. Muito obrigado!

E para variar um pouco de tema, mas sempre a propósito de rugas, recordo o testemunho duma grande actriz – uma actriz latino-americana de cinema – quando, já próxima da casa dos sessenta, se começaram a ver as rugas na cara e aconselharam-lhe um «arranjo», um «arranjito» para poder continuar a trabalhar bem. A sua resposta foi muito clara: «Estas rugas custaram-me muito trabalho, muito esforço, muita aflição e uma vida sobrecarregada; nem por sonhos lhes quero tocar, são os vestígios da minha história». E continuou a ser uma grande actriz. No casal, acontece o mesmo. A vida matrimonial tem que se renovar todos os dias. E, como disse antes, prefiro famílias enrugadas, com feridas, com cicatrizes, mas continuam a caminhar para diante; porque estas feridas, estas cicatrizes, estas rugas são fruto da fidelidade a um amor que nem sempre foi fácil. O amor não é fácil; não é fácil, não. Mas é a coisa mais linda que um homem e uma mulher podem trocar entre si: o verdadeiro amor, para toda a vida.

Pediram-me para rezar por vós e quero começar a fazê-lo agora mesmo. Vós, queridos mexicanos, partis avantajados, tendes um “extra”: tendes a Mãe, Nossa Senhora de Guadalupe. A Guadalupana quis visitar estas terras e isto dá-nos a certeza de que, através da sua intercessão, este sonho chamado família não será derrotado pela precariedade e a solidão. Ela é mãe e está pronta a defender sempre as nossas famílias, a defender o nosso futuro, está sempre pronta a «encher-nos de vontade», dando-nos o seu Filho. Por isso, convido-vos assim como estais, sem vos moverdes muito, a dar-vos as mãos e a dizer a Ela todos juntos: «Ave-Maria...».

E não nos esqueçamos de São José, caladito, trabalhador, mas sempre à frente da família, sempre a cuidar da família. Obrigado! Que Deus vos abençoe e rezem por mim.

E agora, neste ambiente de festa familiar, quero convidar os casais aqui presentes a renovarem, em silêncio, as suas promessas matrimoniais; e os noivos peçam a graça de uma família fiel e cheia de amor. Em silêncio, os casais renovem as promessas matrimoniais, e os noivos peçam a graça de uma família fiel e cheia de amor
Radio Vaticano/Boletim da Santa Sé



Papa pede perdão aos indígenas de Chiapas, despojados e excluídos

“Entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que geme e sofre as dores do parto”: foi o que disse o Papa Francisco na missa esta segunda-feira (15/02/2016) com as comunidades indígenas do Chiapas, em San Cristóbal de Las Casas, numa liturgia celebrada em espanhol e nas línguas indígenas tseltal, ch’ol e tsotsil, que contou também com a participação de numerosos fiéis guatemaltecos.

Na saudação dirigida ao Pontífice, um homem e uma mulher representando as comunidades indígenas do Chiapas, do México e da Guatemala agradeceram ao Papa por ter aprovado o uso de suas línguas nativas na liturgia.

No altar papal apoiado na pirâmide de Palenque – evocação da cultura e história mayas – simbolizada pelos degraus que partem da terra até o altar, a expressão de que a fé cristã não elimina as raízes das culturas, não se separa da terra e da história, mas as torna plenas em Jesus, faz crescer e amadurecer em Cristo. A fé não destrói nem a história nem a cultura, mas as assume, para transformá-las em Cristo.

Ao encontrar uma realidade de exclusão social de um povo que vive à margem do progresso e do desenvolvimento, o Papa levou uma palavra de fé e de esperança, enaltecendo a riqueza e valores dos povos indígenas, que muito têm a nos ensinar diante da ganância do lucro e do domínio despótico do homem sobre os bens da criação.

“A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos”, disse o Santo Padre na sua homilia, centrada no tema do cuidado da criação.

HOMILIA DO SANTO PADRE

«Li smantal Kajvaltike toj lek – a lei do Senhor é perfeita, reconforta a alma» (Sal 19/18, 8): assim começa o salmo que escutámos. A lei do Senhor é perfeita; e o salmista encarrega-se de enumerar tudo o que esta lei gera de bom em quem a escuta e segue: reconforta a alma, torna sábios os simples, alegra o coração, é luz para iluminar o caminho.

Esta é a lei que o povo de Israel recebera das mãos de Moisés, uma lei que ajudaria o povo de Deus a viver na liberdade a que fora chamado. Lei que queria ser luz para os seus passos e acompanhar o peregrinar do seu povo; um povo que experimentara a escravidão e a tirania do Faraó, que experimentara a amargura e os maus-tratos, até que Deus disse «basta», até que Deus disse: «mais não». «Eu vi a aflição, ouvi o clamor, conheci a sua angústia» (cf. Ex 3, 9). Manifesta-se aqui o rosto do nosso Deus, o rosto do Pai que sofre com a dor, os maus-tratos, a injustiça na vida de seus filhos; e a sua Palavra, a sua lei torna-se símbolo de liberdade, símbolo de alegria, de sabedoria e de luz. Experiência, realidade que ecoa numa frase nascida da sabedoria criada nestas terras desde os tempos antigos e assim transcrita no Popol Vuh: «a aurora veio sobre todas as tribos reunidas. E logo a face da terra foi purificada pelo sol» (33). A aurora veio para os povos que sucessivamente caminharam sob as mais variadas trevas da história.

Nesta frase, há um anseio de viver em liberdade; um anseio que tem o sabor da terra prometida, onde a opressão, os maus-tratos e a degradação não sejam moeda corrente. No coração do homem e na memória de muitos dos nossos povos, está inscrito o anseio por uma terra, por um tempo em que o desprezo seja superado pela fraternidade, a injustiça seja vencida pela solidariedade e a violência seja cancelada pela paz.

O nosso Pai não só compartilha este anseio, mas Ele mesmo o suscitou e suscita dando-nos o seu Filho Jesus Cristo. N’Ele encontramos a solidariedade do Pai, que caminha ao nosso lado. N’Ele vemos como aquela lei perfeita assume uma carne, assume um rosto, assume a história, para acompanhar e sustentar o seu povo; faz-se Caminho, faz-se Verdade, faz-se Vida, para que as trevas não tenham a última palavra e a aurora não cesse de vir sobre a vida dos seus filhos.

De muitas maneiras e de muitas formas se procurou silenciar e cancelar este anseio, de muitas maneiras procuraram anestesiar-nos a alma, de muitas formas pretenderam pôr em letargo e adormecer a vida das nossas crianças e jovens com a insinuação de que nada pode mudar ou trata-se de sonhos impossíveis. Contra estas formas, a própria criação sabe levantar a sua voz: «Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que “geme e sofre as dores do parto” (Rm 8, 22)» (Enc. Laudato si’, 2).

O desafio ambiental que vivemos e as suas raízes humanas têm a ver com todos nós (cf. ibid., 14) e interpelam-nos. Não podemos permanecer indiferentes perante uma das maiores crises ambientais da história. Nisto, vós tendes muito a ensinar-nos, a ensinar à humanidade. Os vossos povos, como reconheceram os bispos da América Latina, sabem relacionar-se harmoniosamente com a natureza, que respeitam como «fonte de alimento, casa comum e altar do compartilhar humano» (Documento de Aparecida, 472).

No entanto, muitas vezes, de forma sistemática e estrutural, os vossos povos acabaram incompreendidos e excluídos da sociedade. Alguns consideram inferiores os vossos valores, a vossa cultura e as vossas tradições. Outros, fascinados pelo poder, o dinheiro e as leis do mercado, espoliaram-vos das vossas terras ou realizaram empreendimentos que as contaminaram. Que tristeza! Como nos seria útil a todos fazer um exame de consciência e aprender a pedir perdão! Perdão, irmãos!

O mundo de hoje, espoliado pela cultura do descarte, necessita de vós. Os jovens de hoje, expostos a uma cultura que tenta suprimir todas as riquezas e características culturais tendo em vista um mundo homogéneo, estes jovens precisam que não se perca a sabedoria dos vossos anciãos. O mundo de hoje, prisioneiro do pragmatismo, tem necessidade de voltar a aprender o valor da gratuidade.

Estamos a celebrar a certeza de que «o Criador não nos abandona, nunca recua no seu projecto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado» (Enc. Laudato si’, 13). Celebramos que Jesus Cristo continua a morrer e ressuscitar em cada gesto que temos para com o menor de nossos irmãos. Animemo-nos a continuar a ser testemunhas da sua Paixão, da sua Ressurreição, encarnando «li smantal Kajvaltike toj lek – a lei do Senhor é perfeita, reconforta a alma».


Papa indica “carinhoterapia” em visita a hospital pediátrico no México

O último compromisso do Papa Francisco neste domingo, 14, terceiro dia em terras mexicanas, foi a visita ao hospital pediátrico Federico Gómez, um centro de excelência na Cidade do México, voltado ao atendimento das crianças mais pobres do país. Anualmente, são 255 mil as crianças atendidas e seis mil as internações.

Acompanhado pela primeira-dama, Angelica Rivera, e pelo Diretor do Hospital, Dr. José Alberto Garcia Aranda, Francisco percorreu diversas alas do Hospital. Saudou 36 crianças que estavam acompanhadas de familiares, no primeiro andar do hospital, onde pronunciou seu discurso.

O Papa saudou uma a uma as crianças, dando a elas de presente um terço. Em um dos pequenos pacientes, com um pequeno conta-gotas, pingou uma medicação em sua boca. Emoção, gestos de carinho e atenção especial a cada um dos pequenos marcou o encontro.

Para o encontro foram preparadas catequeses, tanto para as crianças como para alguns funcionários e médicos do hospital. O recurso do teatro, com uma história que falava sobre o Papa Francisco, foi usada para preparar as crianças.

Após as breves palavras de acolhida da primeira-dama, o Papa dirigiu algumas palavras às crianças e aos funcionários, onde destacou a importância da “carinhoterapia” e das palavras “bendizer e agradecer”.

Francisco depositou flores aos pés de uma imagem de São Francisco, no pátio do hospital, dirigindo-se então ao Setor de Oncologia, onde encontrou crianças que fazem quimioterapia. Uma delas cantou Ave Maria em latim para o Papa, num dos momentos comoventes do encontro.

A entrada de Francisco na Sala do Sino foi outro momento forte. O badalar indica a cura de uma criança. Na verdade, foram duas badaladas já que, recentemente, duas crianças ficaram curadas. Uma delas é a pequena Helena Luz, que no sábado, 13, completou 7 anos. O som produzido pelo sino é como que uma advertência ao céu, um agradecimento, de que uma criança foi curada. O gesto é realizado na presença de crianças em tratamento para servir de encorajamento e esperança.

Antes de concluir a visita, o Papa encontrou de forma privada alguns pacientes em tratamento. As imagens, por desejo do Pontífice, não foram transmitidas. Por fim, o Papa deixou o Hospital rumo à Nunciatura, onde passou a noite.

SAUDAÇÃO DO SANTO PADRE

Cidade do México
Domingo, 14 de Fevereiro de 2016

Senhora Primeira Dama,
Senhora Secretária da Saúde,
Senhor Director,
Membros do Patronato,
Famílias aqui presentes,
Amigas e amigos, queridas crianças,
boa tarde!

Agradeço a Deus que me dá a oportunidade de vir visitar-vos, de me encontrar convosco e as vossas famílias neste Hospital; de poder partilhar um pouco da vossa vida, da vida de todas as pessoas que trabalham como médicos, enfermeiros, funcionários e voluntários que vos atendem, tanta gente que está a trabalhar para vós.

Há uma passagem no Evangelho que nos narra a vida de Jesus quando era criança. Era ainda muito pequeno, como alguns de vós. Um dia os seus pais, José e Maria, levaram-No ao Templo para O apresentarem a Deus. E lá encontram um ancião que se chamava Simeão; o velhito, ao ver o Menino, com muita determinação, grande alegria e gratidão, toma-O nos braços e começa a bendizer a Deus. Ao ver o menino Jesus, duas coisas nasceram nele: um sentimento de gratidão e o desejo de bendizer. Ou seja, ao velhito veio vontade de dar graças a Deus e bendizê-Lo.

Simeão é o «avô» que nos ensina estas duas atitudes fundamentais da vida: agradecer e bendizer.

Aqui eu abençoo-vos a vós, os médicos abençoam-vos a vós, sempre que as enfermeiras vos fazem os tratamentos e todo o pessoal, todos os que trabalham aqui abençoam-vos a vós, as crianças, mas vós tendes também que aprender a abençoá-los a eles e a pedir a Jesus que cuide deles, porque eles cuidam de vós. Aqui eu sinto-me (e não só pela idade) muito identificado com estes dois ensinamentos de Simeão. Por um lado, ao atravessar aquela porta e ver os vossos olhos, os vossos sorrisos – alguns, traquinas –, os vossos rostos, veio-me o desejo de dar graças. Obrigado pelo carinho com que me recebeis; obrigado pelo afecto com que sois cuidados aqui, pelo afecto com que vos acompanham. Obrigado pelo esforço de muitos que estão a dar o seu melhor para poderdes recuperar rapidamente. É muito importante sentir-se cuidados e acompanhados, sentir-se amados e saber que estão procurando a melhor maneira de cuidar de nós. Por todas estas pessoas, digo obrigado, obrigado!

E, ao mesmo tempo, quero abençoar-vos. Quero pedir a Deus que vos abençoe, que acompanhe a vós e aos vossos familiares, a todas as pessoas que trabalham nesta casa e procuram que estes sorrisos continuem a crescer cada dia; a todas as pessoas que, não só com medicamentos mas com a «carinhoterapia», ajudam para que este tempo seja vivido com maior alegria. Muito importante a «carinhoterapia»! Muito importante! Às vezes uma carícia ajuda muito a restabelecer-se.

Conheceis o índio Juan Diego, ou não? [respondem: Sim!] Vejamos! Levante o braço quem o conhece… Quando o tio de Juanito caiu doente, este ficou muito preocupado e angustiado. Naquele momento, aparece a Virgem de Guadalupe e diz-lhe: «Não se perturbe o teu coração, nem te inquiete coisa alguma. Não estou aqui Eu, que sou tua Mãe?»

Temos a nossa Mãe. Peçamos-Lhe que nos ofereça ao seu Filho Jesus. E agora a vós, crianças, vou pedir-vos uma coisa: fechemos os olhos, fechemos os olhos e peçamos-Lhe aquilo que deseja o nosso coração hoje. Um breve momento de silêncio com os olhos fechados e, dentro de nós, peçamos-Lhe o que desejamos. E agora digamos juntos à nossa Mãe: Ave Maria…

Que o Senhor e a Virgem de Guadalupe sempre vos acompanhem. Muito obrigado! E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Não vos esqueçais... Que Deus vos abençoe!
Canção Nova/L'Osservatore Romano/Boletim Santa Sé


Visitar os doentes

             
Visitar os enfermos é uma das obras de misericórdia corporal, assim como consolar os aflitos é umas das obras de misericórdia espiritual. Ambas são inseparáveis.
           
Nesse mês, exatamente no dia 11, ocorreu a XXIV Jornada Mundial do Doente, que coincidiu com a festa de Nossa Senhora de Lourdes, porque ali afluem milhares de enfermos de todos os países e continentes para pedir a cura e a consolação, pela intercessão de Nossa Senhora, que a muitos tem curado e a todos consolado. Além dos milagres de cura corporal, ali acontecem conversões de milhares de pecadores, a cura da alma e o consolo das aflições.
           
Em sua mensagem para essa jornada, o Papa Francisco nos convida a meditar “a narração evangélica das bodas de Caná (Jo 2, 1-11), onde Jesus realizou o primeiro milagre a pedido de sua Mãe. O tema escolhido –Confiar em Jesus misericordioso, como Maria: ‘Fazei o que Ele vos disser’ – insere-se muito bem no âmbito do Jubileu Extraordinário da Misericórdia”

“A doença, sobretudo se grave, põe sempre em crise a existência humana e suscita interrogativos que nos atingem em profundidade. Por vezes, o primeiro momento pode ser de rebelião: por que havia de acontecer precisamente a mim? Podemos sentir-nos desesperados, pensar que tudo está perdido, que já nada tem sentido... Nestas situações, a fé em Deus se, por um lado, é posta à prova, por outro, revela toda a sua força positiva; e não porque faça desaparecer a doença, a tribulação ou os interrogativos que daí derivam, mas porque nos dá uma chave para podermos descobrir o sentido mais profundo daquilo que estamos vivendo; uma chave que nos ajuda a ver como a doença pode ser o caminho para chegar a uma proximidade mais estreita com Jesus, que caminha ao nosso lado, carregando a Cruz. E esta chave é-nos entregue pela Mãe, Maria, perita deste caminho”.

“O banquete das bodas de Caná é um ícone da Igreja: no centro, está Jesus misericordioso que realiza o sinal; em redor d’Ele, os discípulos, as primícias da nova comunidade; e, perto de Jesus e dos seus discípulos, está Maria, Mãe providente e orante. Maria participa na alegria do povo comum, e contribui para aumenta-la; intercede junto de seu Filho a bem dos esposos e de todos os convidados. E Jesus não rejeitou o pedido de sua Mãe. Quanta esperança há neste acontecimento para todos nós! Temos uma Mãe de olhar vigilante e bom, como seu Filho; o coração materno e repleto de misericórdia, como Ele; as mãos que desejam ajudar, como as mãos de Jesus que dividiam o pão para quem tinha fome, que tocavam os doentes e os curavam. Isto enche-nos de confiança, fazendo-nos abrir à graça e à misericórdia de Cristo. A intercessão de Maria faz-nos experimentar a consolação, pela qual o apóstolo Paulo bendiz a Deus ‘o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação! Ele nos consola em toda a nossa tribulação, para que também nós possamos consolar aqueles que estão em qualquer tribulação, mediante a consolação que nós mesmos recebemos de Deus’ (2 Cor  1, 3-5). Maria é a Mãe ‘consolada’, que consola os seus filhos”.
Dom Fernando Arêas Rifan, bispo administrador apostólico da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney.


Papa Francisco continua a twittar no Mexico
:

14/02/2016
Jesus está à nossa espera e quer curar o nosso coração de tudo aquilo que o degrada. É o Deus que tem um nome: Misericórdia.
14/02/2016
Jesus nos ajuda sempre a superar as tentações da riqueza, da vaidade e do orgulho que procuram arruinar a verdade.
14/02/2016
A Quaresma é tempo para regular os sentidos, abrir os olhos para tantas injustiças, abrir o coração para o irmão que sofre.
14/02/2016
Olhar-Te simplesmente - Mãe -, deixando aberto só o olhar; Olhar-Te de cima a baixo, sem Te dizer nada... https://t.co/QhUURoOFzG
14/02/2016
Maria é a mulher do sim, um sim de entrega a Deus, um sim de entrega aos seus irmãos. Sigamo-la na sua entrega.



A clara mensagem do Papa Francisco aos seminaristas mexicanos

Cidade do México, 14.Fev.2016 (ACI).- O Papa Francisco deixou uma mensagem aos seminaristas mexicanos no livro de honra do Seminário Diocesano de Ecatepec, onde almoçou depois de celebrar a Missa no Centro de Estudos Superiores desse município.

“Que todos aqueles que se preparam para o presbiterado nesta casa tenham sempre presente Jesus Cristo, o Senhor, e a sua Mãe Santíssima. Que eles os preparem para ser pastores do povo fiel a Deus e não ‘clérigos de Estado’. Francisco”, escreveu o Pontífice no domingo, 14 de fevereiro.






Angelus em Ecatepec: criar oportunidades para um México de vanguarda


Ecatepec (RV) – Ao final da Missa em Ecatepec, a segunda celebrada pelo Papa no México, neste domingo (14/02/2016), Francisco exortou os mexicanos a recordarem dos sofrimentos do passado para construírem oportunidades para um país melhor, de vanguarda.

Citando Paulo VI, Francisco defendeu um México capaz de dar emprego e cultura ao seu próprio povo, para que seja uma nação “que não tenha de chorar homens e mulheres, jovens e crianças que acabam destruídos nas mãos dos traficantes da morte”.

Abaixo, a íntegra da alocução de Francisco.

***

Queridos irmãos!

Na primeira leitura deste domingo, Moisés recomenda ao povo: no momento da colheita, no momento da abundância, no momento das primícias, não te esqueças das tuas origens.

A ação de graças nasce e cresce em uma pessoa e em um povo que seja capaz de recordar: tem as suas raízes no passado que, entre luzes e sombras, gerou o presente.

No momento em que podemos dar graças a Deus porque a terra deu o seu fruto e assim é possível fazer o pão, Moisés convida o seu povo a fazer memória enumerando as situações difíceis pelas quais teve de passar (cf. Dt 26, 5-11).

Neste dia, neste dia de festa, podemos celebrar o Senhor que foi tão bom para conosco. Damos graças pela oportunidade de estarmos reunidos para apresentar ao Pai Bom as primícias dos nossos filhos e netos, dos nossos sonhos e projetos; as primícias das nossas culturas, das nossas línguas e tradições; as primícias do nosso compromisso...

Quanto tiveram de enfrentar, cada um de vocês, para chegar aqui! Quanto tiveram de “caminhar” para fazer deste dia uma festa, uma ação de graças! E quanto caminharam outros que não puderam chegar, mas, graças a eles, pudemos continuar em frente.

Hoje, seguindo o convite de Moisés, queremos como povo fazer memória, queremos ser povo com a memória viva da passagem de Deus por meio do seu povo, no seu povo. Queremos olhar os nossos filhos, sabendo que herdarão não só uma terra, uma língua, uma cultura e uma tradição, mas sobretudo herdarão o fruto vivo da fé que recorda a passagem certa de Deus por esta terra; a certeza da sua proximidade e solidariedade. Uma certeza que nos ajuda a levantar a cabeça e, com vivo desejo, esperar a aurora.

Também eu me uno com vocês à esta memória agradecida, a esta recordação viva da passagem de Deus em nossas vidas.

Olhando os seus filhos, tenho vontade de repetir as palavras que um dia o Beato Paulo VI dirigiu ao povo mexicano:

“Um cristão não pode deixar de manifestar a sua solidariedade e de dar o melhor de si mesmo, para resolver a situação daqueles a quem ainda não chegou o pão da cultura ou a oportunidade de encontrar um trabalho honrado (...), não pode ficar insensível enquanto as novas gerações não encontrarem o caminho para realizar as suas legítimas aspirações”.

E continua com um convite a estar “sempre na vanguarda em todos os esforços (…) para melhorar a situação daqueles que padecem necessidade”, a ver “em cada homem um irmão e, em cada irmão, a Cristo” (Rádio mensagem no 75º aniversário da coroação de N.S. de Guadalupe, 12 de Outubro de 1970).

Desejo convidar-nos novamente hoje a estar na vanguarda, a “primeirear” em todas as iniciativas que possam ajudar a fazer desta abençoada terra mexicana uma terra de oportunidades; onde não haja necessidade de emigrar para sonhar; onde não haja necessidade de se deixar explorar para ter emprego; onde não haja necessidade de fazer do desespero e da pobreza de muitos ocasião para o oportunismo de poucos.

Uma terra que não tenha de chorar homens e mulheres, jovens e crianças que acabam destruídos nas mãos dos traficantes da morte.

Esta terra tem o sabor da «Guadalupana», Aquela que sempre nos precedeu no amor; digamos-Lhe: Virgem Santa, “ajudai-nos a brilhar com o testemunho da comunhão, do serviço, da fé ardente e generosa, da justiça e do amor aos pobres, para que a alegria do Evangelho chegue até aos confins da terra e nenhuma periferia fique privada da sua luz” (Exort. ap. Evangelii gaudium, 288).



'Riqueza, vaidade e orgulho, nos afasta do plano de Deus'

O Papa Francisco chegou no domingo, 14.fevereiro.2016, às 11h, hora local de helicóptero no aeroporto do município de Ecatepec, de onde deslocou-se de papamóvel para o Centro de Estudos de Área, onde ao longo do caminho viu-se o radiante entusiasmo das pessoas que saudaram a sua passagem, no segundo dia de sua viagem apostólica.

Uma vez no local da Santa Missa, o bispo da diocese, Dom Oscar Roberto Dominguez Couttolenc, e algumas autoridades locais, entre os quais o prefeito que lhe deu as chaves da cidade.

O Papa presidiu a Eucaristia no primeiro domingo da Quaresma, diante de 300 mil pessoas, vestindo casula roxa, própria deste tempo litúrgico.

Na íntegra, a homilia do Papa Francisco:

Quarta-feira passada começamos o tempo litúrgico da Quaresma, em que a Igreja nos convida a preparar-nos para celebrar a grande festa da Páscoa. Momento especial para lembrar o dom de nosso batismo, quando fomos feitos filhos de Deus. A Igreja nos convida a reavivar o dom que nos foi dado para não deixar adormecer como algo do passado ou em uma "caixa de lembranças". Esta Quaresma é um bom tempo para recuperar a alegria e a esperança que nos faz sentir filhos amados do Pai. Este Pai que nos espera para tirar-nos as roupas do cansaço, da apatia, da desconfiança e nos vestir com a dignidade que só um verdadeiro pai ou mãe sabe como dar a seus filhos, vestimentas nascidas da ternura e do amor.

Nosso Pai é o Pai de uma grande família, é o nosso Pai. Sabe ter um amor único, mas não sabe gerar e criar "filhos únicos." Ele é um Deus que sabe sobre o lar, a fraternidade, o pão partido e partilhado. Deus é nosso Pai não "Meu Pai" e "seu padrasto."

Em cada um de nós habita, vive este sonho de Deus, que em cada Páscoa, cada Eucaristia nós voltamos a celebrar, somos filhos de Deus. Sonho com que viveram muitos de nossos irmãos ao longo da história. Sonho testemunhado pelo sangue de tantos mártires de ontem e de hoje.

Quaresma, tempo de conversão, porque diariamente experimentamos em nossas vidas, como esse sonho é continuamente ameaçado pelo pai da mentira - no Evangelho ouvimos o que fez com Jesus - por aquele que busca separar-nos, gerando uma família dividida e em confronto. Uma sociedade dividida e em confronto. Uma sociedade de poucos e para poucos. Quantas vezes nós experimentamos em nossa própria carne, ou de nossa família, dos nossos amigos e vizinhos, a dor que vem de não sentir reconhecida essa dignidade que trazemos dentro de nós. Quantas vezes nós tivemos que lamentar e arrepender-nos por perceber que não reconhecemos esta dignidade nos outros. Quantas vezes – e com dor o digo – somos cegos e imunes ante a falta de reconhecimento da dignidade própria e alheia.

Quaresma, tempo para ajustar os sentidos, abrir os olhos para tantas injustiças que atentam diretamente contra o sonho e o projeto de Deus. Tempo para desmascarar estas três formas principais de tentações que rompem, dividem a imagem que Deus queria plasmar.

As três tentações de Cristo.

Três tentações do cristão, que tentam arruinar a verdade a que somos chamados.

Três tentações que buscam degradar e degradar-nos.

Em primeiro lugar, a riqueza, apropriando-nos de bens que foram dados para todos e utilizando-os apenas para mim ou "para os meus." É ter o "pão", baseado no suor dos outros, ou até mesmo sua própria vida. Essa riqueza é o pão com sabor de dor, amargura e sofrimento. Em uma família ou em uma sociedade corrupta, este é o pão que se dá a comer aos próprios filhos. Segunda tentação, a vaidade, essa busca de prestígio baseado na desqualificação contínua e constante dos que não pensam como você. A busca exacerbada por esses cinco minutos de fama que não perdoa a "fama" dos outros, e passa por cima dos mais fracos e abre caminho para a terceira tentação, a pior, a do orgulho, ou seja, colocar-se em um plano superior a tudo e a todos, sentindo que não compartilha da "vida comum dos mortais" e reza todos os dias: "Graças te dou Senhor, porque não me fizeste como eles."

Três tentações de Cristo.

Três tentações que os cristãos enfrentam diariamente.

Três tentações que buscam degradar, destruir e tirar a alegria e a frescura do Evangelho. Que prendem em um ciclo de destruição e de pecado.

Vale a pena que nos perguntemos:

Até que ponto estamos cientes dessas tentações em nós mesmos?

Até que ponto estamos acostumados a um estilo de vida que pensa que na riqueza, na vaidade e no orgulho está a fonte e a força da vida?

Até que ponto acreditamos que o cuidado com o outro, nossa preocupação e ocupação pelo pão, o nome e a dignidade dos demais são fontes de alegria e de esperança?

Escolhemos Jesus e não o demônio. Se lembrarmos o que ouvimos no Evangelho, Jesus não responde ao demônio com as próprias palavras, mas respondeu com as palavras de Deus, com as palavras da Escritura. Porque, irmãs e irmãos, coloquemos na cabeça, com o diabo não há diálogo, não se pode dialogar, porque ele sempre vai ganhar. Somente a força da Palavra de Deus pode derrotar. optamos por Jesus e não pelo demônio; queremos seguir seus passos, mas sabemos que não é fácil. Nós sabemos o que significa ser seduzido pelo dinheiro, a fama e o poder. Por isso, a Igreja nos dá este tempo, nos convida à conversão com uma única certeza: Ele está esperando por nós e quer curar nossos corações de tudo o que degrada, degradando-se a si mesmo ou degradando a outros. É um Deus que tem um nome: Misericórdia. Seu nome é a nossa riqueza, seu nome é a nossa fama,  seu nome é o nosso poder e em seu nome, mais uma vez digamos com o salmista: “Tu és o meu Deus e em ti confio" Animam-se a repeti-lo juntos? Três vezes; “Tu és o meu Deus e em ti confio". “Tu és o meu Deus e em ti confio". “Tu és o meu Deus e em ti confio".

Que nesta Eucaristia, o Espírito Santo renove em nós a certeza de que seu nome é Misericórdia, e nos faça experimentar a cada dia que "o Evangelho enche os corações e as vidas daqueles que se encontram com Jesus", sabendo que com Ele e nEle "sempre nasce e renasce a alegria " (Evangelii gaudium, 1).
zenit.org/Tradução "Duc in altum!"



Papa: Deus consola pais de filhos arrebatados pelo crime

Cidade do México (RV) - O santuário de Deus é a vida dos seus filhos, especialmente dos jovens sem futuro e dos idosos sem reconhecimento: disse o Papa na missa celebrada este sábado,13.fevereiro.2016 no Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, num dos eventos mais aguardados desta sua 12ª viagem apostólica internacional, qual peregrino da misericórdia e da paz em terras mexicanas.

Uma visita à casa da Mãe expressamente desejada pelo Pontífice. De fato, o motivo principal da visita de Francisco ao México: venerar o ícone de Nossa Senhora de Guadalupe, diante do qual deteve-se longamente em oração após a santa missa.

Homilia da Santa Missa:

Acabámos de escutar como Maria foi visitar a prima Isabel. Sem demora nem hesitação, apressadamente, vai fazer companhia à sua parente que estava nos últimos meses de gravidez.

O encontro com o anjo não deteve Maria, porque não Se sentiu privilegiada, nem no dever de Se afastar dos seus. Pelo contrário, reavivou e pôs em marcha uma atitude pela qual Maria é e será sempre identificada como a mulher do sim, um sim de entrega a Deus e, ao mesmo tempo, um sim de entrega aos seus irmãos. É o sim que A pôs em marcha para dar o melhor de Si mesma, caminhando ao encontro dos outros.

Escutar esta passagem do Evangelho nesta casa tem um sabor especial. Maria, a mulher do sim, também quis visitar os habitantes desta terra da América na pessoa do índio São Juan Diego. Assim como se moveu pelas estradas da Judeia e da Galileia, da mesma forma alcançou Tepeyac, com as suas roupas, usando a sua língua, para servir esta grande nação. E assim como acompanhou a gravidez de Isabel, acompanhou e acompanha a gestação desta abençoada terra mexicana. Assim como Se apresentou ao humilde Juanito, de igual modo continua a fazer-se presente junto de todos nós, especialmente daqueles que sentem, como ele, que «não valem nada» (cf. Nican Mopohua, 55). Aquela escolha particular, digamos preferencial, de Juanito não foi contra ninguém, mas a favor de todos. Juan, o índio humilde que a si mesmo se designava como «mecapal, cacaxtle, cauda, asa, necessitado ele próprio de ser conduzido» (cf. ibidem), tornou-se «o mensageiro, muito digno de confiança».

Naquela madrugada de Dezembro de 1531, tinha lugar o primeiro milagre que se tornará depois a memória viva de tudo o que guarda este Santuário. Naquele amanhecer, naquele encontro, Deus despertou a esperança de seu filho Juan, a esperança dum povo. Naquele amanhecer, Deus despertou e desperta a esperança dos mais humildes, dos atribulados, dos deslocados e marginalizados, de quantos sentem que não têm um lugar digno nestas terras. Naquele amanhecer, Deus aproximou-Se e aproxima-Se do coração atribulado mas resistente de tantas mães, pais, avós que viram os seus filhos partir, viram-nos perdidos ou mesmo arrebatados pela criminalidade.

Naquele amanhecer, Juanzito experimenta na sua vida o que é a esperança, o que é a misericórdia de Deus. É escolhido para vigiar, cuidar, proteger e incentivar a construção deste Santuário. Mais do que uma vez, disse à Virgem que ele não era a pessoa certa; antes, se Ela queria levar por diante aquela obra, deveria escolher outros, porque ele não tinha instrução, não era formado, nem pertencia ao grupo daqueles que poderiam realizá-la. Maria, decididamente – com a decisão que nasce do coração misericordioso do Pai –, não aceita: ele seria o seu mensageiro.

Deste modo consegue manifestar algo difícil de expressar, uma verdadeira e própria imagem transparente de amor e de justiça: na construção do outro santuário – o santuário da vida, o das nossas comunidades, sociedades e culturas –, ninguém pode ser deixado de fora. Todos somos necessários, sobretudo aqueles que normalmente não contam porque não estão à «altura das circunstâncias» ou porque não «contribuem com o capital necessário» para a sua construção. O santuário de Deus é a vida dos seus filhos, de todos e em todas as condições, especialmente dos jovens sem futuro, expostos a uma infinidade de situações dolorosas e arriscadas, e dos idosos sem reconhecimento, esquecidos em tantos cantos. O santuário de Deus são as nossas famílias que precisam do mínimo necessário para se poderem formar e sustentar. O santuário de Deus é o rosto de tantos que encontramos no nosso caminho...

Ao visitar este Santuário, pode-nos acontecer o mesmo que sucedeu a Juan Diego: olhar a Mãe a partir das nossas dores, medos, desesperos, tristezas, e dizer-Lhe: «Que posso dar eu, se não sou uma pessoa instruída?». Fixamos a Mãe, com olhos que dizem: «Há tantas situações que nos tiram a força, que nos fazem sentir que não há espaço para a esperança, para a mudança, para a transformação».

Por isso, creio que hoje nos fará bem um pouco de silêncio e olhá-La; olhá-La intensamente e com calma, dizendo-Lhe como aquele outro filho que A amava muito:

«Olhar-Te simplesmente - Mãe -,
deixando aberto só o olhar;
Olhar-Te de cima a baixo, sem Te dizer nada,
e dizer-Te tudo, mudo e reverente.

Não turbar o vento da tua fronte;
só abrigar a minha solidão violada
nos teus olhos de Mãe enamorada
e no teu ninho de terra transparente.

As horas precipitam; fustigados
mordem os homens insensatos a imundície
da vida e da morte, com os seus rumores.

Olhar-Te, Mãe; contemplar-Te apenas,
o coração silencioso na tua ternura,
no teu casto silêncio de açucenas» (Hino litúrgico).

E no silêncio, enquanto ficamos a contemplá-La, ouvir que nos repete mais uma vez: «Que tens, meu filho, o menor de todos? O que é que entristece o teu coração?» (cf. Nican Mopohua, 107.108) «Porventura não estou aqui Eu, Eu que tenho a honra de ser tua mãe?» (ibid., 119).

Ela diz-nos que tem a «honra» de ser nossa mãe. Isto dá-nos a certeza de que as lágrimas daqueles que sofrem, não são estéreis. São uma oração silenciosa que sobe até ao céu e que, em Maria, encontra sempre lugar sob o seu manto. N’Ela e com Ela, Deus faz-Se irmão e companheiro de estrada, carrega connosco as cruzes para não deixar as nossas dores esmagar-nos.

Porventura não sou tua mãe? Não estou Eu aqui? Não te deixes vencer pelas tuas dores, pelas tuas tristezas: diz-nos Ela. Hoje, volta a enviar-nos como a Juanito; hoje repete para nós: Sê o meu mensageiro, sê o meu enviado para construir muitos santuários novos, acompanhar tantas vidas, consolar tantas lágrimas. Basta que caminhes pelas estradas do teu bairro, da tua comunidade, da tua paróquia como meu mensageiro, minha mensageira; levanta santuários compartilhando a alegria de saber que não estamos sozinhos, que Ela está connosco. Sê o meu mensageiro – diz-nos – dando de comer aos famintos, de beber aos sedentos; oferece um lugar aos necessitados, veste os nus e visita os doentes. Socorre os prisioneiros, não os deixes sozinhos, perdoa a quem te fez mal, consola quem está triste, tem paciência com os outros e sobretudo implora e invoca o nosso Deus. E, no silêncio, diz-Lhe o que te vier ao coração.

Porventura não sou Eu a tua mãe? Porventura não estou Eu aqui? – diz-nos novamente Maria. Vai construir o meu santuário, ajuda-Me a erguer a vida dos meus filhos, que são teus irmãos.
Boletim da Santa Sé


Papa Francisco, último tweet
:

13/02/2016
O México tem um rosto jovem. Isto permite pensar e projetar um futuro, um amanhã. Isto dá esperança.

“Não tenhais medo da transparência” – Papa aos bispos mexicanos

Cidade do Vaticano (RV) - Um longo e intenso discurso marcou o encontro do Papa com os bispos mexicanos, no final da manhã deste sábado (13/02/2016), na Catedral da Cidade do México. Francisco dividiu sua reflexão em quatro pontos, sempre inspirados em Nossa Senhora de Guadalupe: Um olhar de ternura;​ Um olhar capaz de tecer; Um olhar atento e solidário; não adormecido e Um olhar de conjunto e de unidade.

Abaixo, a íntegra do discurso

***

Estou feliz por poder encontrar vocês no dia seguinte ao da minha chegada a este amado país, que também eu, seguindo os passos dos meus Predecessores, vim visitar.

Não podia deixar de vir! Poderia o Sucessor de Pedro, chamado do profundo sul latino-americano, privar-se da possibilidade de pousar o olhar na «Virgem Morenita»?

Agradeço-vos por me terdes recebido nesta Catedral – a «casita», um pouco alongada mas sempre «sagrada», que pediu a Virgem de Guadalupe – e pelas amáveis palavras de boas-vindas que me dirigistes.

Sabendo que aqui se encontra o coração secreto de cada mexicano, entro com passo delicado, como se deve entrar na casa e na alma deste povo, sentindo-me profundamente grato por me abrir a porta. Sei que, fixando os olhos da Virgem, alcanço o olhar do seu povo, que aprendeu a mostrar-se n’Ela. Sei que nenhuma outra voz pode falar tão profundamente do coração mexicano, como me pode falar a Virgem; Ela guarda os seus mais nobres desejos e as esperanças mais recônditas; recolhe as suas alegrias e lágrimas; Ela compreende os seus numerosos idiomas e responde-lhes com ternura de Mãe, porque são os seus filhos.

Estou feliz por estar convosco aqui, nas proximidades da «Colina de Tepeyac», como nos alvores da evangelização deste continente e, por favor, permiti-me que, tudo quanto vos disser, possa fazê-lo partindo da Guadalupana. Como quereria que fosse Ela mesma a levar, até às profundezas das vossas almas de pastores e – por vosso intermédio – a cada uma das vossas Igrejas particulares presentes neste vasto México, tudo o que intensamente brota do coração do Papa!

Como sucedeu com São Juan Diego e as sucessivas gerações dos filhos da Guadalupana, também o Papa, há tempos, cultivava o desejo de olhar para Ela. Mais ainda, queria eu mesmo ser envolvido pelo seu olhar materno. Refleti muito sobre o mistério deste olhar e peço-vos que acolhais tudo o que brota do meu coração de Pastor neste momento.

Um olhar de ternura

Antes de mais nada, a «Virgem Morenita» ensina-nos que a única força capaz de conquistar o coração dos homens é a ternura de Deus. Aquilo que encanta e atrai, aquilo que abranda e vence, aquilo que abre e liberta das cadeias não é a força dos meios nem a dureza da lei, mas a fragilidade omnipotente do amor divino, que é a força irresistível da sua doçura e a promessa irreversível da sua misericórdia.

Um inquieto e ilustre escritor desta terra, Octávio Paz, disse que, em Guadalupe, não se pede a abundância das colheitas nem a fertilidade da terra, mas procura-se um regaço no qual os homens, sempre órfãos e deserdados, buscam um abrigo, um lar.

Passados séculos do evento fundador deste país e da evangelização do continente, porventura se diluiu ou está esquecida a necessidade dum regaço por que anseia o coração do povo que vos está confiado?

Conheço a longa e dolorosa história que atravessastes, não sem o derramamento de muito sangue, não sem convulsões impiedosas e dilacerantes, não sem violência e incompreensões. Com razão, o meu venerado e santo Predecessor, que se sentia no México como em sua casa, quis lembrar que a vossa história «é percorrida, como rios às vezes ocultos e sempre caudalosos, por três realidades que ora se encontram, ora revelam as suas diferenças complementares, sem jamais se confundirem totalmente: a antiga e rica sensibilidade dos povos indígenas que amaram Juan de Zumárraga e Vasco de Quiroga, aos quais muitos desses povos continuam a chamar pais; o cristianismo arraigado na alma dos mexicanos; e a moderna racionalidade, de perfil europeu, que tanto quis enaltecer a independência e a liberdade» (João Paulo II, Discurso na cerimônia de chegada ao México, 22 de Janeiro de 1999).

E nesta história, nunca se mostrou infecundo o regaço materno que tem gerado continuamente o México, embora às vezes se parecesse com aquela rede quase a romper-se que continha cento e cinquenta e três peixes (Jo 21, 11), mas as fracturas ameaçadoras sempre se recompuseram.

Por isso, convido-vos a começar de novo desta necessidade de um regaço que emana da alma do vosso povo. O regaço da fé cristã é capaz de reconciliar o passado marcado muitas vezes por solidão, isolamento e marginalização, com o futuro continuamente relegado para um amanhã que escapa. Apenas naquele regaço é possível, sem renunciar à própria identidade, «descobrir a verdade profunda da nova humanidade, em que todos são chamados a ser filhos de Deus» (João Paulo II, Homilia na canonização de São Juan Diego, 31 de Julho de 2002).

Inclinai-vos, com delicadeza e respeito, sobre a alma profunda do vosso povo, debruçai-vos com atenção e decifrai o seu rosto misterioso. Porventura o presente, muitas vezes dissolvido em dispersões e festas, não é prenúncio de Deus que é o único e pleno presente? Porventura a familiaridade com a dor e a morte não são formas de coragem e caminhos rumo à esperança? Porventura a percepção de que o mundo esteja necessitado sempre e somente de redenção não será um antídoto à auto-suficiência arrogante de quantos julgam possível poder prescindir de Deus?

Naturalmente, para tudo isto é necessário um olhar capaz de refletir a ternura de Deus. Por isso, sede bispos de olhar límpido, alma transparente, rosto luminoso; não tenhais medo da transparência; a Igreja não precisa da obscuridade para trabalhar. Vigiai para que os vossos olhares não se cubram com as penumbras da névoa do mundanismo; não vos deixeis corromper pelo vulgar materialismo nem pelas ilusões sedutoras dos acordos feitos por baixo da mesa; não ponhais a vossa confiança nos «carros e cavalos» dos faraós de hoje, porque a nossa força é a «coluna de fogo» que irrompe separando em duas as águas do mar, sem fazer grande rumor (Ex 14, 24-25).

O mundo, onde o Senhor nos chama a exercer a nossa missão, tornou-se muito complexo. À prepotente ideia do «cogito», que pelo menos não negava que houvesse uma rocha acima da areia do ser, sobrepôs-se hoje uma concepção da vida – no dizer de muitos – mais vacilante, vaga e caótica do que nunca, porque carece de um substrato sólido. As fronteiras, tão intensamente exigidas e sustentadas, tornaram-se permeáveis à novidade dum mundo em que a força de alguns já não pode sobreviver sem a vulnerabilidade dos outros. A hibridação irreversível da tecnologia aproxima o que está afastado, mas, infelizmente, torna distante o que deveria estar perto.

E, precisamente neste mundo, Deus pede-vos para ter um olhar capaz de interceptar a pergunta que grita no coração do vosso povo, o único que, no próprio calendário, possui uma «festa do grito». Àquele grito, é preciso responder que Deus existe e, graças a Jesus, está perto; responder que só Deus é a realidade sobre a qual se pode construir, porque «Deus é a realidade fundante, não um Deus apenas pensado ou hipotético, mas o Deus com um rosto humano» (Bento XVI, Discurso inaugural da V Conferência Geral do CELAM, 13 de Maio de 2007).

Nos vossos olhares, o povo mexicano tem o direito de encontrar os indícios de quem «viu o Senhor» (cf. Jo 20, 25), de quem esteve com Deus. Isto é o essencial. Assim, não percais tempo e energias nas coisas secundárias, nas críticas e intrigas, em projetos vãos de carreira, em planos vazios de hegemonia, nos clubes estéreis de interesses ou compadrios. Não vos deixeis paralisar pelas murmurações e maledicências. Introduzi os vossos sacerdotes nesta compreensão do ministério sagrado. A nós, ministros de Deus, basta a graça de «beber o cálice do Senhor», o dom de guardar a parte da sua herança que nos foi confiada, apesar de sermos administradores inexperientes. Deixemos o Pai atribuir-nos o lugar que preparou para nós (Mt 20, 20-28). Poderemos nós ocupar-nos verdadeiramente doutras coisas que não sejam as do Pai? Fora das «coisas do Pai» (Lc 2, 48-49), perdemos a nossa identidade e, culpavelmente, tornamos vã a sua graça.

Se o nosso olhar não dá testemunho de ter visto Jesus, então as palavras que recordamos d’Ele não passam de figuras retóricas vazias. Talvez expressem a nostalgia daqueles que não podem esquecer o Senhor, mas, em todo o caso, são apenas o balbuciar de órfãos junto do sepulcro. No fim de contas, são palavras incapazes de impedir que o mundo fique abandonado e reduzido ao próprio poder desesperado.

Penso na necessidade de oferecer um regaço materno aos jovens. Que os vossos olhares sejam capazes de se cruzar com o deles, de os amar e individuar o que eles buscam com aquela força com que muitos como eles deixaram barcos e redes na praia do mar (Mc 1, 17-18), abandonaram bancas de extorsão para seguir o Senhor da verdadeira riqueza (Mt 9, 9).

Em particular preocupam-me tantos jovens que, seduzidos pelo poder vazio do mundo, exaltam as quimeras e revestem-se dos seus símbolos macabros para comercializar a morte em troca de moedas que, no fim, a ferrugem corrói e os ladrões arrombam os muros para as roubar (Mt 6, 19). Peço-vos que não subestimeis o desafio ético e anticívico que o narcotráfico representa para a sociedade mexicana inteira, incluindo a Igreja.

A amplitude do fenômeno, a complexidade das suas causas, a imensidade da sua extensão como metástase devoradora, a gravidade da violência que desagrega e suas conexões transtornadas não consentem que nós, pastores da Igreja, nos refugiemos em condenações genéricas, mas exigem uma coragem profética e um projeto pastoral sério e qualificado para contribuir, gradualmente, a tecer aquela delicada rede humana, sem a qual todos estaríamos, desde o início, derrotados por tal ameaça insidiosa. Só começando das famílias; aproximando-nos e abraçando a periferia humana e existencial das áreas desoladas das nossas cidades; envolvendo as comunidades paroquiais, as escolas, as instituições comunitárias, a comunidade política, as estruturas de segurança; só assim será possível libertar-se totalmente das águas onde, infelizmente, se afogam tantas vidas, seja a de quem morre como vítima, seja a de quem diante de Deus terá as mãos sempre manchadas de sangue, mesmo que tenha os bolsos cheios de dinheiro sórdido e a consciência anestesiada.

Um olhar capaz de tecer

No manto da alma mexicana, Deus teceu, com o fio dos traços mestiços do seu povo, o rosto da sua manifestação na «Morenita». Deus não precisa de cores perecíveis para desenhar o seu rosto. Os desenhos de Deus não são condicionados pelas cores e os fios, mas determinados pela irreversibilidade do seu amor que quer tenazmente imprimir-se em nós.

Por isso, sede bispos capazes de imitar esta liberdade de Deus, escolhendo o que é humilde para manifestar a majestade do seu rosto e copiar esta paciência divina ao tecer, com o fio subtil da humanidade que encontrais, aquele homem novo que o vosso país espera. Não vos deixeis levar pela vã pretensão de mudar o povo, como se o amor de Deus não tivesse força suficiente para o mudar.

Redescobri, depois, a constância sábia e humilde com que os Pais da fé desta Pátria souberam introduzir as gerações sucessivas na semântica do mistério divino. Primeiro aprendendo e, em seguida, ensinando a gramática necessária para dialogar com Deus, escondido nos séculos da sua busca e tornado próximo na pessoa do seu Filho Jesus, que hoje muitos reconhecem, na sua imagem ensanguentada e humilhada, como figura do próprio destino. Imitai a sua condescendência e capacidade de abaixar-Se; nunca compreenderemos suficientemente o facto de Deus ter tecido, com os fios mestiços do nosso povo, o rosto com que Se deu a conhecer! Nunca Lhe agradeceremos bastante...

Peço-vos um olhar de singular delicadeza para os povos indígenas e as suas fascinantes e não raro massacradas culturas. O México tem necessidade das suas raízes ameríndias, para não ficar um enigma sem solução. Os indígenas do México esperam ainda que se lhes reconheça, efectivamente, a riqueza da sua contribuição e a fecundidade da sua presença para herdar aquela identidade que vos torna uma nação única, e não apenas uma entre outras.

Muitas vezes se falou do presunto destino por cumprir desta nação, do «labirinto da solidão» em que estaria prisioneira, da geografia como destino que a enreda. Segundo alguns, tudo isto seria obstáculo para o desenho dum rosto unitário, duma identidade adulta, duma posição singular no concerto das nações e duma missão compartilhada.

Segundo outros, a própria Igreja no México estaria condenada a escolher entre sofrer a inferioridade para onde foi relegada nalguns períodos da sua história, como quando a sua voz foi silenciada e procurou-se suprimir a sua presença, ou aventurar-se nos fundamentalismos para recuperar certezas provisórias, esquecendo-se que tem inscrita no coração a sede do Absoluto e está chamada, em Cristo, a congregar todos e não apenas uma parte (cf. Lumen gentium 1, 1).

Em vez disso, não vos canseis de lembrar ao vosso povo como são fortes as raízes antigas que permitiram a viva síntese cristã de comunhão humana, cultural e espiritual que aqui se forjou. Recordai que as asas do vosso povo já planaram várias vezes por cima de não poucas vicissitudes. Guardai a memória do longo caminho percorrido até agora e sabei suscitar a esperança de novas metas, porque o amanhã será uma terra «rica de frutos» embora nos coloque desafios não indiferentes (Nm 13, 27-28).

Que os vossos olhares, fixos sempre e apenas em Cristo, sejam capazes de contribuir para a unidade do vosso povo; favorecer a reconciliação das suas diferenças e a integração das suas diversidades; promover a solução dos seus problemas endógenos; lembrar a medida alta que o México pode alcançar, se aprender a pertencer-se a si mesmo antes que aos outros; ajudar a encontrar soluções compartilhadas e sustentáveis para as suas misérias; motivar a nação inteira para não se contentar com menos de quanto se espera do modo mexicano de habitar o mundo.

Um olhar atento e solidário, não adormecido

Peço-vos para não cairdes na estagnação de dar velhas respostas às novas questões. O vosso passado é um poço de riquezas por escavar, que pode inspirar o presente e iluminar o futuro. Ai de vós se vos deixais adormentar sobre os louros! É preciso não desperdiçar a herança recebida, guardando-a com um trabalho constante. Estais sentados aos ombros de gigantes: bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos fiéis «até ao fim», que deram a vida para a Igreja poder cumprir a sua missão. Do alto de tal pódio, sois chamados a alongar o olhar sobre o campo do Senhor para programar a sementeira e esperar a colheita.

Convido-vos a trabalhar sem medo na tarefa de evangelizar e aprofundar a fé, por meio duma catequese mistagógica que saiba valorizar a religiosidade popular da vossa gente. O nosso tempo exige atenção pastoral às pessoas e grupos que esperam poder encontrar-se com Cristo vivo. Só uma corajosa conversão pastoral das nossas comunidades pode procurar, gerar e nutrir os atuais discípulos de Jesus (cf. Documento de Aparecida, 226; 368; 370).

Por isso nós, pastores, precisamos de vencer a tentação da distância e do clericalismo, da frieza e da indiferença, do triunfalismo e da auto-referencialidade. Guadalupe ensina-nos que Deus é familiar no seu rosto, que a proximidade e a condescendência podem fazer mais do que a força.

Como ensina a bela tradição guadalupana, a «Morenita» guarda os olhares daqueles que A contemplam, reflete o rosto daqueles que A encontram. É necessário aprender que há algo de irrepetível em cada pessoa que olha para nós à procura de Deus. Compete-nos a nós tornar-nos permeáveis a tais olhares: guardar em nós cada um deles, conservá-los no coração, protegê-los.

Só uma Igreja que saiba proteger o rosto dos homens que vêm bater à sua porta, será capaz de lhes falar de Deus. Se não decifrarmos os seus sofrimentos, se não nos dermos conta das suas necessidades, nada poderemos oferecer. A riqueza de que dispomos flui somente quando encontramos a pequenez daqueles que mendigam, encontro esse que se realiza, precisamente, no nosso coração de pastores.

Peço-vos que o primeiro rosto a guardar no vosso coração seja o dos vossos sacerdotes. Não os deixeis expostos à solidão e ao abandono, como presa do mundanismo que devora o coração. Estai atentos e aprendei a ler os seus olhares, para vos alegrardes com eles quando se sentem felizes contando tudo o que «fizeram e ensinaram» (Mc 6, 30), e para não os abandonardes quando se sentem um pouco desanimados, só conseguindo chorar porque «negaram o Senhor» (Lc 22, 61-62), e também para os apoiardes, em comunhão com Cristo, quando algum, abatido, sair com Judas «na noite» (Jo 13, 30). Nestas situações, nunca falte a vossa paternidade de bispos para com os vossos sacerdotes. Encorajai a comunhão entre eles; fazei com que possam aperfeiçoar os seus dons; inseri-os nas grandes causas, porque o coração do apóstolo não foi feito para coisas pequenas.

A necessidade de familiaridade habita no coração de Deus. Assim Nossa Senhora de Guadalupe pede apenas uma «casita sagrada». Os nossos povos latino-americanos apreciam os diminutivos na linguagem e usam-nos de bom grado. Talvez necessitem de diminutivos porque, doutra forma, sentir-se-iam perdidos. Adaptaram-se a sentir-se pequeninos e acostumaram-se a viver na modéstia.

A Igreja, mesmo quando se reúne numa majestosa catedral, não poderá deixar de considerar-se como uma «casita» onde os seus filhos se sintam à vontade. Diante de Deus, pode-se permanecer apenas se se é pequeno, se se é órfão, se se é mendicante.

«Casita» familiar e, ao mesmo tempo, «sagrada», porque a proximidade se enche da grandeza omnipotente. Somos guardiões deste mistério. Às vezes perdemos este sentido da medida divina humilde e cansamo-nos de oferecer ao nosso povo a «casita», onde possa sentir-se em intimidade com Deus. Pode acontecer também que, tendo descuidado um pouco o sentido da sua grandeza, se perdeu em parte o temor reverencial para com tal amor. Onde habita Deus, o homem não pode aceder sem ter sido admitido e sem antes «tirar as sandálias dos pés» (Ex 3, 5) confessando assim a própria insuficiência.

O facto de nos termos esquecido de «tirar as sandálias» para entrar não estará porventura na raiz da perda do sentido da sacralidade da vida humana, da pessoa, dos valores essenciais, da sabedoria acumulada ao longo dos séculos, do respeito pela natureza? Sem recuperar, na consciência dos homens e da sociedade, estas raízes profundas, incluindo o generoso empenho em prol dos legítimos direitos humanos, faltará a seiva vital que só pode vir dum manancial que a humanidade não poderá jamais dar-se por si mesma.

Um olhar de conjunto e de unidade

Só olhando a «Morenita» é que o México tem uma visão completa de si mesmo. Por isso convido-vos a compreender que a missão que a Igreja vos confia exige este olhar que abrace a totalidade. E isto não se pode realizar isoladamente, mas só em comunhão.

A cintura da Guadalupana anuncia a sua fecundidade. É a Virgem que traz, no ventre, o Filho esperado pelos homens. É a Mãe que já tem em gestação a humanidade do novo mundo que nasce. É a Esposa que prefigura a maternidade fecunda da Igreja de Cristo. Vós tendes a missão de cingir a nação mexicana inteira com a fecundidade de Deus. Nenhum pedaço desta cintura pode ser desprezado.

O episcopado mexicano realizou passos notáveis nestes anos conciliares; aumentaram os seus membros; promoveu-se uma contínua e qualificada formação permanente; não faltou o ambiente fraterno; cresceu o espírito de colegialidade; as intervenções pastorais influíram sobre as vossas Igrejas e sobre a consciência nacional; as actividades pastorais compartilhadas revelaram-se frutuosas em áreas essenciais da missão eclesial como a família, as vocações, a presença social.

Ao mesmo tempo que nos alegramos com o caminho destes anos, peço-vos que não vos deixeis desanimar com as dificuldades nem poupeis qualquer esforço possível para promover, entre vós e nas vossas dioceses, o zelo missionário, especialmente a favor das partes mais necessitadas do único corpo da Igreja mexicana. Redescobrir que a Igreja é missão constitui um elemento fundamental para o seu futuro, porque só o entusiasmo, a admiração convicta dos evangelizadores tem a força de arrastar. Por isso, peço-vos que cuideis de maneira especial da formação e preparação dos leigos, superando toda a forma de clericalismo e envolvendo-os activamente na missão da Igreja, principalmente tornando presente, com o testemunho da própria vida, o Evangelho de Cristo no mundo.

Muito ajudaria a este povo mexicano um testemunho unificante da síntese cristã e uma visão compartilhada da identidade e destino dele. Neste sentido, será muito importante que a Pontifícia Universidade do México esteja cada vez mais presente no coração dos esforços eclesiais para garantir aquele olhar de universalidade sem o qual a razão, resignada com modelos parciais, renuncia à sua mais alta aspiração de buscar a verdade.

A missão é vasta, e levá-la por diante requer uma multiplicidade de caminhos. Exorto-vos, com a mais viva insistência, a conservar a comunhão e a unidade entre vós. A comunhão é a forma vital da Igreja, e a unidade dos seus pastores dá prova da sua veracidade. O México e a sua vasta e multiforme Igreja têm necessidade de bispos servidores e guardiães da unidade construída sobre a Palavra do Senhor, alimentada com o seu Corpo e guiada pelo seu Espírito que é o alento vital da Igreja.

Não há necessidade de «príncipes», mas duma comunidade de testemunhas do Senhor. Cristo é a sua única luz; é a fonte da água viva; da sua respiração, sai o Espírito que estende as velas da barca eclesial. Em Cristo glorificado, que os membros deste povo gostam de honrar como Rei, acendei juntos a luz, enchei-vos da sua presença que não Se extingue; respirai a plenos pulmões o ar bom do seu Espírito. Compete-vos semear Cristo no território, manter acesa a sua luz humilde que ilumina sem ofuscar, garantir que nas suas águas se sacie a sede do vosso povo; levantar as velas de modo que o sopro do Espírito as impulsione e não encalhe a barca da Igreja no México.

Lembrai-vos de que a Esposa sabe bem que o Pastor amado (Ct 1, 7) Se encontra apenas onde as pastagens são verdejantes e os ribeiros cristalinos. A Esposa desconfia dos companheiros do Esposo que, às vezes por descuido ou incapacidade, conduzem o rebanho para lugares áridos e cheios de pedregulhos. Ai de nós, pastores, companheiros do Supremo Pastor, se deixarmos vagar a sua Esposa, porque, na tenda por nós construída, não se encontra o Esposo.

Permiti-me uma última palavra para expressar o apreço do Papa por tudo o que tendes feito para enfrentar o desafio deste nosso tempo que são as migrações. Hoje, são milhões os filhos da Igreja que vivem na diáspora ou em trânsito peregrinando para o norte à procura de novas oportunidades. Muitos deles deixam para trás as suas raízes para se aventurar, mesmo na clandestinidade que envolve todo o tipo de riscos, em busca da «luz verde» que olham como a sua esperança. Muitas famílias se dividem; e nem sempre a integração na alegada «terra prometida» é tão fácil como se pensa.

Irmãos, que os vossos corações sejam capazes de os seguir e alcançar além das fronteiras. Reforçai a comunhão com os vossos irmãos do episcopado estadunidense, para que a presença materna da Igreja mantenha viva as raízes da sua fé, as razões da sua esperança e a força da sua caridade. Para não acontecer que, pendurando as suas cítaras, emudeçam as suas alegrias, esquecendo-se de Jerusalém e transformando-se em «exilados de si mesmos» (Salmo 136). Juntos, testemunhai que a Igreja é guardiã duma visão unitária do homem e não pode aceitar que seja reduzido a mero «recurso humano».

Não será vã a solicitude das vossas dioceses ao derramar o pouco bálsamo que possuem nos pés feridos de quantos atravessam os seus territórios e gastar em favor deles o dinheiro duramente arrecadado; no fim, o divino Samaritano enriquecerá a quem não passou indiferente por Ele quando estava caído na estrada (Lc 10, 25-37).

Queridos irmãos, o Papa tem a certeza de que o México e a sua Igreja chegarão a tempo ao encontro consigo mesmo, com a história, com Deus. Talvez alguma pedra no caminho atrase a marcha, e o cansaço da viagem exigirá alguma pausa, mas nunca será suficiente para vos fazer perder a meta. Na verdade, poderá chegar tarde quem tem uma Mãe à sua espera? Quem pode ouvir continuamente ressoar no próprio coração: «Não estou aqui Eu, que sou tua Mãe?»


México: o amor de um povo pelo Papa Francisco

Cidade do México (RV) – O Papa Francisco, desde os primeiros momentos de sua chegada ao México, demonstrou a todo um país o quanto ama os mexicanos e quanto desejou fazer esta visita, uma visita que tem início pela casa da Mãe Guadalupe, e por conseguinte, a todas as casas dos filhos desta terra. No aeroporto internacional Benito Juárez, na sua chegada, como sempre, rompeu protocolos e se aproximou das pessoas. Identificando-se com os mexicanos, já durante o voo que o trouxe a Cidade do México colocou o “sombrero de charro”.

Após uma viagem longa e cansativa, que durou mais de 18 horas – com escala em Cuba – no aeroporto conversou com as pessoas que aos gritos – eram mais de 5 mil – pediam a sua benção. E Francisco abençoou a todos. Depois em papamóvel, no percurso de 19 km que separam o aeorporto da sede da Nunciatura Apostólia, outro banho de gente, que com seu celulares e lanternas iluminaram a passagem do Sucessor de Pedro. Eram mais de 300 mil.

Chegando à Nunciatura, mais uma vez a surpresa. Os portões da sede diplomatica vaticana se abriram, e Francisou saiu para saudar centenas de fiéis que se encontravam ali há mais de 7 horas, esperando a sua chegada. Francisco saiu e procovou aplausos, cantos e choros de emoção. Às pessoas que cantavam pediu sorridente que deixassem descansar os vizinhos, pois entre sábado e domingo haveria muitas atividades e necessitariam de energia. E rezou com eles e os abençoou.

Entre as mais de 300 mil pessoas que acolheram o Santo Padre pelas ruas de Cidade do México, muitas passaram horas na esperança de ver, por alguns segundos Francisco e receber a sua benção. Segundos que cancelaram horas de cansaço e espera.

Entre eles uma senhora muito simples, entrevistada pela imprensa local. O que a senhora daria de presente ao Papa? foi a pergunta. “Eu – respondeu – daria de presente o que não podemos comprar, a nossa fé e a esperança do povo mexicano”.

Nesta resposta simples está toda a dimensão religiosa de um povo que deposita nas mãos da Mãe Guadalupe todos os seus desejos, problemas e esperanças, e demonstra também o grande amor que tem pelo Papa, pois a fé é um dom, um presente a ser conservado e partilhado.



Papa ao Presidente: jovens são principal riqueza do México

Cidade do México (RV) – O primeiro discurso oficial de Francisco em terras mexicanas foi reservado ao Presidente do país, Enrique Peña Nieto, às autoridades e ao corpo diplomático, neste sábado (13/02/2016).

Depois da cerimônia de boas-vindas no Palácio Nacional, o Papa se reuniu a portas fechadas com o Presidente. Na sequência, no Pátio Central do Palácio presidencial, Enrique Peña Nieto fez o seu discurso, seguido das palavras do Pontífice.

Senhor Presidente,
Membros do Governo da República,
Distintas Autoridades,
Representantes da sociedade civil,
Irmãos no Episcopado,
Senhoras e Senhores!

Agradeço-lhe, Senhor Presidente, as palavras de boas-vindas que me dirigiu. É motivo de alegria poder pisar esta terra mexicana que ocupa um lugar especial no coração das Américas. Hoje venho como missionário de misericórdia e de paz, mas também como um filho que quer prestar homenagem à sua mãe, a Virgem de Guadalupe, e deixar-se olhar por Ela.

Procurando ser um bom filho que segue os passos da mãe, desejo, por minha vez, prestar homenagem a este povo e a esta terra tão rica de cultura, história e diversidade. Na sua pessoa, Senhor Presidente, desejo saudar e abraçar o povo mexicano nas suas múltiplas expressões e nas mais diversas situações em que vive. Obrigado por me receberdes hoje na vossa terra!

O México é um grande país. Abençoado com riquezas naturais abundantes e uma enorme biodiversidade que se estende ao longo de todo o seu vasto território. A sua localização geográfica privilegiada faz dele uma encruzilhada das Américas; e as suas culturas indígenas, mestiças e crioulas dão-lhe uma identidade própria que possibilita uma riqueza cultural nem sempre fácil de encontrar e, especialmente, de valorizar. A sabedoria ancestral que o seu multiculturalismo traz consigo é, de longe, um dos seus maiores recursos humanos. Uma identidade que aprendeu a tomar forma na diversidade e constitui, sem dúvida alguma, um rico património que deve ser valorizado, incentivado e cuidado.

Penso e ouso dizer que, hoje, a principal riqueza do México tem um rosto jovem; sim, são os seus jovens. Um pouco mais de metade da população é composta por jovens. Isto permite pensar e projectar um futuro, um amanhã. Isto dá esperança e abertura ao futuro. Um povo rico de juventude é um povo capaz de se renovar, de se transformar; é um convite a levantar o olhar com confiança para o futuro e, ao mesmo tempo, desafia-nos positivamente no presente. Esta realidade leva-nos, inevitavelmente, a reflectir sobre a responsabilidade de cada um na construção do México que desejamos, do México que pretendemos transmitir às gerações futuras; e leva-nos igualmente à certeza de que um futuro rico de esperança se forja num presente feito de homens e mulheres justos, honestos, capazes de comprometer-se com o bem comum, aquele «bem comum» que neste século XXI não é muito apreciado. A experiência demonstra-nos que quando se busca o caminho do privilégio ou do benefício para poucos em detrimento do bem de todos, mais cedo ou mais tarde, a vida em sociedade transforma-se num terreno fértil para a corrupção, o tráfico de drogas, a exclusão das culturas diferentes, a violência e até o tráfico humano, o sequestro e a morte, que causam sofrimento e travam o desenvolvimento.

O povo mexicano reforçou a sua experiência com uma identidade que foi forjada, em momentos árduos e difíceis da sua história, por grandes testemunhos de cidadãos que compreenderam que, para se poder superar as situações nascidas do fechamento do individualismo, era necessário o acordo das instituições políticas, sociais e de mercado, e de todos os homens e mulheres comprometidos na busca do bem comum e na promoção da dignidade da pessoa.

Uma cultura ancestral e um capital humano aberto à esperança, como o vosso, deve ser uma fonte de estímulo para encontrar novas formas de diálogo, de negociação, de pontes capazes de nos guiar ao longo do percurso dum empenho de solidariedade; um empenho no qual todos, a começar por aqueles que se definem cristãos, nos dediquemos à construção de «uma política verdadeiramente humana» (Gaudium et spes, 73) e de uma sociedade onde ninguém se sinta vítima da cultura do descarte.

Aos responsáveis pela vida social, cultural e política compete de modo especial trabalhar para oferecer a todos os cidadãos a oportunidade de serem dignos protagonistas do seu destino na família e em todos os âmbitos onde se desenvolve a socialidade humana, ajudando-os a ter acesso efectivo aos bens materiais e espirituais indispensáveis: moradia adequada, trabalho digno, alimentação, justiça real, uma segurança eficaz, um ambiente são e pacífico.

Isto não é só uma questão de leis que requerem actualizações e melhorias – sempre necessárias –, mas da formação urgente da responsabilidade pessoal de cada um no pleno respeito pelo outro como co-responsável na causa comum de promover o desenvolvimento da nação. É um dever que envolve todo o povo mexicano nas suas várias instâncias: públicas e privadas, colectivas e individuais.

Posso assegurar-lhe, Senhor Presidente, que neste esforço o governo mexicano pode contar com a colaboração da Igreja Católica, que acompanhou a vida desta nação e hoje renova o seu empenho e vontade de se pôr ao serviço da nobre causa da edificação da civilização do amor.

Estou para percorrer este belo e grande país como missionário e peregrino, que deseja renovar convosco a experiência da misericórdia qual novo horizonte de possibilidades inevitavelmente portador de justiça e de paz.

E coloco-me sob o olhar de Maria, a Virgem de Guadalupe, para que, por sua intercessão, o Pai misericordioso conceda que estes dias e o futuro desta terra sejam uma oportunidade de encontro, de comunhão e de paz.

Muito obrigado!


O Papa já está no México


Cidade do Mexico, 12.fevereiro.2016 – Papa Francisco já está na Cidade do México, iniciando, assim, a décima segunda viagem internacional de seu pontificado. Antes de chegar ao país asteca, ele fez uma parada de três horas no aeroporto na capital de Cuba, para o histórico encontro com o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Kirill.

O Santo Padre foi recebido no aeroporto "Benito Juarez" pelo presidente Enrique Peña Nieto e sua esposa, Angélica Rivera. Em seguida, três crianças, vestidas com trajes típicos, vieram receber e acolher o Papa. De repente, a escuridão encheu o aeroporto, e todos os fiéis que estavam presentes iluminaram a cena com seus celulares, proporcionando um show de luzes.

A música e a dança foram protagonistas ao longo da recepção. O canto mariachis e um grande grupo de dançarinos em trajes tradicionais ofereceram um grande show da cultura mexicana. Tudo acompanhado por canções de Viva México e viva o Papa!

O Santo Padre parou, sem pressa, para dizer Olá. Ele abraçou o grupo de crianças que cantavam no palco e quando se aproximou de onde estavam os mariachis colocou um de seus chapéus.

Depois dos cumprimentos das duas delegações, Papa Francisco teve um breve encontro privado com o presidente e, finalmente, entrou no papamóvel para percorrer os 19 quilômetros até a Nunciatura onde
vai passar a noite, saudando milhares de fiéis que estavam esperando em ambos os lados da estrada.

Francisco é o terceiro papa a visitar o México. Na verdade, este país sediou a primeira viagem internacional de João Paulo II. O papa polonês visitou o país cinco vezes em 1979, 1990, 1993 e 2002. Bento XVI foi também ao México em 2012.
zenit.org


Histórico: Francisco e Kirill se encontram em Havana

Após 962 anos, acontece o primeiro encontro entre duas autoridades religiosas da Igreja Católica Romana e da Igreja Ortodoxa Russa

O avião com o Papa Francisco chegou em Havana às 13h56 locais. Em terras cubanas, o Papa encontrou-se, historicamente, com o líder da Igreja Ortodoxa Russa, o Patriarca Kirill.

O líder russo chegou a Cuba nessa quinta-feira, 11,  onde deu início à visita às comunidades ortodoxas latino-americanas – que prevê também uma etapa no Brasil.

O presidente Raúl Castro recebeu Francisco no aeroporto “José Martí” e acompanhou o Pontífice até o local do encontro com o Patriarca Kirill.

As duas autoridades religiosas se reservaram em uma conversa privada onde conversaram abertamente, sem “meias palavras”, como disse o Papa Francisco, após a assinatura das declarações. “Falamos como irmãos, pois temos o mesmo batismo”, disse o Santo Padre.

“Falamos claramente, sem meias palavras. Confesso que senti a consolação do Espírito nesse diálogo. Agradeço a humildade de Sua Santidade, a humildade fraterna e o bom desejo de unidade. Saímos com uma série de iniciativas que esperamos poder realizar. Por isso, quero agradecer mais uma vez por seu benévolo acolhimento”, disse.

O Papa ainda agradeceu ao “grande povo cubano” e ao seu presidente, Raúl Castro, pela disponibilidade. O Papa disse que, “se continuar assim, Cuba será a capital da unidade”.

Patriarca Russo

Já o Patriarca Kirill disse que foi um diálogo com muito conteúdo, que possibilitou oportunidade de se entender e sentir as posições um do outro.

“O êxito das conversações promete e assegura que as duas igrejas possam cooperar com a segurança dos cristãos do mundo inteiro, e com a responsabilidade plena a fim de que a vida humana seja respeitada no mundo inteiro”, disse o Patriarca.

O encontro foi acompanhado pelo Cardeal Kurt Koch, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e o Metropolita Hilarion, Presidente do Departamento de Relações Eclesiais Exteriores do Patriarcado de Moscou.

A cerimônia se concluiu com a troca de presentes e o cumprimento das autoridades que acompanhavam as respectivas delegações.

Abaixo, publicamos a íntegra do documento histórico:

Declaração comum do Papa Francisco e do Patriarca Kirill de Moscovo e de toda a Rússia

"A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós" (2 Cor 13, 13).

1.         Por vontade de Deus Pai de quem provém todo o dom, no nome do Senhor nosso Jesus Cristo e com a ajuda do Espírito Santo Consolador, nós, Papa Francisco e Kirill, Patriarca de Moscou e de toda a Rússia, encontramo-nos, hoje, em Havana. Damos graças a Deus, glorificado na Trindade, por este encontro, o primeiro na história.

Com alegria, encontramo-nos como irmãos na fé cristã que se reúnem para “falar de viva voz” (2 Jo 12), coração a coração, e analisar as relações mútuas entre as Igrejas, os problemas essenciais de nossos fiéis e as perspectivas de progresso da civilização humana

Cuba

2.         O nosso encontro fraterno teve lugar em Cuba, encruzilhada entre Norte e Sul, entre Leste e Oeste. A partir desta ilha, símbolo das esperanças do “Novo Mundo” e dos acontecimentos dramáticos da história do século XX, dirigimos a nossa palavra a todos os povos da América Latina e dos outros continentes.

Alegramo-nos porque aqui cresce, de forma dinâmica, a fé cristã. O forte potencial religioso da América Latina, a sua tradição cristã secular, presente na experiência pessoal de milhões de pessoas, são a garantia de um grande futuro para esta região.

3.         Encontrando-nos longe das antigas disputas do “Velho Mundo”, sentimos mais fortemente a necessidade de um trabalho comum entre católicos e ortodoxos, chamados a dar ao mundo, com mansidão e respeito, razão da esperança que está em nós (cf. 1 Ped 3, 15).

Tradição comum

4.         Damos graças a Deus pelos dons que recebemos da vinda ao mundo do seu único Filho. Partilhamos a Tradição espiritual comum do primeiro milênio do cristianismo. As testemunhas desta Tradição são a Virgem Maria, Santíssima Mãe de Deus, e os Santos que veneramos. Entre eles, contam-se inúmeros mártires que testemunharam a sua fidelidade a Cristo e se tornaram “semente de cristãos”.

5.         Apesar desta Tradição comum dos primeiros dez séculos, há quase mil anos que católicos e ortodoxos estão privados da comunhão na Eucaristia. Estamos divididos por feridas causadas por conflitos de um passado distante ou recente, por divergências – herdadas dos nossos antepassados – na compreensão e explicitação da nossa fé em Deus, uno em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Deploramos a perda da unidade, consequência da fraqueza humana e do pecado, ocorrida apesar da Oração Sacerdotal de Cristo Salvador: “Para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti; para que assim eles estejam em Nós” (Jo 17, 21).

Superar divergências

6.         Conscientes da permanência de numerosos obstáculos, esperamos que o nosso encontro possa contribuir para o restabelecimento desta unidade querida por Deus, pela qual Cristo rezou. Que o nosso encontro inspire os cristãos do mundo inteiro a rezar ao Senhor, com renovado fervor, pela unidade plena de todos os seus discípulos. Em um mundo que espera de nós não apenas palavras mas gestos concretos, possa este encontro ser um sinal de esperança para todos os homens de boa vontade!

7.         Determinados a realizar tudo o que seja necessário para superar as divergências históricas que herdamos, queremos unir os nossos esforços para testemunhar o Evangelho de Cristo e o patrimônio comum da Igreja do primeiro milênio, respondendo em conjunto aos desafios do mundo contemporâneo. Ortodoxos e católicos devem aprender a dar um testemunho concorde da verdade, em áreas onde isso seja possível e necessário. A civilização humana entrou em um período de mudança de época. A nossa consciência cristã e a nossa responsabilidade pastoral não nos permitem ficar inertes perante os desafios que requerem uma resposta comum.

Oriente Médio

8.         O nosso olhar dirige-se, em primeiro lugar, para as regiões do mundo onde os cristãos são vítimas de perseguição. Em muitos países do Oriente Médio e do Norte da África, os nossos irmãos e irmãs em Cristo veem exterminadas as suas famílias, aldeias e cidades inteiras. As suas igrejas são barbaramente devastadas e saqueadas; os seus objetos sagrados profanados, os seus monumentos destruídos. Na Síria, no Iraque e em outros países do Oriente Médio, constatamos, com amargura, o êxodo maciço dos cristãos da terra onde começou a espalhar-se a nossa fé e onde eles viveram, desde o tempo dos apóstolos, em conjunto com outras comunidades religiosas.

9.         Pedimos a ação urgente da Comunidade internacional para prevenir uma nova expulsão dos cristãos do Oriente Médio. Ao levantar a voz em defesa dos cristãos perseguidos, queremos expressar a nossa compaixão pelas tribulações sofridas pelos fiéis de outras tradições religiosas, também eles vítimas da guerra civil, do caos e da violência terrorista.

10.       Na Síria e no Iraque, a violência já causou milhares de vítimas, deixando milhões de pessoas sem casa nem meios de subsistência. Exortamos a Comunidade internacional a unir-se para pôr fim à violência e ao terrorismo e, ao mesmo tempo, a contribuir por meio do diálogo para um rápido restabelecimento da paz civil. É essencial garantir uma ajuda humanitária em larga escala às populações martirizadas e a tantos refugiados nos países vizinhos.

Pedimos a quantos possam influir sobre o destino das pessoas raptadas, entre as quais se encontram os Metropolitas de Aleppo, Paulo e João Ibrahim, sequestrados no mês de Abril de 2013, que façam tudo o que é necessário para a sua rápida libertação.

Acordo de Paz

11.       Elevamos as nossas súplicas a Cristo, Salvador do mundo, pelo restabelecimento da paz no Oriente Médio, que é “fruto da justiça” (Is 32, 17), a fim de que se reforce a convivência fraterna entre as várias populações, as Igrejas e as religiões lá presentes, pelo regresso dos refugiados às suas casas, a cura dos feridos e o repouso da alma dos inocentes que morreram.

Com um ardente apelo, dirigimo-nos a todas as partes que possam estar envolvidas nos conflitos pedindo-lhes que deem prova de boa vontade e se sentem à mesa das negociações. Ao mesmo tempo, é preciso que a Comunidade internacional faça todos os esforços possíveis para pôr fim ao terrorismo valendo-se de ações comuns, conjuntas e coordenadas. Apelamos a todos os países envolvidos na luta contra o terrorismo, para que atuem de maneira responsável e prudente. Exortamos todos os cristãos e todos os crentes em Deus a suplicarem, fervorosamente, ao Criador providente do mundo que proteja a sua criação da destruição e não permita uma nova guerra mundial. Para que a paz seja duradoura e esperançosa, são necessários esforços específicos tendentes a redescobrir os valores comuns que nos unem, fundados no Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.

12.       Curvamo-nos perante o martírio daqueles que, à custa da própria vida, testemunham a verdade do Evangelho, preferindo a morte à apostasia de Cristo. Acreditamos que estes mártires do nosso tempo, pertencentes a várias Igrejas mas unidos por uma tribulação comum, são um penhor da unidade dos cristãos. É a vós, que sofreis por Cristo, que se dirige a palavra do Apóstolo: “Caríssimos, (...) alegrai-vos, pois assim como participais dos padecimentos de Cristo, assim também rejubilareis de alegria na altura da revelação da sua glória” (1 Ped 4, 12-13).

Diálogo e Europa

13.       Nesta época preocupante, é indispensável o diálogo inter-religioso. As diferenças na compreensão das verdades religiosas não devem impedir que pessoas de crenças diversas vivam em paz e harmonia. Nas circunstâncias atuais, os líderes religiosos têm a responsabilidade particular de educar os seus fiéis num espírito respeitador das convicções daqueles que pertencem a outras tradições religiosas. São absolutamente inaceitáveis as tentativas de justificar ações criminosas com slogans religiosos. Nenhum crime pode ser cometido em nome de Deus, “porque Deus não é um Deus de desordem, mas de paz” (1 Cor 14, 33).

14.       Ao afirmar o alto valor da liberdade religiosa, damos graças a Deus pela renovação sem precedentes da fé cristã que acontece na Rússia e em muitos países da Europa Oriental, onde, durante algumas décadas, dominaram os regimes ateus. Hoje as cadeias do ateísmo militante estão quebradas e, em muitos lugares, os cristãos podem livremente confessar a sua fé. Em um quarto de século foram construídas dezenas de milhares de novas igrejas, e abertos centenas de mosteiros e escolas teológicas. As comunidades cristãs desenvolvem uma importante atividade sócio-caritativa, prestando variada assistência aos necessitados. Muitas vezes trabalham lado a lado ortodoxos e católicos; atestam a existência dos fundamentos espirituais comuns da convivência humana, ao testemunhar os valores do Evangelho.

15.       Ao mesmo tempo, estamos preocupados com a situação em muitos países onde os cristãos se debatem cada vez mais frequentemente com uma restrição da liberdade religiosa, do direito de testemunhar as suas convicções e da possibilidade de viver de acordo com elas. Em particular, constatamos que a transformação de alguns países em sociedades secularizadas, alheias a qualquer referência a Deus e à sua verdade, constitui uma grave ameaça à liberdade religiosa. É fonte de inquietação para nós a limitação atual dos direitos dos cristãos, se não mesmo a sua discriminação, quando algumas forças políticas, guiadas pela ideologia de um secularismo frequentemente muito agressivo, procuram relegá-los para a margem da vida pública.

16.       O processo de integração europeia, iniciado depois de séculos de sangrentos conflitos, foi acolhido por muitos com esperança, como uma garantia de paz e segurança. Todavia, convidamos a manter-se vigilantes contra uma integração que não fosse respeitadora das identidades religiosas. Embora permanecendo abertos à contribuição de outras religiões para a nossa civilização, estamos convencidos de que a Europa deve permanecer fiel às suas raízes cristãs. Pedimos aos cristãos da Europa Oriental e Ocidental que se unam para testemunhar em conjunto Cristo e o Evangelho, de modo que a Europa conserve a própria alma formada por dois mil anos de tradição cristã.

Família

17.       O nosso olhar volta-se para as pessoas que se encontram em situações de grande dificuldade, em condições de extrema necessidade e pobreza, enquanto crescem as riquezas materiais da humanidade. Não podemos ficar indiferentes à sorte de milhões de migrantes e refugiados que batem à porta dos países ricos. O consumo desenfreado, como se vê em alguns países mais desenvolvidos, está gradualmente esgotando os recursos do nosso planeta. A crescente desigualdade na distribuição dos bens da Terra aumenta o sentimento de injustiça perante o sistema de relações internacionais que se estabeleceu.

18.       As Igrejas cristãs são chamadas a defender as exigências da justiça, o respeito pelas tradições dos povos e uma autêntica solidariedade com todos os que sofrem. Nós, cristãos, não devemos esquecer que “o que há de louco no mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios; e o que há de fraco no mundo é que Deus escolheu para confundir o que é forte. O que o mundo considera vil e desprezível é que Deus escolheu; escolheu os que nada são, para reduzir a nada aqueles que são alguma coisa. Assim, ninguém se pode vangloriar diante de Deus” (1 Cor 1, 27-29).

19.       A família é o centro natural da vida humana e da sociedade. Estamos preocupados com a crise da família em muitos países. Ortodoxos e católicos partilham a mesma concepção da família e são chamados a testemunhar que ela é um caminho de santidade, que testemunha a fidelidade dos esposos nas suas relações mútuas, a sua abertura à procriação e à educação dos filhos, a solidariedade entre as gerações e o respeito pelos mais vulneráveis.

20.       A família funda-se no matrimônio, ato de amor livre e fiel entre um homem e uma mulher. É o amor que sela a sua união e os ensina a acolher-se reciprocamente como um dom. O matrimônio é uma escola de amor e fidelidade. Lamentamos que outras formas de convivência já estejam postas ao mesmo nível desta união, ao passo que o conceito, santificado pela tradição bíblica, de paternidade e de maternidade como vocação particular do homem e da mulher no matrimônio, seja banido da consciência pública.

21.       Pedimos a todos que respeitem o direito inalienável à vida. Milhões de crianças são privadas da própria possibilidade de nascer no mundo. A voz do sangue das crianças não nascidas clama a Deus (cf. Gn 4, 10).

O desenvolvimento da chamada eutanásia faz com que as pessoas idosas e os doentes comecem a sentir-se um peso excessivo para as suas famílias e a sociedade em geral.

Estamos preocupados também com o desenvolvimento das tecnologias reprodutivas biomédicas, porque a manipulação da vida humana é um ataque aos fundamentos da existência do homem, criado à imagem de Deus. Consideramos nosso dever lembrar a imutabilidade dos princípios morais cristãos, baseados no respeito pela dignidade do homem chamado à vida, segundo o desígnio do Criador.

Juventude

22.       Hoje, desejamos dirigir-nos de modo particular aos jovens cristãos. Vós, jovens, tendes o dever de não esconder o talento na terra (cf. Mt 25, 25), mas de usar todas as capacidades que Deus vos deu para confirmar no mundo as verdades de Cristo, encarnar na vossa vida os mandamentos evangélicos do amor de Deus e do próximo. Não tenhais medo de ir contra a corrente, defendendo a verdade de Deus, à qual estão longe de se conformar sempre as normas secularizadas de hoje.

23.       Deus ama-vos e espera de cada um de vós que sejais seus discípulos e apóstolos. Sede a luz do mundo, de modo que quantos vivem ao vosso redor, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está no Céu (cf. Mt 5, 14.16). Haveis de educar os vossos filhos na fé cristã, transmitindo-lhes a pérola preciosa da fé (cf. Mt 13, 46), que recebestes dos vossos pais e antepassados. Lembrai-vos que “fostes comprados por um alto preço” (1 Cor 6, 20), a custo da morte na cruz do Homem-Deus Jesus Cristo.

24.       Ortodoxos e católicos estão unidos não só pela Tradição comum da Igreja do primeiro milênio mas também pela missão de pregar o Evangelho de Cristo no mundo de hoje. Esta missão exige o respeito mútuo entre os membros das comunidades cristãs e exclui qualquer forma de proselitismo.

Não somos concorrentes, mas irmãos: por esta certeza, devem ser guiadas todas as nossas ações recíprocas e em benefício do mundo exterior. Exortamos os católicos e os ortodoxos de todos os países a aprender a viver juntos na paz e no amor e a ter “os mesmos sentimentos, uns com os outros” (Rm 15, 5). Por isso, é inaceitável o uso de meios desleais para incitar os crentes a passar de uma Igreja para outra, negando a sua liberdade religiosa ou as suas tradições. Somos chamados a pôr em prática o preceito do apóstolo Paulo: “Tive a maior preocupação em não anunciar o Evangelho onde já era invocado o nome de Cristo, para não edificar sobre fundamento alheio” (Rm 15, 20).

Greco-católicos

25.       Esperamos que o nosso encontro possa contribuir também para a reconciliação, onde existirem tensões entre greco-católicos e ortodoxos. Hoje, é claro que o método do “uniatismo” do passado, entendido como a união de uma comunidade à outra separando-a da sua Igreja, não é uma forma que permita restabelecer a unidade. Contudo, as comunidades eclesiais surgidas nestas circunstâncias históricas têm o direito de existir e de empreender tudo o que é necessário para satisfazer as exigências espirituais dos seus fiéis, procurando ao mesmo tempo viver em paz com os seus vizinhos. Ortodoxos e greco-católicos precisam de reconciliar-se e encontrar formas mutuamente aceitáveis de convivência.

26.       Deploramos o conflito na Ucrânia que já causou muitas vítimas, provocou inúmeras tribulações a gente pacífica e lançou a sociedade em uma grave crise econômica e humanitária. Convidamos todas as partes do conflito à prudência, à solidariedade social e à atividade de construir a paz. Convidamos as nossas Igrejas na Ucrânia a trabalhar por se chegar à harmonia social, abster-se de participar no conflito e não apoiar ulteriores desenvolvimentos do mesmo.

27.       Esperamos que o cisma entre os fiéis ortodoxos na Ucrânia possa ser superado com base nas normas canônicas existentes, que todos os cristãos ortodoxos da Ucrânia vivam em paz e harmonia, e que as comunidades católicas do país contribuam para isso de modo que seja visível cada vez mais a nossa fraternidade cristã.

28.       No mundo contemporâneo, multiforme e todavia unido por um destino comum, católicos e ortodoxos são chamados a colaborar fraternalmente no anúncio da Boa Nova da salvação, a testemunhar juntos a dignidade moral e a liberdade autêntica da pessoa, “para que o mundo creia” (Jo 17, 21). Este mundo, onde vão desaparecendo progressivamente os pilares espirituais da existência humana, espera de nós um vigoroso testemunho cristão em todas as áreas da vida pessoal e social. Nestes tempos difíceis, o futuro da humanidade depende em grande parte da nossa capacidade conjunta de darmos testemunho do Espírito de verdade.

Testemunhas da verdade

29.       Neste corajoso testemunho da verdade de Deus e da Boa Nova salvífica, possa sustentar-nos o Homem-Deus Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, que nos fortifica espiritualmente com a sua promessa infalível: “Não temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino” (Lc 12, 32).

Cristo é fonte de alegria e de esperança. A fé n’Ele transfigura a vida humana, enche-a de significado. Disto mesmo puderam convencer-se, por experiência própria, todos aqueles a quem é possível aplicar as palavras do apóstolo Pedro: “Vós que outrora não éreis um povo, mas sois agora povo de Deus, vós que não tínheis alcançado misericórdia e agora alcançastes misericórdia” (1 Ped 2, 10).

30.       Cheios de gratidão pelo dom da compreensão recíproca manifestada durante o nosso encontro, levantamos os olhos agradecidos para a Santíssima Mãe de Deus, invocando-A com as palavras desta antiga oração: “Sob o abrigo da vossa misericórdia, nos refugiamos, Santa Mãe de Deus”. Que a bem-aventurada Virgem Maria, com a sua intercessão, encoraje à fraternidade aqueles que A veneram, para que, no tempo estabelecido por Deus, sejam reunidos em paz e harmonia num só povo de Deus para glória da Santíssima e indivisível Trindade!

Havana (Cuba), 12 de fevereiro de 2016.
Radio Vaticano/Canção Nova

Papa Francisco twittou ao chegar em Cuba e ao Mexico
:

13/02/2016
Queridos irmãos mexicanos, confiemo-nos à Virgem de Guadalupe, para que não deixe de nos olhar com ternura.
12/02/2016
Hoje é um dia de graça. O encontro com o Patriarca Kirill é um dom de Deus. Rezai por nós.



Papa em viagem rumo a Cuba e México. Em 2017, irá à Colômbia

Cidade do Vaticano (RV) - O Papa Francisco iniciou, nesta sexta-feira (12/02/2016), sua 12ª viagem apostólica internacional que o leva ao México.

O Santo Padre está indo em direção a Cuba, onde se encontrará, em Havana, com o Patriarca de Moscou e de Todas as Rússias, Kirill. Depois o pontífice segue para o México onde permanecerá até o próximo dia 17.

No avião, Francisco saudou os jornalistas do voo papal, que são cerca de 76, dentre os quais dez mexicanos, destacando o desejo de encontrar o Patriarca Kirill e o povo mexicano. Conversando com um jornalista colombiano, o Papa disse que em 2017, irá à Colômbia para a assinatura dos acordos de paz entre o Governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

O Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, abriu o encontro dando as boas-vindas ao Papa entre os jornalistas.

“Sabemos que o senhor desejou muito esta viagem tanto pelo encontro com o Patriarca quanto pelo encontro com o povo mexicano. Preparamo-nos para grandes emoções e momentos históricos. Estamos com senhor para fazer o nosso serviço de difundir a Palavra de Deus e suas palavras”, disse o porta-voz vaticano.

A seguir, o Papa tomou a palavra e agradeceu aos jornalistas pelo trabalho que irão fazer.

O pontífice disse que no início da Audiência Geral desta quarta-feira, a jornalista mexicana Valentina Alazraki, decana dos vaticanistas, o esperava para fazer-lhe entrar no túnel do tempo com todos os filmes de Cantinflas, ator e humorista mexicano. “Assim, entrei no México pela porta de Cantinflas que nos faz rir”, frisou Francisco.

A seguir disse: “O meu maior desejo é deter-me diante de Nossa Senhora de Guadalupe, aquele mistério que se estuda, estuda e estuda e não existe explicações humanas. Até mesmo o estudo mais científico afirma: ‘Isso é coisa de Deus’. É isso que faz os mexicanos dizerem: ‘Eu sou ateu, mas sou guadalupano’. Alguns mexicanos, não todos são ateus”, sublinhou.
O Papa comunicou aos jornalistas que esta é a última viagem do Dr. Alberto Gasbarri como organizador das viagens pontifícias.

“Ele trabalha no Vaticano há 47 anos. Ele entrou aos 3 anos, 4 anos já trabalhava. São 37 anos que realiza as viagens. Digo isso para que nesses dias possamos expressar-lhe a nossa gratidão pensando numa festa aqui, na volta, ok?”, disse Francisco. O Papa apresentou o novo encarregado das viagens que é o Mons. Mauricio Rueda.

Depois do Papa tomou a palavra a jornalista mexicana Valentina Alazraki, correspondente em Roma de ‘Televisa’ que doou ao pontífice um sombrero, típico chapéu mexicano, para que o pontífice se proteja do sol e se sinta mexicano.

No dia de sua partida para o México, via Cuba, o Papa escreveu em seu Twitter
:

12/02/2016
No México fitarei os olhos da Virgem Maria, suplicar-lhe-ei que não deixe de nos proteger com misericórdia. A Ela confio a minha viagem.


11 DE FEVEREIRO – NOSSA SENHORA DE LOURDES

"Eu sou a Imaculada Conceição".
"Vinde a mim em procissão".

Celebrado em Nazaré o dia mundial do doente - Não podemos olhar para o outro lado

«Devemos ser verdadeiros servos daqueles que sofrem de vários modos, também por causa da violência, perseguição, exílio e discriminação». Da Terra Santa levantou-se com força uma exortação à partilha e à solidariedade. O enviado especial do Papa a Nazaré para a celebração do XXIV dia mundial do doente, D. Zygmunt Zimowski, na tarde de 11 de Fevereiro de 2016, recordou a todos os cristãos que não é possível olhar para o outro lado e que todos são chamados, com a mesma disponibilidade de Maria, a deixar-se interpelar pelo sofrimento: «O homem sofre em vários lugares — disse o presidente do Pontifício conselho para a pastoral no campo da saúde, durante a missa celebrada na basílica da Anunciação — e às vezes terrivelmente». E se «nos intimida a sensação de não poder ajudar de modo satisfatório», devemos estar conscientes de que «o importante é ir e estar ao lado do homem que sofre», porque «ele, talvez mais do que da cura, precisa da presença do homem, do coração humano cheio de misericórdia, da solidariedade humana».

É um compromisso para todos. E o ano da misericórdia, acrescentou o prelado, «constitui uma ocasião propícia para intensificar o espírito da misericórdia em cada um de nós».



Papa aos sacerdotes de Roma: "Sejam grandes perdoadores. Somos servidores, não príncipes"

Cidade do Vaticano, 11.fevereiro.2016 (RV) – Após a visita esta manhã à Basílica Santa Maria Maior, onde confiou a Maria Salus Popoli  Romani sua viagem apostólica ao México, o Papa Francisco dirigiu-se à Basílica São João de Latrão, por ocasião do encontro com os presbíteros romanos no início da Quaresma. Na sede da Diocese de Roma, Francisco confessou alguns padres: “Nós – disse o Pontífice -  não somos príncipes, mas servidores das pessoas”.

Deus “perdoa sempre, perdoa tudo” – disse o Papa aos presbíteros romanos, exortando-os a “entender as pessoas” e a perdoar. Ainda tanta gente – recordou Francisco – sofre por problemas familiares, pela falta de trabalho. Ainda hoje tantas pessoas não conseguem libertar-se do pecado: “sempre encontram em nós um pai”.

Mesmo se às vezes “não se pode dar a absolvição – observou Francisco – que pelo menos sintam que existe um pai ali”:

“Eu não te dou o Sacramento mas te abençoo, porque Deus te quer bem; não percas a coragem: sigas em frente e volte aqui!”. Este é um pai, que não deixa que o filho vá para longe”.

E devemos ser misericordiosos como o Pai:  “Não maltratem as pessoas, acariciem-nas como nos acaricia Deus”.

As feridas devem ser curadas como fazem num hospital o médico ou uma enfermeira. Também os sacerdotes podem aliviar o sofrimento: “O carinho da palavra de um padre faz tão bem, tão bem. Realiza milagres!”.

O Papa Francisco recorda as tantas vezes que Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI falaram sobre a misericórdia. “E é Deus – acrescentou – que quer este Ano Santo da Misericórdia”:

“Se o Senhor quer um Jubileu de Misericórdia, é para que exista a misericórdia na Igreja, para que os pecados sejam perdoados. E não é fácil, porque a rigidez, muitas vezes, vem de nós. Somos rígidos ou mandões”.

Se deve ter cuidado – advertiu ainda o Papa – com a doença do clericalismo:

“A doença do clericalismo....Todos! Todos! Também eu. Todos temos isto....Não somos príncipes, não somos donos. Somos servidores das pessoas”.

“A misericórdia é Jesus”, é o Pai que enviou Jesus:

“E se tu não acreditas que Deus veio na carne, és o anticristo. E isto não sou eu quem digo. É o apóstolo João”.

O Senhor – afirmou ainda o Papa – confiou esta missão aos sacerdotes “precisamente para irem ajudar as pessoas, com humildade e misericórdia”. A misericórdia é “Deus que se fez carne”. “É amor, abraço do Pai, é ternura, é capacidade de entender, de colocar-se no lugar do outro”. Assim, é preciso “ser generosos no perdão e também entender as diversas linguagens das pessoas. Existe a linguagem das palavras, mas também a linguagem dos gestos”:

“Quando uma pessoa vai ao confessionário, é porque sente que alguma coisa não está bem, gostaria de mudar ou pedir perdão, mas não sabe como dizê-lo e fica muda: “Se não falas, não posso te dar a absolvição”. Não! Falou com o gesto de ir, e quando uma pessoa vai ao confessionário, não é que queira ir, e certamente não gostaria de fazer o mesmo novamente”. E se uma pessoa diz: “Eu não posso prometer isto”, porque “é uma situação irreversível, mas existe um princípio moral: ad impossibilita nemo tenetur” – explicao Papa – se é impossível que ele entenda, mas sempre procura como perdoar”.

“Sejam misericordiosos como o Pai – concluiu – grandes perdoadores. E vos agradeço pelo trabalho que fazem, porque eu acredito que neste ano haverá as horas extras que não vos serão pagas! (risos). Mas que o Senhor nos dê a alegria de ter as horas extras de trabalho para sermos misericordiosos como o Pai”.


Campanha da Fraternidade: mensagem do Papa aos brasileiros

Cidade do Vaticano, 11 de fevereiro de 2016 (RV) – “O acesso à água potável e ao saneamento básico é condição necessária para a superação da injustiça social e para a erradicação da pobreza e da fome”: palavras do Papa Francisco que estão contidas na mensagem aos brasileiros por ocasião da Campanha da Fraternidade 2016. O tema este ano é “Casa comum: nossa responsabilidade”.

No texto, o Pontífice recorda que se trata da quarta edição ecumênica da Campanha e que, desta vez, cruza as fronteiras para uma parceria com os católicos alemães, através da Misereor (instituição da Conferência Episcopal Alemã para a cooperação para o desenvolvimento).

Comentando o tema escolhido sobre saneamento básico, Francisco convida todos a se empenharem com políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de Casa Comum.

Superação da injustiça social

“O acesso à água potável e ao saneamento básico é condição necessária para a superação da injustiça social e para a erradicação da pobreza e da fome, para a superação dos altos índices de mortalidade infantil e de doenças evitáveis, e para a sustentabilidade ambiental”, escreve o Papa.

Citando sua Encíclica Laudato si, Franscisco recorda que a grave dívida social para com os pobres é parcialmente saldada quando se desenvolvem programas para prover de água limpa e saneamento as populações mais pobres, evidenciando o nexo que há entre a degradação ambiental e a degradação humana e social.

“Aprofundemos a cultura ecológica”, pede o Pontífice. “Ela não pode se limitar a respostas parciais, como se os problemas estivessem isolados. Insisto que o rico patrimônio da espiritualidade cristã pode dar uma magnífica contribuição para o esforço de renovar a humanidade. Eu os convido a redescobrir como nossa espiritualidade se aprofunda quando descobrimos que Jesus quer «que toquemos a carne sofredora dos outros» (Evangelii gaudium, 270), dedicando-nos ao «cuidado generoso e cheio de ternura» (Laudato si’, 220) de nossos irmãos e irmãs e de toda a criação.

Eis a íntegra da mensagem de Francisco.

Queridos irmãos e irmãs do Brasil!

Em sua grande misericórdia, Deus não se cansa de nos oferecer sua bênção e sua graça e de nos chamar à conversão e ao crescimento na fé. No Brasil, desde 1963, se realiza durante a Quaresma a Campanha da Fraternidade. Ela propõe cada ano uma motivação comunitária para a conversão e a mudança de vida. Em 2016, a Campanha da Fraternidade trata do saneamento básico. Ela tem como tema: «Casa comum, nossa responsabilidade». Seu lema bíblico é tomado do Profeta Amós: «Quero ver o direito brotar como fonte e a justiça qual riacho que não seca» (Am 5,24).

É a quarta vez que a Campanha da Fraternidade se realiza com as Igrejas que fazem parte do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC). Mas, desta vez, ela cruza fronteiras: é feita em conjunto com a Misereor, iniciativa dos católicos alemães que realiza a Campanha da Quaresma desde 1958. O objetivo principal deste ano é o de contribuir para que seja assegurado o direito essencial de todos ao saneamento básico. Para tanto, apela a todas as pessoas convidando-as a se empenharem com políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum.

Todos nós temos responsabilidade por nossa Casa Comum, ela envolve os governantes e toda a sociedade. Por meio desta Campanha da Fraternidade, as pessoas e comunidades são convidadas a se mobilizar, a partir dos locais em que vivem. São chamadas a tomar iniciativas em que se unam as Igrejas e as diversas expressões religiosas e todas as pessoas de boa vontade na promoção da justiça e do direito ao saneamento básico. O acesso à água potável e ao esgotamento sanitário é condição necessária para a superação da injustiça social e para a erradicação da pobreza e da fome, para a superação dos altos índices de mortalidade infantil e de doenças evitáveis, e para a sustentabilidade ambiental.

Na encíclica Laudato si’, recordei que «o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos» (n. 30) e que a grave dívida social para com os pobres é parcialmente saldada quando se desenvolvem programas para prover de água limpa e saneamento as populações mais pobres (cf. ibid.). E, numa perspectiva de ecologia integral, procurei evidenciar o nexo que há entre a degradação ambiental e a degradação humana e social, alertando que «a deterioração do meio ambiente e a da sociedade afetam de modo especial os mais frágeis do planeta» (n. 48).

Aprofundemos a cultura ecológica. Ela não pode se limitar a respostas parciais, como se os problemas estivessem isolados. Ela «deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático» (Laudato si’, 111). Queridos irmãos e irmãs, insisto que o rico patrimônio da espiritualidade cristã pode dar uma magnífica contribuição para o esforço de renovar a humanidade. Eu os convido, principalmente durante esta Quaresma, motivados pela Campanha da Fraternidade Ecumênica, a redescobrir como nossa espiritualidade se aprofunda quando superamos «a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor» e descobrimos que Jesus quer «que toquemos a carne sofredora dos outros» (Evangelii gaudium, 270), dedicando-nos ao «cuidado generoso e cheio de ternura» (Laudato si’, 220) de nossos irmãos e irmãs e de toda a criação.

Eu me uno a todos os cristãos do Brasil e aos que, na Alemanha, se envolvem nessa Campanha da Fraternidade Ecumênica, pedindo a Deus: «ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa, a contemplar com encanto, a reconhecer que estamos profundamente unidos com todas as criaturas no nosso caminho para a vossa luz infinita. Obrigado porque estais conosco todos os dias. Sustentai-nos, por favor, na nossa luta pela justiça, o amor e a paz» (Laudato si’, 246). Aproveito a ocasião para enviar a todos minhas cordiais saudações com votos de todo bem em Jesus Cristo, único Salvador da humanidade e pedindo que, por favor, não deixem de rezar por mim!

Vaticano, 22 de janeiro de 2016.


Papa: Quaresma, tempo para podar a falsidade, mundanidade e indiferença

Cidade do Vaticano (RV) - O Papa Francisco presidiu, na tarde desta quarta-feira (10/02/2016), a missa de início da Quaresma, com o tradicional rito de imposição das Cinzas, na Basílica de São Pedro. Durante a celebração houve o envio dos Missionários da Misericórdia.

Em sua homilia, o pontífice sublinhou que “a Palavra de Deus, no início do caminho quaresmal, faz à Igreja e a cada um de nós dois convites. O primeiro, é o de São Paulo: Deixai-vos reconciliar com Deus.”

Reconciliação

“Não é simplesmente um bom conselho paterno e nem uma sugestão. É uma verdadeira e própria súplica em nome de Cristo. Vos suplicamos em nome de Cristo: deixai-vos reconciliar com Deus. Por que um apelo assim tão solene e sincero? Porque Cristo sabe que somos frágeis e pecadores, conhece a fraqueza de nosso coração, o vê ferido pelo mal que cometemos e sofremos. Ele sabe que precisamos de perdão, sabe que precisamos nos sentir amados para realizar o bem. Sozinhos não somos capazes. Por isso, o Apóstolo não nos diz para fazer alguma coisa, mas para nos deixar reconciliar com Deus, permitir que Ele nos perdoe, com confiança, porque Deus é maior que o nosso coração. Ele vence o pecado e nos reergue das misérias, se as confiamos a Ele. Cabe a nós reconhecer que precisamos de misericórdia. É o primeiro passo do caminho cristão. Trata-se de entrar pela porta aberta que é Cristo, onde Ele mesmo nos espera, o Salvador, e nos oferece uma vida nova e alegre.”

Vergonha

Segundo Francisco, podem haver alguns obstáculos que fecham as portas do coração. Um deles é “a tentação de blindar as portas, ou seja, conviver com o próprio pecado, minimizando-o, justificando-se sempre, pensando em não ser pior que os outros. Assim, porém, se trancam as fechaduras da alma e se permanece fechado dentro, prisioneiros do mal. Outro obstáculo é a vergonha de abrir a porta secreta do coração. Na realidade, a vergonha é um bom sintoma, pois indica que queremos nos desligar do mal. Todavia, nunca deve se transformar em temor ou medo”.

O terceiro obstáculo, segundo o Papa, é o de nos distanciar da porta. “Isso acontece quando nos enfurnamos em nossas misérias, quando remoemos continuamente, ligando entre si as coisas negativas, até chegar aos lugares mais escuros da alma. Então a tristeza que não queremos nos torna familiar, nos desencorajamos e somos mais fracos diante das tentações. Isso acontece porque permanecemos sós conosco, nos fechando e fugindo da luz, enquanto somente a graça do Senhor nos liberta. Deixemo-nos então reconciliar, ouvindo Jesus que diz a quem está cansado e oprimido: venha a mim. Não permanecer em si mesmo, mas ir até Ele. Ali há descanso e paz”, disse o pontífice.

Missionários da Misericórdia

Estavam presentes na celebração os Missionários da Misericórdia que receberam o mandato de ser sinais e instrumentos do perdão de Deus. “Queridos irmãos, que vocês possam ajudar a abrir as portas dos corações, a vencer a vergonha e a não fugir da luz. Que as suas mãos abençoem e reergam os irmãos e irmãs com paternidade. Que através de vocês o olhar e as mãos do Pai pousem sobre os filhos e curem suas feridas”, frisou o Papa.

O Santo Padre falou sobre o segundo convite de Deus feito por meio do Profeta Joel: ‘Voltem para mim de todo o coração’. “Se é preciso voltar é porque nos distanciamos. É o mistério do pecado: nos distanciamos de Deus, dos outros e de nós mesmos. Não é difícil se dar conta: Todos vemos como fazemos esforço para ter realmente confiança em Deus, de nos confiar a Ele como Pai, sem medo. Como é difícil amar os outros, em vez de pensar mal deles. Como nos custa fazer o bem verdadeiro, enquanto somos atraídos e seduzidos por tantas realidades materiais que se disperdem e no final nos deixam pobres. Junto desta história de pecado, Jesus inaugurou uma história de salvação. O Evangelho que abre a Quaresma nos convida a ser protagonistas, abraçando três remédios, três medicamentos que curam do pecado”, disse ainda Francisco.

Oração, caridade e jejum

“Em primeiro lugar a oração, expressão de abertura e confiança no Senhor: É o encontro pessoal com Ele, que encurta as distâncias criadas pelo pecado. Rezar significa dizer: “Não sou autossuficiente, preciso de você. Você é a minha vida e minha salvação. Em segundo, a caridade para superar a estranheza em relação aos outros. O amor verdadeiro, de fato, não é um ato exterior, não é dar algo de forma paternalista para tranquilizar a consciência, mas aceitar quem precisa de nosso tempo, de nossa amizade e nossa ajuda. É viver o silêncio, vencendo a tentação de nos satisfazer. Em terceiro lugar o jejum, a penitência para nos libertar das dependências em relação ao que passa e nos treinar para ser mais sensíveis e misericordiosos. É um convite à simplicidade e partilha: tirar algo de nossa mesa e nossos bens para reencontrar o bem verdadeiro da liberdade.”

“Voltem para mim”, diz o Senhor, “de todo o coração”. “Não somente com algum ato exterior, mas do profundo de nós mesmos. De fato, Jesus nos chama para viver a oração, a caridade e a penitência com coerência e autenticidade, vencendo a hipocrisia.”

Quaresma, tempo para podar a falsidade
  “Que a Quaresma seja um tempo benéfico para podar a falsidade, a mundanidade e a indiferença; para não pensar que tudo vai bem se eu estou bem; para entender que o que conta não é a aprovação, a busca de sucesso ou consenso, mas a limpeza do coração e da vida; para reencontrar a identidade cristã, ou seja, o amor que serve, não o egoísmo que se serve. Coloquemo-nos a caminho juntos, como Igreja, recebendo as Cinzas e mantendo fixo o olhar no Crucifixo. Ele, amando-nos, nos convida a nos deixar reconciliar com Deus e a retornar a Ele, para nos reencontrar”, concluiu o Papa.


Audiência: para ser verdadeiro, Jubileu deve chegar ao bolso

Cidade do Vaticano (RV) – Nesta Quarta-feira de Cinzas (10/02/2016), o Papa Francisco se reuniu com os fiéis para a Audiência Geral.

Cerca de 15 mil peregrinos compareceram na Praça S. Pedro, aos quais o Pontífice saudou a bordo de seu papamóvel antes de sua catequese. A eles, Francisco se dirigiu desejando um bom caminho quaresmal e refletiu sobre a instituição do Jubileu, que se encontra nas Sagradas Escrituras.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia e bom caminho de Quaresma!

É belo e também significativo ter esta audiência justamente nesta Quarta-Feira de Cinzas. Começamos o caminho da Quaresma e hoje nos concentramos sobre a antiga instituição do “jubileu”; é algo antigo, atestado na Sagrada Escritura. Nós a encontramos em particular no Livro do Levítico, que a apresenta como um momento culminante da vida religiosa e social do povo de Israel.

A cada 50 anos, “no dia da expiação” (Lv 25, 9), quando a misericórdia do Senhor era invocada sobre todo o povo, o som da trombeta anunciava um grande evento de libertação. Lemos, de fato, no livro do Levítico: “Declarareis santo o quinquagésimo ano e proclamareis a libertação na terra para todos os seus habitantes. Será para vós um jubileu; cada um de vós voltará à sua propriedade e à sua família […] Neste ano do jubileu, cada um voltará à sua propriedade” (25, 10.13). Segundo essas disposições, se alguém era obrigado a vender a sua terra ou a sua casa, no jubileu podia retomar a posse; e se alguém havia contraído débitos e, impossibilitado de pagar, tivesse sido obrigado a colocar-se a serviço do credor, podia tornar-se livre para a sua família e reaver todas as propriedades.

Era uma espécie de “anistia geral”, com a qual se permitia a todos voltar à situação originária, com o cancelamento de todo débito, a restituição da terra e a possibilidade de gozar de novo da liberdade própria dos membros do povo de Deus. Um povo “santo”, onde prescrições como aquela do jubileu serviam para combater a pobreza e a desigualdade, garantindo uma vida digna para todos e uma distribuição equitativa da terra sobre a qual habitar e da qual tirar sustento. A ideia central é que a terra pertence originalmente a Deus e foi confiada aos homens (cfr Gen 1, 28-29), e por isso ninguém pode reivindicar posse exclusiva, criando situações de desigualdade. Hoje, podemos pensar e repensar isso; cada um no seu coração pense se tem muitas coisas. Mas por que não deixar àqueles que não têm nada? Os dez por cento, os cinquenta por cento…Eu digo: que o Espírito Santo inspire cada um de vós.

Com o jubileu, quem tinha se tornado pobre voltava a ter o necessário para viver e quem tinha se tornado rico restituía ao pobre aquilo que lhe havia tomado. A finalidade era uma sociedade baseada na igualdade e na solidariedade, onde a liberdade, a terra e o dinheiro se tornassem um bem para todos e não somente para alguns, como acontece agora, se não estou errado… Mais ou menos, as cifras não são seguras, mas oitenta por cento das riquezas da humanidade estão nas mãos de menos de vinte por cento da população. É um jubileu – e isso o digo recordando a nossa história de salvação – para se converter, para que o nosso coração se torne maior, mais generoso, mais filho de Deus, com mais amor. Digo-vos uma coisa: se este desejo, se o jubileu não chega aos bolsos, não é um verdadeiro jubileu. Entenderam? E isso está na Bíblia! Não é o Papa que inventa isso: está na Bíblia. O objetivo – como disse – era uma sociedade baseada na igualdade e na solidariedade, onde a liberdade, a terra e o dinheiro se tornassem um bem para todos e não para alguns. De fato, o jubileu tinha a função de ajudar o povo a viver uma fraternidade concreta, feita de ajuda recíproca. Podemos dizer que o jubileu bíblico era um “jubileu de misericórdia”, porque vivido na busca sincera do bem do irmão necessitado.

Na mesma linha, também outras instituições e outras leis governavam a vida do povo de Deus, para que se pudesse experimentar a misericórdia do Senhor através daquelas dos homens. Naquelas normas encontramos indicações válidas também hoje, que fazem refletir. Por exemplo, a lei bíblica prescrevia o pagamento do “dízimo” que era destinado aos Levíticos, encarregados de culto, os quais eram sem terra, e aos pobres, aos órfãos, às viúvas (cfr Dt 14, 22-29). Previa-se, isso é, que a décima parte da colheita, ou do proveniente de outras atividades, fosse dada àqueles que eram sem proteção e em estado de necessidade, de modo a favorecer condições de relativa igualdade dentro de um povo em que todos deviam se comportar como irmãos.

Havia também uma lei referente às “primícias”. O que é isso? A primeira parte da colheita, a parte mais preciosa, devia ser partilhada com os Levíticos e os estrangeiros (cfr Dt 18, 4-5; 26, 1-11), que não possuíam campos, de forma que também para eles a terra fosse fonte de alimento e de vida. “A terra é minha e vós sois junto a mim como estrangeiros e hóspedes”, diz o Senhor (Lv 25, 23). Somos todos hóspedes do Senhor, à espera da pátria celeste (cfr Heb 11, 13-16; 1 Ped 2, 11), chamados a tornar habitável e humano o mundo que nos acolhe. E quantas “primícias” quem é mais afortunado poderia dar a quem está em dificuldade! Quantas primícias! Primícias não somente dos frutos dos campos, mas de todo outro produto do trabalho, do salário, das economias, de tantas coisas que se possui e que às vezes se desperdiça. Isso acontece também hoje. Na Esmolaria apostólica, chegam tantas cartas com um pouco de dinheiro: “Essa é uma parte do meu salário para ajudar os outros”. E isso é belo: ajudar os outros, as instituições de caridade, os hospitais, as casas de repouso… dar também aos estrangeiros, aqueles que são estrangeiros e estão de passagem. Jesus esteve de passagem no Egito.

E justamente pensando nisso, a Sagrada Escritura exorta com insistência a responder generosamente também aos pedidos de empréstimos, sem fazer cálculos mesquinhos e sem pretender interesses impossíveis: “Se teu irmão se tornar pobre junto de ti, e as suas mãos se enfraquecerem, sustentá-lo-ás, mesmo que se trate de um estrangeiro ou de um hóspede, a fim de que ele viva contigo. Não receberás dele juros nem ganho; mas temerás o teu Deus, para que o teu irmão viva contigo. Não lhe emprestarás com juros o teu dinheiro, e não lhe darás os teus víveres por amor ao lucro” (Lv 25, 35-37). Este ensinamento é sempre atual. Quantas famílias estão no caminho, vítimas da usura! Por favor, rezemos para que neste jubileu o Senhor tire do coração de todos nós essa vontade de ter mais, a usura. Que se volte a ser generosos, grandes. Quantas situações de usura somos obrigados a ver e quanto sofrimento e angústia levam às famílias! E tantas vezes, no desespero, quantos homens terminam no suicídio porque não têm a esperança, não têm a mão estendida que os ajude; somente a mão que vem para fazê-lo pagar os interesses. A usura é um grave pecado, é um pecado que grita diante de Deus. O Senhor, em vez disso, prometeu a sua benção a quem abre a mão para dar generosamente (cfr Dt 15, 10). Ele te dará o dobro, talvez não em dinheiro, mas em tantas outras coisas, mas o Senhor te dará sempre o dobro.

Queridos irmãos e irmãs, a mensagem bíblica é muito clara: abrir-se com coragem à partilha, e isso é misericórdia! E se nós queremos misericórdia de Deus comecemos a fazê-la nós. É isso: comecemos a fazê-la nós, entre povos, entre continentes. Contribuir para realizar uma terra sem pobres quer dizer construir sociedade sem discriminações, baseada na solidariedade que leva a partilhar quanto se possui, em uma partilha dos recursos fundada na fraternidade e na justiça. Obrigado.


Papa: "Quem esquece o perdão, esquece Deus"

Cidade do Vaticano (RV) – “Quando se esquece a necessidade do perdão, lentamente se esquece de Deus, de lhe pedir perdão e de saber perdoar”. Foi a advertência do Papa na homilia da missa celebrada na Basílica de São Pedro nesta terça-feira (09/02/2016), diante de cerca de 1 mil frades capuchinhos, em Roma para venerar as relíquias de Padre Pio e de Padre Leopoldo Mandic, no Jubileu extraordinário da Misericórdia.

“Os capuchinos receberam do Senhor o dom de perdoar – reconheceu o Pontífice. Em meio a vocês, há muitos bons confessores, porque se sentem pecadores e rezam: sabem perdoar porque sabem rezar.

O humilde é um grande confessor, quem se sente puro só sabe condenar”.

Não machucar o fiel

Francisco ressaltou que “o confessionário é para dar o perdão, não para condenar. E quando não se pode dar a absolvição, pelo menos não se machuque o fiel que vem se confessar em busca do perdão, do conforto, da paz em sua alma; vem para encontrar um pai que o abrace e lhe diga que lhe quer bem. Então, por favor, não se cansem nunca de perdoar!”.

A seguir, o Papa exortou os frades capuchinhos: “Sejam homens de perdão, de reconciliação e de paz”; e recordou: “Existem muitas linguagens: a linguagem da palavra, e a linguagem dos gestos. Quem se aproxima do confessionário, faz já um gesto que expressa o desejo de mudar, de ser uma pessoa diferente”.

Humildade para perdoar

“Por isso, recomendou Francisco, coração aberto! O perdão é uma semente, um carinho de Deus. Quem não é um grande perdoador, é um grande condenador. E quem é, na Bíblia, o grande acusador? O diabo... Então, digo a todos vocês, sacerdotes: quem não quer perdoar seja humilde e não vá confessar os fiéis”.


CINZAS DE MISERICÓRDIA
         

Amanhã, quarta-feira de Cinzas, começa o importante tempo litúrgico da Quaresma, no qual a Igreja almeja que nos unamos mais intimamente ao Mistério Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo, mistério
que inclui sua Paixão, sua morte e sua gloriosa Ressurreição.

Neste Ano Santo da Misericórdia, o Papa Francisco, em sua mensagem para esta Quaresma, toma como modelo Nossa Senhora, “Maria, ícone duma Igreja que evangeliza porque evangelizada. Maria, por ter acolhido a Boa Notícia que Lhe fora dada pelo arcanjo Gabriel, canta profeticamente, no Magnificat, a misericórdia com que Deus A predestinou”.

E o Papa nos pede que “a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus (Misericordiӕ Vultus, 17). Com o apelo à escuta da Palavra de Deus e à iniciativa ‘24 horas para o Senhor’, quis sublinhar a primazia da escuta orante da Palavra, especialmente a palavra profética. Com efeito, a misericórdia de Deus é um anúncio ao mundo; mas cada cristão é chamado a fazer pessoalmente experiência de tal anúncio”.

A História da Salvação é a história da Misericórdia de Deus para com o seu povo: “O mistério da misericórdia divina desvenda-se no decurso da história da aliança entre Deus e o seu povo Israel. Na realidade, Deus mostra-Se sempre rico de misericórdia, pronto em qualquer circunstância a derramar sobre o seu povo uma ternura e uma compaixão viscerais, sobretudo nos momentos mais dramáticos quando a infidelidade quebra o vínculo do Pacto e se requer que a aliança seja ratificada de maneira mais estável na justiça e na verdade. Encontramo-nos aqui perante um verdadeiro e próprio drama de amor, no qual Deus desempenha o papel de pai e marido traído, enquanto Israel desempenha o de filho/filha e esposa infiéis. São precisamente as imagens familiares – como no caso de Oseias (cf. Os 1-2) – que melhor exprimem até que ponto Deus quer ligar-Se ao seu povo”.

E tudo se resume e engloba na Encarnação do Verbo: “Este drama de amor alcança o seu ápice no Filho feito homem. N’Ele, Deus derrama a sua misericórdia sem limites até ao ponto de fazer d’Ele a Misericórdia encarnada. Na realidade, Jesus de Nazaré enquanto homem é, para todos os efeitos, filho de Israel. E é-o ao ponto de encarnar aquela escuta perfeita de Deus que se exige a cada judeu pelo Shemà, fulcro ainda hoje da aliança de Deus com Israel: ‘Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças’ (Dt 6, 4-5)”. 

“Portanto a Quaresma deste Ano Jubilar é um tempo favorável para todos poderem, finalmente, sair da própria alienação existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia. Se, por meio das obras corporais, tocamos a carne de Cristo nos irmãos e irmãs necessitados de ser nutridos, vestidos, alojados, visitados, as obras espirituais tocam mais diretamente o nosso ser de pecadores: aconselhar, ensinar, perdoar, admoestar, rezar...”
Dom Fernando Arêas Rifan, bispo administrador apostólico da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney.


A “estratégia das pontes” do Papa Bergoglio


Francisco falou ao jornal italiano ‘Corriere della Sera” na véspera do encontro com Kirill: não à guerra no mundo, esperança para a Rússia e China, incentivo para a Europa

zenit.org – 8.fevereiro.2016

“Estou muito feliz”. O Papa Francisco sintetiza em uma palavra toda a emoção pelo encontro do próximo dia 12 de fevereiro com o patriarca de Moscou, Kirill, em Cuba. Mil anos de cisma entre Igreja católica e ortodoxa que se derretem em um abraço entre os dois irmãos. Um trabalho de diplomacia tão primoroso quanto simples na sua estratégia.

O próprio Pontífice é que narra em uma conversa com o jornal italiano Corriere della Sera, em dias passados na Casa Santa Marta com o jornalista Massimo Franco e o diretor do jornal Luciano Fontana. “Deixei fazer”, explica Bergoglio aos seus interlocutores explicando o processo que levou ao histórico evento, “somente disse que gostaria de encontrar e reabraçar os meus irmãos ortodoxos. Tudo aqui. Foram dois anos de negociações escondidas, bem levadas por excelentes bispos”.

“Para os ortodoxos – acrescenta – ocupou-se Hilarion, que além de ser excelente é também um artista, um músico. Eles que fizeram tudo”. O ministro das Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, também ao Corsera, tinha anunciado, em junho passado, que o encontro “estava programado” e expressava a esperança de que “não se encontrassem em um futuro Papa e um futuro Patriarca, mas estes dois”.

Espero que se concretize daqui a poucos dias. Francisco se diz satisfeito, especialmente porque construiu uma outra ponte. “Pontes: isso é que se precisa construir”, reitera, de fato, em uma conversa, “passo a passo, até chegar a apertar a mão de quem está do outro lado”. Porque “as pontes duram, e ajudam à paz”, “os muros não: esses parecem proteger-nos, mas, pelo contrário, só nos separam. Por isso devem ser destruídos, não construídos”.

“De qualquer forma – afirma Bergoglio – estão destinados a cair, um depois do outro. Pensemos no de Berlim. Parecia eterno, e, pelo contrário: puff, um dia caiu”. Então não precisa perder nenhuma ocasião para construir pontes.

Precisamente isso é a prioridade do ponfiticado desse Papa ‘vindo do fim do mundo’: uma abordagem inclusiva que rompe os detritos deixados pelos erros do passado para restabelecer uma nova ordem mundial. Demonstrado pela mediação entre EUA e Cuba; a viagem aos Estados Unidos; a abertura do Jubileu na Áfriica; a reconciliação com o mundo ortodoxo e também a mão estendida com a China com a entrevista em dias passados ao Asia Times (chamada erroneamente Asia News no artigo do Corriere della Sera), no qual o bispo de Roma expressava seus melhores votos ao Presidente da República popular, Xi Jinping pelo início do Ano Novo chinês.

Todas as etapas de uma “estratégia de pontes”, expressão de um “Ocidente alternativo”. Para realiza-lo o primeiro passo é evitar qualquer tipo de guerra, afirma o Papa. Hoje, de forma especial: “Não podemos dizer que estamos rodeados por um mundo em paz – observa – em todo o lado há conflitos. Falei de terceira guerra mundial em pedaços. Na verdade, não é em pedaços: é precisamente uma guerra. As guerras, como se fazem? Agindo sobre a economia, com o tráfico das armas, e fazendo a guerra contra a nossa casa comum, que é a natureza”.

A este respeito, Francisco – ecoando a sua Laudato Si – recorda que “cortar as árvores significa desertificar territórios inteiros”. Por isso, observa, “em países como a Zâmbia começaram a replantar, para reflorestar áreas para evitar o esgotamento da terra. E devemos estar atentos às monoculturas. Se se produzem sempre as mesmas coisas, sem alternar as culturas, rapidamente o terreno morre”.

O tráfico de armas. “Os traficantes estão fazendo um monte de dinheiro, comprando armas de um País que lhe dá para atingir um outro, seu inimigo. E já se sabe quais são”, diz.

O olhar está voltado exatamente na intervenção militar do Ocidente no Norte da Áfricas e as assim chamadas “primaveras árabes”: uma aposta que agora se paga um caro preço. “Sobre as primaveras árabes e o Iraque se poderia imaginar antes o que poderia acontecer”, comenta Bergoglio, e não esconde a sua apreensão por tudo o que poderia acontecer se EUA e Europa acharem que devem atacar de novo o território líbrio, lascerado entre tribalismo e terrorismo islâmico. “Pensemos na Líbia antes e depois da intervenção militar: antes de Gheddafi só havia um, agora existem cinquenta. O Ocidente deve fazer auto-crítica”, diz o Papa.

E sobre a Rússia, explica que “em parte houve uma convergência de pontos de vista entre a Santa Sé e a Rússia. Em parte, é bom que não exageremos, porque a Rússia tem seus próprios interesses”. O ex-império soviético “tem sangue imperial”, dos tempos da Csarina Catarina, no entanto, – destaca Bergoglio – “pode ​​dar muito”.

Um potencial que pode ser vislumbrado também na Europa; continente que, no seu discurso, em Estrasburgo de Novembro 2014, não hesitou em definir “uma mulher, não fértil e vivaz”. Palavras que a chanceler alemã Angela Merkel digeriu com dificuldade, tanto que – diz o Papa – “ligou para mim poucas horas depois… Estava um pouco brava porque eu tinha comparado a Europa com uma mulher estéril, incapaz de fazer fihos. Perguntou-me se realmente eu pensava que a Europa não podia fazer mais filhos. Eu lhe respondi que sim, a Europa ainda pode fazer, e muitos, porque tem raiz sólidas e profundas. Porque tem uma história única. Porque teve e ainda pode ter um papel fundamental: pensemos só na cultura e nas tradições que encarna. E porque nos momentos mais negros sempre demonstrou ter recursos não pensados”.

O ponto de vista sobre o Velho Continente é, portanto, o mesmo: “A Europa deve e pode mudar. Deve e pode reformar-se”. Especialmente sobre a questão do fluxo impressionante de migração que a atingiu nos últimos tempos. A este respeito, Francisco recorda a sua visita à Lampedusa: na época “o problema da imigragação tinha só começado. E agora explodiu”; A Europa se encontra, portanto, diante de “um desafio” que deve enfrentar “com inteligência, naturalmente, porque detrás está o problema enorme e terrível do terrorismo”.

“Se não é capaz de ajudar economicamente os Países de origem, deve por-se o problema de como enfrentar este grande desafio que é, em primeiro lugar, humanitário, mas não só”, acrescenta o Pontífice, que releva também uma ‘quebra’ do sistema educacional “que transmitia os valores dos avós para os netos, dos pais para os filhos”. “Bem, temos de enfrentar o problema de como reconstruí-lo.”

Uma esperança, neste sentido, pode vir a partir da memória das “grandes personalidades esquecidas” em sua história recente: a chanceler alemã, Konrad Adenauer, o ministro do Exterior da França, Robert Schuman, o italiano Alcide De Gasperi. Mas também, de acordo com o Papa, há “grandes esquecidos” na crônica dos nossos dias.

“Por exemplo – diz – a mulher-prefeito de Lampedusa, Giusi Nicolini”, desde sempre ativa em favor dos refugiados, ou também o presidente da república emérito, Giorgio Napolitano. “Quando Napolitano aceitou, pela segunda vez, naquela idade, e embora por um período limitado, assumir o cargo daquele peso, liguei para ele e disse-lhe que era um gesto de ‘heroísmo’ patriótico”.

“Entre os grandes da Itália de hoje” Bergoglio cita o ex ministro Emma Bonino. O pontífice explicou dizendo que o expoente radical “é a pessoa que conhece melhor a África”, que “ofereceu o melhor serviço à Itália por conhecer a África. Me dizem: é alguém que pensa de forma muito diferente de nós. Verdade, mas paciência. É preciso olhar para as pessoas, para o que fazem”.


Papa: vou ao México como missionário da misericórdia

Cidade do Vaticano (RV) - O Papa iniciará, na próxima sexta-feira (12/02), sua 12ª viagem Apostólica internacional que desta vez o levará ao México.

Numa vídeo mensagem aos mexicanos, divulgada nesta segunda-feira (08/02/2016), Francisco disse estar muito feliz em realizar esta visita. “Sempre recordei de modo especial todos os mexicanos em minha oração. Carrego-os em meu coração e agora irei visitá-los e pisar nesta terra abençoada, tão amada por Deus, e tão querida à Virgem Maria”, sublinhou.

Missão

“Vocês podem se perguntar: O que o Papa pretende com esta viagem? A resposta é imediata e simples: Desejo ir como missionário da misericórdia e da paz; encontrar-me com vocês para confessar nossa fé em Deus e partilhar uma verdade fundamental em nossas vidas: Que Deus nos ama muito, que nos ama com um amor infinito, além de nossos méritos. Quero estar o mais próximo possível a vocês, mas especialmente daqueles que sofrem, abraçá-los e dizer-lhes que Jesus os ama, que Ele está sempre ao seu lado.”

O Papa ficou feliz ao saber que os mexicanos estão se preparando para esta visita com muita oração. “A oração amplia o nosso coração e o prepara para receber os dons de Deus. A oração ilumina os nossos olhos para aprender a ver os outros com os olhos de Deus, para amar como Deus ama. Muito obrigado e rezem por mim, pois preciso”, disse.

Guadalupe

“Qual é um dos meus maiores desejos? Poder visitar a casa da Virgem Maria. Como um filho, me aproximarei da Mãe e colocarei aos seus pés tudo o que levo em meu coração. É bom poder visitar a casa materna e sentir a ternura de sua presença bondosa. Ali, quero olhar para ela e pedir para que nos olhe com misericórdia, porque ela é nossa Mãe do Céu. A ela confio desde agora a minha viagem e todos vocês, meus queridos irmãos mexicanos”, concluiu o Papa.

Tweet do Papa Francisco nesta segunda-feira:

08/02/2016
Entrar pela Porta Santa significa descobrir a profundidade da misericórdia do Pai, que procura pessoalmente a cada um.


Papa: pescar os homens e as mulheres é a lógica da Igreja


Cidade do Vaticano -  Hoje, quinto domingo do tempo comum, 7 de fevereiro de 2016, o Papa Francisco procedeu, às 12 horas de Roma,  a celebração da oração mariana do Angelus na Praça de São Pedro repleta de fiéis e peregrinos vindos de diversas partes da Itália e do mundo para assistir a esta habitaul cerimônia do Angelus.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!


O Evangelho deste domingo narra – na redação de São Lucas – o chamado dos primeiros discípulos de Jesus (Lc 5,1-11). O fato ocorre em um contexto da vida cotidiana: alguns pescadores estão na beira do lago da Galiléia e, depois de uma noite de trabalho sem pescar nada, estão trabalhando e lavando as redes. Jesus sobre nas barcas de um deles, a de Simão, chamado Pedro, e pede-lhe para distanciar-se um pouco da margem e começa a pregar a Palavra de Deus às pessoas que se reuniram numerosos. Quando terminou de falar, ele lhes diz para remar mar adentro e jogar as redes. Simão já tinha conhecido a Jesus e experimentado o poder milagroso de sua palavra, por isso lhe respondeu: “Mestre, trabalhamos toda a noite e não pegamos nada; mas em tua palavra lançarei as redes” (v. 5). E a sua fé não foi decepcionada: de fato, as redes se encheram com uma tal quantidade de peixes que estavam rasgando (cf. v. 6).

Em face deste acontecimento extraordinário, os pescadores ficaram cheios de espanto. Simão Pedro caiu aos pés de Jesus, dizendo: “Senhor, afaste-se de mim, porque sou um pecador” (v. 8). Aquele sinal prodigioso convenceu-o de que Jesus não é só um ótimo mestre, cuja palavra é verdadeira e poderosa, mas que Ele é o Senhor, é a manifestação de Deus. E tal presença desperta em Pedro um forte senso da sua própria mesquinhez e indignidade. De um ponto de vista humano acha que deve haver distância entre o pecador e o Santo. Na verdade, precisamente a sua condição de pecador requer que o Senhor não se distancie dele, da mesma forma que um médico não pode distanciar-se de quem está enfermo.

A resposta de Jesus à Simão Pedro é reconfortante e firme: “Não temas; de agora em diante serás pescador de homens” (v. 10). E mais uma vez o pescador da Galileia, colocando a sua confiança nesta palavra, deixa tudo e segue aquele que tornou-se o seu Mestre e Senhor. E assim fizeram também Tiago e João, companheiros de trabalho de Simão. Esta é a lógica que guia a missão de Jesus e a missão da Igreja: ir em busca, “pescar” os homens e as mulheres, não para fazer proselitismo, mas para restituir a todos a plena dignidade e liberdade, através o perdão dos pecados. Esta é a essência do cristianismo: espalhar o amor regenerador e gratuito de Deus, com atitude de acolhida e de misericórdia para com todos, para que cada um possa encontrar a ternura de Deus e ter plenitude de vida. E aqui, de forma particular, penso nos confessores: são os primeiros que tem o dever de dar a misericórdia do Pai seguindo o exemplo de Jesus, como fizeram também os dois Frades, pe. Leopoldo e pe. Pio.

O Evangelho de hoje nos desafia: sabemos confiar realmente na palavra do Senhor? Ou nos deixamos desencorajar pelos nossos fracassos? Neste Ano Santo da Misericórdia somos chamados a confortar todos aqueles que sentem pecadores e indignos diante do Senhor e abatidos por seus próprios erros, dizendo-lhes as mesmas palavras de Jesus: “Não temas”. “A misericórdia do Pai é maior que os seus pecados! É maior, não temas!”. Que a Virgem Maria nos ajude a compreender sempre mais que ser discípulos significa colocar os nossos pés nas pegadas deixadas pelo Mestre: são as pegadas da graça divina que regenera vida para todos.

APELO

Com profunda preocupação acompanho a dramática sorte dos povos civis envolvidos nos violentos combates na amada Síria e obrigados a abandonar tudo para fugir dos horrores da guerra. Desejo que, com generosa solidariedade, se dê a ajuda necessária para assegurar-lhes sobrevivência e dignidade, enquanto faço um apelo à Comunidade Internacional para que não economize esforços para levar com urgência à mesa de negociações as partes em causa. Só uma solução política do conflito será capaz de garantir um futuro de reconciliação e de paz àquele querido e martirizado país, pelo qual vos convido a rezar muito; e também agora todos juntos rezemos à Nossa Senhora pela amada Siria: Ave, Maria…

Depois do Angelus

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje, na Itália, celebramos o Dia pela Vida, com o tema “A misericórdia faz florescer a vida”. Uno-me aos bispos italianos para pedir, de parte dos vários sujeitos institucionais, educacionais e sociais, um renovado compromisso a favor da vida humana desde a concepção até o seu fim natural. A nossa sociedade deve ser ajudada a curar de todos os atentados contra a vida, desafiando uma mudança interior, que se mostra também através de obras de misericórdia. Saúdo e encorajo os docentes universitários de Roma e todos os comprometidos a testemunhar a cultura da vida.

Amanhã se celebra a Jornada de Oração e reflexão contra o tráfico de pessoas, que oferece a todos a oportunidade de ajudar os novos escravos de hoje a quebras as pesadas cadeias da exploração para recuperar a sua liberdade e dignidade. Penso de modo particular nas tantas mulheres e homens, e tantas crianças! Devemos fazer todo esforço para acabar com este crime e essa vergonha insuportável.

E amanhã, no Extremo Oriente e em várias partes do mundo, milhões de homens e mulheres celebram o Ano Novo Lunar. Desejo a todos que possam experimentar serenidade e paz no seio das suas famílias, que constituem o primeiro lugar em que se vivem e se transmitem os valores do amor e da fraternidade, da convivência e da partilha, da atenção e do cuidado com o outro. Que o novo ano possa trazer frutos de compaixão, misericórdia e solidariedade. E estes irmãos e irmãs do Oriente Médio, que amanhã comemoram o ano novo lunar, cumprimentamos com um aplausos daqui!

Saúdo todos os peregrinos, grupos paroquiais e associações provenientes da Itália, Espanha, Portugal, Equador, Eslováquia e outros países. São muitos para elencar aqui! Cito só os crismandos, os das dioceses de Treviso, Pádua, Cuneo, Lodi, Como e Crotone. Estão todos aqui, vejo-os! E saúdo a comunidade sacerdotal do colégio Mexicano de Roma, com outros mexicanos: obrigado pelo vosso compromisso em acompanhar com a oração a viagem apostólica ao México que realizarei dentro de poucos dias, e também o encontro que terei na Havana com o meu caro irmão Kirill.

Desejo a todos um bom domingo. Por favor, não se esqueçam de rezar por mim. Bom almoço e até mais!
Radio Vaticano/zenit.org


Papa: "Padre Pio é um carinho de Deus Pai"

Cidade do Vaticano (RV) – Na manhã deste sábado (06/02), os grupos de oração de São Padre Pio, os peregrinos da Arquidiocese de Manfredonia-Vieste-San Giovanni Rotondo, e devotos do santo de Pietrelcina provenientes de todo o mundo se reuniram com o Papa Francisco na Praça São Pedro em um “encontro de oração”.

Cerca de 80 mil fiéis participaram da audiência. Desde cedo, antes da chegada do Papa, o público foi animado com cantos e orações. Também o Pregador Oficial do Vaticano, o capuchinho Raniero Cantalamessa, fez uma reflexão e entreteve os fiéis com alguns relatos sobre a vida de São Padre Pio e São Leopoldo Mandic.

Ao ingressar na Praça, sob os aplausos da multidão, o Pontífice deu uma volta com o Papamóvel, abençoando e trocando seu carinho com os fiéis. A fria, mas ensolarada manhã de inverno, foi o cenário ideal para este evento.

Confessar até a exaustão

Em seu discurso aos devotos, definiu “Padre Pio como um servidor da misericórdia, praticando o apostolado da escuta muitas vezes até o esgotamento”. Através do ministério da Confissão, ele se tornou uma carícia viva do Pai, que cura as feridas do pecado e fortalece o coração com a paz. São Pio não se cansou de acolher as pessoas e ouvi-las, de dedicar tempo e forças para difundir o perfume do perdão do Senhor. Podia fazê-lo porque estava sempre ligado à fonte: saciava a sede continuamente em Jesus Crucificado, e assim se tornava um canal de misericórdia. Carregou no coração muitas pessoas e muitos sofrimentos, unindo tudo ao amor de Cristo que se doou até o fim. Viveu o grande mistério da dor oferecido por amor. Assim, a sua pequena gota se tornou um grande rio de misericórdia que irrigou muitos corações áridos e criou oásis de vida em muitas parte do mundo”.

Oração é a força da Igreja

Na sequência, o Papa recordou que São Pio definia estes grupos de oração “viveiros de fé, fontes de amor”; porque não eram apenas centros de encontro para estar bem com os amigos e se consolar um pouco, mas verdadeiras fontes de amor divino. A oração, dizia ele “é uma força que move o mundo, expande o sorriso e a bênção de Deus sobre todo vazio e fraqueza”.

Segundo o Pontífice, “a oração é uma obra de misericórdia espiritual, um dom de fé e amor, uma intercessão necessária como o pão. Numa palavra, significa confiar: confiar a Igreja, as pessoas, as situações ao Pai, para que Ele cuide de tudo”. Para Padre Pio, “a oração é a melhor arma que temos, uma chave que abre o coração de Deus”. 

Misericórdia corporal

No final de seu discurso, o Papa quis recordar a obra de “misericórdia corporal” criada pelo Santo de Pietrelcina: a Casa Alívio do Sofrimento, inaugurada sessenta anos atrás, que ele queria que fosse um “templo de ciência e oração”, pois “os seres humanos precisam sempre de algo que vai além de uma cura tecnicamente correta. Precisam de humanidade. Precisam da atenção do coração”.

Antes de se despedir, Francisco convidou os fiéis a rezarem junto com ele o Pai Nosso e a Ave Maria.

Exposição das relíquias

As relíquias de São Pio e São Leopoldo Mandić se encontram no altar maior da Basílica do Vaticano e estarão expostas para a veneração dos fiéis até o dia 11 de fevereiro de 2016.
 

Padre Pio morreu em 1968 e foi canonizado por João Paulo II em 2002.


Papa: "O estilo de Deus é a humildade"

Cidade do Vaticano (RV) – “O estilo de Deus não é o estilo do homem, porque Deus vence com humildade, como demonstra o fim do maior dos profetas, João Batista, que preparou o caminho a Cristo e depois, se pôs de lado”. Este foi o comentário feito pelo Papa sobre o Evangelho do dia, durante a homilia da Missa celebrada na Casa Santa Marta, nesta sexta-feira (05/02/2016).

O “maior” dos homens, o “justo e santo” que preparou o povo para a chegada do Messias, termina decapitado na escuridão de uma cela, sozinho e condenado ao ódio vingativo de uma rainha e à covardia de um rei submisso.

O último profeta

Assim, “Deus vence”, comentou o Papa Francisco, relendo, na homilia, o Evangelho que narra a morte de João Batista:

“João Batista: o maior homem nascido de uma mulher: assim diz a formula de canonização de João. Esta fórmula não foi dita por um Papa, mas por Jesus, o homem que é o maior jamais nascido de uma mulher. O maior Santo: assim, Jesus o canonizou. E terminou no cárcere, degolado, e sua última frase foi quase uma renúncia: ‘Os discípulos de João, ao saber do fato, vieram, pegaram o cadáver e o colocaram no sepulcro’. Assim terminou o maior homem nascido de uma mulher’. Um grande profeta; o único a quem foi concedido ver a esperança de Israel”.

O maior tormento

Francisco não parou na evidência do Evangelho e ‘tentou entrar na cela de João’, a ‘escavar’ na alma da voz que gritou no deserto e batizou multidões em nome Daquele que ainda viria, e que agora estava acorrentado não só aos ferros do cativeiro, mas provavelmente, considerou o Papa, inclusive aos cepos da incerteza que o devasta, não obstante tudo:

“Mas, ele sofreu na prisão, também - digamos a palavra -, a tortura interior da dúvida: Talvez, eu estivesse errado? Este Messias não é como eu imaginava que devia ser o Messias... '. E ele enviou seus discípulos para perguntar a Jesus: 'Mas, diga, diga a verdade: és Tu quem deve vir?', porque aquela dúvida lhe fazia sofrer. “Eu cometi um erro ao anunciar alguém que não é? Eu enganei as pessoas?'. O sofrimento, a solidão interior deste homem ... "Eu, no entanto, tenho que me abaixar, diminuir assim: na alma, no corpo ... tudo ...".

Humilde até o fim

“Diminuir, diminuir, diminuir”, assim “foi a vida de João”, repete Francisco. “Um grande que não procurou a própria glória, mas a de Deus”, e que termina “de modo prosaico, no anonimato”. Mas, com essa sua atitude, conclui o Papa, “preparou o caminho para Jesus”, que da mesma forma, “morreu em agonia, sozinho, sem os discípulos”:

“Irá nos fazer bem ler hoje esta passagem do Evangelho, o Evangelho de Marcos, capítulo VI. Ler esta passagem, para ver como Deus vence: o estilo de Deus não é o estilo do homem. Peça ao Senhor a graça da humildade que tinha João, e não atribuir os méritos ou glórias de outros. E acima de tudo, a graça de que na nossa vida haja sempre o lugar, para que Jesus cresça e que diminuamos, até o fim”.


Anunciado histórico encontro entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill

Cidade do Vaticano, 5.fevereiro.2016 (RV) - O Papa Francisco e o Patriarca de Moscou e de todas as Rússias, Kirill, se encontrarão em 12 de fevereiro de 2016 em Cuba, onde o Santo Padre fará escala em sua viagem ao México e onde o Patriarca se encontrará em visita oficial. É o que anunciam com alegria, num comunicado conjunto, a Santa Sé e o Patriarcado de Moscou.

É um encontro que se dá “por graça de Deus” e que “compreenderá um colóquio pessoal no aeroporto internacional José Martí de Havana e se concluirá com a assinatura de uma declaração comum”.

Na coletiva, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, leu a parte central do comunicado:

“Este encontro dos Primazes da Igreja católica e da Igreja ortodoxa russa, de há muito preparado, será o primeiro na história e marcará uma etapa importante nas relações entre as duas Igrejas. A Santa Sé e o Patriarcado de Moscou fazem votos de que seja também um sinal de esperança para todos os homens de boa vontade. Convidam todos os cristãos a rezar fervorosamente a fim de que Deus abençoe este encontro, que possa produzir bons frutos.”

O Patriarca Kirill chega a Havana na quinta-feira, 11 de fevereiro, em visita oficial, disse Pe. Lombardi. Trata-se de sua primeira visita à América Latina como Patriarca. Na sexta-feira, 12 de fevereiro, o Papa parte de Roma para sua viagem ao México, antecipadamente em relação ao programa. Chega a Havana às 14h locais, ao aeroporto José Martí. Ali será recebido pelo presidente cubano Raul Castro.

Às 14h15 encontra o Patriarca Kirill. O colóquio privado deverá durar duas horas. Ao término será feita a assinatura da declaração conjunta. Os textos serão em russo e em italiano. O Papa e o Patriarca assinam ambos os textos e depois, entre eles, fazem a troca dos mesmos. Seguirão os breves discursos do Patriarca kirill e do Papa.

“No momento – observou Pe. Lombardi – são previstos, não como discursos preparados, com um texto longo e complicado, mas como uma expressão espontânea, pessoal de sentimentos nesta extraordinária e belíssima ocasião.”

A partida do Papa para o México está prevista para as 17h30. O programa desta viagem não foi alterado por esta escala em Cuba, precisou o porta-voz vaticano.

O religioso jesuíta ressaltou que este encontro tem uma importância extraordinária. Não se trata de um encontro “improvisado”, mas que amadureceu no espaço de dois anos: “O fato de agora ambos terem – o Patriarca e o Papa – previsto viagens que deveriam fazer à América Latina constituiu uma circunstância, uma premissa favorável para esta realização”.

Em seguida, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé traçou a figura do Patriarca kirill:

“Certamente é uma personalidade que tem uma longuíssima história de empenho ecumênico e de participação nas relações com as outras Igrejas. Com o Patriarca precedente (Aleksej II, ndr), Kirill era o responsável pelas relações exteriores do Patriarcado. Portanto, mantinha muitas relações ecumênicas e conhecia muito bem também a situação do ecumenismo. Entre outras coisas, esteve aqui em Roma por ocasião da consagração da Igreja ortodoxa e tinha encontrado o Papa Bento XVI, quando Kirill ainda não era Patriarca.”

Pe. Lombardi acrescentou que outro “aspecto importante para a contextualizar este encontro é que foi anunciado um Concílio pan-ortodoxo para o mês de junho próximo. O fato que estas relações positivas entre a Igreja católica e as grandes Igrejas ortodoxas se desenvolvam, dá também um sentido de aproximação, com grande interesse, participação e oração também, para este evento muito importante”.

Por fim, Pe. Lombardi falou também sobre o Patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu:

“Naturalmente, o Patriarca Bartolomeu foi informado apropriadamente sobre este encontro e manifestou sua satisfação, sua alegria por este passo avante no caminho das boas relações ecumênicas entre a Igreja católica e a maior das Igrejas ortodoxas. A Igreja ortodoxa russa é, também do ponto de vista numérico, a mais ampla, a mais numerosa entre as Igrejas ortodoxas. Calcula-se que talvez cerca de dois terços dos ortodoxos do mundo, cerca de duzentos milhões, dependam do Patriarcado de Moscou. Portanto, é um passo ecumênico particularmente importante, este, do encontro do Papa com o Patriarca de Moscou.”


Missa em Santa Marta - A melhor herança

«A fé é a maior herança que o homem pode deixar». É precisamente a fé que nos convida a «não ter medo da morte», que é só o início de outra vida. Este foi o fulcro da reflexão proposta pelo Papa na missa celebrada na manhã de 4 de Fevereiro de 2016, na capela da Casa de Santa Marta.

«Nestas semanas a Igreja, na liturgia, levou-nos a meditar sobre o santo rei David», frisou Francisco. E «hoje — prosseguiu — narra-nos a sua morte». No trecho tirado do primeiro livro dos Reis (2, 1-4.10-12) lê-se: «Aproximava-se a morte de David».

Recordando que «em cada vida há um fim», o Papa propôs de novo a regra que David deixa ao filho Salomão: «Vou pelo caminho de todos os homens na terra». Contudo, acrescentou, que seja «o caminho da vida», é também «um pensamento do qual não gostamos muito». Com efeito, disse Francisco, tendemos quase a afastar o pensamento da morte — «Estou doente, sou um pouco idoso...», «Mas és forte, vai!» — e «temos medo», embora «seja a realidade de todos os dias».

«Num povoado do norte da Itália», recordou o Pontífice, «na entrada de um cemitério está escrito: “Tu que passas, detém-te e pensa nos teus passos, no último passo”». Portanto, pensemos: «Esta é uma luz que ilumina a vida». E «a vida de David — explicou — foi vivida com intensidade por aquele menino que pastoreava o rebanho, com tantas dificuldades; ungido pelo Senhor, depois viveu bem, como um homem que amava o Senhor; em seguida, quando se sentiu seguro, começou a pecar e quase acabou na corrupção».

Mas David, prosseguiu, «arrependeu-se, chorou, voltou a pecar. É assim. Mas aprendeu a pedir perdão pelos seus pecados. E a Igreja diz: o santo rei David, pecador mas santo». Portanto, «esta vida acaba assim: começa com dezesseis, dezessete anos e acaba». De resto, «a duração do seu poder, do reino, foi de quarenta anos». Mas «até quarenta anos passam».

«Esta é uma realidade que devemos ter sempre diante de nós», reiterou. «Numa audiência geral de quarta-feira — revelou — havia entre os doentes uma freirinha idosa, mas com uma cara pacífica, um olhar luminoso». Francisco perguntou-lhe quantos anos tinha. E a religiosa, com um sorriso, respondeu: «Oitenta e três, mas estou a findar o meu percurso nesta vida para começar o outro com o Senhor, porque tenho um tumor no pâncreas». E «assim em paz — disse o Papa — aquela mulher tinha vivido com intensidade a sua vida consagrada. Não temia a morte», a ponto de dizer: «Termino o meu percurso de vida para começar outro». Porque a morte, frisou, «é uma passagem» e «estes testemunhos fazem-nos bem».

«Quando alguém está prestes a morrer — prosseguiu — costuma deixar um testamento». Assim faz também David, chamando «o filho Salomão». E «o que lhe aconselha, o que lhe dá em herança?». Diz-lhe: «Sê forte e mostra que és homem». Em síntese, David «retoma o que o Senhor disse a Moisés, a Josué: sê forte, sê homem; observa a lei do Senhor teu Deus, caminha pelas suas vias e cumpre as suas leis, as suas ordens, as suas normas, como está escrito na lei de Moisés».

Também David «aconselha isto» a Salomão. E «o que lhe deixa em herança? Deixa-lhe o reino, um reino forte». Mas «deixa inclusive algo mais, a melhor e maior herança que o homem ou a mulher podem deixar aos filhos: a fé». No trecho bíblico de hoje lêem-se as palavras de David: «Para que o Senhor cumpra a promessa que me fez, dizendo: “Se os teus filhos se preocuparem em caminhar diante de mim com fidelidade, com todo o seu coração e toda a sua alma, não deixarás de ter um teu descendente no trono de Israel”». É precisamente «a fé na promessa a Deus: deixar a fé como grande herança», explicou Francisco.

«Quando fazem um testamento — acrescentou — as pessoas dispõem: “Deixo-te isto, deixo-lhe aquilo...”». Mas «a melhor e maior herança que o homem, a mulher, pode deixar aos seus filhos é a fé», reiterou. E «David faz memória das promessas de Deus, da sua fé nestas promessas, e recorda-as ao filho: deixar a fé como herança».

A tal propósito, o Papa notou: «Quando, no rito do batismo, damos — aos pais — a vela acesa, a luz da fé, dizemos: “Preserva-a, conserva-a, leva-a a crescer no teu filho, na tua filha, e deixa-a como herança”». Portanto, «deixemos a fé como herança: é isto que nos ensina David. E morre assim, simplesmente como todos os homens». Mas «sabe bem o que aconselhar ao filho e qual é a melhor herança que lhe deixa: não o reino, mas a fé. E diz de cor o que o Senhor prometera».

«Todos nós percorreremos o caminho dos nossos pais — afirmou Francisco — mas só Ele sabe quando». E assim, «far-nos-á bem» interrogar-nos: «Qual é a herança que deixo com a minha vida? Deixo a herança de um homem, de uma mulher de fé? Deixo esta herança aos meus?».

Nesta perspectiva, concluiu, «peçamos ao Senhor duas coisas». Antes de tudo, «não ter medo deste último passo, como a irmã da audiência de quarta-feira», que confia: «Acabo o meu percurso e começo outro». E a segunda, pedir ao Senhor «que todos nós possamos deixar com a nossa vida, como melhor herança, a fé: a fé neste Deus fiel, neste Deus que está sempre ao nosso lado, neste Deus que é Pai e nunca desilude».
L'Osservatore Romano

Esta foi a mensagem que o Santo Padre, o Papa Francisco, quis nos deixar hoje em seu Twitter:

04/02/2016
Deus quer habitar no meio dos seus filhos. Deixemos espaço para Ele no nosso coração.



O Carnaval

Semana próxima é o Carnaval. Segundo uma teoria, a origem da palavra “carnaval” vem do latim “carne vale”, “adeus à carne”, pois no dia seguinte começava o período da Quaresma, tempo em que os cristãos se abstêm de comer carne, por penitência. Daí que, ao se despedirem da carne na terça-feira que antecede a Quarta-Feira de Cinzas, se fazia uma boa refeição, comendo carne evidentemente, e a ela davam adeus. Tudo isso, só explicável no ambiente cristão, deu origem a uma festa nada cristã. Vê-se como o sagrado e o profano estão bem próximos, e este pode contaminar aquele. Como hoje acontece com as festas religiosas, quando o profano que nasce em torno do sagrado, acaba abafando-o e profanando-o. Isso ocorre até no Natal e nas festas dos padroeiros das cidades e vilas. O acessório ocupa o lugar do principal, que fica prejudicado, esquecido e profanado.

O Carnaval poderia até ser considerado uma festa pitoresca de marchinhas engraçadas, de desfiles ornamentados, um folguedo popular, uma brincadeira de rua, uma festa quase inocente, uma diversão até certo ponto sadia, onde o povo extravasa sua alegria.. Mas, infelizmente, tornou-se também uma festa totalmente profana e nada edificante, onde campeia o despudor, as orgias e festas mundanas, cheias de licenciosidade, onde se pensa que tudo é permitido, onde a imoralidade é favorecida até pelas autoridades, preocupadas apenas com a saúde física e não com a moral.
           
A grande festa cristã é a festa da Páscoa, antecedida imediatamente pela Semana Santa, para a qual se prepara com a Quaresma, que tem início na Quarta-Feira de Cinzas, sinal de penitência. Por isso, é a data da Páscoa que regula a data do Carnaval, que precede a Quarta-Feira de Cinzas, caindo sempre este 47 dias antes da Páscoa.
           
Devido à devassidão que acontece nesses dias de folia, muitos cristãos preferem se retirar do tumulto e se entregar ao recolhimento e à oração. É o que se chama “retiro de Carnaval”, altamente aconselhável para quem quer se afastar do barulho e se dedicar um pouco a refletir no único necessário, a salvação eterna. É tempo de se pensar em Deus, na própria alma, na missão de cada um, na necessidade de estar bem com Deus e com a própria consciência. “O barulho não faz bem e o bem não faz barulho”, dizia São Francisco de Sales.
           
Já nos advertia São Paulo: “Não vos conformeis com esse século” (Rm 12,2); “Já vos disse muitas vezes, e agora o repito, chorando: há muitos por aí que se comportam como inimigos da cruz de Cristo. O fim deles é a perdição, o deus deles é o ventre, a glória deles está no que é vergonhoso, apreciam só as coisas terrenas” (Fl 3, 18-19); “Os que se servem deste mundo, não se detenham nele, pois a figura deste mundo passa” (cf. 1 Cor 7, 31).
           
Passemos, pois, este tempo na tranquilidade do lar, em algum lugar mais calmo ou, melhor ainda, participando de algum retiro espiritual. Bom descanso e recolhimento para todos!
Dom Fernando Arêas Rifan, bispo administrador apostólico da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney.


Papa: "A verdadeira justiça é o perdão"

Cidade do Vaticano (RV) – Na audiência geral desta quarta-feira (03/02/2016) o Papa prosseguiu o ciclo de catequeses que vem realizando sobre o tema da misericórdia e aprofundou a sua relação com a justiça. Como conciliar as duas coisas? questionou aos mais de 15 mil fiéis e turistas presentes na Praça São Pedro.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia,

A Sagrada Escritura nos apresenta Deus como misericórdia infinita, mas também como justiça perfeita. Como conciliar as duas coisas? Como se articula a realidade da misericórdia com as exigências da justiça? Poderia parecer que são duas realidades que se contradizem; na realidade não é assim, porque é justamente a misericórdia de Deus que leva a cumprimento a verdadeira justiça. Mas de qual justiça se trata?

Se pensamos na administração legal da justiça, vemos que quem se considera vítima de uma injustiça se dirige ao juiz no tribunal e pede que seja feita justiça. Trata-se de uma justiça retributiva, que inflige uma pena ao culpado, segundo o princípio de que a cada um deve ser dado aquilo que lhe é devido. Como diz o livro dos Provérbios: “Quem pratica a justiça é destinado à vida, mas quem persegue o mal é destinado à morte” (11, 19). Também Jesus fala da parábola da viúva que ia repetidamente ao juiz e lhe pedia: “Faz-me justiça contra o meu adversário” (Lc 18, 3).

Este caminho, porém, ainda não leva à verdadeira justiça, porque, na realidade, não vence o mal, mas simplesmente contém seu avanço. É, em vez disso, respondendo a ele com o bem que o mal pode ser realmente vencido.

Eis, então, outra maneira de fazer justiça que a Bíblia nos apresenta como caminho-mestre a percorrer. Trata-se de um procedimento que evita o recurso ao tribunal e prevê que a vítima se dirija diretamente ao culpado para convidá-lo à conversão, ajudando-o a entender que está fazendo o mal, apelando à sua consciência. Deste modo, finalmente reconhecido o próprio erro, ele pode se abrir ao perdão que a parte lesada lhe está oferecendo. E isso é belo: após a persuasão daquilo que é o mal, o coração se abre ao perdão, que lhe é oferecido. Este é o modo de resolver os contrastes dentro das famílias, nas relações entre esposos ou entre pais e filhos, onde o ofendido ama o culpado e deseja salvar a relação que o liga ao outro. Não cortar aquele relacionamento, aquela relação.

Certo, este é um caminho difícil. Requer que quem sofreu o erro esteja pronto a perdoar e deseje a salvação e o bem de quem o ofendeu. Mas somente assim a justiça pode triunfar, porque, se o culpado reconhece o mal feito e deixa de fazê-lo, eis que não há mais o mal e aquele que era injusto se torna justo, porque perdoado e ajudado a reencontrar o caminho do bem. E aqui entra justamente o perdão, a misericórdia.

É assim que Deus age nos confrontos de nós pecadores. O Senhor, continuamente, nos oferece o seu perdão e nos ajuda a acolhê-lo e a tomar consciência do nosso mal para poder nos libertar. Porque Deus não quer a nossa condenação, mas a nossa salvação. Deus não quer a condenação de ninguém! Algum de vocês poderia me perguntar: ‘mas, padre, a condenação de Pilatos foi merecida? Deus a queria?’ Não! Deus queria salvar Pilatos e também Judas, todos! Ele, o Senhor da misericórdia, quer salvar todos! O problema é deixar que Ele entre nos corações. Todas as palavras dos profetas são um apelo apaixonado e cheio de amor que procura a nossa conversão. Eis o que o Senhor diz através do profeta Ezequiel: “Terei eu prazer com a morte do malvado? (…) mas antes com a sua conversão, de modo que tenha vida” (18,23; cfr 33,11), aquilo que agrada a Deus!

E este é o coração de Deus, um coração de Pai que ama e quer que os seus filhos vivam no bem e na justiça, e portanto, vivam em plenitude e sejam felizes. Um coração de Pai que vai além do nosso pequeno conceito de justiça para nos abrir aos horizontes ilimitados da sua misericórdia. Um coração de Pai que não nos trata segundo os nossos pecados e não nos retribui segundo as nossas culpas, como diz o Salmo (103, 9-10). E precisamente é um coração de pai que nós queremos encontrar quando vamos ao confessionário. Talvez nos dirá algo para nos fazer entender melhor o mal, mas no confessionário todos vamos encontrar um pai que nos ajude a mudar de vida; um pai que nos dê a força de seguir adiante; um pai que nos perdoe em nome de Deus. E por isso ser confessor é uma responsabilidade tão grande, porque aquele filho, aquela filha que vem a você procura somente encontrar um pai. E você, padre, que está ali no confessionário, você está ali no lugar do Pai que faz justiça com a sua misericórdia.


Francisco: povo chinês tem muito a oferecer ao mundo

Cidade do Vaticano (RV) – “Admiro a China, a sua grande cultura, a sua inexaurível sabedoria”. Palavras do Papa Francisco, em uma entrevista concedida ao jornalista Francesco Sisci e publicada nesta terça-feira (02/02/2016), no jornal “Asia Times”. Durante a conversa realizada no dia 28 de janeiro, no Vaticano, o Pontífice envia suas saudações ao povo chinês e ao seu Presidente, Xi Jinping, por ocasião do Ano Novo chinês celebrado em 8 de fevereiro.

Na entrevista, o Papa fala de temas culturais e filosóficos da China, sem fazer referência a questões religiosas ou políticas. “Para mim – disse o Papa – a China foi sempre um ponto de referência de grandeza, um grande país, uma grande cultura com uma sabedoria inexaurível”.  Inevitável as referências ao Padre jesuíta Matteo Ricci, missionário na China que – como explica o Pontífice – “nos ensinou que é necessário entrar em diálogo com este país”. É “uma terra abençoada por muitas coisas e a Igreja Católica tem o dever de respeitar todas as civilizações e de respeitá-las com “R” maiúsculo.

O desafio da paz é vencido com o diálogo

O Papa Francisco cita, a seguir, Marco Polo, que trouxe o espaguete da China para a Itália e recorda a emoção sentida ao atravessar o espaço aéreo chinês durante a Viagem apostólica, em janeiro de 2015, que o levou ao Sri Lanka e às Filipinas.

Respondendo a uma pergunta sobre a paz, o Pontífice sublinha que “o medo não é um bom conselheiro” e, por isto, “não precisa temer os desafios” e “a capacidade de encontrar o modo de coexistir, de respeitar-se reciprocamente”. Naturalmente – e o Papa tem consciência disto – “manter o equilíbrio da paz é um grande desafio”, mas a Europa, o mundo ocidental e oriental e a própria China “têm a capacidade de manter tal equilíbrio e a força de fazê-lo”. Por isto – reitera o Pontífice – “devemos encontrar a forma” de alcançar tal objetivo “por meio do diálogo. Não existe outro caminho”.

Diálogo não é compromisso, mas caminhar juntos

E o diálogo – continua Francisco, voltando a um tema que lhe é particularmente caro – leva ao encontro: “O verdadeiro equilíbrio da paz se realiza com o diálogo, diálogo que não significa chegar aos compromissos, mas caminhar juntos para construir”. Deste modo, “a torta” – diz o Papa usando uma metáfora – ou mesmo “a humanidade, a cultura”, não é dividida em pequenas porções, mas pertence a todos e todos podem dar a sua contribuição ao bem comum.

Os filhos, “problema doloroso”

Ao responder a uma pergunta sobre a política chinesa do “filho único”, o Papa fala de “um problema doloroso” que coloca os filhos na condição de ter que suportar o peso dos pais e dos avós, e que deriva, por exemplo, do “egoísmo de alguns setores abastados que preferem não ter filhos”.

“Este não é um modo natural – diz o Pontífice – e entendo que a China tenha aberto possibilidades neste campo”. Disto, no âmbito do Ano Santo da Misericórdia, o convite ao povo chinês para “reconciliar-se com a sua história, com os seus sucessos e os seus erros”, pois isto leva à “maturidade e ao crescimento”.

“É saudável para um povo ter misericórdia em relação a si mesmo – explica o Papa – é “nobreza de espírito” que “permite sorrir e seguir em frente”, porque “caso se fique fixo nisto, então torna-se corruptos”, como as águas estagnantes.

Reconhecer a grandeza do povo chinês

A este ponto o Pontífice volta ao tema do diálogo: “Dialogar não significa render-se – explica – porque hoje existe o risco, na relação entre diferentes países, da colonização cultural”. Pelo contrário, “é necessário reconhecer a grandeza do povo chinês – diz – que tem sempre mantido a sua cultura”. E o Papa especifica: “Não estou falando das ideologias”, mas sim da cultura.

Enfrentar a realidade e buscar melhorá-la

Em relação às consequências no plano ambiental e humano do crescimento econômico do país, o Papa afirmou que, “antes de tudo, é necessário enfrentar a realidade como ela é e, em segundo lugar, trabalhar para melhorá-la”.

“Podem parecer sugestões simples, quase banais” – continua o Santo Padre – mas é bom não fazer “como o avestruz, que esconde a cabeça na areia para não ver a realidade”. Além disto, “a grandeza da China, hoje, se encontra precisamente em olhar para o futuro a partir de um presente, sustentado pela memória de seu passado cultural”, se encontra no “viver em tensão, que não é angústia”, mas confronto entre passado e presente que permite seguir em frente.

Felicitações para o Ano Novo Chinês

Por fim, em vista do Ano Novo Chinês, que terá início em 8 de fevereiro e será dedicado ao Macaco, o Papa envia seus “melhores augúrios e saudações ao Presidente Xi Jinping e a todo o povo chinês”. “Espero – diz Francisco – que não percam nunca a consciência histórica de ser um grande povo, ter uma grande história de sabedoria e que ter muito a oferecer ao mundo”.

“Com esta consciência, neste Ano Novo – conclui o Pontífice – possam continuar a ajudar e a colaborar com todos no cuidado da casa comum e de todos os povos”.


Twitter do Papa Francisco na Festa da Apresentação do Menino Jesus no Templo
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02/02/2016
Maria, Mãe de Jesus, ajudai-nos a transmitir as maravilhas do Senhor às pessoas que encontramos no nosso caminho.